Álbum do Genesis tem inspirado
as mais diversas interpretações críticas
Por Jon Michaud / The New Yorker 28 de fevereiro de 2014
Em
abril, Peter Gabriel vai ingressar no Rock and Roll Hall of Fame por seu
trabalho como artista solo. Ele já está no Hall como membro do Genesis, banda
de rock progressivo admitida em 2010. A carreira de Gabriel abrange uma gama
impressionante de estilos musicais: desde seus primeiros anos no Genesis,
quando se vestia com uma fantasia de flor enquanto cantava músicas de dez a
vinte minutos, que soavam como trechos de óperas de Gilbert e Sullivan recriadas
por Lewis Carroll, até as últimas décadas como artista solo de sucesso,
pioneiro da world music, desbravador da videomusic e compositor de trilhas sonoras
para filmes premiados, incluindo The Last of Temptation of Christ e Rabbit-Proof
Fence. Como coprodutor do Festival WOMAD e fundador da Real World Records,
Gabriel foi responsável por apresentar artistas como Youssou N'dour e Nusrat
Fateh Ali Khan a uma audiência ocidental. A distância que ele percorreu ao
longo de suas cinco décadas de carreira é tão extensa que fica difícil
conciliar o vocalista do rock progressivo dos anos 70 com o ativista dos
direitos humanos e empreendedor multicultural e multimidiático das décadas seguintes.
A admissão de Gabriel acontece no quadragésimo aniversário de um momento
decisivo de sua carreira: o lançamento de The Lamb Lies Down on Broadway, seu
último disco com o Genesis. Representante do ápice dos excessos da era do gênero progressivo, e também, de certa forma, da sua decadência, The Lamb permanece
como um ponto de virada para Gabriel e o Genesis. Sucesso modesto em sua época,
essa fantasia surrealista, executada por cinco ingleses sobre um garoto de rua
meio porto-riquenho chamado Rael, revela-se mais longeva do que muitos projetos
de sucesso e altamente conceituados de seus contemporâneos, como Emerson, Lake
& Palmer, Yes e Jethro Tull. Por sua ambição, inventividade e total excentricidade,
The Lamb é um precursor de marcos mais recentes do rock, como O.K. Computer, do
Radiohead, e Soft Bulletin, do Flaming Lips. As letras ambíguas e o enredo do
álbum continuam a gerar discussões e comentários fervorosos em blogs e salas de
bate-papo. Se a medida de uma obra de arte é a quantidade de interpretações
críticas que ela inspira, então The Lamb é o Ulysses dos álbuns conceituais.
Há três décadas, tenho ouvido The Lamb Lies Down on Broadway, e não me
canso de fazê-lo — o que, sinceramente, não posso dizer sobre o restante do
catálogo do Genesis. O disco foi uma espécie de espelho para meus sonhos de
juventude, tão crucial quanto os filmes de Martin Scorsese e os romances de
Paul Auster na fomentação de um fascínio à distância por Nova York, e que
motivou minha mudança para a cidade após concluir a faculdade. Guiado pela análise
crítica e histórica Genesis and The Lamb Lies Down on Broadway, de Kevin
Holm-Hudson, e por várias biografias da banda e de seus membros, passei as
últimas semanas mergulhado, mais uma vez, nos mistérios de The Lamb. Às
vésperas da entrada de Gabriel no Hall of Fame, não há ocasião mais indicada para
procurar as raízes de sua transformação artística.
The Lamb foi escrito e gravado durante o verão de 1974. Naquela época, o
Genesis já estava junto há sete anos e tinha lançado cinco álbuns, consolidando
a reputação de canções longas e intrincadamente construídas, com múltiplas
mudanças de modo e compassos não convencionais (Apocalypse in 9/8 é o subtítulo
parcial de uma das mais longas). Após algumas trocas de músicos na formação inicial, a
banda se estabilizou em 1970, com os membros fundadores Gabriel (vocal e
flauta) e Tony Banks (teclados), juntamente com Mike Rutherford (baixo e
guitarra), Steve Hackett (guitarra) e Phil Collins (bateria/percussão). Turnês
intensas — que chegavam a duzentos shows por ano — os ajudaram a conquistar uma
sólida base de fãs no Reino Unido. O quinto álbum, Selling England by the Pound,
de 1973, chegou ao terceiro lugar das paradas britânicas. Embora tenha alcançado
apenas a 70ª posição na Billboard Hot 100, o Genesis promoveu o disco com uma
longa turnê pelos EUA (a primeira), onde uma embrionária base de fãs começou a
crescer. As apresentações nos Estados Unidos, em Nova York em particular,
inspirariam o próximo projeto da banda.
O Genesis operava como uma cooperativa, dividindo igualmente todos os
créditos de composição musical. As letras também eram uma colaboração,
geralmente entre Gabriel, Banks e Rutherford. No entanto, no palco, os membros
do Genesis eram tudo menos iguais. Como é típico de uma banda de rock
progressivo, os quatro instrumentistas sentavam-se ou ficavam em pé num
semicírculo, parados em seus lugares, concentrados em tocar. À frente, e no
centro, estava Gabriel, que parecia ter saído de um espetáculo de commedia
dell'arte do teatro ao lado. Com pintura facial, corte de cabelo no estilo monge e
uma malha preta justa, ele saltava pelo palco contando histórias, trocando de fantasias e máscaras, e fazendo pantomimas. Para Holm-Hudson, as performances
de Gabriel se pareciam mais com as de David Bowie em início de carreira do que com
as de outros cantores do progressivo, como Jon Anderson, do Yes. O vídeo
da música "I Know What I Like (In Your Wardrobe)", de 1973, é um exemplo significativo de sua dinâmica de palco. Isso também dá ao espectador uma indicação do
motivo pelo qual os outros membros do Genesis podem ter começado a se ressentir
da crescente impressão de que eram apenas o grupo de apoio do carismático
vocalista.
Grande parte do trabalho de The Lamb foi feito em Headly Grange, uma
mansão em Hampshire usada como retiro criativo de bandas como Fleetwood Mac,
Led Zeppelin e outras mais. A casa, infestada de ratos, era supostamente
mal-assombrada, e Phil Collins diria mais tarde que teve problemas para dormir
lá. Além de o local ser assustador, uma série de fatores tornou a criação de The
Lamb uma experiência estressante. No meio da atividade, Gabriel deixou abruptamente seus companheiros, por uma semana, para se dedicar um brainstorming com William Friedkin, o diretor de The French Connection e The Exorcist, sobre um
projeto cinematográfico que teria as colaborações da banda alemã Tangerine
Dream e do cartunista Philippe Druillet, cofundador da revista Metal Hurlant.
(No fim das contas, Gabriel não teve envolvimento no filme, Sorcerer, lançado
em 1977.) A saída de Gabriel, que pareceu um abandono para os outros, veio em
um momento ruim. O Genesis estava sob tremenda pressão de sua gravadora, a
Charisma Records, que estava ansiosa para lançar o álbum, colocar a banda de
volta à estrada e recuperar as despesas de gravação. Segundo Holm-Hudson, a
Charisma havia investido pesadamente na banda e, em 1972, o Genesis devia cerca
de duzentas mil libras para ela.
No
entanto, Tony Stratton-Smith, fundador do Charisma, deu sinal verde para um
disco que prometia ser notavelmente diferente de seus antecessores. Foi o
primeiro álbum-duplo do Genesis, e o primeiro com uma única narrativa que amarrava
todas as músicas. De volta do hiato, Gabriel decidiu que era hora de "romper as fronteiras do processo democrático". Insistiu em ter controle total sobre a história e
as letras. A banda estava acostumada a compor reunida em uma sala, mas, em The
Lamb, seus integrantes trabalharam separadamente. Isso criava algumas
dificuldades quando Gabriel adicionava à história elementos para os quais
nenhuma música havia sido composta. Algumas dessas lacunas tiveram de ser
preenchidas por improvisações apressadas, enquanto, em outras, a banda reciclou
material inédito de sessões de gravação anteriores. As tensões aumentaram ainda
mais no fim do verão, quando Jill, esposa de Gabriel, deu à luz sua primeira
filha. Foi um parto difícil, e o bebê precisou ser mantido em uma incubadora
durante as primeiras semanas de vida. Gabriel esteve muitas vezes ausente de
Headley Grange para cuidar da esposa e da filha — uma ausência que seus colegas
de banda nem sempre compreendiam. Apesar dessas tensões, o álbum finalmente foi
gravado e lançado em novembro.
Utilizando narração em primeira e terceira pessoas, The Lamb conta a
história de Rael, ex-integrante de gangue e grafiteiro ("Rael Imperial
Aerosol Kid"). O álbum começa com Rael saindo da estação de metrô da Times
Square, onde acabara de pichar seu nome. Ao sair, vê um cordeiro deitado na
Broadway e um "Wall of Death" ("Muro da Morte"), semelhante a uma nuvem, descendo sobre a 47th Street. (Em estilo realista, ninguém além de Rael parece notar a
nuvem ou o cordeiro.) O “Muro” persegue Rael em direção ao norte, para a
Columbus Circle, onde finalmente o envolve. Uma vez na nuvem, Rael vê uma
procissão alucinatória de imagens da história americana e da cultura popular:
Martin Luther King Jr., Bing Crosby, Lenny Bruce, J.F.K. e Howard Hughes, entre
outros. Ele desmaia e acorda em uma caverna, que logo percebe ser uma prisão.
Há um clarão e ele vê uma rede de prisões interligadas.
Do lado de fora da prisão, Rael vê seu irmão, John, que ignora seus pedidos
de ajuda e vai embora.
Rael vai à procura de John, passando por uma série de encontros que podem ser
lidos literal e/ou metaforicamente. Rael testemunha “the grand parade of
lifeless packaging” ("o grande desfile de embalagens sem vida") e se
vê entre os "carpet crawlers" ("rastejadores de carpete") que se contorcem pelo chão em direção a
uma porta. Mais tarde, encontra a própria Morte, “The Supernatural Anaesthetist”
("O Anestesista Sobrenatural"), e mergulha em uma piscina onde estão
três Lâmias, que sugam seu sangue para, em seguida, serem devoradas por ele. A
jornada de Rael culmina na colônia dos “Slippermen” (“Homens-Inferiores”), onde
se torna um deles, com o corpo coberto de feridas e nódulos viscosos. A única
saída da colônia é com a ajuda do notório Doktor Dyper, que remove os órgãos genitais
de Rael e os coloca em um tubo. O tubo é roubado por um pássaro, que voa para
longe. Perseguindo o pássaro, Rael vê o portal de volta para Nova York, mas
opta por permanecer na nuvem ao perceber que seu irmão se esforça para escapar das
corredeiras de um rio. Ele mergulha e salva John apenas para descobrir que o
rosto de seu irmão é o seu próprio.
Os temas recorrentes e frequentemente interligados do álbum são morte,
renovação e fuga. Esses temas supostamente representavam os sentimentos
de Gabriel ao contemplar a possibilidade de deixar o Genesis. O cantor afirmou
que The Lamb é "como o 'Pilgrim's Progress' pelas ruas de Nova
York", uma referência à alegoria da salvação religiosa de John Bunyan, escrita
na prisão e publicada em 1678. Ambas as obras são produtos de uma imaginação vibrante povoada de monstros. Elas compartilham uma sensação predominante
desesperadora de vida ou morte. Este não era um território novo para o Genesis,
que frequentemente fazia referências ao imaginário cristão, notadamente em "Supper's
Ready", releitura épica de O Livro do Apocalipse. The Lamb também tem
uma dívida para com a mitologia grega, O Livro Tibetano dos Mortos e o filme El
Topo, de Alejandro Jodorowsky. Há alusões à poesia de Keats e Wordsworth, ao
filme West Side Story e à música pop dos anos 1960 e 1970. Embora a letra se
refira a questões contemporâneas como o consumo de drogas e a crise energética,
predominam trocadilhos, jogos de palavras e alusões eróticas (na música "Counting
Out Time"), sugerindo ao ouvinte que não leve tudo muito a sério. As últimas
palavras do álbum, além de paródia de uma música dos Rolling Stones, seriam também um comentário irônico sobre a hora e meia de duração de The Lamb: "It's only knock and knowall, but I like it."(1)
A escolha de Rael como protagonista foi um contraponto bem-vindo à
homogeneidade do rock progressivo, produzido e consumido quase exclusivamente
por homens brancos de classe média. Gabriel afirma ter percebido mudanças de comportamento
que logo dariam origem ao punk e à disco music. "Ficar saltitando pelo
mundo das fadas logo se tornou ultrapassado", disse ele ao biógrafo
Spencer Bright. Ele queria uma história sobre "a pessoa urbana mais
alienada que existe", reconhecendo que Rael seria "a última pessoa a
gostar do Genesis".
A mudança também está evidente na música. As canções são mais simples,
muitas delas seguindo a estrutura tradicional de verso-refrão-verso. Outras
consistem em uma frase repetida que se desenvolve em direção a um crescendo.
Momentos de grande força ("Fly on a Windshield"; "In the Cage")
e excepcional beleza ("Carpet Crawlers"; "The Lamia")
ocorrem ao longo do disco. Como em álbuns anteriores do Genesis, há inúmeras
passagens ambientais e experimentais relativamente breves (com a contribuição
de Brian Eno na produção). Frequentemente, esses interlúdios são transições
funcionais exigidas pela dimensão da história e pelas limitações físicas do LP.
Embora ninguém jamais venha a compará-lo ao primeiro álbum do Clash, há
muito mais garra em The Lamb do que em Tales from the Topographic Oceans, do
Yes.
Apesar
de seus muitos atrativos, The Lamb também apresenta inúmeras falhas. Rael nunca
se torna um personagem completo. Sua busca parece incompleta, sem um desfecho
adequado. Às vezes, Gabriel coloca em sua boca palavras que um garoto do barrio
jamais diria. Sozinhas, as letras eram incapazes de suportar a complexidade da
história, exigindo que Gabriel escrevesse uma dissertação explicativa, impressa na
capa do disco. Algumas das músicas, especialmente na segunda metade, parecem
improvisadas. The Lamb também se mostrou um desafio para ser apresentado ao
vivo. Por insistência de Gabriel, o álbum teria de ser apresentado
integralmente em todas as noites da turnê, reservando apenas o bis para músicas mais antigas. Apresentar, em um show, uma hora e meia de material novo inédito é uma decisão temerária no que diz respeito a ganhar a audiência. Como em turnês
anteriores, Gabriel passava por várias trocas de figurino. Na mais notável
delas, ele aterrissava no palco dentro de um pênis gigante, de onde saía fantasiado
de Slipperman, numa vestimenta que incluía caroços inchados, espinhas e
furúnculos. O figurino também contava com um conjunto de órgãos genitais
infláveis (e
instáveis), operados por um roadie fora do palco. O traje apertado dificultava
o posicionamento correto do microfone por Gabriel, e prejudicava a amplificação
de sua voz. Os outros membros da banda não se deixaram levar pelos truques ilusionistas
do vocalista. Em um documentário de televisão sobre The Lamb, Collins relembrou
sucintamente a turnê como "vanguardista, mas 'Spinal Tap'... escrita para 'Spinal
Tap'."(2)

Gabriel reformulou sua imagem: cabelos curtos,
camiseta branca, jaqueta de couro; e até seminu, como Iggy Pop
Como em turnês anteriores, Gabriel passava por várias trocas de figurino.
Infelizmente, quase não há vídeos da turnê de The Lamb, e o pouco que
está disponível — a maior parte de um show de 1975, em Liverpool — é de baixa
qualidade. Esses fragmentos revelam o quanto Gabriel reformulou sua imagem para
o álbum. Seu cabelo foi cortado curto e a malha boca de sino foi trocada por
uma camiseta branca e uma jaqueta de couro. Na aparência, migrou do glam para o
punk. Às vezes, até chegou a se apresentar seminu, como Iggy Pop. O clipe
de "Back in N.Y.C.", de um show de 1975, no Shrine Auditorium, em Los
Angeles, mostra como foi drástica a transformação.
No início da turnê, Gabriel anunciou aos companheiros de banda que os
deixaria. A separação, difícil, mas amigável, foi benéfica para todos. Gabriel
embarcou e uma notável carreira solo e, independentemente do que você pense do
Genesis da era Phil Collins, essa encarnação da banda vendeu milhões de discos
a mais do que a antiga formação. Algumas músicas de The Lamb permanecem no
repertório dos shows do Genesis, e ainda é possivel encontrar uma ou duas nos
cantos empoeirados das rádios FM, mas elas não se saem bem quando separadas do
todo. The Lamb é um álbum irredutivelmente uno, não uma coletânea de músicas.
Sua integridade está apoiada em sua relativa obscuridade e na ausência de
um single de sucesso ou de um filme do show. Diferentemente de The Wall, do
Pink Floyd, ou Quadrophenia, do Who, The Lamb nunca foi apresentado em turnês
revivalistas que lotam estádios (embora Gabriel tenha flertado por um tempo com
a possibilidade de uma adaptação cinematográfica sob a direção de Jodorowsky).
Desde 1975, quando o Genesis e seu vocalista se separaram, só há uma maneira
adequada de curtir The Lamb Lies Down on Broadway. Feche a porta, coloque os
fones de ouvido e deixe-o tocar desde a primeira faixa.
Jon Michaud é escritor e bibliotecário.
(1) Em entrevista à revista New Musical Express, na edição de 15 de março de 1975, Gabriel falou sobre o significado da frase final de The Lamb ("It's only knock and knowall, but I like it"), paródia da letra da música dos Rolling Stones ("It's only rock and roll, but I like it"). Segundo ele, o álbum (sua aparente grandiloquência, a quantidade de letras e a complexidade da história) ficaria melhor se apreciado com bom humor - e até cinismo, em vez de ser levado a sério. Por esse motivo, a frase final também seria uma resposta sarcástica às críticas de uma parte de imprensa que considerava a música do Genesis pretensiosa.
(2) Referência à comédia de Rob Rainer, This is Spinal Tap (1984), mockumentary da turnê de uma banda fictícia - um
olhar crítico, ácido e satírico sobre estereótipos e extravagâncias relativos ao mundo do rock.








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