quinta-feira, 15 de maio de 2025

Caminhar nos ajuda a pensar


Desde a época dos filósofos gregos, descobriu-se uma 
profunda e intuitiva conexão entre caminhar, pensar e escrever
(Autorretrato de Robert Crumb)



     Ferris Jabr / The New Yorker                                       3 de setembro de 2014

    Na edição de Natal da Vogue, em 1969, Vladimir Nabokov ofereceu alguns conselhos para o ensino de Ulysses, de James Joyce: "Em vez de perpetuar o absurdo pretensioso dos títulos de capítulos homéricos, cromáticos e viscerais, os orientadores deveriam preparar mapas de Dublin com os itinerários entrelaçados de Bloom e Stephen, claramente traçados." Ele mesmo desenhou um mapa encantador. Várias décadas depois, um professor de inglês do Boston College, chamado Joseph Nugent, e seus colegas criaram um mapa do Google com anotações que acompanha, passo a passo, Stephen Dedalus e Leopold Bloom. A Virginia Woolf Society of Great Britain, assim como estudantes do Instituto de Tecnologia da Geórgia, reconstruíram, de forma semelhante, os itinerários dos andarilhos londrinos em Mrs. Dalloway.

Vladimir Nabokov
(Foto de Horst Tappe)

Tais mapas esclarecem o quanto esses romances se apoiam em uma curiosa ligação entre a cabeça e os pés. Joyce e Woolf foram escritores que transformaram a volatilidade da consciência em papel e tinta. Para isso, colocaram os personagens para andar pela cidade. Enquanto caminha, Mrs. Dalloway não se limita a perceber a cidade ao seu redor. Em vez disso, mergulha dentro e fora do próprio passado, remodelando Londres em uma paisagem mental altamente estruturada, "inventando-a, construindo-a a partir do zero, desintegrando-a, recriando-a a cada momento".

Desde pelo menos a época dos filósofos gregos peripatéticos, muitos outros escritores descobriram uma profunda e intuitiva conexão entre caminhar, pensar e escrever. (Aliás, Adam Gopnik escreveu sobre caminhar para a The New Yorker há apenas duas semanas.) "Como é inútil sentar-se para escrever quando você não se levanta para viver!", escreveu Henry David Thoreau em seu diário. "Tenho a impressão de que, no momento em que minhas pernas começam a se mover, meus pensamentos começam a fluir." Thomas DeQuincey calculou que William Wordsworth — cuja poesia é repleta de caminhadas subindo montanhas, atravessando florestas, e ao longo das estradas — tenha caminhado até 230 mil quilômetros em sua vida, o que equivale a uma média de 10 quilômetros por dia a partir dos cinco anos de idade.


Primeira edição de Ulysses (1920) e seu autor, James Joyce, 
fotografado pelo amigo Constantine Peter Curran, em 1904

O que há de especial na caminhada que a torna tão propícia ao pensamento e à escrita? A resposta começa com mudanças em nossa química. Quando caminhamos, o coração bate mais rápido, circulando mais sangue e oxigênio não apenas para os músculos, mas para todos os órgãos — incluindo o cérebro. Muitos experimentos demonstraram que, após ou durante exercícios, mesmo os mais leves, as pessoas têm melhor desempenho em testes de memória e atenção. Caminhar regularmente também promove novas conexões entre as células cerebrais, previne o natural atrofiamento do tecido cerebral que ocorre no envelhecimento, aumenta o volume do hipocampo (região cerebral crucial para a memória) e eleva os níveis de moléculas que estimulam o crescimento de novos neurônios e transmitem mensagens entre eles.

A maneira como movemos nossos corpos muda ainda mais a natureza de nossos pensamentos, e vice-versa. Psicólogos especializados em música para exercícios quantificaram o que muitos de nós já sabemos: ouvir músicas com andamentos acelerados nos motiva a correr mais rápido, e quanto mais rápido nos movemos, mais acelerada preferimos nossa música. Da mesma forma, quando motoristas ouvem música alta e acelerada, inconscientemente pisam um pouco mais forte no acelerador. Caminhar no nosso próprio ritmo cria um ciclo de feedback sem ruídos entre o ritmo do nosso corpo e do nosso estado mental que não podemos experimentar tão facilmente quando estamos correndo na academia, dirigindo um carro, andando de bicicleta ou durante qualquer outro tipo de locomoção. Quando caminhamos, o ritmo de nossos pés oscila naturalmente com o nosso humor e a cadência de nossa fala interior; ao mesmo tempo, podemos mudar ativamente o ritmo de nossos pensamentos caminhando deliberadamente mais rápido ou diminuindo o ritmo.

Quando caminhamos, o ritmo de nossos pés oscila 
naturalmente com o nosso humor e a cadência de nossa fala anterior
(Desenho de Robert Crumb)

Como não precisamos dedicar muito esforço consciente ao ato de caminhar, nossa atenção fica livre para divagar — para sobrepor o mundo à nossa frente com um desfile de imagens do teatro mental. Esse é precisamente o tipo de estado mental que estudos associam a ideias inovadoras e a momentos de insightNo início deste ano, Marily Oppezzo e Daniel Schwartz, de Stanford, publicaram o que provavelmente é o primeiro conjunto de estudos que mede diretamente a maneira como caminhar altera a criatividade no momento. Eles tiveram a ideia dos estudos durante uma caminhada. "Meu orientador de doutorado tinha o hábito de sair para caminhadas com seus alunos para fazer brainstormings", diz Oppezzo sobre Schwartz. "Um dia, ficamos meio meta(1)."

Em uma série de quatro experimentos, Oppezzo e Schwartz pediram a 186 estudantes universitários que completassem diferentes testes de pensamento criativo sentados, caminhando em uma esteira ou passeando pelo campus de Stanford. Em um teste, por exemplo, os voluntários tiveram que inventar usos atípicos para objetos do cotidiano, como um botão ou um pneu. Em média, os estudantes pensaram em quatro a seis usos novos a mais para os objetos enquanto caminhavam do que quando estavam sentados. Outro experimento exigiu que os voluntários contemplassem uma metáfora, como "um casulo em desenvolvimento", e gerassem uma metáfora única, porém equivalente, como "um ovo chocando" - 95% dos estudantes que caminharam conseguiram fazê-lo, em comparação com apenas 50% daqueles que nunca se levantaram. Mas caminhar, na verdade, piorou o desempenho das pessoas em um tipo diferente de teste, no qual os estudantes tiveram que encontrar a única palavra que unisse um conjunto de três, como "queijo" para "cottage, requeijão e queijada". Oppezzo especula que, ao deixar a mente à deriva em um mar borbulhante de pensamentos, caminhar é contraproducente para um pensamento focado como laser: "Se você está procurando uma resposta específica a uma pergunta, provavelmente não quer todas essas ideias diferentes borbulhando".

Por onde andamos também importa. Em um estudo liderado por Marc Berman, da Universidade da Carolina do Sul, estudantes que caminharam por um jardim botânico melhoraram seu desempenho em um teste de memória mais do que estudantes que caminharam pelas ruas da cidade. Um pequeno, mas crescente conjunto de estudos sugere que passar tempo em espaços verdes — jardins, parques, florestas — pode revigorar os recursos mentais que os ambientes artificiais esgotam. Psicólogos descobriram que a atenção é um recurso limitado que se esgota continuamente ao longo do dia. Um cruzamento congestionado — repleto de pedestres, carros e outdoors — atrai nossa atenção. Em contraste, caminhar perto de um lago, em um parque, permite que nossa mente perambule casualmente de uma experiência sensorial para outra, do movimento ondulante da água ao farfalhar dos juncos.

Primeira edição de Mrs. Dalloway (1925)
Virginia Woolfpelas lentes de Man Ray, em 1934

Ainda assim, caminhadas urbanas e campestres provavelmente oferecem vantagens únicas para a mente. Uma caminhada pela cidade proporciona um estímulo mais imediato — uma maior variedade de sensações para a mente explorar. Mas, se estivermos à beira da superestimulação, podemos voltar à natureza. Woolf apreciava a energia criativa das ruas de Londres, descrevendo-a em seu diário como "estar na crista mais alta da maior onda, bem no centro e no fluxo das coisas". Mas ela também dependia de suas caminhadas por South Downs(2), na Inglaterra, para "ter espaço para expandir minha mente". E, na juventude, durante o verão, ela viajava com frequência para a Cornualha(3), onde adorava "passar as tardes caminhando solitária" pelo campo.

Talvez a relação mais profunda entre caminhar, pensar e escrever se revele ao final de um passeio, de volta à escrivaninha. Ali, torna-se evidente que escrever e caminhar são feitos extremamente semelhantes, com iguais elementos físicos e mentais. Quando escolhemos um caminho por uma cidade ou floresta, nosso cérebro precisa examinar o ambiente ao redor, construir um mapa mental do mundo, definir um caminho a seguir e traduzir esse plano em uma série de passos. Da mesma forma, escrever força o cérebro a revisar sua própria paisagem, traçar um curso por esse terreno mental e guiar as mãos, transcrevendo a trilha de pensamentos resultante. Caminhar organiza o mundo ao nosso redor; escrever organiza nossos pensamentos. Em última análise, mapas como o que Nabokov desenhou podem ser repetidos indefinidamente: são mapas de mapas.


(1) Meta significa compreender de maneira mais profunda e reflexiva o nosso eu - a autoconsciência. 
(2) South Dowwns é uma região da Inglaterra com praias, penhascos, colinas, trilhas e bosques, além de extraordinária biodiversidade. 
(3) Cornualha fica no extremo oeste da Inglaterra, com longos trechos de praia, áreas verdes e cavernas. 

Ferris Jabr é escritor radicado em Portland, no Oregon, e colaborador da The New Yorker.

Os desenhos do cartunista Robert Crumb foram feitos originalmente para ilustrar as capas do livro "The Sweeter Side of R. Crumb" (2010) e do álbum "Harmonica Blues - Great Harmonica Performances of the 1920's and 30's" (1976).


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