segunda-feira, 19 de maio de 2025

Aperfeiçoando-nos até a morte


O que os livros dos gurus da autoajuda
e seus críticos revelam sobre os nossos tempos



     Por Alexandra Schwartz, 8 de janeiro de 2018


    Feliz Ano Novo! Agora que o champanhe está choco e a árvore de Natal vai virar cobertura morta para jardim, é hora de pensar nos próximos meses. Política e pessoalmente, 2017 foi um ano difícil; a ansiedade generalizada em torno da degradação da democracia americana dificultou a realização de muitas coisas. Tudo bem, porque você fez novas resoluções para 2018, e a primeira é não fazer resoluções. Em vez disso, você vai "estabelecer metas", na terminologia do guru da produtividade Tim Ferriss — de preferência, metas mensuráveis ​​e com cronograma, para que você possa acompanhar o seu sucesso. Aplicativos como Lifetick ou Joe's Goals ajudarão, mantendo você organizado e permitindo que você compartilhe seu progresso nas redes sociais. Um pouco de vaidade faz maravilhas para a automotivação (a menos, é claro, que um dos seus objetivos seja passar menos tempo nas redes sociais). Uma vez que seus objetivos estejam definidos, pode ser inteligente criar uma metodologia que o incentive a alcançá-los. Charles Duhigg, autor de The Power of Habit (O Poder do Hábito), recomenda um processo de autocondicionamento em três etapas. Quer frequentar mais a academia? Escolha um estímulo (tênis perto da porta); escolha uma recompensa que motive uma ação (um pedaço de chocolate); execute. Bravo! Agora você é Pavlov e seu cachorro.

Mas fevereiro está chegando, acompanhado da depressão do meio do inverno, e você começará a desanimar. Não se preocupe. SuperBetter (SuperMelhor), de Jane McGonigal, ensina como sair da beira do abismo com a ajuda de técnicas inspiradas em videogames, como encontrar "aliados" e obter "power-ups" motivacionais; e Grit: The  Power of Passion and Perseverance (Garra: O Poder da Paixão e da Perseverança), de Angela Duckworth, lembra que a persistência faz toda a diferença quando as coisas ficam difíceis. Duckworth não acredita que você precise de talento para se tornar, como diz outro livro de Duhigg, Smarter Better Faster (Mais Inteligente Melhor Mais Rápido), e nenhum desses outros especialistas acredita. De acordo com seus sistemas, qualquer pessoa pode aprender a ser mais eficiente, mais focada, mais eficaz na busca da felicidade e da produtividade, a mais sagrada das características modernas. E se você não conseguir, bem, a culpa é sua.

Conselhos de autoajuda tendem a refletir as crenças e prioridades da era que os gera. Há uma década, o campeão reinante do gênero era The Secret (O Segredo), publicado em 2006 pela australiana Rhonda Byrne. Assim como Norman Vincent Peale antes dela, Byrne combinou uma interpretação literal de versículos selecionados da Bíblia cristã com o evangelho materialista do pensamento positivo — notadamente Mateus 21:22, "E tudo o que pedirdes em oração, crendo, o recebereis". Ela dizia aos seus leitores que se você enviasse um desejo ao universo com fé suficiente, ele poderia se realizar. Quer encontrar um marido? Limpe o armário para o homem dos seus sonhos e imagine-o pendurando as gravatas. Quer se livrar dos seus óculos? Imagine-se arrasando no seu próximo exame de vista e diga adeus às lentes progressivas. Em retrospecto, The Secret, que vendeu mais de vinte milhões de cópias em todo o mundo, parece um testemunho do otimismo predatório que caracterizou os anos que antecederam a crise financeira. As pessoas sonhavam alto e, em tempos de dinheiro fácil, descobriram que seus sonhos poderiam se tornar realidade. Então, a economia global entrou em colapso e fomos violentamente sacudidos para acordar — pelo menos por um tempo. Em nossa era atual de inovação tecnológica ininterrupta, a ilusão vaga e ilusória deu lugar à rígida doutrina da otimização pessoal. Gurus de autoajuda não precisam ser charlatões vendendo óleo de cobra. Muitos são psicólogos com impressionantes trajetórias acadêmicas e compromisso com metodologias científicas, ou empresários da área de tecnologia com históricos de sucesso na vida e nos negócios. O que eles estãvendendo são métricas. Não basta mais imaginar o caminho para melhorar o corpo ou a mente. Agora precisamos mapear nosso progresso, contar nossos passos, anotar nossos ritmos de sono, ajustar nossa dieta, registrar nossos pensamentos negativos — e então analisar os dados, reavaliar e repetir.

Carl Cederström e André Spicer, professores da escola de negócios em uma área chamada "estudos organizacionais", propuseram-se a fazer tudo isso e muito mais em seu livro recente, Desperately Seeking Self-Improvement: A Year Inside the Optimization Movement (Buscando Desesperadamente o Autoaperfeiçoamento: Um Ano Dentro do Movimento de Otimização), uma exploração comicamente comprometida dos ensinamentos em voga que visam maximizar a produtividade e a eficiência de nossas vidas, em áreas que vão desde proezas atléticas e intelectuais até espiritualidade, criatividade, riqueza e prazer. Cederström, um entusiasmado sueco, e Spicer, um melancólico neozelandês, querem entender até onde as pessoas chegam para se transformar em seres superiores e examinar que métodos elas usam. Em seu livro anterior, The Wellness Syndrome (A Síndrome do Bem-estar), a dupla acompanhou fanáticos por saúde que estavam determinados a meditar e se exercitar para alcançar a iluminação. Desta vez, no espírito do jornalismo participativo de George Plimpton, eles se tornaram seus próprios casos de teste, embarcando em um programa de um ano no qual visaram uma nova área do eu para ser aperfeiçoada mensalmente. Eles ganham massa muscular no CrossFit, seguem a dieta líquida Master Cleanse, praticam mindfulness e ioga, consultam terapeutas e coaches de carreira, experimentam vibradores de próstata, tentam fazer stand-up comedy e participam de um workshop de fortalecimento da masculinidade que envolve sair gritando e chorando pelo mato completamente nu. Até mesmo o formato do livro – registros do diário que cada um mantém para registrar e refletir sobre seus esforços – é relevante para a missão deles, considerando que o registro diário é recomendado em Tools of Titans: The Tactics, Routines, and Habits of Billionaires, Icons, and World-Class Performers (Ferramentas dos Titãs: As Táticas, Rotinas e Hábitos de Bilionários, Ícones e Artistas do Mais Alto Nível), de Tim Ferriss.


Muitas das tarefas que Cederström e Spicer se propõem têm uma qualidade de desafio duplo cujo custo-benefício parece questionável, como memorizar os primeiros mil dígitos do pi durante o Mês do Cérebro para melhorar a acuidade mental. Mas outras inspiram a mesma incômoda sensação de desconfiança que as postagens do suco verde no Instagram: Será que eu também deveria fazer isso? Confesso que sinto uma pontada de inveja quando Cederström produz o manuscrito completo de um livro num rompante de euforia induzido por estimulantes durante o Mês da Produtividade — e uma onda de Schadenfreude(1) quando o manuscrito foi rejeitado pelo seu perplexo editor.

“Em uma sociedade consumista, não somos feitos para comprar um par de jeans e ficar satisfeitos”, escrevem Cederström e Spicer, e o mesmo, acreditam eles, se aplica ao autoaperfeiçoamento. Estamos sendo convencidos da necessidade de aprerfeiçoar todas as partes de nós mesmos, de uma só vez, incluindo partes que antes não sabíamos que precisavam de aperfeiçoamento. (Isso pode explicar os ovos Yoni, implantes vaginais de pedra que supostamente fortalecem os músculos do assoalho pélvico feminino e eliminam a “energia negativa”. O site de Gwyneth Paltrow, Goop, os oferece em jade e quartzo rosa.) Há muito dinheiro a ser ganho por aqueles que diagnosticam e tratam nossos medos de inadequação; Cederström e Spicer estimam que a indústria do autoaperfeiçoamento fatura dez bilhões de dólares por ano. (Eles relatam que cada um gastou mais de dez mil dólares, sem mencionar milhares de horas perdidas em suas próprias buscas.) A boa vida pode ter sido suficiente para Platão e Aristóteles, mas não é mais suficiente. “Estamos sob pressão para mostrar que sabemos como levar uma vida perfeita”, escrevem Cederström e Spicer.

Onde o sucesso pode ser medido com precisão crescente, o fracasso também pode. Do outro lado do autoaperfeiçoamento, Cederström e Spicer descobriram, existe uma sensação não apenas de inadequação, mas de fraude. Em dezembro, com o fim do projeto se aproximando, Spicer reflete que passou o ano focado em si mesmo, excluindo tudo e todos em sua vida. Sua esposa deve dar à luz seu segundo filho em poucos dias; o relacionamento deles não está nada bem. E, no entanto, ele escreve: "Não consigo pensar em outro ano em que passei mais tempo fazendo coisas que não eram eu". Ele não se sente uma versão melhor de si mesmo. Ele nem se sente ele mesmo. É como um homem possuído: "Se não era eu, quem era então?"

O desejo de alcançar e demonstrar a perfeição não é apenas estressante; também pode ser fatal, de acordo com o jornalista britânico Will Storr. Seu próximo livro, Selfie: How We Became So Self-Obsessed and What It's Doing to Us (O Eu: Como nos tornamos tão obcecados por nós mesmos e o que isso está fazendo conosco), abre, de forma alarmante, com um capítulo sobre suicídio. Storr está perturbado com a prevalência do suicídio nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha e culpa o horror e a vergonha de não conseguirmos atender às expectativas altíssimas que estabelecemos para nós mesmos. Ele cita pesquisas que mostram que as adolescentes estão cada vez mais infelizes com seus corpos e que um número crescente de homens sofre de dismorfia muscular; ele entrevista psicólogos e professores que descrevem uma epidemia de ansiedade paralisante entre estudantes universitários, atrelados ao fenômeno da "apresentação perfeccionista" — a tendência, especialmente nas mídias sociais, de fazer a vida parecer uma série de triunfos invejáveis. Storr confessa que ele também é atormentado por autoaversão e pensamentos suicidas. “Vivemos numa era de perfeccionismo, e a perfeição é a ideia que mata”, escreve ele. “As pessoas estão sofrendo e morrendo sob a tortura da fantasia do eu no qual não conseguem se tornar.”


A explicação de Storr para como chegamos a essa situação se baseia em três vertentes. Primeiro, há a natureza. "Devido à maneira como nossos cérebros funcionam, nosso senso do 'eu' naturalmente funciona em modo narrativo", escreve ele; estudos mostram que somos programados para ver a vida como uma história na qual somos protagonistas. Ao mesmo tempo, diz ele, somos criaturas tribais, evoluídas durante nossos anos de caçadores-coletores para valorizar a cooperação e, ao mesmo tempo, respeitar a hierarquia e ambicionar status — "para nos darmos bem e ir ainda mais longe".

Em seguida, vem a cultura — uma trajetória que serpenteia desde os antigos gregos, com sua ideia de que os humanos são criaturas racionais que devem se esforçar para atingir seu potencial máximo, até o cristianismo, com sua doutrina do eu pecaminoso que requer salvação, passando por Freud, que é "apenas ódio de si mesmo e medo do sexo, uma reinvenção secular" do mesmo, e, finalmente, até a perigosa busca da felicidade americana. Storr tem sentimentos conflitantes sobre a visão americana de que o eu seria fundamentalmente bom e, portanto, digno de conforto e satisfação. Por um lado, é uma mudança agradável em relação à culpa cristã. Por outro, "infectou" o resto do mundo com a ambição narcisista. Storr tem críticas duras à psicologia positiva e ao movimento da autoestima. Ele reserva um desprezo especial pelo Instituto Esalen, em Big Sur, que foi pioneiro do Movimento do Potencial Humano, na década de 1960, e recentemente ganhou popularidade entre a turma do Vale do Silício. 

Por fim, temos a economia. A sobrevivência numa economia hipercompetitiva e globalizada, onde os trabalhadores têm menos proteções e são mais descartáveis ​​do que nunca, exige que nos esforcemos para nos tornar mais rápidos, mais inteligentes e mais criativos. A esta lista de qualidades comercializáveis, eu adicionaria uma que serve para aparar as arestas: a simpatia, que a economia dos empregos temporários e seu sistema de classificação cinco estrelas exigem de todos, de taxistas a encanadores. Qualquer coisa menos do que o nosso melhor não vai funcionar.

Depois de um tempo, diz Storr, essa resposta racional às pressões econômicas tornou-se um hábito instintivo: "O neoliberalismo nos irradia de muitos cantos da nossa cultura, e nós o reabsorvemos como radiação". Assim como os reality shows antes dele, as mídias sociais enquadram os relacionamentos humanos como uma constante competição por popularidade e aprovação. Donald Trump, com seu charlatanismo de que a ganância é boa, e sua conversa obsessiva sobre "vencedores" e "perdedores", está na Casa Branca. (Selfie, publicado na Inglaterra no ano passado, terá a inclusão de um capítulo sobre o presidente na edição americana.) Enquanto isso, os pais continuam a alimentar seus filhos com a amorosa e bem-intencionada mentira de que "não há limites" e que eles podem "ser qualquer coisa", o que as leva, quando inevitavelmente falharem, a colocar a culpa em si mesmas, em vez da brutalidade do mercado.

No geral, o quadro é desolador. Se o ideal do eu otimizado não é simplesmente uma moda passageira, ou mesmo uma preferência, mas uma necessidade econômica, como qualquer um de nós pode escolher viver de outra forma? Storr insiste que existe um jeito. "Esta não é uma mensagem de desesperança", escreve ele. "Pelo contrário, ela realmente nos leva a uma maneira melhor de encontrar a felicidade. Quando você perceber que tudo isso é apenas um ato de coerção, que é a sua cultura tentando transformá-lo em alguém que você realmente não pode ser, você pode começar a se libertar de suas exigências."


Isso soa suspeito, como linguagem de autoajuda, reconhece Storr. Ele se apressa em dizer que não está incentivando nada tão clichê quanto a autoaceitação. Ao mesmo tempo, relata que, de fato, passou a se aceitar. "Desde que aprendi que baixa amabilidade e alto neuroticismo são facetas relativamente estáveis da minha personalidade, em vez de sinais de alguma impureza psicológica vergonhosa, parei de me criticar com tanta frequência", escreve. Em vez disso, agora pede desculpas àqueles a quem sua falta de amabilidade e o seu neuroticismo ofenderam. Isso parece bom senso, mas Storr tem outra sugestão mais radical a fazer. Já que é o nosso ambiente que nos faz sentir inferiores, é o nosso ambiente que devemos mudar: "As coisas que estamos fazendo com nossas vidas, as pessoas com quem as compartilhamos, os objetivos que temos. Devemos encontrar projetos para perseguir que não sejam apenas significativos para nós, mas sobre os quais tenhamos eficácia." Storr pretende ser útil, mas mudar todos os aspectos do mundo em que vivemos é uma perspectiva assustadora. Não é de se admirar que as pessoas tentem mudar a si mesmas.

Sarah Knight tem conselhos mais específicos a oferecer. Seu livro mais recente, You Do You: How to Be Who You Are and Use What You’ve Got to Get What You Want (Você Faz Você: Como Ser Quem Você É e Usar o Que Você Tem para Conseguir o Que Deseja), é o terceiro que ela publica em dois anos, depois de The Life-Changing Magic of Not Giving a Fuck: How to Stop Spending Time You Don’t Have with People You Don’t Like Doing Things You Don’t Want to Do (A mágica transformadora de ligar o foda-se: como parar de gastar tempo que você não tem com pessoas de quem você não gosta fazendo coisas que você não quer fazer) e Get Your Shit Together: How to Stop Worrying About What You Should Do So You Can Finish What You Need to Do and Start Doing What You Want to Do (Organize a merda toda: como parar de se preocupar com o que você deveria fazer para poder terminar o que precisa fazer e começar a fazer o que deseja fazer). Os livros de Knight pertencem ao que Storr chama, com desdém, de escola de guias de autoajuda "este sou eu, sendo real, lide com isso", que tendem a compartilhar um ceticismo em relação aos habituais clichês de autoaperfeiçoamento e um gosto por palavrões otimistas. Outros títulos recentes incluem The Subtle Art of Not Giving a Fuck (A sutil arte de ligar o foda-se), de Mark Manson, e Fuck Feelings (Fodam-se os sentimentos), de Michael I. Bennett, um psiquiatra atuante, e Sarah Bennett, sua filha.

Knight, que prefere o tom estridente e supercafeinado de uma instrutora de spinning, se autodenomina uma "antiguru dos best-sellers". Ela se orgulha particularmente da parte do best-seller, e é fácil entender por que sua abordagem é atraente. A frase NÃO HÁ NADA DE ERRADO COM VOCÊ ocupa duas páginas inteiras do seu primeiro capítulo. Ela concorda com Storr que o que está errado é a sociedade, ou melhor, as "obrigações aleatórias e estúpidas impostas pela sociedade — ser legal ou magro, ou agir de forma submissa ou sensata". A sanidade não parece ser uma obrigação social totalmente aleatória ou estúpida, mas não importa. O objetivo de Knight é encorajar seus leitores a se aceitarem como são, com todos os seus defeitos, e para ajudá-los a fazer isso, ela propõe estratégias como "redecoração mental" (transformar as próprias fraquezas em pontos fortes), abraçar o pessimismo (ser pragmático e estabelecer expectativas realistas), ser egoísta (defender as próprias necessidades), insistir na ideia da morte (para maximizar a felicidade em vida) e "libertar-se do Culto da Simpatia". Knight demonstra com prazer este último. "Você precisa parar de se importar com o que os outros pensam", ela nos diz.

Muitos dos conselhos em You Do You visam ajudar os leitores a confrontar as insatisfações do trabalho com a rotina diária. Geralmente, a ideia é ser mais assertivo. "Se um chefe não gosta da minha maneira de trabalhar, pode me demitir", escreve Knight. "Se um cliente acha que meus métodos não convencionais não são para ele, não precisa me contratar." Isso é curiosamente arrogante. Enquanto Storr se preocupa com a precariedade do trabalho moderno, Knight se preocupa com o tédio suportado pela classe trabalhadora confinada ao escritório: reuniões matinais inúteis, projetos em grupo irritantes. Ela dá permissão aos seus leitores para não se preocuparem muito em dar sempre o melhor de si no trabalho, porque ela mesma revela que sabe o que é ser perfeccionista. Na adolescência, sofria de transtornos alimentares. Depois de se formar em Harvard, fez carreira em uma grande editora. Era bem-sucedida, mas estressada. Knight descreve ter sofrido ataques de pânico que exigiam atenção médica; para manter a calma no trabalho, mantinha uma caixa de areia para gatos cheia de areia embaixo da mesa para poder mergulhar os pés em uma praia simulada. Em 2016, aos 36 anos, deixou o emprego e a casa no Brooklyn e se mudou com o marido para a República Dominicana.


“A diferença entre mim e muitos palhaços condescendentes por aí é que não me importo se alguém escolhe fazer o mesmo, fazer diferente ou usar um collant de lamê dourado”, escreve Knight. Em outras palavras, ela não está defendendo que larguemos nossos empregos e “saiamos da porra da beira desse abismo”, como ela fez. Ainda assim, é um choque perceber que a pessoa que nos aconselha a ir contra os costumes inclusivos da cultura corporativa contemporânea se afastou tanto que escapou completamente. Muitos leitores, sem dúvida, acharão isso inspirador. Outros podem se sentir traídos. E aqueles que não podem se dar ao luxo de correr o risco de se afastar de suas vidas, por mais que queiram? Enquanto estão presos em seus cubículos, redecorando mentalmente e meditando sobre a morte, Knight está tomando piña coladas e escrevendo seu próximo guia best-sellerNo Fucks Given (Não dou a mínima pra toda essa porra).

Aqueles para quem o imperativo de "fazer o que você quer" parece um luxo inacessível podem encontrar algum consolo no livro de Svend Brinkmann, Stand Firm: Resisting the Self-Improvement Craze (Seja firme: resistindo à mania da autoaprimoramento), publicado pela primeira vez em sua terra natal, a Dinamarca, em 2014, e agora disponível em tradução para o inglês por Tam McTurk. Antes do lançamento de Stand Firm, a nota do autor nos conta que Brinkmann vivia "a vida relativamente tranquila de um professor de psicologia na Universidade de Aalborg". Então, o livro se tornou um sucesso de vendas. Brinkmann agora vive a vida de um conhecido e bem sucedido intelectual europeu, aparecendo na TV, no rádio e viajando pelo mundo para dar palestras "sobre as grandes questões da vida moderna".

A grande questão que Brinkmann aborda em Stand Firm é a velocidade. O ritmo de vida está se acelerando, diz ele. Sucumbimos a tendências passageiras de alimentação, moda e saúde. A tecnologia erodiu a fronteira entre trabalho e vida privada; espera-se que estejamos constantemente disponíveis, que façamos mais, “façamos melhor e por mais tempo, com pouca consideração pelo conteúdo ou significado do que estamos fazendo”. Assim como Storr, Brinkmann condena o autoaperfeiçoamento como sintoma e ferramenta de uma economia implacável. Mas onde Storr vê uma crise sanitária, Brinkmann vê uma crise espiritual. Sua retórica é a de um profeta aconselhando contra falsos ídolos. “Em nosso mundo secular, não vemos mais o paraíso eterno como uma cenoura no fim da haste da vida, mas tentamos acumular o máximo possível em nosso tempo relativamente curto no planeta”, escreve ele. “Se você ficar parado enquanto todos os outros estão avançando, você fica para trás. Fazer isso hoje em dia equivale a retroceder.”

No entanto, como o título de Brinkmann deixa claro, ficar parado é precisamente o que ele propõe que façamos. Chega da nossa mania de sermos os melhores e os maiorais, diz ele. É hora de nos contentarmos em sermos medianos. Com orgulho, ele nos conta que, quando ele e seus colegas da Universidade de Aalborg foram convidados a propor metas de desenvolvimento institucional, ele sugeriu "que deveríamos nos esforçar para nos tornarmos uma instituição mediana". "Achei que era uma meta realista que valia a pena perseguir para uma universidade pequena", explica. Seus colegas não concordaram. E chega de autoaceitação também — na verdade, chega de si mesmo! "Ser você mesmo não tem valor intrínseco algum", diz Brinkmann. Talvez o nacionalista norueguês Anders Breivik tenha sentido que estava sendo "fiel a si mesmo" quando partiu para sua matança; talvez Madre Teresa não. Que diferença faz? Se você precisa se envolver em autocontemplação ou autoanálise, Brinkmann aconselha limitá-la a uma vez por ano, de preferência durante as férias de verão.


Depois da animação de líder de torcida de Knight, isso é como ter um copo de água gelada derramado sobre a cabeça. É duro, mas revigorante. Em deferência atrevida ao gênero de autoajuda, Brinkmann estruturou Stand Firm como um guia de sete passos do tipo que ele abomina. Os títulos dos capítulos incluem Concentre-se no negativo da sua vidaColoque seu chapéu do Não(2) e Suprima seus sentimentos. O objetivo é aceitar, com calma e determinação, o fato de que somos mortais e falhamos irreparavelmente. Ele dá grande importância aos estoicos, com seu foco na transitoriedade das coisas mundanas. (Assim como Tim Ferriss, aliás.) E ele encontra sabedoria em outras fontes mais surpreendentes. "Posso não ser um especialista em cultura judaica (minha principal fonte de conhecimento são os filmes de Woody Allen)", escreve ele, em uma seção que elogia o kvetching(3), "mas tenho a impressão de que a aceitação geral de reclamar sobre coisas grandes e pequenas é, na verdade, um canal cultural que promove a felicidade e a satisfação coletivas". Posso garantir a Brinkmann que os conceitos de felicidade e satisfação coletivas podem parecer estranhos, exceto para o povo judeu, mas se kvetching funciona para ele, tudo bem.

O importante, em todo caso, é a palavra "coletivo". Brinkmann não se importa tanto com o que sentimos sobre nós mesmos. Ele se importa com a forma como agimos em relação aos outros. Seu livro trata da moralidade, que tende a receber pouca atenção na literatura de autoaperfeiçoamento. Ele gosta de conceitos antiquados: integridade, autocontrole, caráter, dignidade, lealdade, enraizamento, obrigação, tradição. Acima de tudo, ele nos exorta a cumprir nosso dever. Com isso, creio que ele quer dizer que devmos continuar com as exigências desagradáveis da vida, mesmo quando não nos sentimos particularmente bem atendidos por elas, e não fugir para a República Dominicana.

Tudo isso confere a Stand Firm um tom um tanto conservador. Até mesmo a expressão "stand firm" pode soar um tanto ultrapassada. Brinkmann pode soar como um pai dizendo ao filho adolescente irrequieto para aguentar firme, e às vezes, como o adolescente, você quer retrucar. Muitos de seus conselhos são contraditórios. Como podemos suprimir nossos sentimentos e enfatizar o negativo? E "remoer o passado", o corretivo que Brinkmann aconselha, não leva ao tipo de nostalgia piegas pelos bons e velhos tempos que nos levaram ao Brexit e a Trump? "Eu diria que, em uma cultura onde tudo o mais está acelerando, alguma forma de conservadorismo pode ser a abordagem verdadeiramente progressista", escreve Brinkmann. Ele reconhece que isso é paradoxal. Seus conselhos, como todos os conselhos, são imperfeitos e limitados. Ele também é apenas humano. Isso faz parte do seu charme.

O maior paradoxo de Stand Firm, como Brinkmann bem sabe, é que ele exige uma solução individual para um problema coletivo. Há boas razões para temer ser deixado para trás por uma sociedade em aceleração, especialmente uma sociedade como a nossa, que não é gentil com aqueles que não a acompanham ou não conseguem acompanhá-la. Brinkmann pelo menos tem o bem-estar social do estado dinamarquês para se apoiar. Ainda assim, você não precisa concordar com tudo o que ele diz para reconhecer que há valor em ler seu livro. Principalmente, você sai com a sensação reconfortante de que existem outras pessoas por aí lutando com as mesmas pressões e frustrações, que vivenciam insatisfações semelhantes e se preocupam com suas próprias inadequações. Esse sentimento — solidariedade — é outro valor de Brinkmann. Podemos avançar cometendo erros, mas não estamos sozinhos.

E Brinkmann oferece um conselho que parece imediatamente válido. Dê um passeio na floresta, diz ele, e pense na vastidão do cosmos. Vá a um museu e observe arte, com a certeza de que você não será aprimorado por ela de forma mensurável. As coisas não precisam ter utilidade concreta para ter valor. Deixe de lado seus guias de autoajuda e, em vez disso, leia um romance. Aceito o conselho sem pensar duas vezes.

(1) Sentimento de prazer com a desgraça alheia.

(2) "Kvetching" é uma expressão de origem iídiche que significa reclamar persistentemente.

(3) "Coloque o seu chapéu do Não”, significa ir contra a pressão social de sempre ter que dizer "sim" para abraçar novas oportunidades; é recusar coisas que não se encaixam nos seus valores, limites e prioridades.

Alexandra Schwartz é redatora da The New Yorker desde 2016.

Publicado na edição impressa de 15 de janeiro de 2018, com o título “Resolutions” ("Resoluções").

 


Nenhum comentário:

Postar um comentário