Em esquete da série The Kids in the Hall, o palhaço Bingo
constrange os funcionários da empresa AT&Love com suas brincadeiras
Lauren Collins / The New Yorker 19 de janeiro de 2023
Tenho uma amiga cuja empresa na qual trabalha exige que ela compartilhe o quarto de hotel com uma colega quando viaja a negócios. Isso é ruim em qualquer circunstância. É especialmente ruim se você estiver doente, grávida, congestionada, com flatulência, ou for sonâmbula; se você for uma coruja notívaga ou um pássaro madrugador; se tiver uma condição médica que exija privacidade; ou se simplesmente preferir passar seu precioso tempo livre assistindo a Love Is Blind sem julgamentos. Ser forçada a ver uma colega de trabalho de toalha ou ouvi-la roncar deveria ser ilegal. Mas não é, apesar de levantar questões óbvias sobre assédio sexual e a Lei dos Americanos Portadores de Deficiências.
Felizmente, existe a França, berço do direito de ignorar e-mails no fim de semana e do direito de não comer na mesa do escritório. Em mais uma vitória para a dignidade no ambiente de trabalho, um dos mais altos tribunais do país sugeriu recentemente que as empresas não podem obrigar seus funcionários a participar de festas e outras atividades supostamente prazerosas. O caso remonta a 2015, quando um homem, conhecido como Monsieur T., processou sua antiga empregadora, a empresa de consultoria administrativa Cubik Partners, com sede em Paris, por demissão injusta. O pedido de reintegração de Monsieur T. foi rejeitado na Justiça do Trabalho. Um tribunal de apelações então concluiu que a Cubik não havia errado ao demiti-lo por, entre outras coisas, não participar de uma cultura de trabalho que a empresa chama, em dialeto corporativo, de fun & pro (divertida & profissional). Em sua decisão recente, no entanto, o tribunal superior anulou essa decisão. Citando a Convenção Europeia dos Direitos Humanos e o código trabalhista francês, o tribunal decidiu que Monsieur T. não tinha obrigação de participar de retiros e aperitivos das sextas-feiras. Na verdade, a expectativa de seus chefes de que ele participasse violava sua liberdade de expressão. Chame isso de "o direito de não ser divertido".
Monsieur T. — um herói para estes tempos de demissões silenciosas e estabelecimento de limites entre as vidas profissional e pessoal? Ao contrário de seu homônimo americano, que corajosamente interpretou Papai Noel na Casa Branca de Reagan, ele poderia ser considerado um dos principais patrocinadores da causa de simplesmente dizer não a atividades extracurriculares constrangedoras. É possível imaginá-lo resistindo até mesmo a viagens e eventos cada vez mais elaborados que as empresas estão usando para tentar atrair os funcionários de volta à interação presencial. Alguém aí se perguntou sobre a simulação de laçar bezerros? Atirar flechas com ponta de espuma no CEO? Se ao menos Monsieur T. estivesse na série The White Lotus para levar Portia longe de Palermo.
Monsieur T. ingressou na Cubik Partners em 2011, como consultor sênior, e foi promovido a diretor antes de ser demitido em março de 2015. De acordo com um tribunal inferior, uma carta de demissão criticou sua atitude pouco entusiasta em relação à filosofia "divertida e profissional" da empresa, além de outras falhas, incluindo "seu tom às vezes pouco animado e desmotivador em relação aos subordinados, e sua incapacidade de aceitar o ponto de vista dos outros". De acordo com o site da empresa, a Cubik é "uma organização profundamente humana" que "busca personalidades antes de habilidades". Uma seção para possíveis contratações revela que você não apenas trabalhe na Cubik, mas que você "Seja a Cubik". Um teste on-line o leva a descobrir seu perfil na Cubik: Reflexão, Ação ou Relação. "O coquetel VIP da Cubik mal começou e você já conversou com todos os convidados", diz a descrição da última categoria. "Agora você sabe em qual esporte Jean-Yves é imbatível, onde Joëlle passará as férias e que Antoine planejou atravessar a Eslovênia em uma bicicleta tandem." Uau. Jean-Yves, Joëlle e Antoine podem estar se divertindo muito. Ou podem estar, freneticamente, enviando mensagens para a babá ou desejando estar em uma aula de ioga.
A Cubik se gaba: "Assim como temos orgulho da nossa cultura, temos muitos rituais para nos reunirmos". Entre eles, um retiro corporativo anual, pouco antes das férias de verão, "para celebrar a temporada passada e dar um tempo do trabalho". Em seu processo, o Sr. T. se lembrou dessas experiências de união de forma bem diferente. O maior problema, disse-me sua advogada, Isabelle Galy, era que a cultura da empresa envolvia muito consumo de álcool. "Havia um forte incentivo, e até mesmo a obrigação, de consumir álcool", disse Galy. O Sr. T. alega ter sido submetido a "práticas invasivas humilhantes, como a simulação de atos sexuais, a obrigação de compartilhar a cama com um colega durante seminários, o uso de apelidos e a afixação de fotos alteradas e manipuladas no escritório ".
Por meio de um advogado, a Cubik Partners negou essas alegações e afirmou que o Sr. T. havia sido demitido por "incompetência profissional", não por se recusar a participar da "chamada cultura do aperitivo". O advogado também especificou que os valores "divertidos e profissionais" da empresa se referiam principalmente ao seu tipo de gestão, baseada em feedback e no trabalho em pequenas equipes. O tribunal superior remeteu o caso de volta a um tribunal de apelação, que continua em andamento.
Claramente, diversão é um conceito altamente subjetivo, mas muitos especialistas têm defendido sua inclusão no ambiente de trabalho. "Tenho uma regra básica: se não for divertido, não faço", escreveu Greg Winteregg em seu livro de 2019, Fun at Work: More Time, Freedom, Profit and More of What You Love to Do (Diversão no Trabalho: Mais Tempo, Liberdade, Lucro e Mais do Que Você Ama Fazer), talvez inspirado no manifesto anterior de Richard Branson, fundador do Virgin Group, The Virgin Way: If It's Not Fun, It's Not Worth Doing (O Jeito Virgin: Se Não É Divertido, Não Vale a Pena Fazer). Dadas as supostas experiências do Monsieur T., não se pode culpá-lo por adotar uma abordagem diferente: "Se for divertido, não faço!". Uma empresa britânica chamada Fun Experts oferece aluguel de equipamentos de diversão para engajamento de funcionários no local de trabalho — jogos de air hockey, fliperama, máquinas de algodão-doce, globos de neve em tamanho gigante, ovelhas de rodeio e corridas de ovos em colheres para a formação de equipes — e um serviço de assinatura que fornece às empresas itens divertidos mensais, como, por exemplo, um muro de grafite digital.
Em Fun at Work: How to Boost Creativity, Unleash Innovation, and Reinvent the Future of Work Using the Transformative Power of Play (Diversão no Trabalho: Como Aprimorar a Criatividade, Impulsionar a Inovação e Reinventar o Futuro do Trabalho Usando o Poder Transformador da Brincadeira), de 2022, David Thomas, coautor do livro e “estudioso da diversão” na Universidade de Denver, argumenta que “aprender a brincar” pode tornar os funcionários mais satisfeitos com o trabalho e mais flexíveis na resolução de problemas. Por e-mail, ele alertou, no entanto, que as atividades lúdicas devem ser estritamente voluntárias. A escolha desempenha um papel fundamental na distinção entre diversão e aborrecimento, acrescentou: “Nem todos gostamos de montanhas-russas ou ópera. Portanto, qualquer atividade divertida no local de trabalho precisa ser opcional ou complexa o suficiente para que diferentes tipos de pessoas possam encontrar maneiras diferentes de participar, de acordo com suas preferências.”
Diversão no trabalho é legal, mas é um substituto pobre para os atributos que tornam um local de trabalho verdadeiramente atraente: estabilidade no emprego, benefícios adequados, igualdade salarial, perspectivas de crescimento, flexibilidade, ambiente respeitoso e com boa estrutura. Ninguém quer um retiro campestre com os colegas de trabalho às custas de um generoso subsídio de férias — e, como já escrevi, as mulheres arcam desproporcionalmente com os custos de ter que comparecer a eventos sociais fora do horário de trabalho. Muitas pessoas, hoje em dia, nem querem ir ao escritório para trabalhar, muito menos para se divertir. Para alguns funcionários, porém, um dos atrativos do trabalho em escritório é uma atmosfera calma e tranquila, servindo como um contraponto ordenado ao caos da vida pessoal. Se você é um deles, a regra francesa pode servir de inspiração. Da próxima vez que um tapete de Twister aparecer na sala de descanso, pense no Monsieur T., e continue lavando sua caneca em silêncio.
Lauren Collins é redatora da The New Yorker desde 2008.




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