Cena de Amarcord, filme de Federico Fellini, 1973
Em 1942,
quando tinha dez anos, recebi o Primeiro Prêmio Provincial do Ludi Juveniles
(uma competição voluntário-compulsória para jovens fascistas italianos, isto é,
para todos os jovens italianos). Eu discorrera com destreza retórica sobre o
tema "Deveríamos morrer pela glória de Mussolini e pelo destino imortal
da Itália?". Minha resposta foi afirmativa. Eu era uma criança esperta.
Até que,
em 1943, descobri o sentido da palavra Liberdade. Permitam-me contar essa
história no final da minha fala. Naquele momento, Liberdade não significava
Liberação.
Passei
dois anos da minha infância entre soldados da SS, fascistas e comunistas
atirando uns nos outros, e aprendi como me esquivar das balas.
Em abril
de 1945, a Resistência ocupou Milão. Dois dias mais tarde, chegaram ao vilarejo
onde eu vivia por então. Foi um momento de alegria. A praça central estava
tomada de gente cantando e agitando bandeiras, clamando por Mimo, o líder
guerrilheiro da região. Mimo apareceu no balcão da prefeitura, apoiado em sua
bengala, pálido, e com uma das mãos tentava acalmar a multidão.
Eu estava
ansioso por ouvir seu discurso, já que toda a minha infância tinha sido marcada
pelos discursos históricos de Mussolini - cujas passagens mais memoráveis
tínhamos que decorar na escola. Silêncio. Mimo falava numa voz rouca, quase
inaudível. Ele disse: "Cidadãos, amigos. Depois de tantos sacrifícios
dolorosos... aqui estamos. Glória aos que tombaram pela liberdade."
E foi só.
Ele entrou no edifício. A multidão gritava, os guerrilheiros levantavam suas
armas e disparavam rajadas festivas. Nós garotos corríamos para juntar as
cápsulas, itens preciosos numa coleção, mas eu também havia aprendido que
liberdade de palavra significa libertação da retórica.
Hoje em
dia, em meu país, há quem diga que o mito da Resistência foi uma mentira
comunista. É verdade que os comunistas exploraram a Resistência como
propriedade pessoal por haverem desempenhado papel de destaque nela; mas me
lembro de guerrilheiros com lenços de cores diferentes.
Hoje em
dia, em meu país, há quem diga que a guerra de libertação foi um período
trágico de cisão, e que tudo de que necessitamos é uma reconciliação
nacional. Posso mesmo admitir que Eichmann acreditava sinceramente em sua
missão, mas não posso dizer "Ok, pode voltar e começar tudo de novo.
Estamos aqui para recordar o que aconteceu e declarar solenemente que Eles não
poderão repetir o que fizeram.
Mas quem
são Eles?
Se temos
em mente os governos totalitários que dominaram a Europa antes da Segunda
Guerra Mundial, parece fácil dizer que seria difícil que eles ressurgissem sob
a mesma forma em circunstâncias históricas diferentes.
Uma vez
que o fascismo de Mussolini baseava-se na idéia de um líder carismático, no
corporativismo, na utopia do Destino Imperial de Roma, no desejo imperialista
de conquistar novos territórios, na idéia de uma nação inteira em camisas
negras, na rejeição da democracia parlamentar e no anti-semitismo, não há
dificuldade alguma em admitir que a Allianza Nazionale, nascida do antigo MSI,
é decerto um partido de direita, mas com muito pouco em comum com o antigo
fascismo.
Nesse
mesmo espírito, apesar de me preocupar com os vários movimentos paranazistas
atuando aqui e ali na Europa (incluindo a Rússia), não acredito que o nazismo,
em sua forma original, esteja a ponto de reaparecer como movimento de escala
nacional.
Mesmo
assim, muito embora regimes políticos possam ser derrubados e ideologias possam
ser criticadas e desautorizadas, sempre existe por trás de um regime e de sua
ideologia um modo de pensar, uma série de hábitos culturais, uma nebulosa de
instintos obscuros e impulsos insondáveis. Ainda existiria um fantasma rondando
a Europa (para não falar de outras partes do mundo)?
Ionesco
disse certa vez que "só interessam as palavras e o resto é conversa fiada". Hábitos linguísticos frequentemente são sintomas importantes de sentimentos
subjacentes.
Permitam-me
então perguntar por que não somente a luta da Resistência, mas também toda a
Segunda Guerra Mundial foi definida no mundo inteiro como uma luta contra o
fascismo.
Se relerem Por Quem os Sinos Dobram, os senhores descobrirão que Robert Jordan
identifica seus inimigos como fascistas, mesmo quando tem em mente os
falangistas espanhóis.
Durante a
era McCarthy, os americanos que tomaram parte na Guerra Civil Espanhola eram
chamados de antifascistas prematuros - o que significa que lutar contra Hitler
nos anos 40 era dever moral de cada bom americano, mas que lutar contra Franco
cedo demais, nos anos 30, cheirava mal.
Mein
Kampf é o manifesto sistemático de um programa político. O nazismo tinha uma
teoria do racismo e do povo escolhido ariano, uma noção precisa da entartete
Kunst, arte degenerada, uma filosofia da vontade de poder e do übermensch
(super-homem). O nazismo era decididamente anticristão e neopagão, do mesmo
modo como o Diamat de Stálin (versão oficial do marxismo soviético) era
ruidosamente materialista e ateu. Se por totalitarismo se entende um regime que
subordina todos os atos dos indivíduos ao Estado e à sua ideologia, então tanto
o nazismo quanto o stalinismo eram autênticos regimes totalitários.
O fascismo
certamente era uma ditadura, mas não inteiramente totalitária - e isso não por
brandura, mas pela fraqueza filosófica de sua ideologia. Mussolini não
tinha qualquer filosofia: só tinha retórica.
Pode-se
afirmar que o fascismo italiano foi a primeira ditadura de direita a controlar
um país europeu, e que todos os movimentos semelhantes que estavam por vir
encontraram um arquétipo comum no regime de Mussolini. O fascismo italiano foi
o primeiro a estabelecer uma liturgia militar, um folclore e mesmo um modo de
vestir - que chegou a ser mais influente no exterior que Armani, Benetton ou
Versace.
Foi só nos
anos 30 que movimentos fascistas surgiram no Reino Unido (com Mosley), na
Letônia, Estônia, Lituânia, Polônia, Hungria, Romênia, Bulgária, Grécia,
Iugoslávia, Espanha, Portugal, Noruega e até na América do Sul, para não falar
da Alemanha. Foi o fascismo italiano que convenceu vários líderes liberais
europeus de que o novo regime estava implementando reformas sociais
interessantes, proporcionando uma alternativa brandamente revolucionária à
ameaça comunista.
Não
obstante isso, a precedência histórica não me parece razão suficiente para
explicar porque o termo fascismo se tornou uma espécie de sinédoque, uma
denominação pars pro toto de regimes totalitários distintos. Pouco adianta
dizer que o fascismo continha em si, como que em estado quintessencial, todos
os elementos das formas posteriores de totalitarismo. Ao contrário: o fascismo
não tem quintessência alguma, ele sequer tem uma essência. O fascismo era um
totalitarismo difuso.
O fascismo
não era uma ideologia monolítica, e sim uma colagem de diferentes idéias
políticas e filosóficas, um vespeiro de contradições.
O Partido
Fascista nasceu alardeando sua nova ordem revolucionária, mas era financiado
pelos proprietários de terras mais conservadores, que dele esperavam uma
contra-revolução.
Só existiu um nazismo, e não se pode rotular de
nazista o falangismo hipercatólico de Franco, uma vez que o nazismo ou é
fundamentalmente pagão, politeísta e anticristão, ou não é nazismo.
Em
contraste, há várias maneiras de ser fascista sem que mude o nome do jogo.
Acontece com a noção de fascismo o que, segundo Wittgenstein, ocorre com a
noção de jogo. Um jogo pode ser competitivo ou não, pode interessar a uma ou
mais pessoas, pode exigir ou não alguma habilidade especial, pode envolver
dinheiro ou não. Jogos são séries de atividades diferentes que exibem certo ar
de família.
1 2 3 4
abc bcd cde def
Suponhamos uma série de grupos políticos. O
grupo um é caracterizado pelos traços abc, o grupo dois pelos traços bcd e
assim por diante. Um é semelhante a dois por que ambos têm dois traços em
comum; três é semelhante a dois, e quatro é semelhante a três pelas mesmas
razões. Note-se que três também é semelhante a um (ambos têm em comum o traço
c).
O caso
mais curioso é o de quatro, obviamente semelhante a três e dois, mas sem
qualquer traço em comum com um. Mesmo assim, devido à série ininterrupta de
semelhanças decrescentes entre um e quatro, persiste, por uma espécie de
transitividade ilusória, um ar de família entre quatro e um.
Assim, o
termo "fascismo" tornou-se universalmente aplicável por que é possível
eliminar de um regime fascista um ou dois traços sem que ele deixe de ser
fascista. Apesar de sua natureza difusa, creio ser possível esboçar uma
lista de traços típicos daquilo que gostaria de chamar protofascismo ou
Fascismo Eterno.
Esses
traços não podem ser acomodados dentro de um sistema; muitos deles são
contraditórios entre si, além de ocorrerem em outros tipos de despotismo ou
fanatismo. Mas basta que um deles ocorra para que se coagule a nebulosa
fascista.
1. O
primeiro traço de protofascismo é o culto à tradição. O tradicionalismo é mais
antigo que o fascismo, e era típico do pensamento católico
contra-revolucionário após a Revolução Francesa; mas nascera ainda antes, no
final da era helenística, como reação ao racionalismo grego clássico.
Na bacia
do Mediterrâneo, povos de religiões diferentes (todas admitidas indulgentemente
no Panteão romano) começaram a sonhar com uma revelação feita na aurora da
história humana. Essa revelação permanecera por muito tempo oculta sob o véu de
línguas esquecidas; estava contida nos hieróglifos egípcios, nas runas celtas,
nos pergaminhos de religiões asiáticas ainda desconhecidas.
Essa nova
cultura tinha que ser sincrética. Sincretismo não é apenas, como diz o
dicionário, "a combinação de diferentes formas de crença ou prática"; uma
tal combinação tem que tolerar contradições. Cada uma das mensagens originais
contém uma centelha de sabedoria e, quando parecem dizer coisas diferentes ou
incompatíveis, de fato estarão apenas aludindo, alegoricamente, à mesma verdade
primeva.
Em
consequência, não pode haver progresso do saber. A verdade já foi pronunciada
de uma vez por todas, e só podemos seguir interpretando sua mensagem obscura. Basta dar uma olhada aos patronos de qualquer movimento fascista para
encontrar os grandes pensadores tradicionalistas. A gnose nazista nutria-se de
elementos tradicionalistas, sincréticos e ocultos.
A fonte teórica mais
importante da nova direita italiana, Julius Evola, fundiu o Santo Graal e os
Protocolos dos Sábios de Sião, alquimia e Sacro Império Romano-Germânico. O
próprio fato de a mesma direita italiana, para mostrar largueza de vistas, ter
recentemente ampliado seu rol de autores de modo a incluir De Maistre, Guenon e
Gramsci é prova gritante de sincretismo.
Basta checar as estantes
que as livrarias americanas reservam para a new age para encontrar até
mesmo Santo Agostinho, que, pelo que sei, não era fascista. Mas o próprio fato
de pôr no mesmo saco Santo Agostinho e Stonehenge já é sintoma de
protofascismo.
2. O tradicionalismo
implica a recusa da modernidade. Tanto fascistas quanto nazistas cultuavam a
tecnologia, ao passo que pensadores tradicionalistas normalmente a rejeitam
enquanto negação de valores espirituais tradicionais.
Entretanto, apesar de
orgulhoso de suas conquistas industriais, o elogio nazista à modernidade era
apenas a superfície de uma ideologia baseada em Sangue e Solo (Blut und Boden).
A recusa do mundo moderno era disfarçada de refutação do modo de vida capitalista,
mas se destinava principalmente à rejeição do Espírito de 1789 (e de 1776, é
claro). O Iluminismo, a Era da Razão, é visto como o começo da depravação
moderna. Nesse sentido, o protofascismo pode ser definido como irracionalismo.
3. O irracionalismo também
depende do culto à ação pela ação. Sendo a ação bela em si mesma, ela deve ser
implementada antes de ou sem qualquer reflexão prévia. Assim sendo, a cultura é
suspeita à medida que é identificada com atitudes críticas.
Os intelectuais fascistas oficiais
estão ocupados sobretudo em acusar a cultura moderna e a intelligentsia
liberal pela perda dos valores tradicionais.
4. Nenhum sincretista é
capaz de suportar a crítica. O espírito crítico faz distinções, e ser capaz de
fazê-lo é signo de modernidade. Na cultura moderna, a comunidade científica
elogia o desacordo como maneira de aprimorar o conhecimento. Para o
protofascismo, desacordo é traição.
5. Além disso, desacordo é
sinal de diversidade. O protofascismo desenvolve-se e alcança o consenso explorando
o medo natural da diferença. O primeiro apelo de qualquer movimento fascista é
contra os intrusos. Por isso o protofascismo é racista.

6. O protofascismo germina
a partir da frustração social ou individual. É por isso que um dos traços mais
típicos dos fascismos históricos foi o apelo a uma classe média frustrada,
sofrendo sob alguma crise econômica ou humilhação política, assustada com a
pressão dos grupos sociais inferiores.
Em nossos tempos, quando os
velhos "proletários estão se tornando pequenos burgueses" (e os lumpen
excluem a si mesmos da cena política), o fascismo de amanhã encontrará aí um
público adequado.
7. Para os que se vêem
privados de qualquer identidade social, o protofascismo diz que seu único
privilégio é o mais comum de todos, o de terem nascido no mesmo país. É essa a
origem do nacionalismo. Ademais, os únicos que podem dar identidade a uma nação
são seus inimigos. Daí que na raiz da psicologia protofascista esteja a
obsessão da conspiração (possivelmente internacional); os seguidores devem se
sentir sitiados.
A maneira mais fácil de
evocar a imagem de uma conspiração é o apelo à xenofobia. Mas a conspiração
deve partir de dentro também: os judeus costumam ser o melhor alvo, já que têm
a vantagem de estar dentro e fora. O exemplo mais recente dessa obsessão, aqui
nos EUA, é o livro de Pat Robertson, The New World Order.
8. Os seguidores do
movimento devem se sentir humilhados com a riqueza e a força ostentatórias de
seus inimigos. Quando era garoto, fizeram-me crer que os ingleses eram um
povo-de-cinco-refeições; comiam com mais frequência que nós, pobre mas sóbrios
italianos. Os judeus são ricos e ajudam uns aos outros por meio de uma rede
secreta de assistência mútua.
Mas é importante que os
seguidores estejam convencidos de que podem superar seus inimigos. Desse modo,
através de uma contínua mudança de registro retórico, os inimigos são ao mesmo
tempo fortes e fracos demais. Os fascismos estão condenados a perder suas
guerras porque são visceralmente incapazes de avaliar objetivamente a força do
inimigo.
9. Para o protofascismo não
há luta pela vida mas vida pela luta. Por isso, o pacifismo é uma transigência
com o inimigo. O pacifismo é um mal porque a vida é uma guerra permanente. Isso
ocasiona um complexo de Armagedon. Uma vez que os inimigos devem e podem ser
derrotados, deve haver uma batalha final, após a qual o movimento controlará o
mundo. Mas uma tal solução final implica uma era subsequente de paz, uma Idade
de Ouro, o que contradiz o princípio da guerra permanente. Nenhum movimento
fascista foi capaz de resolver este dilema.
10. O elitismo é um aspecto
típico de qualquer ideologia reacionária, à medida que estas são
fundamentalmente aristocráticas. Ao longo da história, todo elitismo
aristocrático ou militarista implicou desprezo pelos mais fracos.

O protofascismo não poderia
deixar de advogar um elitismo popular. Todo cidadão está entre as melhores
pessoas do mundo os membros do partido são os melhores entre os cidadãos, todo
cidadão pode (ou deveria) tornar-se membro do partido. Mas não podem haver
patrícios sem plebeus. De fato, o Líder sabe que sua força baseia-se na
fraqueza das massas, tão fracas a ponto de precisar de um Líder. Como o grupo é
organizado hierarquicamente (de acordo com o modelo militar), cada líder subordinado
despreza seus subalternos, e cada um destes despreza seus inferiores. Isso
reforça o sentido de elitismo de massa.
11. Nessa perspectiva,
todos são educados para se tornarem Heróis. Em todas as mitologias, Herói é um
ser excepcional, mas na ideologia protofascista o heroísmo é a norma. Esse
culto ao heroísmo está estreitamente ligado a um culto da morte. Não é por
acaso que uma das palavras de ordem dos falangistas era viva la muerte.
Diz-se aos leigos que a
morte é desagradável mas que deve ser encarada com dignidade; aos fiéis, diz-se
que a morte é um meio doloroso de atingir uma alegria sobrenatural. Em
contraste, o herói protofascista deseja a morte anunciada como a melhor
recompensa para uma vida heróica. O herói protofascista está ansioso por
morrer. É mais frequente, diga-se de passagem, que em sua impaciência ele acabe
mandando outros na frente.
12. Como a guerra
permanente e o heroísmo são jogos difíceis, o protofascista transfere sua
vontade de potência para assuntos sexuais. É esta a origem do machismo (que
implica desprezo pelas mulheres e condenação intolerante a hábitos sexuais não
convencionais -da castidade ao homossexualismo).
13. O protofascismo
baseia-se num populismo qualitativo. Numa democracia, os cidadãos têm direitos individuais,
mas o conjunto dos cidadãos só tem impacto político de um ponto de vista
quantitativo (aceitam-se as decisões da maioria).
Para o protofascismo, os
indivíduos enquanto tais não têm direitos, e O Povo é concebido como uma
qualidade, uma entidade monolítica expressando a Vontade Comum. Como nenhum
grupo de seres humamos algum dia seria capaz de ter uma vontade comum, o Líder
finge ser seu intérprete.
Tendo perdido seu poder de
delegação, os cidadãos não agem, são apenas convocados, pars pro toto, a
interpretar o papel de O Povo - que é portanto uma mera ficção teatral. Para
termos um bom exemplo, não precisamos mais recorrer à Piazza Venezia em Roma ou
ao Estádio de Nurembergue. O futuro nos reserva um populismo qualitativo via TV
ou Internet, no qual a reação emocional de um grupo seleto de cidadãos pode ser
apresentado e aceito como a Voz do Povo.
Por causa de seu populismo
qualitativo, o protofascismo tem que estar contra governos parlamentares
"podres". Cada vez que um político põe em questão a legitimidade de
um parlamento por não mais representar a Voz do Povo, pode-se sentir o cheiro
de protofascismo.
14. O protofascismo fala
Novilíngua. "Novilíngua" foi inventada por Orwell, em 1984, como a
linguagem oficial do Ingsoc, ou "Socialismo Inglês". Mas elementos de
protofascismo são comuns a formas diferentes de ditadura. Todos os textos
escolares nazistas ou fascistas tinham base num léxico empobrecido e numa
sintaxe elementar, de modo a limitar o desenvolvimento dos instrumento do
raciocínio complexo e crítico. Mas devemos estar prontos a identificar novas
espécies de "Novilíngua", ainda que na forma inocente de um programa
popular de auditório.
Tendo esboçado os possíveis
avatares do protofascismo, deixem-me concluir. Na manhã de 27 de julho de 1943,
disseram-me que, segundo as informações do rádio, o fascismo desmoronara e
Mussolini estava preso. Minha mãe mandou-me comprar um jornal. Fui à banca mais
próxima e vi que os jornais estavam lá, mas que os títulos eram diferentes.
Além disso, depois de um rápido exame das manchetes, percebi que cada jornal
dizia coisas diferentes. Comprei um deles às cegas e li uma mensagem na
primeira página, assinada por cinco ou seis partidos políticos.
Até então eu pensava que só
havia um partido por país - na Itália, o Partito Nazionale Fascista. Eu estava
descobrindo que em meu próprio país partidos diferentes podiam existir ao mesmo
tempo. E mais: como eu era um garoto brilhante, percebi imediatamente que eles
já existiam antes, como organizações clandestinas.
A mensagem celebrava o fim da ditadura e o retorno da liberdade: liberdade de
expressão, de imprensa, de associação política. Essas palavras - liberdade,
ditadura-, eu as lia pela primeira vez em minha vida. Renasci como homem livre
ocidental por força dessas palavras novas.
Temos que nos manter
alertas para que o sentido dessas palavras não seja esquecido outra vez. O
protofascismo ainda está à nossa volta, às vezes à paisana. Seria mais fácil
para nós se aparecesse alguém no cenário mundial dizendo "quero abrir
Auschwitz de novo, quero que os camisas-negras desfilem outra vez nas praças
italianas". É pena!
A vida não é tão
simples. O protofascismo pode voltar sob o mais inocente dos disfarces. Nosso
dever é pô-lo a nu e apontar quaisquer novas ocorrências - todos os dias, em
todas as partes do mundo. Mais uma vez dou a palavra a Roosevelt:
"Arrisco-me a afirmar que, se a democracia americana deixar de existir
como uma força viva, procurando dia e noite melhorar a sorte de seus cidadãos
por meios pacíficos, o fascismo ganhará força em nosso país" (4 de novembro de
1938). Liberdade e liberação são uma tarefa infinita.
Que seja esta nossa senha: não esquecer.
O italiano Umberto Eco é escritor, filósofo, semiólogo, linguista e bibliófilo.
Publicado na Folha de SP, 14 de maio de 1995. Tradução de Samuel Titan Jr.
Ilustram o post capas da revista italiana Gioventú Fascista, publicação direcionada ao público jovem que, de 1931 a 1936, divulgava os princípios do regime fascista de Benito Mussolini.







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