Lançado em 1979, álbum da banda inglesa
Gang of Four ainda fala poderosamente aos jovens de hoje
Thomas Hobbs / BBC 4 de outubro de 2024
"Como posso me sentar e tomar meu chá... com todo aquele sangue jorrando da televisão!?". É o que canta Jon King, vocalista da Gang of Four, inovadora banda do pós-punk britânico, iniciando a música 5.45 de maneira impactante. Enquanto continua com slogans mais raivosos – "Assista ao novo sangue na tela de 18 polegadas" e "A luta armada é um novo entretenimento" –, o som contínuo e melancólico de sua melódica e as vigorosas estocadas do guitarrista Andy Gill em uma Fender Stratocaster se juntam agressivamente em torno da franqueza dos vocais como uma multidão enfurecida segurando forcados.
5:45 está entre os vários destaques de Entertainment!, influente álbum estreia da banda, lançado há 45 anos. Seus refrões poderiam facilmente se referir ao mundo de hoje, repleto de conflitos e sobrecarregado de informação, assim como outras letras do álbum, verdadeiramente premonitórias – Natural’s Not In It, que ironiza sobre uma coletiva "coerção dos sentidos", pode igualmente ser uma alusão à obsessão da sociedade com o TikTok e o Instagram.
Até mesmo a arte da capa de Entertainment! é ousada – um cowboy e um nativo americano emoldurados em palavras sarcásticas: "O índio sorri, pensa que o cowboy é seu amigo. O cowboy sorri, feliz por ter ludibriado o índio. Agora pode explorá-lo". Deixando de lado o termo - hoje, não aceitável - para definir os nativos americanos, a capa permanece hiper-relevante, especialmente considerando a frequente discussão sobre os ardis do colonialismo nos últimos anos. Atualmente, portanto, a Gang of Four parece mais uma banda de profetas do que de estrelas do rock.
Para Catherine Mayer, viúva de Gill, "a Gang of Four
revigorou o espírito jovem no final da década de 1970"
Musicalmente, Gang of Four e Entertainment! continuam referência fundamental para muitos artistas contemporâneos: é um disco que inspirou diretamente muita gente, de Idles a Red Hot Chilli Peppers, Run The Jewels e Frank Ocean. De fato, listado como um dos 50 álbuns favoritos de Kurt Cobain, e descrito por Michael Stipe, do R.E.M., como algo do qual ele "roubou muita coisa", Entertainment! é um daqueles álbuns que acende o estopim para gerações após gerações de músicos que rompem fronteiras.
Tornou-se item essencial nas listas de Melhores Álbuns de Todos os Tempos, seja da Pitchfork ou da Rolling Stone – e, apesar de nunca ter se destacado em termos de vendas, causou todo esse impacto cultural. "É como o que disseram sobre o primeiro álbum do Velvet Underground", diz King à BBC, "não importava que não vendesse bem, porque todos os que compraram Entertainment! foram inspirados a formar sua própria banda."
Emergindo da tensão
Para entender como surgiu a radical experiência sonora da banda, é preciso viajar de volta a Leeds, Inglaterra, na década de 1970, onde quatro estudantes de arte – os cofundadores Gill e King, com o baixista Dave Allen e do baterista Hugo Burnham – consolidaram uma irmandade musical regada a cerveja e debates acalorados no pub The Fenton.
Naquela época, como explica King, agora com 69 anos, o partido de extrema direita britânico National Front "era muito ativo [na cidade], e Leeds estava em meio a uma efervescência social e política, com áreas antigas da cidade sendo demolidas para dar lugar a novos empreendimentos. Os moradores locais tinham a seguinte atitude: 'Malditos estudantes!'. Estávamos levando porrada da polícia nas marchas de protesto contra o National Front."
Falando por videochamada, ele segura um panfleto do conselho local, distribuído no campus da Universidade de Leeds, no final da década de 1970, que ameaçadoramente aconselhava as pessoas sobre o que fazer caso a União Soviética lançasse uma bomba de um megaton sobre a cidade. O panfleto chega a alertar que "pelo menos" 100 mil moradores locais morreriam. Como ele explica, também foi uma época em que o notório serial killer Peter Sutcliffe, apelidado de "O Estripador de Yorkshire", estava à solta na região; ele foi condenado, em 1981, pelo assassinato de 13 mulheres (incluindo Jacqueline Hill, uma estudante da Universidade de Leeds) e pela tentativa de assassinato de outras sete. "Tínhamos amigas, estudantes, que literalmente carregavam barras de ferro em suas bolsas para se protegerem", diz King. "Toda essa tensão estava sendo absorvida pelo nosso som. Entertainment! é um disco sobre jovens sorrindo e dançando diante do desastre."
Referindo-se aos versos "O pobre ainda é fraco / O rico ainda manda", de Not Great Men, uma das faixas mais dançantes de Entertainment!, influenciada pela disco music, onde a bateria reproduz o ritmo de pés marchando em uma manifestação política, Burnham acrescenta: "A verdadeira diferença para mim, Andy e Jon foi a repentina transição dos estudantes de Kent para viver no norte [da Inglaterra], uma mudança social radical. Parecia realmente que o norte tinha sido deixado para trás. Musicalmente, você sentia a responsabilidade de falar em nome das classes trabalhadoras."
A filosofia da Gang of Four remonta aos primórdios da amizade de King e Gill, quando ainda eram estudantes da Sevenoaks School, unidos pelo amor compartilhado por Jimi Hendrix e Bob Dylan. Na Universidade de Leeds, o relacionamento só se fortaleceu e, no outono de 1976, os dois estudantes britânicos de Belas Artes conseguiram uma bolsa e fizeram uma breve viagem para Nova York, onde passaram a maior parte do tempo bebendo e curtindo o CBGB, icônica casa de shows e meca do punk em Manhattan. Quando finalmente retornaram à Inglaterra, rapidamente recrutaram o colega Burnham para que, segundo King, soassem como um "tributo ao Dr. Feelgood” – referindo-se à célebre banda britânica de rhythm and blues, popular em meados da década de 1970.
No entanto, as orientações artísticas evoluíram para algo mais inovador com a introdução do baixista Dave Allen, que trouxe ao processo uma "sensibilidade do jazz e do funk". "Todos nós amávamos [o grupo de funk americano] The Meters - com suas músicas cheias de swing e irreverência, como Cissy Strut - e o reggae de Bob Marley, que havia se apresentado no refeitório da Universidade de Leeds, com capacidade para 2.000 pessoas", diz King. "Mas era importante que, em nossas músicas, houvesse um pouco de espaço para que pudéssemos amplificar a tensão."
Burnham acrescenta: "A banda de James Brown e o [baterista jamaicano] Winston Grennan inspiraram muito minha forma de tocar. A Gang of Four se tornou uma bela fusão de funk, reggae, rock, disco, punk e dub. Mas nunca quisemos soar como caras brancos simplesmente imitando [um som black]. Estávamos tentando criar algo novo."
Até o nome da banda tinha conotação política: referia-se à infame facção política maoísta, composta por quatro membros do Partido Comunista chinês, posteriormente acusados de traição. A Gang of Four, porém, estava longe de ser comunista de carteirinha. O nome pretendia ser mais um ato subversivo de provocação, refletindo como os integrantes da banda se sentiam excluídos por suas convicções políticas. Segundo o jornalista musical Simon Reynolds, em seu livro Rip It Up and Start Again, o nome simplesmente refletia "a cultura da esquerda dos anos 1970, definida pela militância estudantil".
King admite que muitas das letras das músicas carregavam uma "visão marxista alternativa". “Eu estava lendo The Action-Image of Society: On Cultural Politicization, de Alfred Willener, um livro sobre como os trabalhadores estavam sendo transformados em mercadorias. Os britânicos estavam começando a se sentir como objetos negociados por lideranças capitalistas. Você pode ouvir esse sentimento em Return The Gift: 'Está no mercado, você está na lista de preços!' O país era um desastre no final dos anos 1970. Eu queria que cada letra fosse simples, não muito diferente das manchetes de um tabloide. Elas precisavam ser fáceis de cantar, como na manipulação da propaganda.”
Por que essa música foi tão marcante
O resultado musical causou impacto imediato, com a Gang of Four, em janeiro de 1979, conquistando a cobiçada capa do semanário musical britânico New Musical Express, apesar de não ter contrato com uma grande gravadora, e ter apenas alguns singles lançados – isso mudou rapidamente quando a EMI, impressionada, a contratou e lançou o álbum em setembro. É justo dizer que a postura ácida de Natural’s Not In It, com sua narrativa sobre o consumismo causar uma dor de cabeça permanente, e os versos viscerais e despudorados de Damaged Goods (Seu beijo é tão doce / Seu suor é tão salgado / Às vezes, acho que te amo / Mas eu sei que é só tesão) causaram ondas de choque no mundo musical. Nesta última música, os fraseados arrojados e minimalistas da guitarra de Gill são aflitivos como um nervo exposto.
Em uma resenha da Rolling Stone, David Fricke escreveu que Entertainment! foi "o melhor álbum de estreia de uma banda britânica — punk ou não — desde The Clash, de 1977". Para a viúva de Gill (falecido em 2020), Catherine Mayer, jornalista e cofundadora do partido feminista britânico Women's Equality, a Gang of Four revigorou o espírito da juventude no final da década de 1970.
"Eu uso essa palavra: narrativa.", explica ela. "A Gang of Four era totalmente radical e intransigente em suas histórias. Eles nos fizeram sentir que era possível mudar o futuro. Por mais dissonante, por mais disfuncional que Entertainment! seja, ele tem riffs incrivelmente energizantes. Você ouve e sente que pode perfeitamente sair de casa e fazer do mundo um lugar melhor. É música de militância, com certeza."
Mayer argumenta que a guitarra dissonante de Gill foi fundamental para o brilhantismo duradouro da Entertainment! – diz que ele tocava como alguém que "odiava os solos longos e pretensiosos dos guitarristas do rock progressivo". O som de Gill é uma lição de contenção deliberada. Ele tocava com pequenos e controlados acessos de raiva e, justamente quando você esperava que ele fosse começar um solo, ele se retraía e se segurava. "Eu costumava provocá-lo, chamando-o de 'Sr. Angular', já que todas as críticas ressaltavam seu 'estilo angular de tocar'", ela ri.
"Ele simplesmente criou um som selvagem que era só dele", acrescenta Mayer. "Tire a guitarra, e não acredito mais que seja Gang of Four. Hoje, o DNA da guitarra do Andy está em todos os lugares. O motivo de Andy produzir Red Hot Chilli Peppers, The Futureheads, Michael Hutchence e The Stranglers foi porque todos eles queriam aquele som de Entertainment!."
Gang of Four: "o nome refletia a cultura da
esquerda dos anos 1970, definida pela militância estudantil"
Na música de protesto The Ground Below, a dupla de rap Run The Jewels (El-P e Killer Mike) sampleou a guitarra de Gill em Ether. Enquanto isso, Frank Ocean, em 2016, no álbum Futura Free, uma preciosidade pouco conhecida que quebra as regras do R&B, sampleou Anthrax. Uma das coisas que talvez tenha ajudado a apresentar a música da Gang of Four às novas gerações foi Natural’s Not In It, que apareceu nas telas de cinema em Marie Antoinette, de Sofia Coppolla, em 2006. Sua letra sobre o amor ser "comprável" se alinhava perfeitamente à descarada representação materialista do filme.
Quando pergunto a King o motivo de tantos artistas contemporâneos serem inspirados por Entertainment!, ele especula que tem a ver com o paralelo sociopolítico. "Hoje, em 2024, os jovens estão em desvantagem em todos os sentidos imagináveis. No geral, a geração mais velha está se dando bem, seja por possuir os melhores imóveis ou por ter as melhores pensões. Os jovens estão se sentindo abandonados. Entertainment! fala dessas frustrações. Tem a ver com aquela maldita barganha que todos nós fazemos, quando achamos que vamos conseguir algo sem esforço, mas não conseguimos, e então ficamos presos a esse dilema. Há muitos paralelos entre 1979 e 2024."
Parafraseando At Home He's a Tourist, alguns diriam que ser jovem hoje, como naquela época, pode ser como dar dois passos para frente e, instantaneamente, regredir seis passos para trás. "Exatamente isso!", concorda Burnham. "Mas, apesar de todas as pressões, essa música ainda é sobre aproveitar o dia. É estimulante."
O rumo que a banda tomou a partir de então
Nos primeiros anos que se seguiram a Entertainment!, a Gang of Four continuou uma presença musical inovadora. Em 1981, parodiou a cultura fast-food com Cheeseburger e, em 1982, no auge da Guerra das Malvinas, lançou a envolvente I Love A Man in a Uniform, música antimilitarista banida da rádio da BBC. Mas, à medida que a década de 1980 avançava, rumo aos anos 1990, o som da Gang of Four tornou-se mais new wave e shoegaze, com texturas mais suaves.
Tensões entre Gill e King, muitas vezes relacionadas a decisões de liderança criativa, também levaram a banda, em vários momentos, a se separar e a se reagrupar com diferentes formações, distanciando-se cada vez mais do som incomparavelmente penetrante de Entertainment!. Em 2011, a dupla se reuniu para gravar Content, primeiro álbum de estúdio em 16 anos, mas a magia, claramente, tinha desaparecido, e King saiu novamente, deixando Gill como o único membro original por mais dois álbuns. No entanto, independentemente do que se diga do material posterior da Gang of Four, Entertainment! ainda é a joia do catálogo da banda por sua firme recusa em envelhecer – e pelo impacto que ainda causa nos músicos de hoje.
King ainda se deleita ao ouvir Entertainment! porque foi a cristalização de um momento em que todos estavam na mesma página e completavam as frases uns dos outros. Para encerrar, acrescenta: "A grande genialidade de Andy consistia em levar as coisas ao limite. Ele era um perfeccionista. Talvez, mais tarde, tenha existido uma tensão entre nós, mas quando fizemos Entertainment!, estávamos sempre sorrindo. Foi um privilégio tocar aquela música com ele, Hugo e Dave. Éramos como irmãos."
A avaliação final de Mayer sobre o poder de Entertainment! é ainda mais precisa: "Vivemos em outra era de medo e turbulência. Isso torna Entertainment! incrivelmente relevante. É uma música absolutamente radical e intransigente." Citando Ether, a música do álbum que os agora adultos e experientes Burnham e King mais gostam de tocar ao vivo, Entertainment! ainda é capaz de revelar "a sujeira por trás do devaneio".











Nenhum comentário:
Postar um comentário