domingo, 11 de maio de 2025

Coronavírus: a solidão do isolamento cobra seu preço


Lições evolucionárias brutais ensinaram ao
ser humano que o isolamento social é uma sentença de morte



    Por Robin Wright / The New Yorker                                         23 de março de 2020


    Na sexta-feira, em uma coletiva de imprensa na Casa Branca, Peter Alexander, correspondente da NBC News, perguntou ao presidente Trump sobre o preço psicológico da crise da COVID-19: "Quase duzentos mortos, quatorze mil doentes, milhões, como você testemunhou, que estão assustados", disse Alexander. "O que você diria aos americanos que estão assustados, e que o estão assistindo agora?" Trump retrucou: "Eu digo que você é um péssimo repórter, é isso o que eu digo. Acho que é uma pergunta muito desagradável, e que você está dando um sinal muito ruim ao povo americano". Por semanas, o presidente pareceu alheio ao escopo da ameaça do coronavírus; agora ele parece insensível sobre a crescente ansiedade entre os americanos e ignorante sobre a fisiologia do medo, após uma semana sem precedentes na história americana, durante a qual grande parte do país fechou, a economia parou e milhões de pessoas foram instruídas a ficar em casa. Desde a semana passada, autoridades estaduais ordenaram que um em cada três americanos — que vivem na Califórnia, em Nova York, Illinois, Nova Jersey, Connecticut, Michigan e Massachusetts — permanecesse em casa. Para muitos de nós, a vida normal foi suspensa, enquanto a contagem de casos aumenta. Tudo parece terrivelmente apocalíptico — e, para a maioria, apavorante.

O prefeito de Los Angeles, Eric Garcetti, demonstrou mais compaixão do que Trump quando apelou, no mesmo dia, para que os moradores da segunda maior cidade dos Estados Unidos ficassem em casa. “Sei que houve muito choro, e não há problema em chorar”, disse ele. “Sei que houve muito medo, e não há problema em ter medo.” No sábado, o governador de Nova York, Andrew Cuomo, reconheceu o estresse psicológico e social “verdadeiramente significativo” de nossos tempos incertos. “As pessoas estão lutando com as emoções tanto quanto estão lutando com a economia”, disse ele. “Queremos começar a lidar com isso.” Ele apelou a psiquiatras, psicólogos e terapeutas que o ajudem a montar uma rede assistencial de saúde mental voluntária para pessoas ansiosas ou isoladas.

À medida que governadores de todo o país começaram a ordenar bloqueios, conversei com neurocientistas e psicólogos sobre o impacto no corpo humano — não do novo patógeno, mas dos vários estresses que o acompanham. O novo coronavírus varreu o mundo em um momento que mais pessoas estão vivendo sozinhas do que nunca na história da humanidade. Tendência que se tornou perceptível, no início do século XX, entre as nações industrializadas; e se acelerou na década de 1960. Nos Estados Unidos, os números quase dobraram nos últimos cinquenta anos, de acordo com o Our World in Data, projeto científico sem fins lucrativos que faz levantamentos sobre os problemas globais mais graves. Em 2019, 28% das famílias eram de uma única pessoa — em 1980, o índice era de 23%. Estocolmo pode representar o ápice dessa tendência: em 2012, 60% das famílias da cidade sueca tinham apenas uma pessoa. Os psicólogos observam a diferença entre viver sozinho e solidão. Eu moro sozinha e não tenho família, e geralmente não penso muito sobre isso. Mas, como o novo patógeno nos força a manter o distanciamento social, comecei a me sentir solitária. Sinto falta da habilidade de ver, conversar, abraçar ou passar tempo com amigos. A vida parece superficial, mais como sobreviver do que viver.


Se ao menos pudéssemos imitar o personagem de Tom Hanks em Cast Away (O Náufrago), que sobreviveu quatro anos abandonado em uma ilha remota com apenas uma bola de vôlei como companheira — ele apelidou-a de Wilson e desenhou nela um rosto com o sangue de sua mão. (As réplicas de Wilson se tornaram quase tão populares quanto ursinhos de pelúcia, e ainda estão à venda na Amazon e na Wilson Sporting Goods.) Mas a ciência nos mostra que a ansiedade e o isolamento cobram um preço físico dos circuitos cerebrais. Aumentam a vulnerabilidade a doenças entre pessoas que, de outra forma, não ficariam doentes — elevação de pressão arterial, frequência cardíaca, hormônios do estresse, e aparecimento de inflamações. A solidão prolongada pode até aumentar as taxas de mortalidade. Em 2015, Julianne Holt-Lunstad, neurocientista e psicóloga da Universidade Brigham Young, publicou uma análise de setenta estudos, envolvendo 3,4 milhões de pessoas, examinando o impacto do isolamento social, da solidão e da solitude (viver sozinho por opção). Os resultados foram notáveis ​​à luz da pandemia de hoje. A solidão aumentou a taxa de morte prematura em 26%; o isolamento social aumentou a taxa de mortalidade em 29%, e viver sozinho, em 32% - independente de idade, sexo, localização ou cultura.

“Tenha em mente que o foco está nos efeitos crônicos ao longo do tempo”, Holt-Lunstad me disse. “O que estamos vivenciando agora é uma interrupção em nosso padrão usual. Todos nós esperamos que isso seja temporário e não algo que se tornará um estado mais crônico.” Mas, ela alertou, o perigo é que as pessoas permaneçam isoladas depois que o risco desaparecer. Em situações nas quais os sistemas públicos de água potável se tornaram inseguros, mesmo depois que o problema foi resolvido e a água se tornou segura novamente, as pessoas não confiavam e se recusavam a consumi-la. Outro psicólogo citou sobreviventes do Holocausto que, após se mudarem para países desenvolvidos e viverem bem financeiramente, ainda acumulavam comida, devido ao trauma da 2ª Guerra Mundial, fortemente gravado em seus cérebros. “Quando saímos de um hábito, é difícil voltar”, disse Holt-Lunstad. “Então, assim como estamos preocupados com uma recessão econômica, devemos nos preocupar com uma recessão social — um padrão contínuo de distanciamento social, além da pandemia, que terá efeitos sociais mais abrangentes, particularmente nos mais vulneráveis.”

Entender a ciência ajuda. A solidão não é apenas um sentimento. É um sinal de alerta biológico que nos leva a buscar contato com outras pessoas, assim como a sede e a fome levam alguém a procurar por água e comida, disse Holt-Lunstad. Historicamente, os vínculos têm sido essenciais para a sobrevivência. Durante a pandemia do coronavírus, o sinal de solidão pode aumentar para muitos — com poucas maneiras de aliviá-lo.


A interseção de múltiplos desafios durante a crise da COVID-19 — para saúde, emprego, moradia e acesso a recursos — produziu uma confluência extrema de circunstâncias que aumenta significativamente os riscos de depressão e do tipo de transtorno de estresse pós-traumático, ou TEPT, associado a zonas de guerra ou violência física. Cerca de metade das pessoas impactadas pelo furacão Katrina, que atingiu a Louisiana e a Costa do Golfo, em 2005, desenvolveram transtornos de saúde mental devido à perda de casas, entes queridos, renda ou segurança financeira, disse-me a Dra. Sue Varma, diretora médica fundadora do programa de saúde mental do episódio do World Trade Center, na Universidade de Nova York. "Os ataques de 11 de setembro, o furacão Katrina e o tsunami no Japão foram episódios que tiveram finais com um limite. Nesta pandemia, não há um fim à vista, então é mais traumático."

O trauma é agravado porque as pessoas não têm as saídas habituais — outras pessoas — para onde recorrer. “O poder do tato libera oxitocina, o hormônio natural do contato físico, como o vínculo mãe-bebê, o orgasmo e os abraços”, disse Varma. Nas condições atuais, as pessoas não estão obtendo o mesmo nível de liberação de oxitocina do contato humano. 

Estudos mostram que as consequências da solidão para a saúde prolongada são equivalentes a fumar quinze cigarros por dia, disse Varma. A condição, que pode provocar doenças cardiovasculares, derrame, obesidade ou morte prematura, está associada a um aumento de 40% do risco de demência, concluiu um estudo de 2018, da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual da Flórida. A solidão também aumenta o risco de depressão clínica, que tem seus próprios perigos estatísticos. Apenas um episódio de transtorno depressivo maior — ou seja, duas semanas ou mais de humor depressivo, e cinco dos nove sintomas conhecidos — aumenta o risco de um segundo episódio em 50%, disse Varma. Esses sintomas incluem mau humor, perda de interesse em atividades prazerosas, sentimento de culpa, falta de energia, problemas de concentração e apetite, mudança de peso, insônia e desânimo. Dois episódios de depressão aumentam a probabilidade de um terceiro em 75% — e três episódios aumentam a probabilidade de um quarto episódio em até 95%. O ciclo da depressão se torna cada vez mais difícil de quebrar.

A pandemia está forçando a espécie humana — e nossos cérebros — a fazer o oposto do que aprendemos para sobreviver ao longo de milênios. James Coan, um neurocientista da Universidade da Virgínia, comparou a maneira como o cérebro funciona, em tempos de estresse, ao de uma salamandra. “Nas montanhas Blue Ridge, a salamandra procura por lugares frescos, escuros e úmidos. Está adaptada ao ambiente. Sabe onde encontrar comida lá. Se uma salamandra sai de debaixo da rocha para o sol, em um dia quente e seco, ela terá uma resposta de estresse — e vai querer voltar para debaixo da rocha”, disse Coan. “O dilema para nós, hoje, é que somos todos salamandras ao sol, às quais foi dito para não voltar para debaixo da rocha, porque esse habitat também é o nicho ambiental do vírus.”


A largura de nossa banda cerebral tem capacidade limitada para resolver problemas e regular emoções, disse-me Coan, que dá uma aula sobre por que as pessoas dão as mãos. E então a intensa sociabilidade serve a outro propósito: expandir a largura da banda. O cérebro processa todos os tipos de informação de forma mais eficiente na presença de outras pessoas, mesmo que estejam a dois metros de distância, do que quando estamos sozinhos ou interagindo com alguém por uma tela ou um telefone. "Praticamente, todos nós preferimos uma pessoa em carne e osso em vez de uma pessoa remota", explicou ele. "É um princípio biológico chamado economia de ação. O cérebro quer fazer algo pelo menor custo possível, e estar com outras pessoas reduz o custo de quase tudo o que ele faz." Coan descobriu que simplesmente dar as mãos a um ente querido pode diminuir a ansiedade que faz uma pessoa desencadear uma resposta ao estresse, e até mesmo reduzir a atividade na "assinatura de dor neurológica", que mede a intensidade da dor com base na atividade cerebral, resultando em um efeito analgésico comparável à medicação. O contato físico acalma a atividade emocional do cérebro, mas a conexão por videoconferência requer um circuito extra do cérebro para obter o mesmo efeito. “A videoconferência pode ajudar”, disse Coan, “mas exigirá mais trabalho do cérebro do que a presença física”.

Em seis continentes, as pessoas demonstraram ingenuidade ao fazer conexões virtuais — por meio de ZoomSkypeFaceTime e outras plataformas digitais — desde que o coronavírus se tornou global, em fevereiro. Existem sites de jogos, nos quais amigos podem competir virtualmente entre si, e clubes virtuais, em que as pessoas postam vídeos dançando a mesma música. Um vizinho me convidou, por e-mail, a participar de um coquetel virtual. No longo prazo, no entanto, recorrer a dispositivos para regular o estresse causado por distanciamento social e isolamento proporcionará ganhos cada vez menores. "Isso se manifestará como estresse — tédio com outras atividades, ou perda a paciência, ou mesmo quando esses dispositivos não fizerem mais efeito", disse Coan. "Os humanos têm essa necessidade extrema de se conectar. Nossos cérebros aprenderam com lições evolucionárias brutais que o isolamento social é uma sentença de morte."

Pode haver um subproduto positivo da pandemia. “Acredito que é uma bênção o mundo ocidental ter contraído essa doença”, disse-me Ami Rokach, psicólogo clínico da Universidade York, no Canadá. No último século, a humanidade se concentrou cada vez mais em ganhar dinheiro e acumular bens materiais, o que, especialmente com a tecnologia, levou-a a negligenciar as relações humanas. Agora que estamos repentinamente presos em casa, o melhor meio de sobreviver, psicológica e biologicamente, é interagir com as pessoas por quaisquer meios disponíveis, disse ele. Mesmo enquanto obedecia à quarentena, comuniquei-me com amigos que não via há décadas — um deles, há quarenta e cinco anos. “A solidão é uma experiência que não escolhemos. É sempre dolorosa.”, disse Rokach. “Quando terminar o período de isolamento e pudermos sair disto, não acho que a sociedade mudará. Somos aprendizes lentos como espécie. Mas sairemos disto e diremos: ‘Uau, fiz um monte de coisas boas.’ Estar junto de alguém fortalece nossos laços interpessoais, mostrando que os vínculos humanos podem ajudar a proteger nossa saúde e salvar nossa sanidade.”


Robin Wright é escritora e colunista colaboradora da The New Yorker desde 1988. 
Ilustrações de Roberto Negreiros.

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