Os povos têm o desejo de se unirem, não de se unificarem,
mas a vontade de união é manipulada pelos grupos dominantes.
Revista Rumos Junho de 1997
Para onde caminha o desenvolvimento do mundo
– e, em especial, o do Brasil -, nesses tempos de globalização mais de
incertezas do que de certezas? Como multiplicar riquezas, no plano econômico,
sem prejuízos da justiça social? Como modernizar o Estado, sem torna-lo dócil a
interesses anti-sociais? Como utilizar a técnica, sem desproteger o homem? Como
ser competitivo, sem produzir exclusão? Como alcançar a unidade, sem negar a
sua força criadora: a pluralidade? São questões cujas respostas têm, hoje, no
Brasil, poucos endereços certos. Rumos foi ao encalço de um deles – o geógrafo
Milton Santos -, um pensador que coloca a ciência que cultua nas maiores
alturas, um intelectual em estado puro. Ele nos dá, aqui, com doce firmeza, uma
lição inesquecível, forjada na insubmissão ao mal e em inabalável esperança.
***
Rumos – A derrocada da experiência comunista,
na União Soviética, foi determinante para a aceleração do processo de
globalização?
Milton Santos – A queda do Império Soviético
e do Muro de Berlim são apenas símbolos. Parece-me que o capitalismo vinha
preparando essa globalização que aí está, e, quando tudo estava pronto para que
o processo explodisse, ocorreram inúmeros fenômenos, em todo o mundo,
consolidando-a. A insistência da imprensa em magnificar esses eventos é um
convite à cegueira e à incapacidade de entender como o mundo mudou. A forma de
globalização que vem se apresentando mostra suas unhas, ao fim da Segunda
Guerra Mundial, mas sua face só aparece nos anos 80. O mundo, até recentemente,
dividia-se em milhões de pequenos lugares, com seus conjuntos de línguas,
culturas, políticas e técnicas. A história foi matando essas autarquias até que
o mundo chegasse, na década de 70, a um só sistema técnico. Foi isso que criou
as condições necessárias para o desenvolvimento da globalização, porque
permitiu que as técnicas funcionassem juntas, orientadas pela chamada técnica
informacional. Isso é o que produz as multinacionais, os bancos globais e,
também, por outro lado, culturas com vontade de se renovar. A queda do Muro de Berlin e o fim da União
Soviética são, portanto, apenas sintomas de algo muito mais profundo que
precisa ser examinado para compreendermos por que o mundo é como é. O fato de
que o mundo socialista tenha soçobrado é muito relevante, mas na verdade o
socialismo já era um subsistema do mundo capitalista. Ao aceitar competir com o
capitalismo, o socialismo estava, na verdade, dando sinal inequívoco de uma
certa aceitação do seu oponente.
Rumos – Essa unificação de técnicas
corresponde, na sua opinião, a um desejo de uniformização dos povos?
Milton Santos – Identifico, nos povos, o
desejo de se unirem, não de se unificarem. Fatos como os que se verificaram nos
Balcãs ou em Los Angeles, o ressurgimento da religião muçulmana, a resistência
das populações pobres em toda a América Latina, mostram que não existe vontade
de uniformização. Acredito, no entanto, que a vontade de união é manipulada
pelos grupos dominantes, que funcionam em proveito próprio, organizando seus
interesses e desorganizando tudo o mais.
Rumos – Quais serão os efeitos dessa
desorganização num país como o Brasil, que tem, já, grandes problemas?
Milton Santos – O Brasil não decidiu entrar
na globalização; decidiu deixar entrar a globalização – rapidamente. É de
esperar-se, portanto, que a produção da desordem se acelere. Só que essa
desordem á apresentada como ordem: a pobreza, o desemprego, a desigualdade
passam a ser considerados normais. Mas é bom notar que, num país como o Brasil,
de grande extensão territorial, a globalização não entra com facilidade. A
própria diversidade acaba tornando-se um obstáculo à globalização. O Sudeste é
muito diferente da Amazônia, do Nordeste. Mesmo dentro das regiões há imensas
diferenças de um lugar para outro. São Paulo, por exemplo, é bem diferente dos
demais estados da região Sudeste. Por outro lado, é um país cujas minorias –
ou, como prefiro chamar, as minoridades – são esmagadas: pobres, negros. Não se
pode globalizar isso. Contudo, vivemos num continente aberto. Por
“aberto” entenda-se suscetível a soluções, ideias, parâmetros estrangeiros,
nesse afã enorme de copiar a modernidade alheia. O continente latino-americano
é o mais aberto do mundo aos desígnios da Europa e, agora, dos Estados Unidos. Os
países americanos foram criados, em maior ou menor medida, transplantando gente
de fora (negros, brancos europeus) e exterminando os índios tanto quanto
possível. Com isso, criou-se algo novo, sem, no entanto, estabelecer uma relação
territorial profunda. Eis aí a fórmula de um mundo aberto. O Brasil faz parte
desse grupo de países relativamente sem defesa, tão europeus e americanos, que,
no nosso modo de pensar, seus intelectuais, com brilhantes exceções, não são
fortes o suficiente para criar ideias próprias, diferentes da velha importação
intelectual. É preciso, portanto, que o Brasil seja, do ponto de vista das suas
relações com a perversidade do mundo, menos fácil.
Rumos – A impressão que se tem, no entanto, é
a de que não se pode resistir, sob pena de sermos atropelados pela
globalização.
Milton Santos – Somos grandes demais para
sermos atropelados pelo que quer que seja.
Rumos – O Brasil manteve sua economia
protegida por décadas. Isso não seria um indício de resistência?
Milton Santos – Sim, mas a economia não é,
obrigatoriamente, o centro de tudo. Não parto da premissa economicista, porque,
aí, não há solução: Quando decidimos partir do econômico, temos que aceitar
determinados parâmetros, o que significa que, mesmo resistindo, estamos
adotando aquilo a que nos queremos opor. O centro de tudo deve ser a
resistência pura.
Rumos – O que o Brasil precisa fazer para
resistir aos efeitos perversos da globalização?
Milton Santos – Seria necessário termos um
projeto de nação – e nós não temos. Por meio dele, poderíamos traçar um
destino. Não quero dizer que seja necessário guarda-lo para sempre. Esse
projeto pode mudar, adaptar-se. Mas, se eu tenho um destino claro, para o qual
me encaminho, não vou entregar meu futuro à decisão de tal ou qual empresa,
nacional ou estrangeira, que não têm qualquer preocupação ou compromisso, a não
ser com os seus próprios interesses. Tendo um norte comum, é possível pedir à
sociedade pausas no crescimento para realizar determinadas políticas
consideradas fundamentais para o coletivo, estabelecer prazos para solucionar
problemas de interesse nacional. Um grande homem, chamado Jean Gottmann, já
disse que território é recurso e abrigo. O território brasileiro, hoje, para as
firmas globais, está sendo apenas recurso.
Rumos – O Brasil está sendo conduzido ao
sabor dos acontecimentos?
Milton Santos – Sim, e hoje mais do que
ontem, porque há, agora, empresas poderosíssimas nos convencendo de que são
indispensáveis e chantageando-nos para que se instalem em nosso território. As
empresas pressionam não só o Brasil, mas todos os países. A diferença é que, na
Europa, por exemplo, a noção de destino nacional é presente, mesmo que não seja
única. Cada país tem a sua noção de destino, e, mesmo dentro de um mesmo país,
há divergências. A extrema direita, a extrema esquerda, o centro, todos têm
alguma noção de destino nacional. A nação, portanto, discute e produz consensos
provisórios, permanentemente revistos. No Brasil, falta a institucionalização
dessa atitude. Os partidos políticos faltam a esse seu dever pedagógico.
Rumos – Do ponto de vista
geográfico-territorial-econômico, como o senhor avalia o Brasil?
Milton Santos – Vejo o Brasil extremamente
fragmentado. Há aqueles lugares que estão preparados para atender o que pedem
as grandes empresas, que representam, talvez, 0,3% das que trabalham no país.
Chegando ali, elas desmancham todas as lógicas, arrastam o gasto público, os
empregos, os comportamentos sociais, enfim, elas organizam a si próprias,
enquanto desorganizam o resto, sobretudo as demais empresas. Visto por
intermédio do território, o Brasil está num processo acelerado de
desorganização, que se reflete na desordem que vemos na agricultura, na pequena
empresa de serviço e industrial, na educação. É por ser capaz de estudar esses
fenômenos que acredito que a minha disciplina, a Geografia, pode prestar um
serviço ao país: examinando como o país se realiza, como evolui, a partir do
seu território. Isso permitirá vermos com clareza a desagregação que está
havendo.
Rumos – A reforma agrária pode ter papel
determinante na reorganização brasileira?
Milton Santos – Uma parcela enorme da
população brasileira não tem trabalho, sendo que, desses desempregados, muitos
somente podem trabalhar a terra; não têm como sobreviver na cidade. Ora, essa
parcela não pode ser abandonada à própria sorte. Então, a reforma agrária se
impõe. Claro que não é possível fazer da mesma maneira na Amazônia e no Paraná,
mas isso é outra história. Mas, que temos que ajudar essa gente a trabalhar,
temos! Não podemos deixar de ser solidários com essa parcela da população.
Rumos – Diz-se que, com a disseminação do
capitalismo pelo mundo, estamos vivendo uma espécie de fim das ideologias.
Milton Santos – Não há fim da ideologia, pelo
contrário, nunca houve ideologias tão poderosas, fortes e irresistíveis como as
do período atual. Tudo o que se faz para imitar o hegemônico tem base numa
formidável ideologia que, hoje, é preparada cientificamente. Esse, aliás, é um
dos grandes diferenciais da atualidade. Antes, as ideologias eram fruto de
longa experiência, que se renovava a partir da realidade dos povos. Hoje,
fabricada a partir do nada, ela é preparada em laboratório, a mando daqueles
que detém o poder, onde é talhada por publicitários, que se ocupam de
prepará-la e incluí-la na produção, na forma de livros, artigos, música etc. E,
como ela é baseada na ciência e na técnica, seu poder é ainda maior do que o
das ideologias anteriores.
Rumos – Essas ideologias de laboratório serão
capazes de padronizar o mundo?
Milton Santos – O principal vetor de
padronização que existe, hoje, é o consumo – estimulado pelo marketing e
potencializado pelo crédito -, que conforma nossas mentes e conduz nossas
ações. O que acontece, porém, é que mesmo o consumo comporta diferenças, porque
tem que levar em conta o fato de a sociedade ser segmentada. Por outro lado, há
uma consciência crescente de que só uma parcela da sociedade pode realizar
plenamente o consumo, o que acaba configurando um tipo de reação à
padronização. Em outras palavras: Ipanema tornou-se objeto de desejo
generalizado. Só que, em outros tempos, as telenovelas conseguiam fazer com que
as pessoas acreditassem que poderiam se tornar “ipanêmicos”. Agora, no entanto,
uma parte do público já percebe que não conseguirá chegar lá. Identifico, no
Brasil – e na América Latina, em geral -, essa consciência do alijamento do
consumo como fermento de uma novidade. Depois, entraremos alguns de nós, os
novos intelectuais comprometidos, codificando esses fatos. Além disso, o consumo não é aceito plenamente
por todas as sociedades. A Europa, os povos asiáticos e os muçulmanos, ao
contrário das sociedades latino-americanas, não o adotam com tanta facilidade
e, por conseguinte, resistem àquilo que, do meu ponto de vista, é o principal
vetor do pensamento único. Não há, portanto, unificação. Uma característica
importante das sociedades humanas é a sua capacidade de reação, frequentemente
silenciosa.
Rumos – Estão inseridos nesse contexto o
ressurgimento de movimentos fundamentalistas, radicais e separatistas?
Milton Santos – O maior fundamentalismo é o
consumo. Os outros são pequenos diante dele. O consumo nos comanda todos os
dias, todas as horas, na rua, dentro de casa, em nosso país, ou quando saímos
dele.
Rumos – Por que razão a fúria do consumo se
estabeleceu tão facilmente entre os homens? Consumir será, então, um desejo
inerente à natureza humana?
Milton Santos – Não se pode dizer que
consumir seja parte da natureza do ser humano. Até o século passado, esse hábito
não existia, simplesmente porque não havia condições para isso. Essa expansão
brutal do consumo está ligada à premissa fordista de produzir cada vez mais e
pagar melhor ao operário para que compre mais, criando as bases para a expansão
da produção em massa. Está ligado, também, ao surgimento de uma disciplina
chamada “Psicologia Econômica”, que deu impulso à expansão da publicidade,
visando estimular o consumo. Mais tarde, surge a ideia do crédito, que antecipa
e potencializa o poder aquisitivo. Assim, o consumo é criado dentro do homem,
por intermédio da propaganda, do marketing, e, depois, sai dele, homem, para
tornar-se concreto, com a ajuda do crédito. Nada disso tem relação com a
natureza humana. São todos fenômenos vinculados à história deste século.
Rumos – A violência, gerada pelos que estão
excluídos do consumo, pode ser lida como a manifestação de uma ideologia que
está surgindo?
Milton Santos – Decidimos, de um dia para
outro, dizer que os pobres são violentos. Não, não e não! Os pobres, afinal, aprenderam
um pouquinho com os ricos e poderosos e, mais recentemente, com as classes
médias. A grande violência vem das classes superiores, que sempre foram
violentas no Brasil. A sociedade brasileira é toda feita de violência: contra
índios, negros, pobres, humildes, doentes, analfabetos, uma violência
tranquila, codificada, institucionalizada, que quase já faz parte da moral
dessas classes, na medida em que se relaciona com a própria forma de
sobrexistência dela. Quer dizer, como é que eu fico rico? Como é que eu
mantenho as minhas posições na sociedade? É, sempre, por intermédio de uma
violência aceita.
Rumos – As elites dos países subdesenvolvidos
são mais violentas que as demais?
Milton Santos – Quantificar, nesse caso, é
perigoso. É mais prudente qualificar historicamente. Vamos falar não em mais ou
menos, mas nas diferenças que há entre as diversas culturas. Na brasileira,
existe uma enorme dose de cinismo, cuja origem é a mesma de tudo aquilo que,
historicamente, desemboca no fato de que este é um país que não tem cidadãos. A
elite pode agir arbitrária e tranquilamente; a classe média não busca direitos,
mas privilégios; e os pobres não têm direito algum. E as leis são feitas e
executadas de modo a manter esse estado de coisas. Creio que esse talvez seja o
traço distintivo mais determinante do conflito social brasileiro, que gera a
violência.
Rumos – O senhor não concorda que há uma
relação entre a frustração do desejo de consumir e o recrudescimento da
violência?
Milton Santos – Se assim fosse, como explicar
a violência, cada vez maior, das classes médias? Eu diria que essa manifestação
de violência, na minha opinião, é como um arroto. Sua causa não é a falta de
consumo, ao contrário, é a pletora do consumo. A violência, na minha opinião,
está muito mais ligada à decisão tomada, de alto a baixo na sociedade mundial,
de que competir é indispensável. A ideia de competição pela competição, sem
objetivos, sem finalidade, que caracteriza o mundo dos últimos 30 ou 40 anos, e
culmina com as formas atuais e perversas de globalização, gera formas de
violência no comércio, na produção, na relação existente entre países e
empresas, todas fundadas em duas formas supremas de violência que são a
violência do dinheiro em estado puro e a violência da informação. Nada é mais
violento, no mundo de hoje, do que a informação. A competição cria um mundo de
violências, materializado nessa globalização perversa a que estamos assistindo.
Rumos – De que forma a competição cria um
mundo de violências?
Milton Santos – Nem sempre ela cria
diretamente. Às vezes, ela justifica a violência, inclusive por um reflexo de
defesa. Em outras palavras: o banqueiro não quer morrer, ou seja, quer
preservar o seu banco; o industrial do aço, idem. Então, em nome da
sobrevivência, uns matam os outros e pronto. O mesmo se dá nas comunicações.
Vemos aí, hoje, como os impérios de comunicação digladiam-se, reúnem-se e,
depois, matam-se uns aos outros, e, em seguida, criam novos conjuntos, só que
não se sabe para quê. Dessa globalização perversa escorre uma competitividade
que contamina todos os níveis de relacionamento, inclusive o interpessoal,
criando formas cínicas de relacionamento.
Rumos – Diante dessa escalada aparentemente
inelutável da globalização, o senhor está pessimista em relação ao destino da
humanidade?
Milton Santos – Só não estou pessimista
porque sei que essa globalização que está aí não vai durar. O horror não dura
eternamente. A história do mundo é marcada por fases de horror e de bonança,
mas as mais longas são, sempre, as de paz, de construção do belo, em todas as
áreas da vida humana. O que vivemos hoje é, sem dúvida, uma fase de horror, às
portas da barbárie, marcada pelo aumento do desemprego, em todo o mundo. E quem
conseguiu diminuir o desemprego o fez às custas do salário médio, e mesmo do
mínimo, como é o caso dos Estados Unidos. Essa globalização exclui a maior
parte das empresas, instituições e pessoas. E retira do homem aquilo que ele
tem de mais profundo como relação objetiva, que é a sua relação com o
território.
Rumos – De que forma a globalização atinge a
relação do homem com o território?
Milton Santos – A globalização atual
desconhece o conceito de território. Ela trabalha com pontos privilegiados, que
os governos mantêm a peso de ouro, cedendo à chantagem que fazem as empresas
quando anunciam a intenção de instalar-se em determinada região. Enquanto isso,
boa parte da população segue deseducada, carente de tratamento médico, lazer,
moradia, no mundo inteiro. E nada disso impede que essas mesmas empresas saiam
do país ou região, no momento em que considerarem isso estratégico. No Brasil,
onde tudo é novo, talvez não tenhamos uma boa visibilidade disso, mas, na
Europa, em qualquer mês do ano, veem-se empresas abandonando determinadas
áreas, sem qualquer respeito pelo território no qual se abrigaram, pelas
pessoas e pelas municipalidades. O que estamos assistindo, hoje, portanto, é a
criação de uma enorme desordem global.
Rumos – Qual o papel do desenvolvimento
tecnológico na construção desse mundo caótico?
Milton Santos – É um erro responsabilizar a
técnica pela desordem. A técnica é um absoluto. Quando eu a produzo, estou
apenas criando mais uma possibilidade. Ela se realiza a partir de
condicionantes sociais, econômicas e políticas, e é isso que faz com que a
mesma técnica dê resultados diferentes em países distintos. O homem conseguiu
feitos maravilhosos nesse campo, e todos imaginávamos que, com isso, teríamos
um mundo gostoso, feliz, confortável e ético. Foi o oposto. E por quê? Porque
os centros fixos, que eram os Estados nacionais, que precisavam mostrar-se
responsáveis perante a sociedade, enfraqueceram-se. Foram substituídos por
centros frouxos, grandes empresas cujas sedes não se sabe exatamente onde
estão, e que trabalham sem qualquer responsabilidade, norteadas por princípios
estratégicos egoísticos, elaborados para a consecução dos seus objetivos.
Creio, portanto, que o problema não é a técnica, mas a sua organização e a
maneira como as estamos usando. A técnica para a informação, por exemplo, está
sendo muito mal utilizada, porque não serve para promover a correta informação
das populações.
Rumos – A velocidade da obsolescência é um
fator de exclusão?
Milton Santos – Sim. A competitividade é a
busca da verdade absoluta. Mas a pergunta central é: para quê? Não acredito que
o mundo seja, assim, tão veloz, daqui para adiante. Ele deverá reduzir as suas
velocidades, porque quanto mais velocidade, maiores as desigualdades. Porque a
velocidade da técnica vale somente para alguns e, a ela, portanto, corresponde
uma velocidade de transformação do mundo, do ponto de vista da humanidade muito
lento. Quando os presidentes latino-americanos pedem aos seus povos que não sejam
solidários com os velhos e as crianças, que é o que, na verdade, estão fazendo,
no momento em que decidem que a previdência tem que ser totalmente paga por
cada qual, isso representa um retrocesso moral. Porque mesmo a atual
globalização permitiria uma distribuição muito melhor das riquezas. Se
tivéssemos quatro vezes mais hospitais e cinco vezes mais escolas,
multiplicaríamos o número de empregos, o que favoreceria, por sua vez, o
intercâmbio de bens e serviços, criando mais empregos. O que acontece, no
entanto, é justo o contrário: as atividades que geram menos empregos são
privilegiadas, em nome dessa verdade absoluta.
Rumos – Qual será o destino dos Estados,
nesse mundo desorganizado?
Milton Santos – A sociedade precisa se manter
e, então, cria instituições que são a garantia de sua permanência. Isso é o
Estado. Decidimos, hoje, que precisamos de “menos Estado”. O fato, porém, é que
o Estado não diminuiu; ele apenas tornou-se extremamente gentil para com as
empresas, de uma maneira como nunca havia sido, fazendo tudo para que
prosperem. Note bem, isso em relação a certas empresas, não todas, porque o
Estado atual se despreocupa da maioria das empresas, assim como também relega à
segunda categoria o aspecto social, que acaba ficando com as sobras do bolo. O
que o governo brasileiro tem, hoje, para atender ao chamado social? A
Comunidade Solidária, que, apesar de ser algo generoso, trabalha com recursos
residuais, e não atua no que há de estrutural na pobreza. Será que é esse mesmo
o Estado que a situação atual exigiria? A julgar pelo que se está verificando
na Itália, Alemanha, França e Inglaterra, parece que não. Na Europa, está
havendo uma volta aos valores antigos. Mesmo nos EUA, há uma batalha, dentro do
establishment, que obrigou, por exemplo, a senhora Clinton a propor o Estado
social. Ela foi vencida, tudo bem. Mas é notável que tenha sido obrigada a
propor.
Rumos – Como o senhor descreveria o panorama
político atual que, aparentemente, parece tão unânime?
Milton Santos – Vejo as coisas assim: há a
barbárie e o humanismo. Quem é partidário da barbárie, é de direita. Quem é do
humanismo, é de esquerda.
Rumos – O senhor se sente representado por
algum segmento da classe política?
Milton Santos – O intelectual não tem que ser
representado, nem que representar. Cabe a ele ter ideias e estar pronto para
ajudar a dar o grito, no momento oportuno. Mas o intelectual não é “nós”, ele é
“eu”. Quando ele precisa consultar o outro, paralisa o processo de conhecimento
de ideias. E, se decide embarcar num grupo político, seja um partido ou
qualquer outro, é, então, devorado, comido, porque passa a ser tributário de
slogans, estratégias, táticas e, aí, adeus pensamento livre. Muitos
intelectuais brasileiros desapareceram, foram devorados, porque se tornaram
establishment. Não dá para ser, ao mesmo tempo, establishment e intelectual.
Acredito até que é possível, de vez em quando, colaborar com o Estado, quando
se está certo de ter força suficiente para voltar. Mas isso é tão difícil! O
poder produz tantos confortos!
Rumos – A corrupção é inerente ao homem ou,
hoje, o ser humano é mais corruptível do que já foi?
Milton Santos – É fundamental dizer que
corrupção não se resume a pegar dinheiro alheio. Ser incoerente é, também, uma
forma de corrupção. Nesse sentido, as condições de resistência, hoje, são muito
menores, porque temos que lutar pela nossa subsistência e a de toda a nossa
família, num quadro geral no qual o próprio trabalho já é corrupção. As
condições de trabalho do mundo conduzem, elas mesmas, o homem à alienação. Não
estou equiparando, obrigatoriamente, alienação a corrupção. Mas o fato é que a
alienação permite viver sendo corrompido. Então, no mundo, hoje, parece mais
difícil manter a integridade.
Rumos – Qual será o destino de alguém que se
opõe à globalização, um processo em franca disseminação pelo mundo?
Milton Santos – É preciso que fique claro que
não sou contrário à globalização, mas a esta globalização que está aí. Imagino
uma integração entre os povos em que a economia seja um dado subalterno, cujo
vetor principal não seja a competitividade, mas o homem. E já há indícios de
que uma outra globalização está despertando. A própria mídia dá sinais de
cansaço dos valores perversos. A ideia de que a imprensa vai se comportar
maciçamente, opondo-se às mudanças positivas, é equivocada. Os temas de que ela
está tratando, hoje, são muito mais generosos do que há cinco anos. A
desvalorização da solidariedade e o abandono de maior parte da população não
podem perdurar. Estou confiante que a solidariedade vai se recriar entre os
homens.
***
Milton Almeida Santos é um brasileiro de
Brotas de Macaúbas, no interior baiano, que se transformou num cidadão do
mundo, em parte por causa da frágil instabilidade de democracia brasileira (ele
era secretário de Estado do governo e professor da Universidade Federal da
Bahia quando foi cassado pelo golpe militar de 1964), mas, sobretudo, por
direito de sua alta competência como geógrafo e da sua extraordinária dimensão
intelectual. Exilado na Europa, durante 13 anos, lecionou nas mais importantes
universidades do Primeiro Mundo. Tem mais de 40 livros editados, em sete
países. Em 1994, recebeu uma distinção internacional, conferida, pela única
vez, a um pensador não anglo-saxão: o Prêmio Vautrin Lud, equiparado ao Nobel,
no âmbito da Geografia. Um prêmio que honra o Brasil. E coroa o talento e a
tenacidade de um brasileiro de origens simples, negro, alfabetizado pelos
próprios pais, professores primários, que conseguiu formar-se em Direito, na
sua terra, e doutorar-se em Geografia pela Universidade de Strasburgo (França).
Aos 71, professor titular da Universidade de São Paulo, Milton Santos, mais que
um nome, é uma referência intelectual para todos aqueles que sabem pensar, na
parte que conta do mundo globalizado.
Ilustrações de Roberto Negreiros.






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