quinta-feira, 22 de maio de 2025

O mundo, o Brasil e a globalização: o horror não dura eternamente


Os povos têm o desejo de se unirem, não de se unificarem, 
mas a vontade de união é manipulada pelos grupos dominantes.



    Revista Rumos      Junho de 1997

    Para onde caminha o desenvolvimento do mundo – e, em especial, o do Brasil -, nesses tempos de globalização mais de incertezas do que de certezas? Como multiplicar riquezas, no plano econômico, sem prejuízos da justiça social? Como modernizar o Estado, sem torna-lo dócil a interesses anti-sociais? Como utilizar a técnica, sem desproteger o homem? Como ser competitivo, sem produzir exclusão? Como alcançar a unidade, sem negar a sua força criadora: a pluralidade? São questões cujas respostas têm, hoje, no Brasil, poucos endereços certos. Rumos foi ao encalço de um deles – o geógrafo Milton Santos -, um pensador que coloca a ciência que cultua nas maiores alturas, um intelectual em estado puro. Ele nos dá, aqui, com doce firmeza, uma lição inesquecível, forjada na insubmissão ao mal e em inabalável esperança.

***

RumosA derrocada da experiência comunista, na União Soviética, foi determinante para a aceleração do processo de globalização?

Milton Santos – A queda do Império Soviético e do Muro de Berlim são apenas símbolos. Parece-me que o capitalismo vinha preparando essa globalização que aí está, e, quando tudo estava pronto para que o processo explodisse, ocorreram inúmeros fenômenos, em todo o mundo, consolidando-a. A insistência da imprensa em magnificar esses eventos é um convite à cegueira e à incapacidade de entender como o mundo mudou. A forma de globalização que vem se apresentando mostra suas unhas, ao fim da Segunda Guerra Mundial, mas sua face só aparece nos anos 80. O mundo, até recentemente, dividia-se em milhões de pequenos lugares, com seus conjuntos de línguas, culturas, políticas e técnicas. A história foi matando essas autarquias até que o mundo chegasse, na década de 70, a um só sistema técnico. Foi isso que criou as condições necessárias para o desenvolvimento da globalização, porque permitiu que as técnicas funcionassem juntas, orientadas pela chamada técnica informacional. Isso é o que produz as multinacionais, os bancos globais e, também, por outro lado, culturas com vontade de se renovar. A queda do Muro de Berlin e o fim da União Soviética são, portanto, apenas sintomas de algo muito mais profundo que precisa ser examinado para compreendermos por que o mundo é como é. O fato de que o mundo socialista tenha soçobrado é muito relevante, mas na verdade o socialismo já era um subsistema do mundo capitalista. Ao aceitar competir com o capitalismo, o socialismo estava, na verdade, dando sinal inequívoco de uma certa aceitação do seu oponente.

RumosEssa unificação de técnicas corresponde, na sua opinião, a um desejo de uniformização dos povos?

Milton Santos – Identifico, nos povos, o desejo de se unirem, não de se unificarem. Fatos como os que se verificaram nos Balcãs ou em Los Angeles, o ressurgimento da religião muçulmana, a resistência das populações pobres em toda a América Latina, mostram que não existe vontade de uniformização. Acredito, no entanto, que a vontade de união é manipulada pelos grupos dominantes, que funcionam em proveito próprio, organizando seus interesses e desorganizando tudo o mais. 

RumosQuais serão os efeitos dessa desorganização num país como o Brasil, que tem, já, grandes problemas?

Milton Santos – O Brasil não decidiu entrar na globalização; decidiu deixar entrar a globalização – rapidamente. É de esperar-se, portanto, que a produção da desordem se acelere. Só que essa desordem á apresentada como ordem: a pobreza, o desemprego, a desigualdade passam a ser considerados normais. Mas é bom notar que, num país como o Brasil, de grande extensão territorial, a globalização não entra com facilidade. A própria diversidade acaba tornando-se um obstáculo à globalização. O Sudeste é muito diferente da Amazônia, do Nordeste. Mesmo dentro das regiões há imensas diferenças de um lugar para outro. São Paulo, por exemplo, é bem diferente dos demais estados da região Sudeste. Por outro lado, é um país cujas minorias – ou, como prefiro chamar, as minoridades – são esmagadas: pobres, negros. Não se pode globalizar isso. Contudo, vivemos num continente aberto. Por “aberto” entenda-se suscetível a soluções, ideias, parâmetros estrangeiros, nesse afã enorme de copiar a modernidade alheia. O continente latino-americano é o mais aberto do mundo aos desígnios da Europa e, agora, dos Estados Unidos. Os países americanos foram criados, em maior ou menor medida, transplantando gente de fora (negros, brancos europeus) e exterminando os índios tanto quanto possível. Com isso, criou-se algo novo, sem, no entanto, estabelecer uma relação territorial profunda. Eis aí a fórmula de um mundo aberto. O Brasil faz parte desse grupo de países relativamente sem defesa, tão europeus e americanos, que, no nosso modo de pensar, seus intelectuais, com brilhantes exceções, não são fortes o suficiente para criar ideias próprias, diferentes da velha importação intelectual. É preciso, portanto, que o Brasil seja, do ponto de vista das suas relações com a perversidade do mundo, menos fácil.

RumosA impressão que se tem, no entanto, é a de que não se pode resistir, sob pena de sermos atropelados pela globalização.

Milton Santos – Somos grandes demais para sermos atropelados pelo que quer que seja.


RumosO Brasil manteve sua economia protegida por décadas. Isso não seria um indício de resistência?

Milton Santos – Sim, mas a economia não é, obrigatoriamente, o centro de tudo. Não parto da premissa economicista, porque, aí, não há solução: Quando decidimos partir do econômico, temos que aceitar determinados parâmetros, o que significa que, mesmo resistindo, estamos adotando aquilo a que nos queremos opor. O centro de tudo deve ser a resistência pura.

RumosO que o Brasil precisa fazer para resistir aos efeitos perversos da globalização?

Milton Santos – Seria necessário termos um projeto de nação – e nós não temos. Por meio dele, poderíamos traçar um destino. Não quero dizer que seja necessário guarda-lo para sempre. Esse projeto pode mudar, adaptar-se. Mas, se eu tenho um destino claro, para o qual me encaminho, não vou entregar meu futuro à decisão de tal ou qual empresa, nacional ou estrangeira, que não têm qualquer preocupação ou compromisso, a não ser com os seus próprios interesses. Tendo um norte comum, é possível pedir à sociedade pausas no crescimento para realizar determinadas políticas consideradas fundamentais para o coletivo, estabelecer prazos para solucionar problemas de interesse nacional. Um grande homem, chamado Jean Gottmann, já disse que território é recurso e abrigo. O território brasileiro, hoje, para as firmas globais, está sendo apenas recurso.

RumosO Brasil está sendo conduzido ao sabor dos acontecimentos?

Milton Santos – Sim, e hoje mais do que ontem, porque há, agora, empresas poderosíssimas nos convencendo de que são indispensáveis e chantageando-nos para que se instalem em nosso território. As empresas pressionam não só o Brasil, mas todos os países. A diferença é que, na Europa, por exemplo, a noção de destino nacional é presente, mesmo que não seja única. Cada país tem a sua noção de destino, e, mesmo dentro de um mesmo país, há divergências. A extrema direita, a extrema esquerda, o centro, todos têm alguma noção de destino nacional. A nação, portanto, discute e produz consensos provisórios, permanentemente revistos. No Brasil, falta a institucionalização dessa atitude. Os partidos políticos faltam a esse seu dever pedagógico.

RumosDo ponto de vista geográfico-territorial-econômico, como o senhor avalia o Brasil?

Milton Santos – Vejo o Brasil extremamente fragmentado. Há aqueles lugares que estão preparados para atender o que pedem as grandes empresas, que representam, talvez, 0,3% das que trabalham no país. Chegando ali, elas desmancham todas as lógicas, arrastam o gasto público, os empregos, os comportamentos sociais, enfim, elas organizam a si próprias, enquanto desorganizam o resto, sobretudo as demais empresas. Visto por intermédio do território, o Brasil está num processo acelerado de desorganização, que se reflete na desordem que vemos na agricultura, na pequena empresa de serviço e industrial, na educação. É por ser capaz de estudar esses fenômenos que acredito que a minha disciplina, a Geografia, pode prestar um serviço ao país: examinando como o país se realiza, como evolui, a partir do seu território. Isso permitirá vermos com clareza a desagregação que está havendo.

RumosA reforma agrária pode ter papel determinante na reorganização brasileira?

Milton Santos – Uma parcela enorme da população brasileira não tem trabalho, sendo que, desses desempregados, muitos somente podem trabalhar a terra; não têm como sobreviver na cidade. Ora, essa parcela não pode ser abandonada à própria sorte. Então, a reforma agrária se impõe. Claro que não é possível fazer da mesma maneira na Amazônia e no Paraná, mas isso é outra história. Mas, que temos que ajudar essa gente a trabalhar, temos! Não podemos deixar de ser solidários com essa parcela da população.

RumosDiz-se que, com a disseminação do capitalismo pelo mundo, estamos vivendo uma espécie de fim das ideologias.

Milton Santos – Não há fim da ideologia, pelo contrário, nunca houve ideologias tão poderosas, fortes e irresistíveis como as do período atual. Tudo o que se faz para imitar o hegemônico tem base numa formidável ideologia que, hoje, é preparada cientificamente. Esse, aliás, é um dos grandes diferenciais da atualidade. Antes, as ideologias eram fruto de longa experiência, que se renovava a partir da realidade dos povos. Hoje, fabricada a partir do nada, ela é preparada em laboratório, a mando daqueles que detém o poder, onde é talhada por publicitários, que se ocupam de prepará-la e incluí-la na produção, na forma de livros, artigos, música etc. E, como ela é baseada na ciência e na técnica, seu poder é ainda maior do que o das ideologias anteriores.

RumosEssas ideologias de laboratório serão capazes de padronizar o mundo?

Milton Santos – O principal vetor de padronização que existe, hoje, é o consumo – estimulado pelo marketing e potencializado pelo crédito -, que conforma nossas mentes e conduz nossas ações. O que acontece, porém, é que mesmo o consumo comporta diferenças, porque tem que levar em conta o fato de a sociedade ser segmentada. Por outro lado, há uma consciência crescente de que só uma parcela da sociedade pode realizar plenamente o consumo, o que acaba configurando um tipo de reação à padronização. Em outras palavras: Ipanema tornou-se objeto de desejo generalizado. Só que, em outros tempos, as telenovelas conseguiam fazer com que as pessoas acreditassem que poderiam se tornar “ipanêmicos”. Agora, no entanto, uma parte do público já percebe que não conseguirá chegar lá. Identifico, no Brasil – e na América Latina, em geral -, essa consciência do alijamento do consumo como fermento de uma novidade. Depois, entraremos alguns de nós, os novos intelectuais comprometidos, codificando esses fatos. Além disso, o consumo não é aceito plenamente por todas as sociedades. A Europa, os povos asiáticos e os muçulmanos, ao contrário das sociedades latino-americanas, não o adotam com tanta facilidade e, por conseguinte, resistem àquilo que, do meu ponto de vista, é o principal vetor do pensamento único. Não há, portanto, unificação. Uma característica importante das sociedades humanas é a sua capacidade de reação, frequentemente silenciosa.


RumosEstão inseridos nesse contexto o ressurgimento de movimentos fundamentalistas, radicais e separatistas?

Milton Santos – O maior fundamentalismo é o consumo. Os outros são pequenos diante dele. O consumo nos comanda todos os dias, todas as horas, na rua, dentro de casa, em nosso país, ou quando saímos dele.

RumosPor que razão a fúria do consumo se estabeleceu tão facilmente entre os homens? Consumir será, então, um desejo inerente à natureza humana?

Milton Santos – Não se pode dizer que consumir seja parte da natureza do ser humano. Até o século passado, esse hábito não existia, simplesmente porque não havia condições para isso. Essa expansão brutal do consumo está ligada à premissa fordista de produzir cada vez mais e pagar melhor ao operário para que compre mais, criando as bases para a expansão da produção em massa. Está ligado, também, ao surgimento de uma disciplina chamada “Psicologia Econômica”, que deu impulso à expansão da publicidade, visando estimular o consumo. Mais tarde, surge a ideia do crédito, que antecipa e potencializa o poder aquisitivo. Assim, o consumo é criado dentro do homem, por intermédio da propaganda, do marketing, e, depois, sai dele, homem, para tornar-se concreto, com a ajuda do crédito. Nada disso tem relação com a natureza humana. São todos fenômenos vinculados à história deste século.

RumosA violência, gerada pelos que estão excluídos do consumo, pode ser lida como a manifestação de uma ideologia que está surgindo?

Milton Santos – Decidimos, de um dia para outro, dizer que os pobres são violentos. Não, não e não! Os pobres, afinal, aprenderam um pouquinho com os ricos e poderosos e, mais recentemente, com as classes médias. A grande violência vem das classes superiores, que sempre foram violentas no Brasil. A sociedade brasileira é toda feita de violência: contra índios, negros, pobres, humildes, doentes, analfabetos, uma violência tranquila, codificada, institucionalizada, que quase já faz parte da moral dessas classes, na medida em que se relaciona com a própria forma de sobrexistência dela. Quer dizer, como é que eu fico rico? Como é que eu mantenho as minhas posições na sociedade? É, sempre, por intermédio de uma violência aceita.

RumosAs elites dos países subdesenvolvidos são mais violentas que as demais?

Milton Santos – Quantificar, nesse caso, é perigoso. É mais prudente qualificar historicamente. Vamos falar não em mais ou menos, mas nas diferenças que há entre as diversas culturas. Na brasileira, existe uma enorme dose de cinismo, cuja origem é a mesma de tudo aquilo que, historicamente, desemboca no fato de que este é um país que não tem cidadãos. A elite pode agir arbitrária e tranquilamente; a classe média não busca direitos, mas privilégios; e os pobres não têm direito algum. E as leis são feitas e executadas de modo a manter esse estado de coisas. Creio que esse talvez seja o traço distintivo mais determinante do conflito social brasileiro, que gera a violência.

RumosO senhor não concorda que há uma relação entre a frustração do desejo de consumir e o recrudescimento da violência?

Milton Santos – Se assim fosse, como explicar a violência, cada vez maior, das classes médias? Eu diria que essa manifestação de violência, na minha opinião, é como um arroto. Sua causa não é a falta de consumo, ao contrário, é a pletora do consumo. A violência, na minha opinião, está muito mais ligada à decisão tomada, de alto a baixo na sociedade mundial, de que competir é indispensável. A ideia de competição pela competição, sem objetivos, sem finalidade, que caracteriza o mundo dos últimos 30 ou 40 anos, e culmina com as formas atuais e perversas de globalização, gera formas de violência no comércio, na produção, na relação existente entre países e empresas, todas fundadas em duas formas supremas de violência que são a violência do dinheiro em estado puro e a violência da informação. Nada é mais violento, no mundo de hoje, do que a informação. A competição cria um mundo de violências, materializado nessa globalização perversa a que estamos assistindo.

RumosDe que forma a competição cria um mundo de violências?

Milton Santos – Nem sempre ela cria diretamente. Às vezes, ela justifica a violência, inclusive por um reflexo de defesa. Em outras palavras: o banqueiro não quer morrer, ou seja, quer preservar o seu banco; o industrial do aço, idem. Então, em nome da sobrevivência, uns matam os outros e pronto. O mesmo se dá nas comunicações. Vemos aí, hoje, como os impérios de comunicação digladiam-se, reúnem-se e, depois, matam-se uns aos outros, e, em seguida, criam novos conjuntos, só que não se sabe para quê. Dessa globalização perversa escorre uma competitividade que contamina todos os níveis de relacionamento, inclusive o interpessoal, criando formas cínicas de relacionamento.


RumosDiante dessa escalada aparentemente inelutável da globalização, o senhor está pessimista em relação ao destino da humanidade?

Milton Santos – Só não estou pessimista porque sei que essa globalização que está aí não vai durar. O horror não dura eternamente. A história do mundo é marcada por fases de horror e de bonança, mas as mais longas são, sempre, as de paz, de construção do belo, em todas as áreas da vida humana. O que vivemos hoje é, sem dúvida, uma fase de horror, às portas da barbárie, marcada pelo aumento do desemprego, em todo o mundo. E quem conseguiu diminuir o desemprego o fez às custas do salário médio, e mesmo do mínimo, como é o caso dos Estados Unidos. Essa globalização exclui a maior parte das empresas, instituições e pessoas. E retira do homem aquilo que ele tem de mais profundo como relação objetiva, que é a sua relação com o território.

RumosDe que forma a globalização atinge a relação do homem com o território?

Milton Santos – A globalização atual desconhece o conceito de território. Ela trabalha com pontos privilegiados, que os governos mantêm a peso de ouro, cedendo à chantagem que fazem as empresas quando anunciam a intenção de instalar-se em determinada região. Enquanto isso, boa parte da população segue deseducada, carente de tratamento médico, lazer, moradia, no mundo inteiro. E nada disso impede que essas mesmas empresas saiam do país ou região, no momento em que considerarem isso estratégico. No Brasil, onde tudo é novo, talvez não tenhamos uma boa visibilidade disso, mas, na Europa, em qualquer mês do ano, veem-se empresas abandonando determinadas áreas, sem qualquer respeito pelo território no qual se abrigaram, pelas pessoas e pelas municipalidades. O que estamos assistindo, hoje, portanto, é a criação de uma enorme desordem global.

RumosQual o papel do desenvolvimento tecnológico na construção desse mundo caótico?

Milton Santos – É um erro responsabilizar a técnica pela desordem. A técnica é um absoluto. Quando eu a produzo, estou apenas criando mais uma possibilidade. Ela se realiza a partir de condicionantes sociais, econômicas e políticas, e é isso que faz com que a mesma técnica dê resultados diferentes em países distintos. O homem conseguiu feitos maravilhosos nesse campo, e todos imaginávamos que, com isso, teríamos um mundo gostoso, feliz, confortável e ético. Foi o oposto. E por quê? Porque os centros fixos, que eram os Estados nacionais, que precisavam mostrar-se responsáveis perante a sociedade, enfraqueceram-se. Foram substituídos por centros frouxos, grandes empresas cujas sedes não se sabe exatamente onde estão, e que trabalham sem qualquer responsabilidade, norteadas por princípios estratégicos egoísticos, elaborados para a consecução dos seus objetivos. Creio, portanto, que o problema não é a técnica, mas a sua organização e a maneira como as estamos usando. A técnica para a informação, por exemplo, está sendo muito mal utilizada, porque não serve para promover a correta informação das populações.

Rumos – A velocidade da obsolescência é um fator de exclusão?

Milton Santos – Sim. A competitividade é a busca da verdade absoluta. Mas a pergunta central é: para quê? Não acredito que o mundo seja, assim, tão veloz, daqui para adiante. Ele deverá reduzir as suas velocidades, porque quanto mais velocidade, maiores as desigualdades. Porque a velocidade da técnica vale somente para alguns e, a ela, portanto, corresponde uma velocidade de transformação do mundo, do ponto de vista da humanidade muito lento. Quando os presidentes latino-americanos pedem aos seus povos que não sejam solidários com os velhos e as crianças, que é o que, na verdade, estão fazendo, no momento em que decidem que a previdência tem que ser totalmente paga por cada qual, isso representa um retrocesso moral. Porque mesmo a atual globalização permitiria uma distribuição muito melhor das riquezas. Se tivéssemos quatro vezes mais hospitais e cinco vezes mais escolas, multiplicaríamos o número de empregos, o que favoreceria, por sua vez, o intercâmbio de bens e serviços, criando mais empregos. O que acontece, no entanto, é justo o contrário: as atividades que geram menos empregos são privilegiadas, em nome dessa verdade absoluta.

RumosQual será o destino dos Estados, nesse mundo desorganizado?

Milton Santos – A sociedade precisa se manter e, então, cria instituições que são a garantia de sua permanência. Isso é o Estado. Decidimos, hoje, que precisamos de “menos Estado”. O fato, porém, é que o Estado não diminuiu; ele apenas tornou-se extremamente gentil para com as empresas, de uma maneira como nunca havia sido, fazendo tudo para que prosperem. Note bem, isso em relação a certas empresas, não todas, porque o Estado atual se despreocupa da maioria das empresas, assim como também relega à segunda categoria o aspecto social, que acaba ficando com as sobras do bolo. O que o governo brasileiro tem, hoje, para atender ao chamado social? A Comunidade Solidária, que, apesar de ser algo generoso, trabalha com recursos residuais, e não atua no que há de estrutural na pobreza. Será que é esse mesmo o Estado que a situação atual exigiria? A julgar pelo que se está verificando na Itália, Alemanha, França e Inglaterra, parece que não. Na Europa, está havendo uma volta aos valores antigos. Mesmo nos EUA, há uma batalha, dentro do establishment, que obrigou, por exemplo, a senhora Clinton a propor o Estado social. Ela foi vencida, tudo bem. Mas é notável que tenha sido obrigada a propor.


RumosComo o senhor descreveria o panorama político atual que, aparentemente, parece tão unânime?

Milton Santos – Vejo as coisas assim: há a barbárie e o humanismo. Quem é partidário da barbárie, é de direita. Quem é do humanismo, é de esquerda.

RumosO senhor se sente representado por algum segmento da classe política?

Milton Santos – O intelectual não tem que ser representado, nem que representar. Cabe a ele ter ideias e estar pronto para ajudar a dar o grito, no momento oportuno. Mas o intelectual não é “nós”, ele é “eu”. Quando ele precisa consultar o outro, paralisa o processo de conhecimento de ideias. E, se decide embarcar num grupo político, seja um partido ou qualquer outro, é, então, devorado, comido, porque passa a ser tributário de slogans, estratégias, táticas e, aí, adeus pensamento livre. Muitos intelectuais brasileiros desapareceram, foram devorados, porque se tornaram establishment. Não dá para ser, ao mesmo tempo, establishment e intelectual. Acredito até que é possível, de vez em quando, colaborar com o Estado, quando se está certo de ter força suficiente para voltar. Mas isso é tão difícil! O poder produz tantos confortos!

RumosA corrupção é inerente ao homem ou, hoje, o ser humano é mais corruptível do que já foi?

Milton Santos – É fundamental dizer que corrupção não se resume a pegar dinheiro alheio. Ser incoerente é, também, uma forma de corrupção. Nesse sentido, as condições de resistência, hoje, são muito menores, porque temos que lutar pela nossa subsistência e a de toda a nossa família, num quadro geral no qual o próprio trabalho já é corrupção. As condições de trabalho do mundo conduzem, elas mesmas, o homem à alienação. Não estou equiparando, obrigatoriamente, alienação a corrupção. Mas o fato é que a alienação permite viver sendo corrompido. Então, no mundo, hoje, parece mais difícil manter a integridade.

RumosQual será o destino de alguém que se opõe à globalização, um processo em franca disseminação pelo mundo?

Milton Santos – É preciso que fique claro que não sou contrário à globalização, mas a esta globalização que está aí. Imagino uma integração entre os povos em que a economia seja um dado subalterno, cujo vetor principal não seja a competitividade, mas o homem. E já há indícios de que uma outra globalização está despertando. A própria mídia dá sinais de cansaço dos valores perversos. A ideia de que a imprensa vai se comportar maciçamente, opondo-se às mudanças positivas, é equivocada. Os temas de que ela está tratando, hoje, são muito mais generosos do que há cinco anos. A desvalorização da solidariedade e o abandono de maior parte da população não podem perdurar. Estou confiante que a solidariedade vai se recriar entre os homens.

***


    Milton Almeida Santos é um brasileiro de Brotas de Macaúbas, no interior baiano, que se transformou num cidadão do mundo, em parte por causa da frágil instabilidade de democracia brasileira (ele era secretário de Estado do governo e professor da Universidade Federal da Bahia quando foi cassado pelo golpe militar de 1964), mas, sobretudo, por direito de sua alta competência como geógrafo e da sua extraordinária dimensão intelectual. Exilado na Europa, durante 13 anos, lecionou nas mais importantes universidades do Primeiro Mundo. Tem mais de 40 livros editados, em sete países. Em 1994, recebeu uma distinção internacional, conferida, pela única vez, a um pensador não anglo-saxão: o Prêmio Vautrin Lud, equiparado ao Nobel, no âmbito da Geografia. Um prêmio que honra o Brasil. E coroa o talento e a tenacidade de um brasileiro de origens simples, negro, alfabetizado pelos próprios pais, professores primários, que conseguiu formar-se em Direito, na sua terra, e doutorar-se em Geografia pela Universidade de Strasburgo (França). Aos 71, professor titular da Universidade de São Paulo, Milton Santos, mais que um nome, é uma referência intelectual para todos aqueles que sabem pensar, na parte que conta do mundo globalizado.

Ilustrações de Roberto Negreiros.
 


Nenhum comentário:

Postar um comentário