"Dez vez em quando, especialmente à noite,
a solitude perde seu efeito aprazível e a solidão toma conta."
(Ilustração de Antoine Maillard)
Por Donald Hall / The New Yorker 15 de outubro de 2016
Aos oitenta
e sete anos, estou só. Moro sozinho em um andar da casa da fazenda de 1803, onde
minha família morou desde a Guerra Civil. Depois que meu avô morreu, minha avó
Kate morou aqui sozinha. Suas três filhas a visitavam. Em 1975, Kate morreu, aos
noventa e sete anos, e eu assumi a casa. Quarenta e poucos anos depois, passo
meus dias sozinho em uma de duas cadeiras. De uma poltrona azul estofada na
minha sala de estar, olho pela janela o velho celeiro sem pintura, dourado e
vazio de suas vacas e Riley, o cavalo. Olho uma tulipa; olho a neve. Na cadeira
mecânica, escrevo estes parágrafos e dito cartas. Também assisto ao noticiário
da televisão, muitas vezes sem ouvir, e me deito no enorme conforto da solitude. As pessoas querem vir me visitar, mas, na maioria das vezes, eu as recuso,
preservando meu silêncio contínuo. Linda vem duas noites por semana. Meus dois
melhores amigos de New Hampshire, que moram no Maine e em Manhattan, raramente
aparecem. Algumas horas por semana, Carole lava minhas roupas, conta meus
comprimidos e limpa minha bagunça. Anseio pela sua presença e sinto alívio
quando ela vai embora. Às vezes, especialmente à noite, a solitude
perde seu efeito aprazível e a solidão toma conta. Sou
grato quando a solitude retorna.
Nascido em 1928, eu era filho único. Durante a
Grande Depressão, havia muitos, e a Escola Primária de Spring Glen tinha oito
séries de crianças sem irmãos. De vez em quando, eu fazia um amigo durante a
infância, mas as amizades nunca duravam muito. Charlie Axel gostava de fazer
aeromodelos com madeira balsa e papel de seda. Eu também, mas era desajeitado,
e pingava cola no papel das asas. Os aeromodelos dele voavam. Mais tarde, colecionei
selos, e Frank Benedict também. Eu me cansei dos selos. Na sétima e oitava
série, havia meninas. Lembro-me de ficar deitado com Barbara Pope em sua cama, completamente
vestidos e separados, enquanto sua mãe nos olhava com ansiedade. Na maioria das
vezes, eu gostava de ficar sozinho depois da escola, sentado na penumbra da sala
de estar. Minha mãe estava fazendo compras ou jogando bridge com amigos; meu
pai cuidava das contas em seu escritório; eu sonhava acordado.
No verão, saía do meu subúrbio, em Connecticut, para aproveitá-lo
ao máximo com meu avô em sua fazenda, em New Hampshire. Eu o observava ordenhando
sete vacas holandesas, de manhã e à noite. Para o almoço, preparava um
sanduíche de cebola — uma grossa tira entre fatias de pão Wonder Bread. Já
falei desse sanduíche antes.
Aos quinze anos, fui para Exeter para os dois
últimos anos do ensino médio. Exeter era academicamente difícil e tornava
Harvard fácil, mas eu a odiava — quinhentos garotos idênticos morando em duplas
por quarto. A solitude era rara, e eu me esforçava para encontrá-la. Fazia
longas caminhadas sozinho, fumando charutos. Encontrei um raro quarto
individual e fiquei lá o máximo que pude, lendo e escrevendo. No sábado à
noite, o resto da escola estava sentado na quadra de basquete, assistindo a um
filme delirantemente. Eu permanecia no meu quarto, em prazer solitário.
Na faculdade, os dormitórios tinham quartos de
solteiro e de casal. Por três anos, morei em um quarto abarrotado de tudo o que
eu tinha. Durante meu último ano, consegui garantir uma suíte individual:
quarto, sala de estar e banheiro. Em Oxford, eu tinha dois quartos só para mim.
Todo mundo tinha. E então consegui bolsas de estudo. E então escrevi livros.
Finalmente, para meu desgosto, tive que procurar um emprego. Com minha primeira
esposa — as pessoas se casavam jovens naquela época; tínhamos vinte e vinte e
três anos —, estabeleci-me em Ann Arbor, ensinando Literatura Inglesa na
Universidade de Michigan. Eu adorava andar de um lado para o outro no
auditório, conversando sobre Yeats e Joyce ou lendo em voz alta os poemas de
Thomas Hardy e Andrew Marvell. Esses prazeres dificilmente eram solitários, mas
em casa eu passava o dia em um minúsculo quarto no sótão, trabalhando em
poemas. Minha esposa, extremamente inteligente, era mais matemática do que
literária. Morávamos juntos e amadurecemos distanciados um do outro. Pela única
vez na minha vida, apreciei encontros sociais: a cultura de coquetéis de Ann
Arbor. Eu esperava ansiosamente pelos fins de semana, pelas festas com muita
gente que permitiam que eu ficasse longe de meu casamento. Houve duas ou três
ocasiões assim, na sexta-feira e mais no sábado, permitindo que os casais
migrassem de sala em sala. Flertávamos, bebíamos, conversávamos – sem nos
lembrarmos, no domingo, do que tínhamos dito no sábado à noite
Depois de dezesseis anos de casamento, minha esposa
e eu nos divorciamos.
Por cinco anos, fiquei sozinho novamente, mas sem o
conforto da solitude. Troquei as misérias de um casamento ruim pelas misérias
do bourbon. Namorei uma amiga que bebia duas garrafas de vodca por dia. Namorei
três ou quatro mulheres por semana, ocasionalmente três por dia. Minha produção
poética diminuiu e parou. Tentei pensar que vivia uma feliz licenciosidade. Mas
não vivia.
Jane Kenyon era minha aluna. Era inteligente,
escrevia poemas, era engraçada e participativa nas aulas. Eu sabia que ela morava em
um dormitório perto da minha casa, então, uma noite, a convidei para tomar
conta de minha casa enquanto eu participava de uma reunião de uma hora. (Em Ann
Arbor, era o ano do roubo de casas.) Quando voltei, fomos para a cama.
Desfrutamos um do outro, tanto das liberdades libertinas quanto dos prazeres da
carne. Mais tarde, convidei-a para jantar, o que, em 1970, sempre incluía café
da manhã. Nos víamos uma vez por semana, ainda namorando outras pessoas, depois
duas vezes por semana, depois três ou quatro vezes por semana, e não víamos
mais ninguém. Uma noite, falamos de casamento. Rapidamente mudamos de assunto,
porque eu era dezenove anos mais velho e, se nos casássemos, ela ficaria viúva
por muito tempo. Nos casamos em abril de 1972. Moramos em Ann Arbor por três
anos e, em 1975, deixamos Michigan e viemos para New Hampshire. Ela adorou esta antiga
casa da minha família.
Por quase vinte anos, acordei antes de Jane e levei
café para ela na cama. Quando ela se levantava, passeava com Gus, o cachorro.
Então, cada um se retirava para escrever em escritórios que ficavam nas
extremidades opostas da casa de dois andares. O meu ficava no térreo, na
frente, ao lado da Rota 4. O dela ficava no segundo andar, nos fundos, ao lado
do antigo pasto da Ragged Mountain. Na separação da nossa dupla solitude, cada
um escrevia poesia pela manhã. Almoçávamos, comendo sanduíches, e saíamos para caminhar,
sem falar um com o outro. Depois, tirávamos um cochilo de vinte minutos, renovando
energia para o resto do dia, e acordávamos para a nossa trepada diária. Depois,
eu sentia vontade de ficar abraçado, mas o clímax de Jane dava a ela mais energia. Ela corria da cama para o escritório.
Várias horas depois, voltei à minha mesa para trabalhar. No final da tarde, li em voz alta para Jane por uma hora. Li Prelude,
de Wordsworth, The Ambassadors, de Henry James, duas vezes, o Antigo
Testamento, William Faulkner, mais Henry James, poetas do século XVII. Antes do
jantar, tomei uma cerveja e dei uma olhada na The New Yorker, enquanto Jane
cozinhava tomando uma taça de vinho. Sem pressa, ela preparou um jantar
delicioso — talvez costeletas de vitela com molho de cogumelos e alho, talvez
aspargos frescos da horta do outro lado da rua — e então me pediu para levar
nossos pratos para a mesa enquanto acendia a vela. Durante o jantar,
conversamos sobre nossos respectivos dias.
Passávamos as tardes de verão ao lado do Lago
Eagle, numa praia minúscula, entre sapos, martas e castores. Jane deitava-se ao
sol, bronzeando-se, enquanto eu lia livros numa espreguiçadeira de lona. De vez
em quando, mergulhávamos no lago. Às vezes, para um jantar mais cedo, assávamos
salsichas num hibachi. Após vinte anos de um casamento extraordinário, vivendo
e escrevendo juntos, em dupla solitude, Jane morreu de leucemia aos 47 anos, em
22 de abril de 1995.
Hoje é 22 de abril de 2016, e Jane faleceu há mais
de duas décadas. No início deste ano, aos oitenta e sete anos, lamentei por ela como nunca antes. Eu estava doente e pensei que estava morrendo. Durante todos
os dias de seu definhamento, fiquei lado dela — um ano e meio. Foi muito triste Jane morrer tão jovem, e foi redentor poder estar com ela a cada hora de cada
dia. Em janeiro passado, lamentei novamente, desta vez porque ela não estaria
sentada ao meu lado enquanto eu morresse.
Donald Hall foi um escritor, poeta, editor e
crítico literário norte-americano que faleceu em 23 de junho de 2018, aos 89
anos.

Nenhum comentário:
Postar um comentário