Uma inesquecível coleção de canções na forma de contos
ambientados num Oeste Americano decadente e mitológico
Por Andy Cush / Pitchfork 2 de abril de 2023
"Desperados Under the Eaves", o conto de apocalipse pessoal e
ecológico que permanece como a grande canção do cantor-compositor Warren Zevon, se passa no Hollywood Hawaiian Hotel, onde, às vezes, ele se hospedava — o tipo
de espelunca decadente de Los Angeles onde se sentia em casa. Após uma
introdução orquestral e alguns versos sobre margaritas e uma xícara de café
vazia, há um lampejo premonitório com harmonias à la Beach Boys e um acompanhamento que ganha intensidade dramática junto com a voz de Zevon:
“And if California slides
into the ocean / Like the mystics and statistics say it will / I predict this
hotel will be standing / Until I pay my bill”
(“E se a Califórnia deslizar para o oceano / Como dizem místicos e estatísticos
/ Suponho que este hotel ficará em pé / Até que eu pague a minha conta”)
A letra, como muitas outras de Zevon, reveste de significado mitológico uma cena de devassidão e
turbulência da vida real. Durante o período de
seis anos entre o fracassado primeiro álbum e o extraordinário segundo, ele saboreou
intensamente as várias tentações que Los Angeles oferecia no início dos anos
1970. Seu apetite por bebida, maconha, ácido, sexo e brigas o levou a
frequentes separações da mãe de seu primeiro filho, nascido quando então tinha 22 anos. Durante uma colossal ressaca, ele se encontrava enclausurado no
Hollywood Hawaiian quando percebeu que não tinha dinheiro suficiente para pagar
a conta. Um amigo veio e o ajudou a fugir pela janela.
Segundo a lenda, ele voltou anos depois para se redimir. Embora Warren Zevon, o álbum, tenha
tido um sucesso comercial apenas razoável quando foi lançado em 1976, Warren Zevon, o autor, continuava
nas manchetes dos jornais. Os críticos o aclamavam como um novo grande talento. Sua ambição de
compositor, sua acuidade literária e seu comportamento libertino
implacável ajudaram a diferenciá-lo dos demais cantores-compositores da cena de
soft rock de Los Angeles que ele frequentava há anos. O hotel não quis aceitar
o dinheiro desse rock star em ascensão. Em vez disso, aceitou algumas
cópias do álbum que termina em "Desperados Under the
Eaves".
Nessa fase relativamente inicial de sua vida, Zevon já havia acumulado
dívidas substanciais, financeiras e emocionais, e continuaria acumulando-as por
muito tempo. Somente aqueles que o conheceram bem podem dizer com alguma
autoridade se a música que ele deixou é suficiente para pagá-las — os
amigos que ele afastou, a esposa que ele submeteu a agressões e ameaças de
suicídio quando estava bêbado, os filhos que ele praticamente abandonou, e quem
quer que estivesse por perto quando se entregava ao hábito de manusear seu
revólver em ambientes fechados, só por brincadeira. O álbum homônimo, pelo menos,
pagou a conta do Hollywood Hawaiian.
Às vezes, Zevon parecia ver sua própria história como uma espécie de
fábula escrita pelo destino ou pelo protagonista condenado, se é que essas duas
entidades poderiam ser separadas. "Venho escrevendo esse papel para mim
mesmo há trinta anos, e acho que preciso interpretá-lo", brincou ao saber,
aos 55 anos, do mesotelioma que logo o mataria. Adote a visão
zevoniana e você poderá se perguntar se alguma dívida cósmica, maior do que a
do Hollywood Hawaiian, ainda não foi paga. O autor e herói trágico desta fábula
não está mais entre nós. Desde que ele lá se hospedou, há décadas, o hotel
mudou de nome. Mas o prédio continua em pé.
Natal de 1956: Sem avisar, um jogador profissional, envolvido com a
máfia, chega à casa da esposa e do filho de 9 anos. Ele traz um piano vertical
Chickering, recebido como prêmio, após uma noite inteira de pôquer, e presenteia
o menino com o que seria seu primeiro instrumento musical. A mãe, Beverly, não
aceita, talvez porque o pai seja apenas uma presença esporádica em suas vidas.
Ela chama o piano de "máquina de dor de cabeça" e ordena ao marido que o tire de casa. O nome do marido é William, mas seus amigos íntimos o chamam de
Stumpy — um nome tirado diretamente dos romances policiais baratos que seu
filho viria a amar. Stumpy Zevon pega a faca de trinchar, reservada para o peru
de Natal, e a arremessa na direção da cabeça de Beverly. Erra por poucos
centímetros. Ela foge, e Stumpy sai rapidamente da casa, dizendo ao filho que, desta
vez, não voltará. Certamente, o jovem Zevon está traumatizado. Mas, pelo menos,
tem um piano.
Música, violência, criação e destruição permaneceram entrelaçadas
durante grande parte de sua vida. Logo após aquele Natal, ele se apegou ao
piano, e mais tarde ao violão, construindo uma reputação de prodígio que, por
fim, e de forma improvável, chegou ao conhecimento de Igor Stravinsky, talvez o
maior compositor clássico do século XX, um expatriado russo-francês que vivia
em Los Angeles. Zevon, aos treze anos, teve algumas aulas de composição e
apreciação musical na casa de Stravinsky. Em mais uma reviravolta simbólica e
contundente no mito de Zevon como um gênio autodestrutivo, foi em um desses
encontros com o mais alto escalão da criação musical que ele bebeu álcool pela
primeira vez, substância que, mais tarde, ele acreditou ser o combustível de
sua criatividade, mesmo que o devastasse.
Beverly acabou encontrando um novo parceiro. Além magoar abertamente
seu filho, e às vezes agredi-lo, ele mantinha a casa abastecida com a bebida alcoólica que acabaria se tornando o suprimento clandestino do adolescente Zevon. Cerca de
uma década depois, enquanto se preparava para gravar Warren Zevon, ele chegava a consumir um
litro de vodca por dia.
A segunda música do álbum é um relato explícito do casamento caótico dos
pais do autor. "Mama Couldn't Be Persuaded" não é sombria, nem
particularmente séria; ao contrário, é positivamente alegre. O refrão deleita-se com sua
própria assonância e aliteração — “Mama couldn’t be persuaded when they pleaded
with her, ‘Daughter, don’t marry that gambling man’” (“Mamãe não poderia ser
persuadida quando imploravam a ela, 'Filha, não se case com aquele jogador’”). O
vocal de apoio canta, à tirolesa, a palavra "mama". Um violino ressoa
nos intervalos instrumentais. Quem não conhece a biografia de Zevon pode
confundi-la com "Frank and Jesse James", música ambientada no Velho
Oeste que abre álbum. Seus algozes de infância são reduzidos, pela distância do
tempo e pela ironia, a arquétipos inofensivos e até risíveis.
Um trecho de "Mama Couldn't Be Persuaded", em particular,
faz alusões a amargura que Zevon ainda devia carregar em relação à sua família e à escolha de ficar longe dela nos anos que se seguiram: “His parents
warned her, try to reason with her / She was determined that she wanted Bill /
They’d all be offended at the mention still / If they heard this song, which I
doubt they will” (“Os pais avisaram, tentaram argumentar / Ela estava
determinada que queria Bill / Todos ficariam ofendidos pelo assunto ainda vir à
tona / Se ouvissem essa música, coisa que duvido que façam”).
Dependendo da perspectiva, Zevon poderia parecer um
veterano, ou uma nova promessa, naquele início dos anos 70, passado entre apartamentos e hotéis de
Hollywood. Ele abandonou o ensino médio, emplacou, aos 19 anos, um sucesso modesto como integrante da dupla de folk psicodélico lyme & cybelle (Zevon, ferrenho
admirador de e.e. cummings, insistiu em não usar letras maiúsculas), e outro como compositor dos Turtles; uma terceira música de sua autoria - “She Quit Me”, na
voz de Leslie Miller, com o título alterado para “He Quit Me” – tornou-se um dos destaques
da trilha sonora do filme Midnight Cowboy, cujo álbum ganhou o Disco de Ouro.
Mas o sucesso inicial se transformou em fracasso precoce. Seu
primeiro álbum solo, Wanted Dead or Alive, de 1970, que quase ninguém comprou
ou ouviu, era uma mistura de hard rock psicodélico e blues que guardava
pouquíssima semelhança com as obras-primas que viriam a seguir. Sem contrato
com uma gravadora, ele encontrou um trabalho seguro, mas sem glamour, como
líder da banda que acompanhava os Everly Brothers, criadores de sucessos dos
anos 50 e início dos 60 que bebiam e brigavam sem parar: heróis decadentes
de uma era anterior, como personagens de uma canção de Warren Zevon.
Zevon e Crystal, sua esposa, numa tentativa de escapar do mau
comportamento que Los Angeles despertava em ambos, compraram duas passagens, só
de ida, para a Espanha, onde esperavam começar uma vida nova e mais tranquila. Aparentemente,
sua carreira de artista musical, que mal havia começado, já estava encerrada - até receber um
cartão-postal transatlântico de Jackson Browne, convidando-o a voltar para a
Califórnia com a promessa de contrato com uma gravadora. Zevon nunca parou de
compor músicas, e as tocava para quem quisesse ouvir. Em seus anos como músico
de meio período e festeiro profissional, ele construiu uma lista impressionante
de amigos e admiradores. O cantor e compositor Browne estava entre eles, e já era
uma estrela. Foi ele quem convenceu David Geffen, autointitulado patrono benevolente da cena
de Los Angeles, a dar uma chance a Zevon em sua gravadora, a Asylum. Além disso, Browne se
ofereceu para atuar como produtor do álbum.
Mas, até que ponto essa lista de admiradores impressionava? Veja os
créditos em Warren Zevon. Lindsey Buckingham e Stevie Nicks, com quem Zevon
dividiu um apartamento por um tempo. Don Henley, Glenn Frey, Phil Everly,
Bonnie Raitt. O próprio Carl Wilson, que cantou e escreveu o arranjo das
harmonias dos Beach Boys em "Desperados Under the Eaves". Zevon não
era nem remotamente famoso na época; tirando o envolvimento de Browne nos
bastidores, não havia garantia de que o álbum seria um sucesso. Essas pessoas
estavam lá porque acreditavam no trabalho de Zevon, uma mistura singular de
narrativa contundente, conhecimento melódico da velha guarda e rock'n'roll vibrante.
Isso e o fato de que as sessões de gravação eram uma festa que durava a noite
toda, regada a álcool e cocaína, o que, provavelmente, não seria um motivo que os impediria de dar uma passada pelo estúdio.

Ao lado do amigo Jackson Browne, durante
as sessões de gravação que duravam a noite toda
A decisão de retornar a Los Angeles não foi fácil. Após os tumultuados anos anteriores, a Espanha representou um idílio para Zevon e Crystal, um lugar
que eles relutavam em abandonar. Segundo Crystal, foi ele quem mais se opôs à
ideia de voltar. Enquanto se preparavam para deixar a Europa, Zevon compôs
"Backs Turned Looking Down the Path", uma joia subestimada que, mais
tarde, ele insistia ser a joia da coroa de seu catálogo - um oásis solitário
de imaculada ternura em um álbum caracterizado por nuvens escuras, desespero e
tiroteios.
“Backs Turned Looking Down the
Path” gira em torno de um casal, como os Zevons, que
decidiu deixar para trás um passado conturbado em Los Angeles para trilhar um novo caminho, tendo apenas o amor como guia. Sobrepondo-se ao delicado
som dos violões de
Buckingham e Browne, Zevon articula um verso raro, sem qualquer sinal de ironia
ou envernizado por algum tipo de impulso manifestamente literário. Ele fala simplesmente
“Nothing matters when I’m with my baby” (“Nada importa quando estou com minha
garota”), esticando a última palavra para três sílabas e segurando-a como um
amuleto contra intromissões mundanas. Devido às traições, aos abusos e ao eventual divórcio que acompanharam a
ascensão de Zevon à fama, “Backs Turned” torna-se especialmente pungente: o
último vislumbre de um novo caminho não trilhado.

Mais do que um dream team musical,
a ficha técnica do álbum é uma lista de admiradores
O lamento do heroinômano de "Carmelita" é tão perfeitamente
escrito quanto uma canção pode ser. Seu protagonista está sentado ao lado do
rádio no Echo Park, ouvindo música mariachi e sonhando com uma amante no
México. Penhorou sua máquina de escrever para comprar heroína, um
reconhecimento dos efeitos deletérios do abuso de substâncias para a
criatividade que o próprio compositor evitou enfrentar por mais de uma década.
Ele é um dos vários narradores do álbum que estão à beira do suicídio, uma
realidade sombria que Zevon torna palatável com um recurso de ambiguidade
linguística elegante e sinistramente divertido: "I’m sitting here playin’
solitaire with my pearl-handle deck” (“Estou sentado aqui jogando paciência com
meu cabo de pérola”). Cartas de baralho não costumam vir com cabos de pérola
ou de qualquer outro tipo.*
Este detalhe, requintadamente trabalhado, não é a primeira coisa que
você nota em "Carmelita". Você pode ouvir por anos, antes que o
verdadeiro significado de “solitaire” (“paciência”) o atinja. A primeira coisa
que você nota em "Carmelita" é o refrão, que nos atinge como o abraço
de urso de um velho amigo. É o tipo de música que parece que sempre esteve lá, gerada
espontaneamente, esperando por você para cantá-la à meia-noite - como se Zevon nunca
tivesse aparecido para escrevê-la. Você não precisa ter uma educação musical especial com Stravinsky; nem, aliás, qualquer experiência com a dependência de heroína. (O
próprio Zevon, com habitual bravata, disse que seus encontros com a heroína
equivaleram “a um breve flerte, e não a um trágico caso de amor".) Tudo o
que você precisa ter é a sensação de querer estar em outro lugar, que não aquele
em que você está, com alguém que possa te abraçar.
Durante anos, Zevon passou grande parte do seu tempo livre, entre o
álbum homônimo e os seguintes, trabalhando em uma sinfonia que nunca viu a luz
do dia, exceto por alguns interlúdios em Bad Luck Streak in Dancing School, seu
quarto álbum. Entre Wanted Dead or Alive e Warren Zevon, ele começou a
trabalhar no projeto de um disco cujo segundo lado seria dedicado inteiramente
a experimentos sonoros inusitados. O disco nunca foi lançado. Anos depois, ele idealizou
um lançamento que incorporaria a influência formal dos romances revolucionários
de Thomas Pynchon em uma música que resultasse de várias linhas narrativas e
melódicas, simultaneamente divergentes. Constrangido, ele viria a admitir, em
uma entrevista, que, em vez disso, tinha feito um álbum de rock.
Apesar de toda a habilidade literária de Zevon, e suas aspirações por
uma forma de arte supostamente superior, sua vocação e seu destino eram o
rock'n'roll — a música que funciona instintivamente, que mexe com você de
maneiras que todas as teorias não conseguem explicar. Com a ajuda de Browne e
colaboradores, Zevon criou um álbum suntuoso e sedutor, apesar de sua escrita
intrincada e temas frequentemente dolorosos. A música nunca é um mero veículo
para as palavras. O riff ascendente de guitarra de "Poor, Poor Pitiful
Me" e a melodia arrebatadora de "Hasten Down the Wind" conseguem
despertar até mesmo um ouvinte que não esteja prestando atenção ao que Zevon
está dizendo. Como vocalista, ele tem uma carismática mistura de humildade do
cidadão comum com a entrega de um showman: o solitário de óculos que
sobe ao palco e revela o incendiário frontman que se esconde em algum lugar da
sua personalidade.
Em meados dos anos 70, o rock tinha grande potencial comercial, e Zevon
não escondia sua ambição de se tornar um astro. Mas também há algo generoso na
maneira como suas músicas atingem e abraçam o público, em vez de se retraírem.
Em sua vida pessoal, Zevon era habitualmente egoísta e indulgente, mas, em sua
música, buscava dar algo aos ouvintes, algo que os tocasse profundamente.
Até mesmo uma música como "The French Inhaler", cujo narrador é
gentil à sua maneira, mostrando condescendência para com uma mulher que usa o sexo para
sobreviver em uma cidade que pouco a valoriza. O coro do vocal de apoio e a
atenção cuidadosa aos detalhes de sua existência notívaga conferem a ela uma
dignidade que algum observador bitolado da canção se recusaria a enxergar.
Zevon a compôs para Tule Livingston, mãe de seu primeiro filho. "Apesar do
tema", seu filho Jordan disse ao Guardian, "minha mãe colocava essa
música para ouvir e, depois de algumas taças de vinho, ria, dizendo: 'Não é
brilhante?'”
Los Angeles, cenário ideal para
o protagonista de aventuras e desventuras
A primeira e a última música de Warren Zevon começam com a mesma
abertura, num solo de piano, em "Frank and Jesse James", e
posteriormente com arranjo para cordas, em "Desperados Under the
Eaves". Essa perceptível reprise, juntamente com algumas imagens
recorrentes nas letras, sugere que o álbum é conceitual. O próprio Zevon o
imaginou como tal, de acordo com a biografia de C.M. Kushins, Nothing's Bad
Luck: The Lives of Warren Zevon, e pelo menos um crítico retomou o assunto na
época. "Quem poderia imaginar que um álbum conceitual sobre Los Angeles pudesse
ser espirituoso, inspirador, musical, com alguns momentos aterrorizantes, e,
acima de tudo, divertido?", escreveu Stephen Holden em sua resenha de 1976
para a Rolling Stone. Kushins expande ainda mais essa afirmação: "Apreciadas
em ordem cronológica, as músicas narram um épico definitivo do Oeste Americano."
Essa noção, assim como muitas outras nos padrões de Zevon, é ao mesmo
tempo um pouco verdadeira e um pouco absurda. Warren Zevon retrata Los Angeles
com notável vivacidade, criando um mundo totalmente noir a partir das pistas de
dança de Topanga Canyon e das barracas de frango frito do Echo Park. Deixe a
imaginação fluir, e talvez você veja os amantes separados de "Hasten Down the
Wind" trocando olhares no bar de "Join Me in L.A." Mas a unidade
temática surge da força da escrita de Zevon, e não por causa de qualquer grandiosa
narrativa sobre a construção da fronteira americana. Em "Poor, Poor
Pitiful Me", um rock malicioso sobre as prodigiosas façanhas sexuais e a
autodepreciativas de um homem, ele compara uma amante, especialmente ardilosa, a
Jesse James. A nova menção ao bandido parece mais uma espirituosa participação
especial do que um tema recorrente da obra.
Mais do que uma declaração de tese, "Frank and Jesse James" é
um prefácio atípico, a história de Warren Zevon mais distante da experiência
pessoal de seu autor. (Ele aparentemente se inspirou na época de sua
peregrinação pelo país com os Everlys.) A canção heroica, conduzida pelo piano,
constrói o arco narrativo da lenda popular dos irmãos James, descrevedo-os como Robin Hoods do Velho Oeste, em vez dos terroristas antiabolicionistas que
o registro histórico mostra que eles realmente foram. Se há um fio condutor
temático em "Frank and Jesse James", que se desenrola no restante do
disco, ele talvez resida justamente nessa evasiva: a esperança de que uma boa
história seja suficiente para apagar uma verdade execrável.
No palco, o solitário de óculos revelava o incendiário
frontman que se escondia em algum lugar da sua personalidade
“Don’t the sun look angry
through the trees?” ("O sol não parece furioso entre as
árvores?"), pergunta Zevon dez músicas depois, em "Desperados Under
the Eaves", último lampejo de luz do dia num álbum notívago, cujos raios
quentes transmitem retribuição em vez de alívio. “Don’t the trees look like
crucified thieves?” ("As árvores não se parecem com ladrões crucificados?"),
continua. “Don’t you feel like desperados under the eaves?” ("Vocês não se
sentem como bandidos foragidos?). Talvez "Frank and Jesse
James" seja o sonho do estilo de vida, nobre e aventureiro que os homens
rebeldes do álbum pensam estar levando. Em um momento de surpreendente
ousadia, "Desperados" termina com Zevon imitando o ruído de um
ar-condicionado. Seu ruído suave, massageando os sintomas lancinantes de uma
ressaca, torna-se um tema melódico apoteótico, com piano e cordas se juntando
no acompanhamento do ruído, como se fosse a música de encerramento de um filme
de cowboy, com os heróis cavalgando pela planície.
Pouco antes da orquestra do ar-condicionado, Zevon revisa um verso anterior: “Don’t the sun look angry at me?" (“O sol não parece estar furioso
comigo?"). Em Warren Zevon, há uma certa grandiosidade e egocentrismo do adicto,
especialmente na ideia de que uma coleção de canções sobre as esperanças e
fraquezas de um homem poderia contar a história de uma cidade ou de um estado
inteiro. O fracasso do álbum em corresponder a este conceito ostensivo só é
apropriado como uma coleção de canções que lidam com esperanças frustradas,
ideais não realizados e sonhos de uma vida mais romântica do que a soma de suas
tristes particularidades. Ainda bem que o álbum foi batizado de Warren Zevon,
porque é disso que realmente se trata.
A maioria das músicas de Warren Zevon são narrativas, mais contos do que
poemas. "Mohammed's Radio" é uma exceção notável. Ela destaca a
imagem única e misteriosa do profeta com seu rádio, deixando sem resposta
qualquer questão sobre seu significado literal ou simbólico. Alguns vívidos arquétipos
aparecem ocasionalmente num verso ou dois — o xerife, o idiota da aldeia, o
general e seu ajudante de ordens —, mas a música faz uma tentativa de abordar
uma condição universal: todos estão ansiosos, todos estão desesperados. Seu modo
de tratamento é na segunda pessoa. “Don’t
make you want to rock and roll all night long?“ (“Vocês não têm vontade de curtir rock and roll a noite toda?”).
Meu melhor palpite — que outros já se aventuraram a dar, antes de mim —
é que "Mohammed's Radio" é sobre o poder redentor da música. Todos se
aglomeram ao redor do alto-falante: “You’ve been up all night listening for his
drum / Hopin that the righteous might just, might just, might just come” ("Vocês
passam a noite acordados, ouvindo [o ritmo do] seu tambor / Na esperança de que os justos possam apenas, possam apenas, possam apenas vir").
Apropriadamente, Zevon e seus comparsas transmitem essa mensagem de forma mais
persuasiva no próprio som, cantando e tocando para preencher lacunas da
partitura. É a música gospel de uma igreja que tem banquetas e balcão de bar no lugar de bancos com genuflexório. A voz de Zevon e o violão de Browne entrelaçam-se delicadamente.
A dupla Nicks e Buckingham, em seu momento mais elevado, contribui com vocais
de apoio de múltiplas texturas. Bobby Keys, saxofonista e membro honorário dos
Rolling Stones, adiciona a magia de Exile on Main Street. Você praticamente consegue
ver o barman, na sala dos fundos, colocando o esfregão no balde, preparando-se
para limpar o local assim que os últimos clientes partirem.
Esse breve arrebatamento dura pouco menos de quatro
minutos, e então segue para "I'll Sleep When I'm Dead", cujo ritmo
pulsante sinaliza para o triunfo dos nossos impulsos mais destrutivos. “I’ve
got a .38 special upon the shelf / If I start acting stupid, I’ll shoot myself"
(“Tenho um 38 na estante / Se começar a agir como um idiota, dou um tiro em mim
mesmo"), rosna Zevon. Por mais que uma canção como "Mohammed's
Radio" ofereça uma graça efêmera aos músicos e aos ouvintes, sozinha, ela não
pode nos salvar. Você pode curtir rock and roll a noite toda, mas vai ter que aguentar
o tranco na manhã seguinte.
* Em “Carmelita”, Zevon dá um duplo sentido à expressão “pearl-handle
deck”. “Deck” pode se referir tanto ao conjunto de cartas de baralho, utilizado
para jogar paciência, quanto ao cabo (perolado) de um revólver.
Andy Cush trabalhou como editor colaborador na
Pitchfork. Anteriormente, foi redator sênior da Spin e redator da equipe da
Gawker. Mora no Brooklyn.








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