Há um estado permanente de superinformação, sem tempo
para a crítica da mensagem, num mundo carente de análises e reflexões
(Colagem de Ralph Steadman*, 1996)
Estes anos finais do milênio foram responsáveis pelo
aparecimento de uma nova espécie: os escravos do mercado
Wilson Luiz Sanvito
O homem está situado entre dois mundos: o mundo da
natureza e o mundo da cultura. Cultura é o que se acrescenta a natureza. É obra
do homem que, com o seu saber e o seu saber, age sobre a natureza. E dessa
interação homem/natureza surge a cultura. Esse agir sobre a natureza nem sempre
é pacífico, pois o homem, frequentemente, violenta a natureza. O ideal seria um
diálogo fecundo entre o homem e a natureza, de sorte que por meio da cultura o
homem pudesse humanizar a natureza e esta pudesse naturalizar o homem. Um rio é
natureza, um canal é cultura... Na cultura confluem e se cristalizam as
atividades humanas, tanto as objetivas como as simbólicas, em suas múltiplas
vertentes: a ciência, a técnica, a filosofia, a arte, a religião, a política, o
mito etc. A cultura é construída pela mente e pelas mãos do homem. Na moldura
cultural, o homem aparece como um ser diferenciado com suas múltiplas
instâncias. A aquisição da cultura teve início com a hominização e nunca mais
parou, pois por meio da decantação de experiências do homem o processo cultural
segue seu curso. Embora toda mudança seja traumática, porque implica numa
ruptura com a ordem estabelecida, até o início do nosso século as mudanças eram
lentas e, portanto, administráveis. O quadro atual é marcado pela babelização
dos costumes e dos conhecimentos. A cultura na Antiguidade era transmitida pela
tradição oral, depois vieram os monges copistas da Idade Média, a imprensa
gutenberguiana do Renascimento até chegar à multimídia de nossos dias. Vivemos,
como diz Morin, por força dos avanços tecnológicos, em uma sociedade acelerada,
com uma lógica de cronômetro. E essa aceleração gera efeitos colaterais, como
veremos mais adiante.
O patrimônio cultural da humanidade é muito rico,
entretanto a cultura está sujeita aos ups and downs dos períodos históricos. A
cultura helênica, por exemplo, nos deu a filosofia, a arte, o teatro, a poesia,
a política, a democracia, a dúvida socrática, o amor platônico, a lógica aristotélica,
a enteléquia, o Labirinto, o complexo de Édipo, o teorema de Pitágoras, o insight
de Arquimedes, os Deuses do Olimpo, enfim, os fundamentos da cultura Ocidental.
A Grécia moderna vive de história, turismo e azeitona.
A busca do conhecimento está balizada por quadros de
referências, que, na linguagem khuniana, da filosofia da ciência, são os
paradigmas. Este sistema de convicções vigentes sobre a realidade muda de
tempos em tempos. Segundo um conceito orteguiano, há crise histórica quando, ao
sistema de convicções revogado, nenhum outro se sucede, ficando a nova geração
desprovida de mundo, sem nenhum sistema de convicções firme em que se apoiar.
Uma espécie de “o velho está morrendo e o novo não consegue nascer”. Com a
falência das grandes narrativas ideológicas (cristianismo, marxismo,
racionalismo...), o mundo caiu num vácuo epistemológico e parece andar à
deriva, balizado pelo dilema racional versus irracional. Chesneaux chega a
afirmar: “Celebra-se a morte das grandes narrativas, mas a ideologia da grande
porcaria parece em excelente saúde”. E este enfoque é particularmente válido no
campo da cultura. Haverá uma forma canônica do conhecimento, por exemplo, a
científica, a que todas as outras terão de prestar vassalagem? A ascensão das
tecnociências responde, em grande parte, pelo fim das ideologias. Morto Deus,
morto Marx, o mundo cai no nihilismo e então tudo é permitido: individualismo
exacerbado, consumismo desenfreado. E na sociedade do consumo vale mais a alta
costura do que a alta cultura. É a lógica perversa da mercadocracia. O século
20 foi responsável pelo aparecimento de uma nova espécie: os escravos do
mercado. O mundo se livrou do nazismo, do fascismo e até do comunismo,
entretanto formas variadas de um microfascismo proliferam e se manifestam sob a
forma de racismo, xenofobia, etnocentrismo, exaltação de credos
fundamentalistas, opressão de minorias raciais... Em parte, houve substituição
das ideologias políticas pela ideologia do cientismo. E essa idolatria de
tecnociência, ao lado da economia de mercado, vem mudando o comportamento do
homem... para pior. A cultura não pode se esgotar nos conhecimentos
tecnocientíficos, mas deve ter um embasamento histórico, filosófico, social,
artístico e religioso. Com o avanço da técnica, configura-se a cultura do
especialista: microcultíssimo, microignorante. No outro extremo, temos a
alternativa irracional, representada pelo entulho das pseudociências e/ou
criptociências (psicologia popular, literatura de autoajuda, esoterismo,
astrologia, literatura pornográfica, programação neurolingusitica,
cientologia...). Neste cenário obscurantista, ocorre um verdadeiro estupro
cultural. Existe um gap entre essas duas visões de mundo. No meio do campo,
existe um imenso vazio cultural, no sentido da Kultur germânica ou da cultura
clássica da tradição francesa. É preciso ressaltar, também, a cultura popular:
a memória do povo perpetuada nas suas tradições e costumes. Esta também vem
sendo descaracterizada pelo predomínio da tecnocultura e da indústria cultural.
Hilton Japiassu, no livro A Crise da Razão e do Saber
Objetivo (Letras & Letras, São Paulo, 1996), fala no
encantamento/desencantamento/reencantamento do mundo: “O mundo era encantado
(mágico-religioso-mítico) e a ciência moderna já nasceu com um projeto de
desencantamento do mundo (por meio da racionalidade científica). O mundo foi
dessacralizado. Mas a ciência jamais conseguiu desencantar totalmente nosso
mundo. E como a tecnociência tem suas limitações, vem o apelo aos ‘princípios
energéticos’. As limitações da ciência promovem o reencantamento do mundo”.
Acho essa postulação weberiana pertinente, só que esse retorno ao
mégico-religioso se faz com uma “aculturação” à civilização da ciência e da
técnica. Os pastores eletrônicos, a astrologia informatizada são exemplos deste
tipo de aculturação.
É importante não confundir progresso humano com
progresso tecnológico. Nas sociedades pós-industriais, o cidadão vem sendo
transformado num terminal de informação. E essa avalanche de informação é
absorvida, quase epidermicamente, sem reflexão crítica e pode transformar o
usuário num mero consumidor do trash cultural. A cultura é produzida como
mercadoria e equiparada a sabão em pó ou xampu para cabelo.
A informática é a prima donna das novas tecnologias e
este ramo da tecnociência vai criando uma nova língua (hipertexto, hipermídia,
ciberespaço, multimídia, hacker, internauta, infovias...), de tal sorte que, no
terceiro milênio, quem não dominar o informatiquês será um analfabeto
funcional. A civilização da escrita exige, para organizar o pensamento, a
elaboração de conceitos e nós estamos ingressando numa sociedade digital
(iconizada) em que o homem vai sendo impregnado por signos e imagens. Fala-se,
hoje, de uma cibercultura, e um juízo valorativo deste tipo de cultura só o
tempo nos proporcionará. O certo é que existe um deslumbramento com a utopia
tecnotrônica (Computopia de Masuda) que objetiva , com a sociedade
informatizada, a supressão de todo o trabalho penoso, a descentralização
social, a restauração da família e outros presentes de Papai Noel.
Enquanto sonhamos com a utopia, temos que pôr os pés
no chão e lembrar que vivemos sob o império das telecomunicações, que se torna
cada vez mais universal e totalitário. A televisão, por exemplo, já faz parte
da nossa cultura. Para alguns, a televisão representa uma democratização da
cultura, para outros, é um instrumento de alienação e manipulação a serviço da
indústria cultural. Na televisão, os efeitos especiais são mais importantes que
o conteúdo das mensagens. É a cultura dos videoclipes. Para o sociólogo Neil
Postman, a tevê tornou-se uma metamídia que transforma nossa cultura em show
business. Além da glamurização da mensagem, há um estado permanente de
superinformação, não havendo tempo para a crítica da mensagem, que mal é
assimilada pelo telespectador. As informações e as mensagens publicitárias se
sucedem num ritmo frenético, não permitindo ao espectador a construção de um
conjunto coerente. A verdade é que vivemos num mundo saturado de informações,
mas carente de análises e reflexões. Parece que a televisão não exerce função
pedagógico-educativa, pois a aquisição de conhecimento exige empenho,
perseverança e raciocínio.
Outro bias da racionalidade científica é a
matematização do mundo. Os técnicos medem, os artistas sentem. A ciência e a
técnica são vocacionadas para a precisão, mas nem sempre os fatos da vida são
matematizáveis. A estatística, por exemplo, cada dia invade mais a vida do
cidadão comum e seus efeitos podem ser perversos para a sociedade. Para
Postman, a estatística cria uma enorme de informação completamente inútil, o
que aumenta a tarefa, sempre difícil, de localizar o que é útil para a cultura.
Isso, diz ele, é mais do que um caso de “excesso de informação”. É uma questão
de “insignificância da informação”, que tem efeito de colocar toda informação
num mesmo nível. E conclui: a diversidade, a complexidade e a ambiguidade do
julgamento humano são inimigos da técnica. Elas zombam das estatísticas, das
pesquisas de opinião, dos testes padronizados e das burocracias. E as máquinas
eliminam a complexidade, a dúvida, a ambiguidade.
Longe de mim negar o valor da estatística, quando
adequadamente utilizada e dentro de seus limites. Mas a estatística, como
qualquer outra tecnologia, tende a ser superestimada, tende a sair do controle
e ocupar espaços onde só pode causar estragos.
Também as pesquisas de opinião têm seus efeitos
perversos e são utilizadas de modo abusivo pelos meios de comunicação e pelos
institutos de pesquisa. Essas pesquisas, com frequência, utilizam metodologias
questionáveis, sendo comum que os agentes da pesquisa ignorem o que as pessoas
pesquisadas sabem sobre o tema proposto.
Some-se a isso tudo a falência do sistema educacional,
embasado em proporcionar um acúmulo de conhecimento ao educando, com o objetivo
de lhe conferir um diploma para exercer uma profissão. Não constitui uma
heresia afirmar que o diploma é o maior inimigo da cultura. Em todas as
instâncias, o sistema educacional está em crise, desde o primário até o
superior. A cultura não deve ser cumulativa, mas auto-organizadora, no sentido
de transformar a informação e o conhecimento em saberes articulados. Tornar-se
culto é uma aventura perigosa e exige transpiração. É preciso ter coragem para
exorcizar o demônio das ideias cristalizadas.
As sociedades organizadas estão perplexas, e o vazio
de ideias, ao lado do progresso técnico acelerado, vai gerando uma cultura
descerebrada. O velho está morrendo e o novo ainda é uma geleia. As elites
pensantes repudiam as teorias transcendentais, por considera-las fantasiosas,
acríticas e anticientíficas. As teorias científicas ou filosóficas
superdimensionam uma vertente do conhecimento para explicar o mundo. Nós
estamos vivendo uma etapa crucial na história do conhecimento, traduzida por
uma explosão de conhecimento fragmentado e por uma falência das teorias
totalizantes. É preciso considerar, também, que a cultura nem sempre melhora o
homem. Parece que o refinamento cultural (ao lado de outras causas) torna o
homem um ser encapsulado e, às vezes, o deteriora do ponto de vista espiritual.
Diz-se até de certos filósofos que seu amor pela humanidade apenas dissimula
sua incapacidade para amar quem quer que seja em particular. Enfim, a atitude
solidária e a ação de ajuda não estão incorporadas ao repertório comportamental
do homem moderno.
Tecnossaber ou barbárie? Cornelius Castoriadis,
filósofo greco-francês, recentemente falecido, pregava uma reforma do
“entendimento humano”, isto é, uma reforma do ser humano enquanto ser
social-histórico, um comportamento ético, uma ultrapassagem da razão. Não temos
necessidade de alguns “sábios”, diz ele. Temos necessidade de que maior número
adquira e exerça sabedoria – o que, por sua vez, exige uma transformação
radical da sociedade política, instaurando não somente a participação formal,
mas também a paixão de todos pelas questões comuns. Ora, se seres humanos
sábios é última coisa que a cultura produz. É possível mudar a humanidade? Ele
se pergunta. Não, alguma coisa mais modesta: que a humanidade se transforme,
como ela já fez duas ou três vezes, ele responde.
De qualquer maneira, o mundo não me dá uma única razão
para ser otimista. Marvin Minsky, um dos papas da inteligência artificial,
quando esteve em São Paulo há alguns anos, foi inquirido, durante uma
entrevista à imprensa, se a alta tecnologia estava tornando as pessoas mais
estúpidas. Ele respondeu, dizendo que o escritor Cyril Kornbluth escreveu uma
novela tendo como tema um mundo dominado pela tecnologia, no qual as pessoas
não tinham que trabalhar e, assim, se tornavam estúpidas. Isso também foi
vislumbrado por H.G. Wells em A Máquina do Tempo. E prosseguiu: “Não acho que
precisemos da tecnologia para chegarmos ao reino da estupidez. Já estamos nos
imbecilizando pelo culto exagerado aos esportes, pela música de má qualidade
ouvida alto, pelas religiões fundamentalistas e pela tolerância ao pensamento
acrítico”. Palavras sábias num mundo de surdos. Nós estamos vivendo uma época
surrealista: jogadores de futebol e pugilistas ganham milhões, enquanto
produtores de conhecimento e cultura mal conseguem sobreviver.
Em nosso país, a barbárie cultural é de arrepiar, pois
confundem pessoal do show business (Caetano Veloso, Chico Buarque, Jô
Soares...) com grandes pensadores. Este equívoco representa quase uma
prostituição da cultura. Eles são, inquestionavelmente, grandes artistas. Isso
é tudo.
Para fechar, eu diria que enfrentar a barbárie é uma
espécie de luta inglória. É aquele travada contra a falta de ideias. Para
Schiller, contra a estupidez até os deuses lutam em vão.
Wilson Luiz Sanvito é médico e professor.
Publicado no Caderno de Sábado/Jornal da Tarde (O Estado de S. Paulo), em 18 de abril de 1998.
*Ralph Steadman sobre a colagem "Trough of Disillusionment" que ilustra o post: “Penso que a tecnologia me atrapalhava, então criei uma espécie
de montanha de monitores de computador. Eu estava sendo dominado por tudo
aquilo. Achei que estávamos entrando em uma cova profunda. Uma vez dentro dela,
você está cercado e subjugado, perde a noção do que está
acontecendo.”





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