Ilustração de Marvin Mattelson para
o poster do filme de Martin Scorsese
"After
Hours era como um filme independente, mais curto e mais barato. Eu só queria
ver se ainda tinha energia para filmar rápido. É preciso ter uma certa paixão
para fazer Mean Streets, Taxi Driver e Raging Bull. Eu precisava reencontrá-la.”
— Martin Scorsese
Por
Koraljka Suton, 18 de junho de 2022
Quando
se pensa em Martin Scorsese, os filmes que geralmente vêm à mente são
obras-primas aclamadas e elogiadas pela crítica como Taxi Driver, Raging Bull
ou Goodfellas, filmes que definiram sua carreira como cineasta e o
transformaram em um dos diretores mais prestigiados e significativos da
história do cinema. Mas o que não passa pela cabeça da maioria das pessoas,
quando ouvem o elogio "um filme típico de Scorsese", é a joia After
Hours, a subestimada mistura de screwball comedy e film noir de 1985 que deu ao diretor o prêmio de Melhor Diretor em Cannes, e, desde então, se
tornou um clássico cult, ganhando cada vez mais reconhecimento com o
passar do tempo. No entanto, ainda menos conhecido é o fato de que, na verdade,
a história por trás da criação da comédia sarcástica de Scorsese reflete o tema
kafkiano predominante no filme. Ou seria o contrário? A história é a seguinte:
Católico devotado, e quase padre, Martin Scorsese, desde a faculdade de
cinema, queria fazer um filme sobre as provações e tribulações de Jesus Cristo.
E, em certo momento, ele aparentemente teve essa oportunidade — a produção de The
Last Temptation of Christ, baseado na adaptação de Paul Schrader do controverso
romance de Nikos Kazantzakis, de 1955, estava marcada para 1983, e o filme
seria rodado em Israel com um orçamento de US$ 114 milhões. Mas as
probabilidades não estavam a favor de Scorsese, e o projeto foi cancelado no
Dia de Ação de Graças de 1983, devido ao aumento do orçamento, bem como à
indignação de grupos religiosos que enviaram quinhentas cartas diárias à Gulf+Western, empresa que controlava a Paramount, na tentativa de sabotar a produção
do filme. Seria um eufemismo dizer que o diretor ficou decepcionado e que o
revés que experimentou o fez questionar a si mesmo e o seu futuro como
cineasta. Mas, em vez de evitar ou preencher o vazio deixado pelo cancelamento
do projeto que era a sua paixão, ele, como um verdadeiro artista, decidiu fazer
algo completamente diferente com esse vazio. Fez um filme sobre ele próprio.
Como admitiu, em uma entrevista de 1988, para Harlan Jacobson da
revista Film Comment: “Depois que The Last Temptation of Christ foi cancelado,
em 1983, eu tive que me colocar em forma novamente. Ralar. E aquilo foi ralar.
Primeiro, After Hours, em pequena escala. A ideia era que, se Last Temptation
surgisse novamente, eu deveria ser capaz de fazê-lo como After Hours, porque
esse é todo o dinheiro que eu vou conseguir por ele. Então a pergunta era: você
vai sobreviver como um cineasta de Hollywood? Porque, mesmo morando em Nova
York, eu sou um 'diretor de Hollywood'. Então, de novo, mesmo quando tento
fazer um filme de Hollywood, há algo em mim que diz: 'Vá para o outro lado.'”
Paul Hacckett (Griffin Dunne)
Sua
volta à boa forma foi After Hours, que acompanha o editor de texto Paul Hackett (Griffin Dunne) ao final de (e após) um dia de trabalho
normal e essencialmente chato. Tentando escapar do vazio existencial que é seu
cotidiano, Paul decide ligar para uma mulher que conheceu depois do trabalho, e
com quem conversou brevemente enquanto estava em um café. Animado com a
possibilidade de finalmente dar um tempo de sua vida monótona e se envolver com
uma pessoa do sexo oposto, ele chama um táxi para levá-lo à casa dela, no SoHo.
Mas assim que sai do apartamento, a noite que o espera começa a se desenrolar
de maneiras absurdas e completamente inimagináveis. Paul, rapidamente
percebendo que seu passeio havia tomado um rumo não esperado nem
desejado, tenta voltar para casa, apenas para viver uma série de situações
bizarras e conhecer pessoas que tornam seu objetivo literalmente impossível.
Cada pessoa que encontra, muitas das quais, inicialmente, têm para com ele as
melhores intenções, acaba contribuindo para uma noitada de total desorientação,
desgraça e caos.
A
própria Nova York se torna um inimigo, um labirinto gigantesco que existe com o
único propósito de transformar a noite do protagonista em um inferno (e, graças
ao fantástico trabalho do diretor de fotografia Michael Ballhaus e da editora
Thelma Schoonmaker, sentimos as chamas engolfando o personagem a cada passo, e nos
levando com ele). Seus habitantes são pessoas de diversas origens, estranhas e
peculiares, com histórias e/ou personalidades tão escandalosas e intrigantes
que facilmente fazem os espectadores se sentirem como se tivessem escorregado diretamente
para um sonho confuso e bastante desagradável. Afinal, é noite. E à medida que
a noite fica mais escura, o mesmo acontece com o estado físico e emocional de
Paul. O que é verdadeiramente fascinante sobre sua jornada aparentemente
interminável é o fato de que ele deposita sua confiança em literalmente todas
as pessoas que cruzam seu caminho, não importa quantas vezes isso não dê certo
— tão desesperado está em sua tentativa de alcançar a previsibilidade e a
segurança de seu lar. Enquanto isso, nós, espectadores, rapidamente nos damos
conta de que ninguém virá resgatá-lo, e que tudo e todos só contribuirão para a sua ruína.
A princípio, nos apegamos à esperança, mas esse vislumbre logo se
extingue, deixando em seu rastro uma frustração que persiste como uma picada de
mosquito — coçá-la só vai piorar as coisas. E After Hours realmente coça a
picada repetidamente, garantindo que não sejamos levados a sentir satisfação e
alívio sempre que Paul aparentemente encontra abrigo e salvação. Como Scorsese
explicou: “E então, este filme (...) surge
de uma sensação de estar preso num buraco e nunca ser capaz de sair, em certo
sentido, talvez nunca mais ser capaz de fazer outro grande filme ou
simplesmente continuar. Não existe essa coisa de um grande filme, é apenas um
filme, seja de 20 milhões, 100 milhões, 5 milhões, 100 mil. É preciso vender
emoções, vender ideias. Então, pense em como você poderia se sustentar
criativamente, e também onde está a sua energia. Acabei de fazer 40 anos, então
minha energia tinha que ser a mesma de 15 ou 20 anos atrás. Assim, o filme foi
completamente concebido enquanto eu estive, por cerca de uma semana, no meu loft,
com uma crise de asma.”
Essa
noção kafkiana de estar preso dentro de um sistema absurdo, sem qualquer meio
de escapar, permeia todo o filme de Scorsese, maravilhosamente elaborado, pois Paul não consegue escapar do SoHo, por mais que tente, e as
circunstâncias de seu "cativeiro" ficam cada vez mais absurdas. Os
diálogos entre Paul e o porteiro de uma boate na qual deseja entrar, bem como
uma cena entre o protagonista e um operador de caixa do metrô, são diretamente
inspirados pela obra de Kafka, refletindo o próprio processo de espera de
Scorsese pela produção de The Last Temptation of Christ, e sua frustração
diante da futilidade definitiva de tudo isso.
Mas After Hours traz outras
influências também. A já mencionada tentativa de Paul de encontrar um caminho
de volta para casa espelha a tentativa de Dorothy, de The Wizard of Oz, à qual o filme de
Scorsese chega a fazer uma sutil referência. Ao conversar com Marcy, a mulher
que conhece no café (interpretada pela incrível Rosanna Arquette), Paul
descobre que o motivo pelo qual ela não está mais com o marido é a obsessão
dele por The Wizard of Oz, que o levava a gritar, durante o sexo, "Entregue-se,
Dorothy!", toda vez que gozava. É, de fato, um engenhoso presságio
em relação ao restante de After Hours, pois se refere a uma cena em que a Bruxa
Má do Oeste ordena aos cidadãos da Cidade das Esmeraldas que entreguem a
personagem principal a ela, ou então sofreriam as consequências.
Em
breve, Paul assumirá o lugar de Dorothy, pois passará a maior parte do filme
fugindo de multidões violentas que, por acreditarem que ele é o criminoso que
rouba a vizinhança, querem a sua rendição. Mas Paul não é apenas Dorothy — ele
também é Alice no País das Maravilhas, tendo descido pela metafórica toca do
coelho em busca de aventura, apenas para acabar afundando mais profundamente do
que jamais imaginou.

No caso de Paul, a própria noite se torna um portal para
uma realidade paralela na qual ele entra após ter seguido o coelho branco na
forma de Marcy, onde todos os tipos de personagens peculiares aparecem para
brincar, todos aparentemente querendo pegá-lo. No final, sua história se revela
tão fantástica quanto a de Dorothy e Alice — em alto e bom som, soa absurda
demais para ser verdade e perturbadora demais para ser verossímil. E, no
entanto, testemunhamos tudo isso e, posteriormente, nos encontramos em um
turbilhão emocional tão intenso quanto o do protagonista.
Embora
a ideia a seguir possa parecer absurda neste momento, é importante enfatizar
que Scorsese conseguiu fazer de After Hours um filme que reflete seus próprios
sentimentos de estar preso à indústria cinematográfica, e ele é espontaneamente
engraçado. É desnecessário dizer que o riso, que inevitavelmente se segue, vem
entre lágrimas — rimos com uma intensidade nervosa, pois é o único
mecanismo de enfrentamento que nossa psique consegue reunir diante de tantos
absurdos, proporcionando-nos, assim, o mínimo alívio em meio ao pandemônio
pessoal de um homem. Rir era, afinal, a melhor coisa que o próprio Scorsese
conseguia fazer — tanto dentro quanto fora do set. Como Griffin Dunne relembra: “Eu só via Scorsese tentando segurar o riso. Ele
simplesmente achava hilário o que estava acontecendo com Paul Hackett. Sempre
me lembrava daquele momento em que ele me disse de seu filme que havia sido
cancelado: O que fazer? Apenas rir.”
Portanto, o riso não é um mecanismo de defesa
só para os espectadores, mas o próprio filme se tornou um mecanismo de defesa
para seu diretor, proporcionando a ele uma saída criativa, e a nós uma
narrativa e um tema nos quais pudemos projetar, com facilidade e prazer, nossos
próprios infortúnios, nos sentindo, por falta de palavras mais adequadas, percebidos
e compreendidos. Como disse o crítico de cinema Roger Ebert: “É a comédia mais
tensa de que me lembro, construindo seu ambiente de pesadelo, um passo traiçoeiro
após o outro, até tornar nosso riso insensato, ou defensivo.”
After
Hours foi a primeira de muitas colaborações bem-sucedidas de Scorsese com o
diretor de fotografia alemão Michael Ballhaus, que estava mais do que
familiarizado com a filmagem de filmes de baixo orçamento e cronogramas
apertados, tendo trabalhado com o diretor alemão Rainer Werner Fassbinder em
vários projetos, como Martha (1974) ou Satansbraten (1976). O filme de Scorsese
foi rodado inteiramente à noite, com alguns movimentos de câmera improvisados,
como a tomada de ponto de vista das chaves sendo jogadas para Paul da sacada de
um prédio. Considerando que o filme foi feito nos anos 1980, a tomada não pôde
ser feita digitalmente, mas teve que ser filmada por meio da fixação da câmera
em uma prancha que foi lançada em direção ao ator. Cordas foram usadas
para segurá-la no último momento, mas, infelizmente, o resultado final ficou fora
de foco. Ballhaus teve que ser criativo novamente e propôs um movimento de grua
incrivelmente rápido que funcionou.
O
próprio Scorsese disse que muitas das tomadas usadas em After Hours lembravam
Alfred Hitchcock, como vários closes, independentemente de a coisa ou
pessoa em questão ser relevante ou não. Era a maneira do diretor brincar
conosco, enfatizando deliberadamente certos detalhes, objetos ou estados
emocionais para fazer o público acreditar que tudo, filmado daquela maneira, tinha grande importância. Mas não tinha. Esse uso deliberado de uma técnica
cinematográfica não só conseguiu exibir perfeitamente o deteriorado estado de
espírito do protagonista e a paranoia avassaladora que torna cada detalhe
ameaçador, mas também serviu como uma ferramenta brilhante para incitar no público as
mesmas sensações e sentimentos de desconforto e exasperação.
Juntamente com a já mencionada editora Thelma Schoonmaker, Scorsese reduziu After
Hours de duas horas para noventa e sete minutos, resultando em um produto
neurótico e acelerado que permitiu que a edição servisse, tanto quanto o trabalho de câmera de Ballhaus, como um recurso narrativo.
O
filme de Scorsese, inicialmente intitulado A Night in SoHo, seria dirigido por
Tim Burton. Mas depois que Burton descobriu que Scorsese estava disponível para
assumir o trabalho, após o fiasco de The Last Temptation of Christ, ele
voluntariamente abandonou o projeto. After Hours foi baseado em um roteiro de
Joseph Minion, que o escreveu aos 26 anos como um trabalho para o Programa de
Pós-Graduação em Cinema da Columbia. O roteiro que Scorsese recebeu,
inicialmente, se chamava Lies, mas sua estrutura de enredo, assim como uma
grande quantidade de diálogos, foi, na verdade, retirada diretamente de um
monólogo de 1982, de autoria do radialista Joe Frank, do NPR Playhouse, que nunca teve
crédito. Após entrar com uma ação judicial, Frank não recebeu o crédito oficial,
mas foi generosamente pago em um acordo. Scorsese fez alguns ajustes finais no
roteiro, e o filme recebeu o título que leva hoje. O único problema do roteiro
era o seu final. Sem ter ideia de como After Hours deveria terminar, Scorsese
mostrou uma versão do filme para diretores, amigos e qualquer um que
pudesse ajudá-lo a descobrir exatamente o que deveria acontecer.
O
diretor britânico Michael Powell, que participou do processo de produção, foi
quem, em última análise, apontou o óbvio e, como se confirmou, a única maneira
lógica de fazer isso. Embora Scorsese não tenha gostado a princípio, e se
esforçado para encontrar outra alternativa, ele finalmente percebeu que o final
de Powell era o melhor que tinha. E ainda é. Jogar Paul bem na frente de
seu local de trabalho, no horário em que ele deveria estar iniciando o
expediente, foi uma maneira perfeita de encerrar esta Odisseia na Manhattan
contemporânea, não apenas porque completa o ciclo do personagem, mas
também porque enfatiza como uma pessoa pode participar de uma realidade
paralela sem que ninguém perceba — a vida continua, e as pessoas ao seu redor
continuam fazendo o que faziam, dia após dia. Paul volta para "casa",
o lugar de onde tanto queria escapar, e para onde, mais tarde, queria retornar,
apenas para encontrá-lo como sempre foi. Nada ao seu redor mudou, mas ele
mudou. O protagonista agora precisa se conformar com a constatação de que o
Santo Graal que era o seu lar continua sendo a mesma cela de prisão, cujas
chaves ele parece não conseguir encontrar. Ele pode ter escapado da angústia
surreal que teve que enfrentar depois do expediente, mas seu pesadelo não
acabou de verdade, pois ele acordou apenas para poder viver mais um pesadelo —
aquele do qual vinha tentando desesperadamente se libertar desde o início.
Quando tudo o mais falha, a única resposta apropriada é rir. Ainda que em meio a
lágrimas.
Koraljka
Suton é integrante da Sociedade Croata de Críticos de Cinema e possui mestrado em
alemão e inglês. Para sua tese, ela realizou uma análise comparativa de Band of Brothers e The Pacific, de Spielberg. Koraljka
estudou em um estúdio de interpretação em Zagreb por seis anos e se apaixonou
pelas técnicas de atuação de Michael Tchekhov e Lee Strasberg. Ela também é
dançarina contemporânea e mestre de Reiki que acredita na qualidade
transformadora da arte.
Atores que, além de Griffin Dunne e Rosanna Arquette, aparecem nas fotos: John Heard, Teri Garr, Clarence Felder e Verna Bloom.















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