quarta-feira, 23 de abril de 2025

O encontro de Martin Scorsese com Kafka


Ilustração de Marvin Mattelson para
poster do filme de Martin Scorsese



"After Hours era como um filme independente, mais curto e mais barato. Eu só queria ver se ainda tinha energia para filmar rápido. É preciso ter uma certa paixão para fazer Mean Streets, Taxi Driver e Raging Bull. Eu precisava reencontrá-la.” — Martin Scorsese

    Por Koraljka Suton, 18 de junho de 2022

    Quando se pensa em Martin Scorsese, os filmes que geralmente vêm à mente são obras-primas aclamadas e elogiadas pela crítica como Taxi Driver, Raging Bull ou Goodfellas, filmes que definiram sua carreira como cineasta e o transformaram em um dos diretores mais prestigiados e significativos da história do cinema. Mas o que não passa pela cabeça da maioria das pessoas, quando ouvem o elogio "um filme típico de Scorsese", é a joia After Hours, a subestimada mistura de screwball comedy e film noir de 1985 que deu ao diretor o prêmio de Melhor Diretor em Cannes, e, desde então, se tornou um clássico cult, ganhando cada vez mais reconhecimento com o passar do tempo. No entanto, ainda menos conhecido é o fato de que, na verdade, a história por trás da criação da comédia sarcástica de Scorsese reflete o tema kafkiano predominante no filme. Ou seria o contrário? A história é a seguinte: Católico devotado, e quase padre, Martin Scorsese, desde a faculdade de cinema, queria fazer um filme sobre as provações e tribulações de Jesus Cristo. E, em certo momento, ele aparentemente teve essa oportunidade — a produção de The Last Temptation of Christ, baseado na adaptação de Paul Schrader do controverso romance de Nikos Kazantzakis, de 1955, estava marcada para 1983, e o filme seria rodado em Israel com um orçamento de US$ 114 milhões. Mas as probabilidades não estavam a favor de Scorsese, e o projeto foi cancelado no Dia de Ação de Graças de 1983, devido ao aumento do orçamento, bem como à indignação de grupos religiosos que enviaram quinhentas cartas diárias à Gulf+Western, empresa que controlava a Paramount, na tentativa de sabotar a produção do filme. Seria um eufemismo dizer que o diretor ficou decepcionado e que o revés que experimentou o fez questionar a si mesmo e o seu futuro como cineasta. Mas, em vez de evitar ou preencher o vazio deixado pelo cancelamento do projeto que era a sua paixão, ele, como um verdadeiro artista, decidiu fazer algo completamente diferente com esse vazio. Fez um filme sobre ele próprio.

Martin Scorsese e Griffin Dunne

Como admitiu, em uma entrevista de 1988, para Harlan Jacobson da revista Film Comment: “Depois que The Last Temptation of Christ foi cancelado, em 1983, eu tive que me colocar em forma novamente. Ralar. E aquilo foi ralar. Primeiro, After Hours, em pequena escala. A ideia era que, se Last Temptation surgisse novamente, eu deveria ser capaz de fazê-lo como After Hours, porque esse é todo o dinheiro que eu vou conseguir por ele. Então a pergunta era: você vai sobreviver como um cineasta de Hollywood? Porque, mesmo morando em Nova York, eu sou um 'diretor de Hollywood'. Então, de novo, mesmo quando tento fazer um filme de Hollywood, há algo em mim que diz: 'Vá para o outro lado.'” 

Paul Hacckett (Griffin Dunne)

Sua volta à boa forma foi After Hours, que acompanha o editor de texto Paul Hackett (Griffin Dunne) ao final de (e após) um dia de trabalho normal e essencialmente chato. Tentando escapar do vazio existencial que é seu cotidiano, Paul decide ligar para uma mulher que conheceu depois do trabalho, e com quem conversou brevemente enquanto estava em um café. Animado com a possibilidade de finalmente dar um tempo de sua vida monótona e se envolver com uma pessoa do sexo oposto, ele chama um táxi para levá-lo à casa dela, no SoHo. 

Marcy (Rosanna Arquette)

Mas assim que sai do apartamento, a noite que o espera começa a se desenrolar de maneiras absurdas e completamente inimagináveis. Paul, rapidamente percebendo que seu passeio havia tomado um rumo não esperado nem desejado, tenta voltar para casa, apenas para viver uma série de situações bizarras e conhecer pessoas que tornam seu objetivo literalmente impossível. Cada pessoa que encontra, muitas das quais, inicialmente, têm para com ele as melhores intenções, acaba contribuindo para uma noitada de total desorientação, desgraça e caos.


A própria Nova York se torna um inimigo, um labirinto gigantesco que existe com o único propósito de transformar a noite do protagonista em um inferno (e, graças ao fantástico trabalho do diretor de fotografia Michael Ballhaus e da editora Thelma Schoonmaker, sentimos as chamas engolfando o personagem a cada passo, e nos levando com ele). Seus habitantes são pessoas de diversas origens, estranhas e peculiares, com histórias e/ou personalidades tão escandalosas e intrigantes que facilmente fazem os espectadores se sentirem como se tivessem escorregado diretamente para um sonho confuso e bastante desagradável. Afinal, é noite. E à medida que a noite fica mais escura, o mesmo acontece com o estado físico e emocional de Paul. O que é verdadeiramente fascinante sobre sua jornada aparentemente interminável é o fato de que ele deposita sua confiança em literalmente todas as pessoas que cruzam seu caminho, não importa quantas vezes isso não dê certo — tão desesperado está em sua tentativa de alcançar a previsibilidade e a segurança de seu lar. Enquanto isso, nós, espectadores, rapidamente nos damos conta de que ninguém virá resgatá-lo, e que tudo e todos só contribuirão para a sua ruína. 


A princípio, nos apegamos à esperança, mas esse vislumbre logo se extingue, deixando em seu rastro uma frustração que persiste como uma picada de mosquito — coçá-la só vai piorar as coisas. E After Hours realmente coça a picada repetidamente, garantindo que não sejamos levados a sentir satisfação e alívio sempre que Paul aparentemente encontra abrigo e salvação. Como Scorsese explicou: “E então, este filme (...) surge de uma sensação de estar preso num buraco e nunca ser capaz de sair, em certo sentido, talvez nunca mais ser capaz de fazer outro grande filme ou simplesmente continuar. Não existe essa coisa de um grande filme, é apenas um filme, seja de 20 milhões, 100 milhões, 5 milhões, 100 mil. É preciso vender emoções, vender ideias. Então, pense em como você poderia se sustentar criativamente, e também onde está a sua energia. Acabei de fazer 40 anos, então minha energia tinha que ser a mesma de 15 ou 20 anos atrás. Assim, o filme foi completamente concebido enquanto eu estive, por cerca de uma semana, no meu loft, com uma crise de asma.”


Essa noção kafkiana de estar preso dentro de um sistema absurdo, sem qualquer meio de escapar, permeia todo o filme de Scorsese, maravilhosamente elaborado, pois Paul não consegue escapar do SoHo, por mais que tente, e as circunstâncias de seu "cativeiro" ficam cada vez mais absurdas. Os diálogos entre Paul e o porteiro de uma boate na qual deseja entrar, bem como uma cena entre o protagonista e um operador de caixa do metrô, são diretamente inspirados pela obra de Kafka, refletindo o próprio processo de espera de Scorsese pela produção de The Last Temptation of Christ, e sua frustração diante da futilidade definitiva de tudo isso. 


Mas After Hours traz outras influências também. A já mencionada tentativa de Paul de encontrar um caminho de volta para casa espelha a tentativa de Dorothy, de The Wizard of Oz, à qual o filme de Scorsese chega a fazer uma sutil referência. Ao conversar com Marcy, a mulher que conhece no café (interpretada pela incrível Rosanna Arquette), Paul descobre que o motivo pelo qual ela não está mais com o marido é a obsessão dele por The Wizard of Oz, que o levava a gritar, durante o sexo, "Entregue-se, Dorothy!", toda vez que gozava. É, de fato, um engenhoso presságio em relação ao restante de After Hours, pois se refere a uma cena em que a Bruxa Má do Oeste ordena aos cidadãos da Cidade das Esmeraldas que entreguem a personagem principal a ela, ou então sofreriam as consequências.


Em breve, Paul assumirá o lugar de Dorothy, pois passará a maior parte do filme fugindo de multidões violentas que, por acreditarem que ele é o criminoso que rouba a vizinhança, querem a sua rendição. Mas Paul não é apenas Dorothy — ele também é Alice no País das Maravilhas, tendo descido pela metafórica toca do coelho em busca de aventura, apenas para acabar afundando mais profundamente do que jamais imaginou. 


No caso de Paul, a própria noite se torna um portal para uma realidade paralela na qual ele entra após ter seguido o coelho branco na forma de Marcy, onde todos os tipos de personagens peculiares aparecem para brincar, todos aparentemente querendo pegá-lo. No final, sua história se revela tão fantástica quanto a de Dorothy e Alice — em alto e bom som, soa absurda demais para ser verdade e perturbadora demais para ser verossímil. E, no entanto, testemunhamos tudo isso e, posteriormente, nos encontramos em um turbilhão emocional tão intenso quanto o do protagonista.


Embora a ideia a seguir possa parecer absurda neste momento, é importante enfatizar que Scorsese conseguiu fazer de After Hours um filme que reflete seus próprios sentimentos de estar preso à indústria cinematográfica, e ele é espontaneamente engraçado. É desnecessário dizer que o riso, que inevitavelmente se segue, vem entre lágrimas — rimos com uma intensidade nervosa, pois é o único mecanismo de enfrentamento que nossa psique consegue reunir diante de tantos absurdos, proporcionando-nos, assim, o mínimo alívio em meio ao pandemônio pessoal de um homem. Rir era, afinal, a melhor coisa que o próprio Scorsese conseguia fazer — tanto dentro quanto fora do set. Como Griffin Dunne relembra: “Eu só via Scorsese tentando segurar o riso. Ele simplesmente achava hilário o que estava acontecendo com Paul Hackett. Sempre me lembrava daquele momento em que ele me disse de seu filme que havia sido cancelado: O que fazer? Apenas rir.” 


Portanto, o riso não é um mecanismo de defesa só para os espectadores, mas o próprio filme se tornou um mecanismo de defesa para seu diretor, proporcionando a ele uma saída criativa, e a nós uma narrativa e um tema nos quais pudemos projetar, com facilidade e prazer, nossos próprios infortúnios, nos sentindo, por falta de palavras mais adequadas, percebidos e compreendidos. Como disse o crítico de cinema Roger Ebert: “É a comédia mais tensa de que me lembro, construindo seu ambiente de pesadelo, um passo traiçoeiro após o outro, até tornar nosso riso insensato, ou defensivo.”


After Hours foi a primeira de muitas colaborações bem-sucedidas de Scorsese com o diretor de fotografia alemão Michael Ballhaus, que estava mais do que familiarizado com a filmagem de filmes de baixo orçamento e cronogramas apertados, tendo trabalhado com o diretor alemão Rainer Werner Fassbinder em vários projetos, como Martha (1974) ou Satansbraten (1976). O filme de Scorsese foi rodado inteiramente à noite, com alguns movimentos de câmera improvisados, como a tomada de ponto de vista das chaves sendo jogadas para Paul da sacada de um prédio. Considerando que o filme foi feito nos anos 1980, a tomada não pôde ser feita digitalmente, mas teve que ser filmada por meio da fixação da câmera em uma prancha que foi lançada em direção ao ator. Cordas foram usadas para segurá-la no último momento, mas, infelizmente, o resultado final ficou fora de foco. Ballhaus teve que ser criativo novamente e propôs um movimento de grua incrivelmente rápido que funcionou.


O próprio Scorsese disse que muitas das tomadas usadas em After Hours lembravam Alfred Hitchcock, como vários closes, independentemente de a coisa ou pessoa em questão ser relevante ou não. Era a maneira do diretor brincar conosco, enfatizando deliberadamente certos detalhes, objetos ou estados emocionais para fazer o público acreditar que tudo, filmado daquela maneira, tinha grande importância. Mas não tinha. Esse uso deliberado de uma técnica cinematográfica não só conseguiu exibir perfeitamente o deteriorado estado de espírito do protagonista e a paranoia avassaladora que torna cada detalhe ameaçador, mas também serviu como uma ferramenta brilhante para incitar no público as mesmas sensações e sentimentos de desconforto e exasperação. Juntamente com a já mencionada editora Thelma Schoonmaker, Scorsese reduziu After Hours de duas horas para noventa e sete minutos, resultando em um produto neurótico e acelerado que permitiu que a edição servisse, tanto quanto o trabalho de câmera de Ballhaus, como um recurso narrativo.


O filme de Scorsese, inicialmente intitulado A Night in SoHo, seria dirigido por Tim Burton. Mas depois que Burton descobriu que Scorsese estava disponível para assumir o trabalho, após o fiasco de The Last Temptation of Christ, ele voluntariamente abandonou o projeto. After Hours foi baseado em um roteiro de Joseph Minion, que o escreveu aos 26 anos como um trabalho para o Programa de Pós-Graduação em Cinema da Columbia. O roteiro que Scorsese recebeu, inicialmente, se chamava Lies, mas sua estrutura de enredo, assim como uma grande quantidade de diálogos, foi, na verdade, retirada diretamente de um monólogo de 1982, de autoria do radialista Joe Frank, do NPR Playhouse, que nunca teve crédito. Após entrar com uma ação judicial, Frank não recebeu o crédito oficial, mas foi generosamente pago em um acordo. Scorsese fez alguns ajustes finais no roteiro, e o filme recebeu o título que leva hoje. O único problema do roteiro era o seu final. Sem ter ideia de como After Hours deveria terminar, Scorsese mostrou uma versão do filme para diretores, amigos e qualquer um que pudesse ajudá-lo a descobrir exatamente o que deveria acontecer.


O diretor britânico Michael Powell, que participou do processo de produção, foi quem, em última análise, apontou o óbvio e, como se confirmou, a única maneira lógica de fazer isso. Embora Scorsese não tenha gostado a princípio, e se esforçado para encontrar outra alternativa, ele finalmente percebeu que o final de Powell era o melhor que tinha. E ainda é. Jogar Paul bem na frente de seu local de trabalho, no horário em que ele deveria estar iniciando o expediente, foi uma maneira perfeita de encerrar esta Odisseia na Manhattan contemporânea, não apenas porque completa o ciclo do personagem, mas também porque enfatiza como uma pessoa pode participar de uma realidade paralela sem que ninguém perceba — a vida continua, e as pessoas ao seu redor continuam fazendo o que faziam, dia após dia. Paul volta para "casa", o lugar de onde tanto queria escapar, e para onde, mais tarde, queria retornar, apenas para encontrá-lo como sempre foi. Nada ao seu redor mudou, mas ele mudou. O protagonista agora precisa se conformar com a constatação de que o Santo Graal que era o seu lar continua sendo a mesma cela de prisão, cujas chaves ele parece não conseguir encontrar. Ele pode ter escapado da angústia surreal que teve que enfrentar depois do expediente, mas seu pesadelo não acabou de verdade, pois ele acordou apenas para poder viver mais um pesadelo — aquele do qual vinha tentando desesperadamente se libertar desde o início. Quando tudo o mais falha, a única resposta apropriada é rir. Ainda que em meio a lágrimas.


Koraljka Suton é integrante da Sociedade Croata de Críticos de Cinema e possui mestrado em alemão e inglês. Para sua tese, ela realizou uma análise comparativa de Band of Brothers e The Pacific, de Spielberg. Koraljka estudou em um estúdio de interpretação em Zagreb por seis anos e se apaixonou pelas técnicas de atuação de Michael Tchekhov e Lee Strasberg. Ela também é dançarina contemporânea e mestre de Reiki que acredita na qualidade transformadora da arte.

Atores que, além de Griffin Dunne e Rosanna Arquette, aparecem nas fotos: John Heard, Teri Garr, Clarence Felder e Verna Bloom.

 

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