A sociedade tem de estar
preparada para optar pelo seu próprio futuro
(Desenho de Philippe Caza)
O físico J. Robert Oppenheimer, que chefiou a
construção da bomba atômica norte-americana entre 1942 e 1945, registrou sua
reação após o sucesso do primeiro teste, em palavras que são, hoje, famosas:
"Eu lembrei-me de uma linha do Bhagavad-Ghita, as Escrituras hindus, onde
o deus Vishnu diz, "Agora tornei-me a Morte, destruidora de mundos'".
Uma invenção usando conceitos desenvolvidos por físicos interessados em
entender o funcionamento do núcleo atômico transformou para sempre a história
da humanidade. Os homens se transformaram na encarnação destrutiva de Vishnu, o
Destruidor de Mundos.
A construção da bomba mostra o quanto a ciência não
pode ser separada da sociedade em que está sendo desenvolvida. A idéia que
ciência pode se desenvolver ignorando a realidade política à sua volta é um
mito extremamente inocente. A mobilização do governo norte-americano iniciou-se
após cartas enviadas por físicos para o presidente Roosevelt. Essas cartas
sugeriam que armas de destruição de massa poderiam ser desenvolvidas por
cientistas trabalhando para Hitler. O Projeto Manhattan, como ficou conhecido,
representou uma enorme concentração de recursos financeiros e burocráticos, sob
supervisão militar. Os físicos viam sua missão com heroísmo: construir a bomba
antes dos nazistas e assim ganhar a guerra.
Maquiavelicamente, o fim justificava os meios. Foi
selado um pacto político entre ciência e governo. Mesmo que a razão principal
de sua construção, a ameaça nazista, estivesse efetivamente derrotada quando a
bomba ficou pronta, e os japoneses, se não derrotados, estivessem à beira da
derrota, outra "ameaça" surgiu no mundo: os soviéticos e sua política
expansionista. Se a primeira bomba terminou a guerra com o Japão, a segunda
serviu de aviso aos soviéticos.
(Desenho de Philippe Caza)
A construção da bomba não marcou a primeira
contribuição entre cientistas e governo. Arquimedes, em torno de 250 a.C.,
ajudou o reino de Siracusa, criando catapultas e outras máquinas bélicas. Essa
relação entre ciência e política é inevitável: ciência custa caro, e a indústria,
com seu interesse em lucros a curto prazo, não pode se dar ao luxo de financiar
grandes projetos. O que motiva governos a financiar projetos gigantes e
extremamente custosos como a Estação Espacial, ou o Projeto Genoma Humano? O
desenvolvimento de hegemonia tecnológica e, portanto, o domínio dos mercados
econômicos; a geração de milhares de empregos; o controle político que vem como
consequência dessa hegemonia tecnológica. Ah, quase que esqueço, o
desenvolvimento da ciência, claro.
Existe também a ciência de menor escala, menos
custosa mas nem por isso menos inventiva. Em condições ideais, ambas deveriam
coexistir. Nos dois tipos de ciência, o cientista se depara com sérias questões
morais. Em época de guerra, como durante o Projeto Manhattan, valores morais
podem ser comprometidos pelo contexto de "vida ou morte". Não
acredito que a maioria dos cientistas em Los Alamos teria optado por essa linha
de pesquisa na ausência de um conflito mundial. Até que ponto a pesquisa deve
-ou pode- ser "controlada"? Faz sentido impor limites ao progresso
científico? Eu acho que não; o que foi pensado, jamais será
"des-pensado"; invenções, censuradas aqui, reaparecerão ali. A bomba
teria sido inventada mais cedo ou mais tarde. A clonagem de humanos será inventada
mais cedo ou mais tarde. As decisões morais devem partir da honestidade de cada
cientista em alertar a sociedade para as consequências de suas invenções, acima
de compromissos políticos.
Para isso, a sociedade tem de estar preparada para
optar pelo seu próprio futuro. Moralidade parte do indivíduo e termina em uma
sociedade educada.
Marcelo Gleiser é professor de física teórica do Dartmouth College, em
Hannover (EUA). Texto publicado
na coluna Micro/Macro, do Caderno Mais!, Folha de S. Paulo.


Nenhum comentário:
Postar um comentário