sexta-feira, 11 de abril de 2025

Como perdi minha batalha de 25 anos contra o besteirol corporativo


A jornalista e educadora britânica Lucy Kellaway, na luta
contra as bobagens ditas pelos executivos das grandes empresas



     Por Lucy Kellaway     17 de julho de 2017

    Por quase um quarto de século, escrevi colunas apelando aos profissionais do mundo dos negócios para que deixassem de dizer asneiras. E, ao longo de todo esse tempo, eles nunca prestaram atenção.

O primeiro exemplo que encontrei data de 1994, quando escrevi um artigo zombando do jargão horrível usado pelas empresas, argumentando que a linguagem delas havia se tornado tão estúpida que o pêndulo se moveria na direção oposta e as pessoas voltariam a falar sobre negócios de maneira direta.

As palavras às quais objetei na coluna? “Global”, “downsize”, "marketplace” e, no pior dos exemplos, a impossibilidade matemática dos “110% de dedicação”.

Que época inocente!

Saltando de volta a julho de 2017, um empreendedor escreveu, em um post recente do blog da sua empresa: “Estamos 1.000.000% concentrados em esforços positivos, de avanço, acionáveis, para ajudar a facilitar mudanças”. Quando alguém me mandou esse lixo verbal uma semana atrás, li e dei de ombros.

Nas últimas duas décadas, duas coisas aconteceram. O besteirol corporativo se tornou 1.000.000% mais fedorento, e deixei de prever que o mercado se corrigiria. Hoje, tenho 110% de certeza que isso não acontecerá.

Não só a produção agregada de asneiras cresceu como os responsáveis individuais pelos piores delitos continuam a se superar, desconsiderando completamente meus esforços para tentar detê-los por meio da vergonha.

Howard Schultz é o campeão do besteirol empresarial. O presidente-executivo da Starbucks me forneceu material para mais colunas do que qualquer outro executivo, vivo ou morto. E ele persiste, e continua a se superar.

Howard Schultz, campeão do besteirol empresarial

Alguns meses atrás, anunciou que as novas cafeteiras Starbucks Roasteries estavam “entregando uma experiência de imersão, ultrapremium, ‘coffee-forward’”.

Em toda essa sentença “ultrapremium”, só os artigos se salvam. Schultz misturou jargões novos e antigos, expressões da moda e expressões do dia a dia, e acrescentou uma cobertura especial que só ele seria capaz de produzir.

“Entregar” e “experiência” são péssimas, mas não são novidade. “Ultrapremium” é uma inflação vocabular desnecessária. “Imersão” está na moda, por menos recomendável que seja o seu uso quando o escritor está falando de líquidos escaldantes. A inovação é uso de “coffee-forward”. O termo impressiona, mas o que quer dizer?

É bem possível que Schultz não leia o Financial Times e que as pessoas próximas a ele que o fazem tenham desistido de encaminhar os artigos em que zombo de sua maneira de falar. Mas, mesmo que ele tenha visto as colunas, duvido que isso fizesse qualquer diferença.

O mundo dos negócios se divide em dois tipos de pessoas. Há aquelas que usam o besteirol constantemente (a maioria) e aquelas que não. A característica que define os mais dedicados adeptos do besteirol, como Schultz, é que eles simplesmente não veem problema nisso.

E por que deveriam? Enquanto eu passei décadas me irritando com simples palavras, ele vem mudando a maneira a pela qual pela qual metade do mundo vive e consome bebidas. É em larga medida graças a ele que todos perambulamos pelas ruas carregando baldes de cartolina contendo um líquido marrom pálido que sorvemos usando canudinhos.

Schultz não só fez a diferença quanto a isso como ganhou algum dinheiro no processo. Cerca de US$ 3,1 bilhões, na verdade.

As bobagens que diz não só não o prejudicaram como, temo, podem tê-lo ajudado. As novas “roasteries” [tostadoras] têm um estilo de decoração excepcionalmente vulgar, meio Willy Wonka, com grãos de café percorrendo o ambiente em tubos de plástico transparentes. Quando o estilo é puro exagero, a linguagem precisa acompanha-lo.

Ao longo dos anos, Schultz provou até que ponto a linguagem horrenda serve bem aos homens de negócios. Por exemplo, caso uma analista pergunte a alguém se a pessoa pretende adquiri alguma coisa, ela pode ou dizer não, o que é claro e direto demais, ou usar 33 palavras, como Schultz fez alguns anos atrás: “Eu diria que temos o bastante para digerir em curto prazo, e não existe francamente nada em nossa linha de visão que sugira que nos envolvamos em engajar alguma coisa que vamos adquirir”.

Pronto. A audiência se entediará a tal ponto que ninguém jamais cobrará o autor pela declaração.

Ainda mais impressionante, Schultz abriu caminho para o uso de linguagem cada vez mais emotiva nos negócios. Dinheiro talvez não compre amor, mas amor pode compensar pela falta de dinheiro. Assim, ele enviou recentemente um e-mail aos cerca de 100 mil funcionários de sua empresa nos Estados Unidos, a maioria dos quais ele não conhece pessoalmente e muitos dos quais ganham cerca de US$ 10 por hora, e fechou o texto com “saibam que lhes envio meu amor e respeito”.

Os adeptos do besteirol jamais mudarão. Ou melhor, em minha linha de visão não há francamente coisa alguma que sugira que o bom senso vá ressurgir, daqui para o futuro.

Mas isso não faz da campanha que conduzi nas últimas décadas um completo fracasso. As poucas pessoas que optaram por não usar besteirol extraem imenso prazer de zombar de quem o faz.

Esses companheiros corajosos e singelos são poucos em número, mas me enviaram ótimas amostras ao longo dos anos, algumas das quais reproduzo abaixo*. Não amo os leitores do Financial Times, mas respeito e agradeço aqueles que me forneceram boa parte dessas preciosidades.

*(continua no próximo post, "Besteirol fluente: Um guia para dominar o método")

Tradução de Paulo Migliacci

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