A quase permanente aflição de Lima Barreto, Graciliano
Ramos, Carlinhos Oliveira e Paulo Leminski
Por Aluízio Falcão
Faz 90 anos que Lima Barreto escreveu em seu Diário
Íntimo este único registro do mês de abril:”Não tenho editor, não tenho jornal,
não tenho nada. O maior desalento me invade. Tenho sinistros pensamentos.
Ponho-me a beber; paro. Voltam eles e também um tédio de minha vida doméstica,
do meu viver cotidiano, e bebo. Despeço-me de um por um dos meus sonhos.” Estes
eram os sentimentos do grande escritor em 1915, sete anos antes de morrer.
O Diário, obra póstuma organizada por Francisco Assis
Barbosa, traz anotações do hospício, documentando os meses que ali foi
internado. Ele tinha absoluta consciência do que se passava. Não era louco, e
sim alcoólatra. Registrou indignado, ter sido a internação uma arbitrariedade
policial que considerara o desmedido apego à bebida, misturado às dificuldades
e apreensões de sua vida material. Há um trecho que recorda o ambiente naquele
“cemitério dos vivos”, como denominou o asilo: “Todos nós estávamos nus; as portas abertas e eu tive
muito pudor. Me lembrei do banho de vapor de Dostoievski, na Casa dos Mortos.
Quando baldeei, chorei; mas lembrei de Cervantes, do próprio Dostoievski, que
pior deviam ter sofrido em Argel e na Sibéria. Ah! A literatura ou me mata ou
me dá o que peço dela.”
No fim do volume, anotados e numerados por ele mesmo,
os parcos 800 volumes de sua pequena biblioteca. É de estranhar que um
ficcionista inspirado, e essa declarada paixão literária, tenha guardado em
suas estantes apenas três escassas dezenas de obras de ficção. Predominam,
curiosamente, livros de ciências políticas e sociais, história e economia,
quase todos em francês. Isso em 1917, cinco anos antes de sua morte. Sendo hoje
considerado um pioneiro do romance social, é possível que tenha querido
alicerçar essa preocupação numa extensa base teórica.
Lima Barreto foi mais um entre os nossos grandes
criadores que enfrentaram problemas sérios com a bebida e viveram situações de
desespero. A diferença é que no caso dele todos os seus dias foram assim. Não
houve sequer pausas felizes. Lima Barreto não soube, como Graciliano Ramos,
administrar o desespero.
GRACILIANO
O mestre Graça tomava cachaça de forma regular e
fumava um cigarro após outro, principalmente quando escrevia. Tinha
extraordinário domínio da consciência. Segundo Antonio Callado, seu companheiro
no Correio da Manhã, a cada lote de cigarros que incinerava, o grande
romancista, quando não tomava café na redação, dirigia-se ao botequim da
esquina, onde ingeria várias doses de aguardente, até a hora de ir para casa
jantar: “Mas nunca o vi, nem de longe, alterado. Seus olhos podiam ficar
brilhantes, e coradas as maçãs do rosto, que eram salientes. Era incapaz de
falar gritando, ou de rir às gargalhadas. A aguardente o iluminava por dentro,
não o perturbava.”
A escritura de Angústia, uma obra superior, foi
marcada pela ingestão contínua de aguardente. Uma vez, excedendo-se além do
costume, atirou os originais no lixo. A mulher, Heloísa, chamou Rachel de
Queiroz, e ambas descobriram o manuscrito molhado no quintal de casa. O fim da
trama impôs ao romancista um consumo excessivo de aguardente. No dia seguinte,
refeito da monumental bebedeira, lendo as páginas escritas, ele estranhou
menções ao Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e à mesma
entidade no Rio Grande do Sul. A custo, entendeu que fora motivado pelas
inscrições nas lombadas de dois volumes dispostos em sua mesa. Decidiu
mantê-las nas elucubrações do personagem central, Luís da Silva.
Tudo isso aconteceu, mas o álcool jamais quebrou sua
férrea disciplina literária. Escrevia e reescrevia morosamente, com zelo
próximo da obsessão. Eram frequentes, porém, os agudos estados de melancolia do
mestre Graça. No início de 1950, já reconhecido e louvado por toda crítica, ele
viveu a fase mais perigosa do seu alcoolismo. Chegou a internar-se numa clínica
de repouso na Ilha do Governador para tratamento de desintoxicação.
Mesmo sem viver as humilhações que arrasaram Lima
Barreto, Graciliano teve motivos para desespero. Houve tempos, no Rio, em que
se espremia com a mulher e duas filhas em minúsculo cômodo de pensão.
Arrumavam-se no quarto, milagrosamente, cama de casal, cama de solteiro,
armário, duas cadeiras e mesinha de perna bamba, apoiada num dicionário. Nela,
escreveu à mão sua obra prima Vidas Secas. Escreveu penosamente, atravessando
madrugadas.
Às vezes, faltava leite para as filhas e Graciliano
atrasava o pagamento da pensão. Essa penúria durou por dois anos. De aluguel em
aluguel, chegou a 1953, ano em que morreu, sem conseguir viver de literatura.
Precisou sempre trabalhar em jornal, como revisor. Pouco antes do fim, chamou o
filho Ricardo e falou de tudo que produzira: “Tome conta, um dia, talvez, esses
livros ajudem a sua mãe e as meninas...”
CARLINHOS E LEMINSKI
Para identificar toda a legião de desesperados em
nossas artes, muitos outros nomes poderiam ser lembrados, mas o espaço nos
permite evocar mais dois, Carlinhos Oliveira e Paulo Leminski, ambos
protagonistas dos anos 1960, 1970 e 1980. Optaram por viver perigosamente,
excedendo-se no consumo de drogas e especialmente a bebida, que afinal os
matou.
Sobre Carlinhos Oliveira, o biógrafo Jason Tércio
chegou a indagar se a sua vida não teria sido “um lento e prolongado suicídio”.
Este ano, sucedem-se compilações de suas crônicas admiráveis e um livro
autobiográfico, Diário Selvagem. Anuncia-se que até o fim do ano sairá outra
coletânea, O Rio é Assim, louvando a cidade em que ele cumpriu a maior parte de
sua trajetória desgovernada. Os quatro romances que escreveu não refletiram o
mesmo talento revelado nas crônicas. É nessa forma de expressão, exercida em
jornal por 23 anos a fio, que ele se revela um expoente comparado por muitos a
Rubem Braga.
O desespero deste homem, que revezou com uma euforia
nervosa todos os momentos de sua vida boêmia e afetiva, mostra-se por inteiro
nessa anotação que deixou no Diário, pouco antes de morrer, aos 52 anos: “Meus
nervos em pedaços. Esperança: zero. Futuro: indecifrável, amedrontador. Sonhos.
Barulhos medonhos animando pensares bisonhos. O urro da caverna cravejada de
avatares. Troglodita poliglótico. Sei muito bem que cheguei ao abismo. Ave
Maria cheia de graça.”
Já Paulo Leminski Filho, para usarmos uma expressão
dele, “pediu a conta” em 7 de junho de 1989. Morreu aos 44 anos, de cirrose
hepática, efeito de uma farra contínua que foi a sua existência. A manchete da Folha
de Londrina sobre o conterrâneo morto, embora ferindo a objetividade, não
poderia ser melhor: A Vida Mata Leminski.
No subtítulo, um pouco de poesia: “Ele queria o futuro, ontem”.
Autor de vários livros de vasta prosa erudita ou
experimental, ele foi, de maneira plena, sobretudo um poeta – o melhor de sua
geração. Poeta em tempo integral, inclusive nos bares. Uma vez, escreveu em
guardanapo de papel: “Acabou a farra/formigas mascam/restos da cigarra.” A sua
obra em versos provocou unanimidade favorável entre críticos. Aqui mesmo, neste
Caderno 2, Leila Perrone-Moisés escreveu: “Samurai e malandro, Leminski ganha a
aposta do poema, ora por um golpe de lâmina, ora por um jogo de cintura. Tão
rápidos que nos pegam de surpresa; quando menos se espera, o poema já está ali.
E então o golpe ou a ginga que o produziu parece tão simples que é quase um
desaforo: acordei bemol/tudo estava sustenido/sol fazia/só não fazia sentido”.
O seu nome emergiu da contracultura para sensibilizar
grande parte da intelligentsia brasileira, principalmente grupos mais ligados à
experimentação, como os liderados por Gilberto Gil, Caetano Veloso, Décio
Pignatari, Haroldo e Augusto de Campos. Teve uma vida rebelde, transgressiva e
repleta de impactos.
Preferiu sempre ocupações temporárias a uma carreira
regular no jornalismo, na propaganda ou na universidade. Onde certamente seria
um vencedor. Homem culto, chegou a escandalizar os meios acadêmicos em vários
momentos. Um deles foi quando interrompeu aos gritos a conferência de uma
ilustre professora: “Um momento! James Joyce nunca disse isso no Finnegans Wake!”
No dia seguinte, voltou ao local do incidente e provou, com livros na mão, que
a palestrante confundira Finnegans Wake com Ulisses.
Todos os lances de sua jornada sobre a terra estão no
livro Paulo Leminski – O Bandido Que Sabia Latim. É um painel completo sobre o
talento deste intelectual dionisíaco e desesperado, entre tantos outros que o
Brasil produziu.
Publicado no Caderno 2, de O Estado de S. Paulo, em 23
de abril de 2005.





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