Onde ficará a linha divisória entre homem e máquina?
(Desenho de Philippe Caza)
Marcelo Gleiser 07/07/2002
A percepção
pública da ciência é, com razão, repleta de conflitos. Alguns acreditam que a
ciência seja a chave para a liberdade do homem, para a melhora das condições de
vida de todos, para a cura dos tantos males que afligem pobres e ricos, desde a
fome até as mais variadas doenças. Já outros vêem a ciência com grande
desconfiança e até com desprezo, como sendo a responsável pela criação das
várias armas de destruição inventadas através da história, da espada à bomba
atômica. Para esse grupo, os homens não são maduros o suficiente para lidar com
o grande poder que resulta de nossas descobertas científicas.
No
início do século 21, a clonagem e a possibilidade de construirmos máquinas
inteligentes prometem até mesmo uma redefinição do que significa ser humano. Na
medida em que será possível desenhar geneticamente um indivíduo ou modificar a
sua capacidade mental por meio de implantes eletrônicos, onde ficará a linha
divisória entre homem e máquina, entre o vivo e o robotizado? Entre os vários
cenários que vemos discutidos na mídia, o mais aterrorizador é aquele em que
nós nos tornaremos forçosamente obsoletos, uma vez que clones bioeletrônicos
serão muito mais inteligentes e resistentes do que nós. Ou seja, quando (e se)
essas tecnologias estiverem disponíveis, a ciência passará a controlar o
processo evolutivo: a nossa missão final é criar seres "melhores" do
que nós, tomando a seleção natural em nossas próprias mãos. O resultado, claro,
é que terminaremos por causar a nossa própria extinção, sendo apenas mais um
elo na longa cadeia evolutiva. O filme "Inteligência
Artificial", de Steven Spielberg, relata precisamente esse cenário
lúgubre para o nosso futuro, a inventividade humana causando a sua destruição
final.
É
difícil saber como lidar com essa possibilidade. Se tomarmos o caso da
tecnologia nuclear como exemplo, vemos que a sua história começou com o
assassinato de centenas de milhares de cidadãos japoneses, justamente pela
potência que se rotula o "lado bom". Esse rótulo, por mais ridículo
que seja, é levado a sério por grande parte da população norte-americana. É o
velho argumento maquiavélico de que os fins justificam os meios: "Se não
jogássemos as bombas em Hiroshima e Nagasaki, os japoneses jamais teriam se
rendido e muito mais gente teria morrido em uma invasão por terra", dizem
as autoridades militares e políticas norte-americanas. Isso não só não é
verdade como mostra que são os fins político-econômicos que definem os usos e
abusos da ciência: os americanos queriam manter o seu domínio no Pacífico, tentando
amedrontar os soviéticos que desciam pela Manchúria. As bombas não só detiveram
os soviéticos como redefiniram o equilíbrio de poder no mundo. Ao menos até os
soviéticos desenvolverem a sua bomba, o que deu início à Guerra Fria.
As
consequências de um conflito nuclear global são tão horrendas que até mesmo os
líderes das potências nucleares conseguiram resistir à tentação de abusar de
seu poder: criamos uma guerra sem vencedores e, portanto, inútil. Porém, as
tecnologias nucleares não são propriedade exclusiva das potências nucleares. A
possibilidade de que um grupo terrorista obtenha ou construa uma pequena bomba
é remota, mas não inexistente. Em casos de extremismo religioso, escolhas
morais são redefinidas de acordo com os preceitos (distorcidos) da religião:
isso foi verdade tanto nas Cruzadas como hoje, nas mãos de suicidas muçulmanos.
Eles não hesitariam em usar uma arma atômica, caso a tivessem. E sentiriam suas
ações perfeitamente justificadas.
Essa
discussão mostra que a ciência não tem uma dimensão moral: somos nós os seres
morais, os que optamos por usar as nossas invenções de modo criativo ou
destrutivo. Somos nós que descobrimos curas para doenças ou gases venenosos.
Daí que o futuro da sociedade está em nossas mãos e será definido pelas escolhas
que fizermos daqui para a frente. Essas escolhas se fazem presentes a toda vez
que é desenvolvida uma nova tecnologia com poderes destrutivos. Agora, devemos
lidar com a clonagem e seus abusos. Será que devemos impor limites às pesquisas
envolvendo clones humanos? Será que impor limites irá adiantar alguma coisa?
Afinal, a história nos mostra que as tecnologias "vazam", não podem
ser escondidas para sempre. No futuro não muito distante, teremos de lidar com
o que significa ter uma máquina que pensa ou, mais realisticamente, uma máquina
tão veloz que simula o pensamento. Não é da ciência que devemos ter medo, mas
de nós mesmos e da nossa imaturidade moral.
Marcelo Gleiser é professor de física teórica do Dartmouth
College, em Hanover (EUA). Texto publicado na coluna Micro/Macro, Caderno Mais!, Folha de S.
Paulo.

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