A turma da Mesa Redonda do Algonquim, por Will Cotton, 1929
Ruy Castro
Grande ano, o de 1920, para turmas que se dedicavam à
conversa fiada e à literatura. Em Paris, estavam os “expatriados” americanos –
Hemingway, Pound, Fitzgerald -, que Gertrude Stein, roxa de inveja, chamou de
“geração perdida”. Em Londres, havia o “círculo de Bloomsbury”, em torno de
Virginia Woolf e Lytton Strachey. E, em São Paulo, mal comparando, saracoteavam
os rapazes que fariam a Semana de Arte Moderna. Pois, em Nova York, naquele
ano, havia os jovens que se reuniam todos os dias à mesa redonda de um dos dois
restaurantes Algonquin (pronuncia-se “algôn-kin”), um caprichado hotelzinho da
rua 44 Oeste, entre 5ª e 6ª avenidas. O diferente na turma do Algonquin é que
eles preferiam conversar fiado.
Quase todos eram brilhantes, mas relutantes
jornalistas, capazes de inventar pretextos definitivos, entre os quais a falta
de lápis, para não ter de escrever. Um dia, acabaram desovando todos os
romances, contos, artigos, poemas, peças de teatro e roteiros de cinema que
estavam nos devendo – mas só depois que, premida pelas circunstâncias, a turma
se desfez. Enquanto isso não aconteceu, eles se divertiram (e fascinaram Nova
York) com a saraivada diária de frases maldosas, sagazes e engraçadas com que
se espetavam uns aos outros e quem mais ousasse existir.
E nem precisaram esperar pela posteridade para que a
“Mesa Redonda do Algonquin”, como a do Rei Arthur, fosse considerada a Camelot
literária americana – uma Camelot moleque, que zombava da própria posteridade.
Em seu próprio tempo (até 1930, pelo menos), ela já era vista assim. Havia quem
telegrafasse de outros Estados reservando mesa próxima e viajasse a Nova York
apenas para vê-los almoçar e, se possível, ouvi-los digerir.
A Mesa Redonda eram muitos, mas o núcleo inicial se
compunha de Alexander Woollcott, crítico de teatro, xodó das grandes damas do
palco e talvez o primeiro sujeito na história a ficar famoso apenas por ser
famoso; o grande Robert Benchley, no futuro, o humorista mais lido da América;
Robert Sherwood, teatrólogo e, em 1935, autor de “A Floresta Petrificada”, peça
que revelaria Humphrey Bogart; e Dorothy Parker, que carregaria pela vida uma
reputação maior como “witty” (frasista sofisticada) do que como a poetisa e
contista que foi.
Mas, em junho de 1919, Parker e Sherwood ainda não
tinham se tornado nada disso. Eram apenas redatores da revista “Vanity Fair” e
estavam sendo demitidos pelo crime de introduzir opiniões pessoais no que
escreviam. Benchley, que trabalhava com eles e era tão obscuro quanto, pediu
demissão em solidariedade. Os três foram convidados por Woollcott a almoçar no
Algonquin, um hotel fundado em 1902 e batizado em homenagem a uma tribo de
índios habituados a abater urso para o almoço. Frank Case, o gerente, não
servia ursos no Algonquin, mas o gordo Woollcott adorava a torta de maçã
preparada pela pasteleira do hotel. É ridículo imaginar que toda uma onda
cultural foi desencadeada pela tal torta, mas a vida é assim.
Foi o primeiro encontro formal na Mesa Redonda, ainda
sem esse nome e com notáveis diferenças sobre o que ela rapidamente viria a ser.
Primeiro, nem Parker, nem Benchley tomaram uma gota de álcool naquele almoço.
Nenhum dos dois bebia na época e Benchely até torcia fervorosamente pela
aprovação da Lei Seca (a qual viria em 1920). Segundo, o almoço não se deu na
mesa redonda do Rose Room, mas numa mesa normal do outro restaurante do hotel,
o Oak Room. A partir dali, por inspiração de Woollcott, os almoços foram
ficando diários e ganhando a adesão de jovens jornalistas e artistas parecidos
com eles: todos eram mais cultos do que aparentavam, tinham o dom da frase e um
jeito maníaco para enxergar o lado cômico de qualquer coisa.
Embora Woollcott desse a palavra final sobre quem
poderia sentar-se à mesa, a turma começou a crescer. Frank Case achava-os
divertidos e, quando viu que as cadeiras viviam sendo puxadas das mesas
próximas para comportar o pessoal, mudou-os para o Rose Room, que era maior.
Mas a população continuava crescendo e atravancando as passagens. Então
instalou-os de vez numa grande mesa redonda, arturiana, nos fundos do restaurante.
Deu-lhes um garçom exclusivo e passou a servir-lhes tira-gostos grátis. Um
caricaturista, Edmund Duffy, passou por lá, desenhou-os e crismou-os “A Mesa
Redonda do Algonquin”.
Da qual eles só saíram para injetar veneno e ácido nos
diversos departamentos da cultura americana, no fim dos anos 20: no jornalismo,
na poesia, no conto, no teatro, no cinema, na música popular e, às vezes, em
todos ao mesmo tempo.
Está bem, mas quem eram eles, afinal?
Alexander Woollcott era o único sem talento no grupo.
Alguém o classificou, certa vez, de “o pior escritor do país”, e ele respondeu
“Potencialmente, sou o melhor escritor do país. O problema é que não tenho nada
para dizer.” Dorothy Parker, Robert Benchley e Robert Sherwood não tinham esse
problema. Um almoço típico da Mesa Redonda poderia incluir os futuros
teatrólogos George S. Kaufman, Marc Connelly e Edna Ferber; o contista Ring
Lardner; os jornalistas Franklin P. Adams, Heywood Broun e Harold Ross; os
roteiristas Herman J. Manckiewicz, Bem Hecht, Charles MacArthur e Donald Ogden
Stewart; os atores Harpo Marx e Tallulah Bankhead; os compositores Irving Belin
e, sempre que em Nova York, o inglês Noel Coward; a artista plástica Neysa
MacMein; o crítico musical Deems Taylor; e até o campeão mundial de boxe Gene
Tunney, uma espécie de mascote dos intelectuais do Algonquin.
O humor da Mesa Redonda não perdoava ninguém. Dorothy
Parker dizia de Gertrude, mulher de Benchley, que ela tinha sempre o aspecto de
estar “saindo de um edifício em chamas”. De seu próprio marido, Eddie Parker,
Dorothy contou que ele era tão incompetente, que “quebrara o braço fazendo a
ponta de um lápis”. Quando Dorothy tentou o suicídio pela primeira vez,
cortando os pulsos, em 1922, pôs a culpa em Eddie pelo fracasso da tentativa:
“Ele nem sequer consegue manter a lâminas amoladas”. Quando tentou se matar
pela segunda vez, tomando uma superdose de Veronal, em 1926, Benchley foi
visita-la no hospital e advertiu; “Se você não parar com isso, vai acabar
ficando doente”.
Durante anos, os titulares da Mesa Redonda não se
desgrudaram uns dos outros. Os almoços no Algonquin começaram a invadir o
expediente da tarde – a maioria deles já não voltava para as suas redações. À
noitinha, era obrigatória uma esticada no estúdio da Neysa MacNeim, sem hora para
terminar. Mais tarde, iam para o apartamento de Dorothy, no próprio Algonquin,
e, dezenas de uísques depois, sentiam-se prontos para desbravar, juntos, os
“speakeasies” como o Tony Soma’s ou o Puncheon Club. Às sextas, à noite, Frank
Case emprestava-lhes um apartamento vago no hotel para a sua roda de pôquer,
que não raro se estendia até a manhã de segunda – Kaufman e Harpo
invariavelmente ganhavam, Woollcott invariavelmente perdia.
Quase todos os casamentos da turma morreram pelo
caminho, inclusive o de Dorothy. Ela teve um caso com Charles MacArthur, de
quem ficou grávida e fez um aborto, muito além do tempo regulamentar; transou
com Ring Lardner e quase se casou com Deems Taylor. O alcoolismo fez estragos
na Mesa Redonda, devastando as vidas de Benchley, MacArthur, Lardner, Heywood
Broun. Franklin P. Adams, Herman J. Manckiewicz e dela própria, Dorothy. O
estouro da bolsa, em 1929, pegou-os de calças curtas – nenhum deles imaginava
que aquela febril e deliciosa irresponsabilidade dos anos 20 pudesse acabar um
dia. Nova York quase quebrou, ficou incapaz de rir e maior parte deles foi
obrigada a seguir o caminho de Hollywood, onde o cinema falado os esperava com
uma montanha de dinheiro e uma proposta irresistível: tornar os filmes menos
quadrados.
Eles aceitaram e partiram – o foi o fim da Mesa
Redonda.
*
QUEM ERA QUEM
Robert Benchley (1880–1945) – O humor mais urbano e,
ao mesmo tempo, mais humano que se conhece. Suas crônicas foram reunidas em várias
antologias, entre as quais “Benchley Lost and Found”. Escreveu, dirigiu e
interpretou vários curtas-metragens para a MGM. Certa vez pediu dinheiro
emprestado a um banco, este o concedeu e ele recusou: “Não aceito dinheiro de
um banco que me empresta sem a menor garantia.”
Marc Connely (1890-1980) – Foi autor da peça teatral “The
Green Pastures” (1930), uma das primeiras nos Estados Unidos a exigir um elenco
totalmente negro. Connely era careca desde jovem. Um conhecido passou por ele
na Mesa Redonda do Algonquin, alisou sua calva e disse: “Marc, sua careca
parece a bunda da minha mulher.” Connely também alisou a calva e disse: “Ora,
que incrível. É mesmo!”
George Kaufman (1888-1961) – Craque absoluto da
comédia, preferia trabalhar em colaboração. Seu principal parceiro foi Moss
Hart, com quem escreveu “Do Mundo Nada Se Leva” (1936) e “The Man Who Came To
Dinner” (1939). Era o rei da gangue, do trocadilho e do mau humor cruel – para se
ter uma ideia, foi roteirista dos Irmãos Marx. Um produtor chamou-o ao hotel para
discutir uma peça e o recebeu nu. Kaufman advertiu-o: “Sr. Harris, sua
braguilha está aberta.”
Ben Hecht (1894-1964) e Charles MacArthur (1895-1956) –
Ex-repórteres de Chicago, escreveram a peça “The Front Page” (1928), a maior
comédia até hoje sobre a imprensa, filmada três vezes, a última por Billy
Wilder. Eles foram também os mais rápidos e competentes roteiristas do cinema.
Entre as centenas de filmes que escreveram estão “O Morro dos Ventos Uivantes”,
de William Wyler (1939), e “Interlúdio”, de Alfred Hitchcock (1946).
Franklin P. Adams (1881-1960) – Sua coluna, “The
Conning Tower”, a torre de comando, saía diariamente em três jornais de Nova
York e atingia um milhão de leitores em 1920. Foi o principal responsável pela
fama da Mesa Redonda, ao publicar as coisas engraçadas que diziam nela. Um dia,
alguém estava lhe contando uma história interminável. Meia hora depois, o
sujeito disse: “Bem, para encurtar a história...” Adams interrompeu-o: “Tarde
demais.”
Ring Lardner (1885-1933) – Um dos grandes contistas
americanos do século e um dos fundadores do jornalismo esportivo. Falava pouco,
mas ia direto ao ponto. Heywood Broun convidou-o para um pôquer e Lardner foi
claro: “Não posso, Heywood. Hoje é a noite de folga do meu filho e eu tenho que
ficar em casa com a babá.”
Herman J. Mankiewicz (1897-1953) – Irmão do diretor
Joseph L. Mankiewicz, embora pudesse dispensar esse parentesco – afinal, foi o
autor do roteiro de “Cidadão Kane”. Herman foi principalmente um “wit”. Ao
jantar na casa de William Randolph Hearst (o Kane original), bebeu demais e
vomitou em plena mesa. Sem perder a pose, limpou o canto da boca com o
guardanapo e disse: “Não se preocupem. Vomitei o peixe com o vinho branco.”
Alexander Woollcott (1887-1943) – Sem talento, mas
adorado na Mesa Redonda por seu jeito mal-humorado e pomposo, que o tornava o
alvo favorito de todos. Era homossexual e tinha fixação por Harpo Marx.
Popularíssimo no rádio americano, mas seus livros vendiam pouco. Ao publicar um
deles, deu um exemplar a Franklin P. Adams com a pergunta: “Há alguma coisa
mais rara que uma primeira edição de Woollcott?” Adams disse: “Sim. Uma segunda
edição.”
O perfil de Dorothy
Parker está no link https://ilhamauricio.blogspot.com/2025/08/dorothy-parker.html
Publicado
na Folha de S. Paulo, 22 de agosto de 1993.
*Membros da Mesa Redonda de Al Hirschfeld, em sentido horário, a partir do canto inferior esquerdo: Robert Sherwood, Dorothy Parker, Robert Benchley, Lynn Fontanne, Alfred Lunt, Frank Croninshield, Alexander Woollcott, Heywood Broun, Marc Connelly, Frank Case, Franklin P. Adams, Edna Ferber e George s. Kaufman.







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