sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Dorothy Parker


"Dottie", a garota mais inteligente e esfuziante dos anos 20: frasista 
impecável, era rápida no gatilho e nunca perdia uma batalha verbal


    Sérgio Augusto


    Ela achava que não viveria muito. Até que viveu. Em 1963, cansada de tudo, enchendo a cara de uísque e fumando um cigarro após o outro, comentou com uma amiga: “Se eu tivesse um mínimo de decência, já estaria morta, como a maioria dos meus amigos.” Quatro anos mais tarde, um infarto abreviaria a sua lenta agonia. Muita gente não se lembrava mais dela, mas os jornais de Nova York se encarregaram de reavivar a memória de todos com longos e laudatórios obituários. E desde então, Dorothy Parker nunca mais foi esquecida. Nem saiu de cartaz.

Ela foi a Pequena Notável da Depressão, a garota mais culta, inteligente, espirituosa e esfuziante que um homem podia levar à festa nos anos 20 e 30. Frasista impecável, não perdia uma batalha verbal. Sua rapidez no gatilho resistiu a todos os duelos travados na célebre “round table” do hotel Algonquin, onde diariamente se reunia a nata de uma certa intelectualidade nova-iorquina, blasé e hedonista (veja texto de Ruy Castro em https://ilhamauricio.blogspot.com/2025/04/algonquin-era-sede-da-conversa-fiada.html). Várias de suas tiradas entraram para o folclore cultural americano. Quando lhe contaram que o presidente Calvin Coolidge acabara de morrer, sem piscar, perguntou: “Como é que notaram?”

Algumas de suas “boutades” são intraduzíveis. Para manter a rima de “Men seldom make passes at girls who wear glasses” (ou seja, os homens raramente dão bola para mulheres que usam óculos), teríamos que traduzi-la assim: “Os homens raramente dão ósculos em mulheres que usam óculos.” O diabo é que Dorothy Parker jamais usaria a palavra ósculo, se falasse português.


Começou emulando a poesia rebelde de Edna St. Vincent Millay (1892-1950), mas teve o bom senso de continuar sendo – em verso e prosa – apenas Dorothy Parker, o que, convenhamos, já era muito. Há quem tenha mais apreço por sua poesia do que por seus contos, relegando sua obra crítica (resenhas de livros e peças teatrais) a um plano secundário. Edmund Wilson a admirava por ter colocado em tudo o que fez uma voz muito especial e “o estado de espírito de uma era.”

Três peças da Broadway já a transformaram em personagem. Um escritor, George Baxt, que adora misturar personagens reais e fictícios, publicou há nove anos um romance policial, “The Dorothy Parker Murder Case”, protagonizado por ela e seu mais fiel amigo, Robert Benchley. Só no Brasil, seu livro de contos “Big Loira” já rendeu duas montagens teatrais. Sua vida está virando filme, com Jennifer Jason Leigh no papel principal, e é possível que em breve Regina Duarte a ressuscite num quadro fixo do “Fantástico”.

Há 23 anos, John Keats publicou uma biografia -  “You Might As Well Live (The Life and Times of Dorothy Parker)” – que não a teria desagradado, embora fosse conhecida a sua total aversão ao gênero. Mais de uma vez ela rechaçou para escrever sua autobiografia. Se a fizesse, só poderia ter, segundo ela, um título: “Mongrel” (Mestiça).

Filha de uma escocesa católica com um judeu nova-iorquino, Dorothy nasceu em Rothschild, mas não num berço de ouro como os seus parentes mais famosos e abastados. Teve educação católica, num convento do qual acabou expulsa por insistir em chamar a Imaculada Conceição de “espontânea combustão”. Já era em criança a irreverente Dottie que a América aprenderia a amar nos anos 20. “Quando nasci, minha língua foi mordida pelo diabo”, proclamava com orgulho a garota que, num assomo de modéstia, se definiu como uma judiazinha metida a engraçada. Sem querer, definiu Barbra Streisand.

A Pequena Notável da Depressão, por Al Hirschfeld, 1951

O sobrenome Parker foi herança do primeiro marido, Edwin Pond Parker 2º, que não era judeu nem católico, e sim protestante – além de bêbado. Quando viviam juntos, só ele entornava. Mais tarde, ela também entrou na dança. Não bebia por prazer, mas, acima de tudo, para entorpecer sua agudíssima percepção. Não conseguia suportar a realidade em estado de lucidez. Como George Jean Nathan, ela só bebia para tornar as outras pessoas mais interessantes.

Dorothy não era “big” nem loira; ao contrário, era “mignon” e morena. Ainda assim, Hazel-Morse, a protagonista do conto “Big Loira”, tinha muito a ver com sua criadora. Não que Dorothy também fosse um patético encalhe amoroso ou uma diversão descartável que os homens usavam como se fosse um fósforo de alegria. Quando, porém, a depressão baixava, ela se comportava como suas heroínas. Duas vezes tentou suicídio.

Jamais preferiu estar só do que mal acompanhada. Tampouco exigia muito de suas companhias. “Só exijo três coisas de um homem: que ele seja, bonito, cruel e idiota”. Nem assim acertou. Nenhum de seus quatro amantes (Charlie MacArthur parceiro de Bem Hecht na peça “Front Page” e marido da atriz Helen Hayes, foi o mais famoso deles) conseguiu preencher os três quesitos. Alan Campbell, o segundo marido, tinha outro inconveniente: era 11 anos mais jovem. Para mostrar que não tinha complexo, Dorothy vivia fazendo piadas a respeito da idade de Alan. Sempre       que a apresentavam a alguém, dizia: “Muito prazer, sou a sra. Campbell – a mãe, não a esposa.”

New York, 17 de junho de 1958
(Foto de Richard Avedon)

Apesar dos pesares, o tobogã conjugal dos Campbell durou 29 anos, entremeados por uma longa separação e um segundo matrimônio. Foi já casada com ele que Dorothy mudou para Hollywood, em 1933, onde chegou a ganhar mais de US$ 5 mil por semana como roteirista. Só na década de 30 assinou 15 roteiros para filmes que hoje raramente passam na sessão coruja. Até para os rouxinóis Jeanette MacDonald e Nelson Eddy ela escreveu diálogos. Seu maior feito, o roteiro da primeira versão de “Nasce uma Estrela”, lhe valeu uma indicação para o Oscar.

Alan morreu em 1963, enquanto dormia. Ao se virar na cama, de manhã, Dorothy se viu nos braços gelados de um corpo rijo e gelado. Foi um choque, se bem que mais fácil de superar que a solidão que de sua alma tomou conta de forma inexorável. Reclusa a maior parte do tempo no hotel Volney, na companhia de um poodle chamado C’est Tout, nem seus amigos íntimos sabiam ao certo como ela conseguia sobreviver sem trabalhar. Lillian Hellman, sua testamenteira, encontrou numa gaveta cheques não sacados, um dos quais com sete anos de vencimento.

A única herança que Dorothy deixou foi um fundo, no valor de US$ 20 mil, expressamente destinado ao pastor Martin Luther King. Ela não o conhecia, mas admirava a sua causa. A frívola frasista do Algonquin fazia o gênero engajado nas horas vagas. Fez passeata a favor de Sacco e Vanzetti, apoiou greves e, em meados dos anos 30, se confessou comunista. Por essas e não por outras é que o macarthismo a baniu de Hollywood nos anos 50. E ela então pode voltar ao seu antigo ninho, à beira do rio Hudson. Lá, ao menos, todos entendiam as suas piadas.

Texto publicado na Folha de S. Paulo, em 22 de agosto de 1993.



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