Para Edward Albee, arte é um ato de agressão contra o
status quo, tem de levantar questões e não fornecer respostas fáceis.
(Foto de Sara Krulwich)
Senhor
Albee
O americano
Edward Albee, autor de "Quem Tem Medo de Virginia Woolf?", tem nova
peça montada em São Paulo; ganhador de três prêmios Tony e três Pulitzer, ele
defende que o teatro deve ser antes um ato de agressão do que uma fonte de
felicidade
Lucas
Neves / Folha de SP 30/12/2010
Não
venha falar de sonho americano para Edward Albee. Aos 82, o dramaturgo ainda
prefere perturbar o sono americano com peças que desconstroem a felicidade
conjugal de fachada, prospectam sem pudores as pulsões sexuais de gente comum e
fazem personagens contracenar com a morte -seja a perspectiva dela a pairar
sobre a cena, seja a dita cuja encarnada.
As
opções temáticas fazem do teatro de Albee, há mais de 50 anos, um show de
pirofagia em que quase tudo é permitido. Para atiçar chamas, vale desde um
arsenal de imagens que oscilam entre o sádico e o grotesco (circuncisão
reversa, mastectomia voluntária, estupro anal...) até reminiscências da
juventude, marcada por um relacionamento frio com os pais adotivos.
Não
espanta que as mães de sua lavra sejam quase sempre figuras odiosas. No Brasil,
suas obras são montadas desde o começo dos anos 60. Em 1995, José Possi Neto
dirigiu encenação bem recebida de "Três Mulheres Altas". Quatro anos
anos depois, Walmor Chagas e Tônia Carrero buscavam "Um Equilíbrio
Delicado" -estado que o casal beligerante vivido por Marieta Severo e
Marco Nanini em "Quem Tem Medo de Virginia Woolf?" (2000) nem
sonharia alcançar.
Depois
de José Wilker se apaixonar por um ruminante em "A Cabra Ou Quem É Sylvia?"
(2008), Karin Rodrigues interpreta a personagem-título de "A Senhora de
Dubuque", em cartaz a partir do dia 29 de janeiro, no Sesc Pinheiros, em
São Paulo. A morte mais uma vez tem os refletores voltados para si. E nada mais
diremos aqui.
Em
entrevista por telefone à Folha, Albee advoga por um teatro que configure
"um ato de agressão" e não se acanhe em fazer as "perguntas
difíceis", ainda que isso irrite grande parte do público -que busca
"um entretenimento seguro e amigável".
Para
ele, a arte "não tem de nos deixar felizes, mas sim mais conscientes de
nossos sentimentos e valores". Valores que, no teatro ideal imaginado pelo
americano, devem ser postos em xeque, jamais reafirmados.
Albee fala também da influência de sua biografia sobre a ficção que ele produz
e da frágil formação intelectual do espectador médio de teatro na América de
hoje. Leia
a seguir os principais trechos da conversa com o escritor, ganhador de três
prêmios Pulitzer e igual número de Tonys.
*
Folha
- A morte é uma presença marcante e até assume forma humana em peças de sua
autoria, como "Três Mulheres Altas" e "A Senhora de
Dubuque". Por que o senhor acredita que ela seja um mote tão forte para o
teatro?
Edward
Albee - Só há duas coisas que realmente importam. Os dois grandes eventos na
vida de qualquer pessoa são seu nascimento e sua morte. E então você escreve
sobre esse parêntese, sobre tudo o que acontece nesse intervalo. Você não pode
escrever sobre seu nascimento porque não se lembra dele. Mas pode escrever
sobre a morte, porque obviamente não tem memórias dela, mas espera por isso. Há
vários tipos de morte. Muitas das minhas peças são sobre pessoas que estão
vivas, mas morreram emocional e intelectualmente muito tempo atrás. Você pode
estar morto no íntimo e ainda vivo.
As notícias que nos chegam sobre a cena americana incluem a estreia de uma
adaptação musical de "Homem-Aranha" orçada em US$ 65 milhões (R$
109,8 mi) e um número crescente de estrelas hollywoodianas buscando na Broadway
legitimação. Que margem esse quadro deixa para provocação e tomada de riscos?
A
maioria das pessoas quer um entretenimento seguro e amigável. Não desejam que
seja um ato de agressão. E quase toda arte, em seu melhor, é um ato de agressão
contra o status quo. Ou seja: está ali para levantar questões, não para
fornecer respostas fáceis, simples. Mas se você faz perguntas difíceis, irrita muita gente. Essa é a função da
arte, entretanto. Se ela não lhe saca do conforto, não é arte. O problema é que
boa parte das pessoas tem preguiça intelectual.
De
que maneira a arte pode ser a um só tempo agressiva e divertida?
Atraente
é uma palavra perigosa, significa que as pessoas vão gostar. O que a arte
precisa é ser mobilizadora de nossa mente e de nossas emoções. Ela não tem de
nos deixar felizes, mas sim mais conscientes de nossos valores. E deve nos
levar a interrogar se estamos dando conta ou não de nossas responsabilidades.
Não entendo como alguém pode querer ir ao teatro só para ver atores voando
suspensos por fios [referência a "Homem-Aranha"]. Vá ao circo, então!
O teatro deve mobilizar o intelecto e o olhar.
Como
o senhor vê o jogo de forças entre o teatro que chama de comercial e o de
vocação mais experimental, hoje, nos Estados Unidos?
Grande
parte das obras que são produzidas com um olhar no lucro que voltará para o
investidor tende a ser uma perda de tempo. Por outro lado, grande parte dos
trabalhos feitos só de amor ao teatro, ainda que não seja rentável, costuma ter
mais valor. Esses são feitos em teatros pequenos, não comerciais, geralmente
com temporadas mais curtas do que a porcaria comercial.
E
por que isso acontece?
Porque
as pessoas não querem ser incomodadas quando vão ao teatro. Anseiam por ter
seus valores reafirmados -se é que se chega a discutir valores em cena. Não
esperam vê-los questionados. Não estão ali para ser perturbadas. Querem perder
tempo e estão dispostas a gastar muito dinheiro para isso.
O
senhor é, então, pessimista em relação ao futuro do teatro?
O
único problema da democracia é que você tem o que quer, em vez daquilo que você
deveria querer. Numa democracia, se você é bem-educado, pode tentar alcançar
aquilo que deveria querer. Mas tem de ser instruído para fazer a democracia
funcionar e para querer um teatro que faça algo útil.
Quando
eu ia à escola, tinha uma classe de formação cívica, em que aprendia como o
governo trabalhava e o que significava um ato político. Não se ensina mais isso
na América. Também tive aulas de música, literatura e artes visuais. Hoje, elas
não são consideradas importantes. As preferências das plateias são ditadas pelo
pouco que aprendem. Se o cardápio ensinado fosse mais amplo, a gama de
interesses seria mais diversificada.
Diante
desse quadro, por que insiste em abordar temas tabu, como bestialismo (em “A
Cabra”), mastectomia voluntária e circuncisão reversa (ambas em “Homelife”)?
Porque
isso representa o que sou, o que me interessa. É sobre isso que acredito que as
pessoas deveriam refletir.
Já
foi sugerido que o senhor se vale fortemente de sua biografia para criar as
peças. As mães de seu teatro seriam variações da figura da sua mãe adotiva, com
quem o senhor mantinha uma relação difícil. Como equilibra realidade e ficção?
Estou
limitado pelas fronteiras da minha imaginação. Escrevo o que consigo imaginar.
Mas não limita a minha escrita a fatos que tenham acontecido comigo, porque não
penso ser um objeto teatral tão interessante assim. Me considero uma pessoa
interessante, mas não tema próprio para uma peça.
Qual
a diferença em ser uma coisa e outra?
Para
que a história de alguém se preste ao teatro, suas ações têm de fazer sentido
em termos dramáticos, não apenas intelectuais. Senão você transforma uma vida
chata numa peça idem. Não consigo imaginar uma peça muito boa sobre [o filósofo
alemão] Immanuel Kant, por exemplo.
Em
suas peças, surge com frequência um elemento “intruso”, alguém que vem de fora
do cenário principal (as vezes à própria revelia) derrubar máscaras sociais,
revelar hipocrisias. Como o jovem casal convidado pelos protagonistas de
“Virginia Woolf”, ou o casal e a filha visitantes de “Um Equilíbrio Delicado”.
O inferno são os outros?
Dramaturgia
se apoia em conflitos emocionais, físicos, psicológicos ou políticos. E se você
tem um grupo de pessoas que se conhece bem, está muito feliz e não tem sobre o
que falar, não há conflito. O que você tem em mãos, nesse caso, é televisão.
Mas
não dizem que a televisão americana vive uma nova era de ouro, com enredos
provocativos, personagens bens construídas?
Por
“era de ouro”, querem dizer um período muito rentável. Só assisto a programas
informativos, que possam me ensinar algo. Gosto daqueles que tratam de animais,
ciência, cérebro. A minha leitura também segue essa mesma inclinação.
E
peças, o senhor lê?
Leio
porque quero saber o que está acontecendo naquela história. Se vejo uma
montagem sem antes ter lido o texto, não tenho certeza de estar assistindo à
peça que o dramaturgo imaginou. Há uma hierarquia que deve ser respeitada, que
determina que o texto venha antes, e a sua interpretação, depois. Essa deve
apenas reforçar o que o autor concebeu.
Em
duas ocasiões, senti que isso não estava acontecendo, e o resultado foi
horrível. Mas não quero falar sobre isso. Você tem de ser forte para garantir
que a sua visão é o que a plateia vai receber, porque, às vezes, tentam
abrandá-la, facilitá-la, torná-la menos perturbadora, mais digestiva.
Diretores, às vezes, fazem isso, seguindo comandos de quem está colocando
dinheiro na produção.
O
senhor dá aulas na Universidade de Houston. Como é o contato com grupos de
jovens dramaturgos?
Ensino
porque aprendo ao fazê-lo. Sou muito egoísta. Se não existisse essa via de mão
dupla, não funcionaria para mim. Sempre digo aos alunos: “Escrevam a primeira
peça de todos os tempos. Inventem a forma, a estrutura, a ideia”. Toda arte é
reinvenção, não repetição. Arte ruim é repetição. É simples assim.
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