quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Millôr: Diálogo - 2080




- Oi!


- Oi!

- Como é que você tá se sentindo?

- Conformado.

- Bom ouvir você dizer isso. De vez em quando sinto um remorso insuportável, vendo você aí, morrendo, quando é eu que devia estar no seu lugar.

- Bobagem, deixa pra lá. Já vivi bastante. Oitenta anos, seu!

- Mas não posso deixar de me sentir usurpador, vendo você aí nesse leito de morte. O médico já veio hoje?

- Já.

- Você decidiu mesmo?

- Decidi. Assinei a autorização ontem de noite. Ao meio-dia eles me aplicam a injeção e pronto: tudo acabado.

- Puxa! Pelo menos foi um progresso a legalização da eutanásia. Os que ficam velhos podem escolher até onde envelhecer.

- É. Está indo bem o seu novo casamento?

- Muito bem. Uma moça esplêndida.

- Que idade tem mesmo? Vinte?

- Vinte e dois.

- Não é tanta diferença, então. Você está com quantos?

- Bom, biologicamente, 38. Cronologicamente, você sabe, mais de 100. Quando você nasceu eu tinha 27. Estranho imaginar isso, não?

- Um milagre! Quando você falou pela primeira vez que ia tomar a pílula Juvenília, eu juro que achei ridículo. Mas, também, com 21 anos, eu não entendia quase nada. Não podia entender o teu drama de homem de 48 anos que se agarra desesperadamente à esperança de uma pílula que vai remoçá-lo dez anos. Uma pílula inacreditavelmente cara, só ao alcance de um multimilionário, na qual você gastou tudo o que tinha: terrenos, ações, apartamentos, tudo, tudo!

- Tudo não. Você há de ser justo: tive o cuidado de deixar um pequeno apartamento pra família. A família teve que largar o padrão antigo, mas não ficou na miséria; isso não!

- Sabe que a família pensou em interditar você, botar você num manicômio? Mas, meses depois, quando os teus cabelos começaram a ficar pretos de novo, a pele a esticar e, pouco a pouco, você regrediu aos 38 anos, todo mundo teve que calar a boca.

- Minha felicidade foi tão grande que realmente venceu todos os meus escrúpulos, juro! E como eu saberia que nunca haveria condições de a pílula ser pra todos, nunca haveria a possibilidade de ela ficar mais barata, pois o Turinábio é raríssimo e o processo de aproveitamento muito complicado, meu esforço todo, daquele dia em diante, foi trabalhar muito, ganhar muito, pra daí a dez anos, quando chegasse outra vez aos 48, ter dinheiro bastante pra voltar de novo aos 38.

- Compreensível! Humano! Humano! Quantas pílulas você tomou, até hoje?

- Seis.

- Te custou mais ou menos o quê? Um dinheirão!

- Quatro milhões e duzentos mil dólares. Sou dos poucos que tiveram a possibilidade, a vontade e a tenacidade de continuar jovens.

- É, eu mesmo, confesso, inúmeras vezes quis também remoçar os meus dez anos. Sobretudo no dia em que fiz 41 anos e você, que a essa altura tinha 78 cronológicos e 48 biológicos, gastou de novo tudo o que tinha numa nova pílula e voltou a ter 38. Senti uma reação estranha, de angústia e terror: pela primeira vez eu era mais velho do que você. E como, embora eu não fosse propriamente um fracassado, jamais ganharia o bastante para comprar sequer uma pílula, tive que me conformar com a amargura de ver você ir ficando cada vez mais jovem do que eu, principalmente quando você atingia de novo a casa dos 48 e voltava, revigorado e saltitante, aos 38.

- Eu sei, eu sei que fui um monstro! Mas essa pílula não trouxe exatamente a revelação dos monstros de egoísmo que nós somos? Já sabíamos por muitos motivos: mas a demonstração definitiva foi essa pílula. Eu devia ter te ajudado. Mais racionalizava com outras conquistas da ciência que haviam alterado o comportamento humano. E dizia, de mim para comigo: por que temos que respeitar a natureza e nos submetemos à ideia de que os mais jovens têm que ser, por toda a eternidade, os que nascem depois? Isso seria a total submissão à ideia de uma natureza todo-poderosa, ou de um Deus que, tendo estabelecido verdades iniciais, as fixou para todo o sempre. Assim eu racionalizava para manter minha fisionomia jovem e poder viver e gozar de tudo, como sempre. É claro que era duro ver todos os meus amigos ficando velhos. E sofria mais vendo você com os cabelos poucos e embranquecidos, começando a usar os meus óculos, que eu já não usava mais, e, pouco a pouco, se recolhendo à vida menor de própria casa, até o dia em que preferiu ir para um asilo onde tinha assistência melhor. É difícil convencer alguém do que eu sofri.

- É. Mas, depois de certo tempo, eu não sofri mais. E aceitei a coisa toda com naturalidade. Não cheguei mesmo a me importar muito com a velhice. Decidi apenas que, assim que tivesse uma doença mais séria, partiria. Ouve, são os médicos e os enfermeiros. Você sabe: não permitem que ninguém assista. Vai. Não fique triste por minha causa. Também vivi uma boa vida e oitenta anos, afinal, foram uma longa vida. Adeus.

- Adeus, meu filho.

- Adeus, meu pai. Goze a juventude, enquanto tiver dinheiro.


Millôr Fernandes foi jornalista, escritor, tradutor, humorista e desenhista. Faleceu aos 88 anos, em 2012.

Texto publicado no Caderno 2/Cultura de O Estado de S. Paulo, em 26 de setembro de 1999.



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