- Oi!
- Como é que você tá se sentindo?
- Conformado.
- Bom ouvir você dizer isso. De
vez em quando sinto um remorso insuportável, vendo você aí, morrendo, quando é
eu que devia estar no seu lugar.
- Bobagem, deixa pra lá. Já vivi
bastante. Oitenta anos, seu!
- Mas não posso deixar de me
sentir usurpador, vendo você aí nesse leito de morte. O médico já veio hoje?
- Já.
- Você decidiu mesmo?
- Decidi. Assinei a autorização
ontem de noite. Ao meio-dia eles me aplicam a injeção e pronto: tudo acabado.
- Puxa! Pelo menos foi um
progresso a legalização da eutanásia. Os que ficam velhos podem escolher até
onde envelhecer.
- É. Está indo bem o seu novo
casamento?
- Muito bem. Uma moça esplêndida.
- Que idade tem mesmo? Vinte?
- Vinte e dois.
- Não é tanta diferença, então.
Você está com quantos?
- Bom, biologicamente, 38.
Cronologicamente, você sabe, mais de 100. Quando você nasceu eu tinha 27.
Estranho imaginar isso, não?
- Um milagre! Quando você falou
pela primeira vez que ia tomar a pílula Juvenília, eu juro que achei ridículo.
Mas, também, com 21 anos, eu não entendia quase nada. Não podia entender o teu
drama de homem de 48 anos que se agarra desesperadamente à esperança de uma
pílula que vai remoçá-lo dez anos. Uma pílula inacreditavelmente cara, só ao
alcance de um multimilionário, na qual você gastou tudo o que tinha: terrenos,
ações, apartamentos, tudo, tudo!
- Tudo não. Você há de ser justo:
tive o cuidado de deixar um pequeno apartamento pra família. A família teve que
largar o padrão antigo, mas não ficou na miséria; isso não!
- Sabe que a família pensou em
interditar você, botar você num manicômio? Mas, meses depois, quando os teus
cabelos começaram a ficar pretos de novo, a pele a esticar e, pouco a pouco,
você regrediu aos 38 anos, todo mundo teve que calar a boca.
- Minha felicidade foi tão grande
que realmente venceu todos os meus escrúpulos, juro! E como eu saberia que
nunca haveria condições de a pílula ser pra todos, nunca haveria a
possibilidade de ela ficar mais barata, pois o Turinábio é raríssimo e o
processo de aproveitamento muito complicado, meu esforço todo, daquele dia em
diante, foi trabalhar muito, ganhar muito, pra daí a dez anos, quando chegasse
outra vez aos 48, ter dinheiro bastante pra voltar de novo aos 38.
- Compreensível! Humano! Humano!
Quantas pílulas você tomou, até hoje?
- Seis.
- Te custou mais ou menos o quê?
Um dinheirão!
- Quatro milhões e duzentos mil
dólares. Sou dos poucos que tiveram a possibilidade, a vontade e a tenacidade
de continuar jovens.
- É, eu mesmo, confesso, inúmeras
vezes quis também remoçar os meus dez anos. Sobretudo no dia em que fiz 41 anos
e você, que a essa altura tinha 78 cronológicos e 48 biológicos, gastou de novo
tudo o que tinha numa nova pílula e voltou a ter 38. Senti uma reação estranha,
de angústia e terror: pela primeira vez eu era mais velho do que você. E como,
embora eu não fosse propriamente um fracassado, jamais ganharia o bastante para
comprar sequer uma pílula, tive que me conformar com a amargura de ver você ir
ficando cada vez mais jovem do que eu, principalmente quando você atingia de
novo a casa dos 48 e voltava, revigorado e saltitante, aos 38.
- Eu sei, eu sei que fui um
monstro! Mas essa pílula não trouxe exatamente a revelação dos monstros de egoísmo
que nós somos? Já sabíamos por muitos motivos: mas a demonstração definitiva
foi essa pílula. Eu devia ter te ajudado. Mais racionalizava com outras
conquistas da ciência que haviam alterado o comportamento humano. E dizia, de
mim para comigo: por que temos que respeitar a natureza e nos submetemos à
ideia de que os mais jovens têm que ser, por toda a eternidade, os que nascem
depois? Isso seria a total submissão à ideia de uma natureza todo-poderosa, ou
de um Deus que, tendo estabelecido verdades iniciais, as fixou para todo o
sempre. Assim eu racionalizava para manter minha fisionomia jovem e poder viver
e gozar de tudo, como sempre. É claro que era duro ver todos os meus amigos
ficando velhos. E sofria mais vendo você com os cabelos poucos e embranquecidos,
começando a usar os meus óculos, que eu já não usava mais, e, pouco a pouco, se
recolhendo à vida menor de própria casa, até o dia em que preferiu ir para um
asilo onde tinha assistência melhor. É difícil convencer alguém do que eu
sofri.
- É. Mas, depois de certo tempo, eu
não sofri mais. E aceitei a coisa toda com naturalidade. Não cheguei mesmo a me
importar muito com a velhice. Decidi apenas que, assim que tivesse uma doença
mais séria, partiria. Ouve, são os médicos e os enfermeiros. Você sabe: não
permitem que ninguém assista. Vai. Não fique triste por minha causa. Também
vivi uma boa vida e oitenta anos, afinal, foram uma longa vida. Adeus.
- Adeus, meu filho.
- Adeus, meu pai. Goze a
juventude, enquanto tiver dinheiro.
Millôr Fernandes foi jornalista, escritor, tradutor, humorista e desenhista. Faleceu aos 88 anos, em 2012.
Texto publicado no Caderno 2/Cultura de O Estado de S. Paulo, em 26 de setembro de 1999.

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