Um álbum triplo com temas anti-imperialistas lançado
por uma grande gravadora e vendido pela metade do preço
por Denise Sullivan
A história do inicialmente desprezado e finalmente
apreciado quarto álbum do Clash já está bem documentada, mas isso não me
impede de explicar o que ele significa para mim e por que acho que qualquer um
que não tenha caído sob os seus encantos ainda pode colocar os cintos de balas,
amarrar os coturnos e começar a dançar a valsa do rebelde(1), o mais rápido
possível.
Uma das semanas mais incríveis da história do Clash
ocorreu na primavera de 1981, após o lançamento de Sandinista! em dezembro de
1980. A banda fez sua triunfante/caótica sequência de shows no Bond's Casino,
em Nova York, lotando todas as noites, com a quantidade de ingressos
vendidos excedendo a capacidade de público permitida no local. Quando o chefe dos bombeiros barrou a entrada do excedente, a
banda concordou em fazer apresentações extras às suas próprias custas, apenas
para que toda a assistência ficasse satisfeita. Se alguém ainda tinha dúvidas se
a banda era autêntica, se o punk ainda era punk, e se a banda ainda tinha competência
para calçar seus brothel creepers(2), dois anos após o fim dos Sex Pistols, a
banda provou que era, tinha e calçou – por 17 noites seguidas.
Fui a uma das apresentações no Bond's, e, para entrar,
tive de usar a embromação da súplica adolescente – a gente veio até aqui da
Califórrrrrrrrnia -, que acabou funcionando, e fez a noite ficar marcada na
minha um tanto engrandecida história pessoal. O resto da noite foi
apropriadamente histórico, embora eu o tenha reduzido aos destaques mais
fervilhantes, a respeito deste enredo: primeiro, o Grandmaster Flash and the Furious
Five foi bombardeado por restos de comida atirados por uma multidão mal-educada
enquanto tentava cantar "The Message": "Don't push me 'cause I'm
close to the edge" (“Não me empurre porque estou perto do precipício”). E,
segundo, o som do Clash crescendo, a música de spaghetti western da abertura com suas silhuetas no palco, iluminadas por trás, criaram uma atmosfera de
excitação em que tudo poderia acontecer. E então aconteceu: irritados com os
fãs intolerantes, o Clash retaliou com seu mais recente single, um rap fulminante
chamado "The Magnificent Seven", primeira música de Sandinista!.
Lançar o álbum triplo Sandinista! após o duplo London
Calling foi um grande risco para a carreira da banda, além de desagradar a
gravadora (que, primeiro, teve que descobrir como comercializar o punk – e agora
o rap?). O Clash insistiu para que o álbum triplo fosse vendido abaixo do preço
de um álbum duplo (o que significou abrir mão dos royalties). Claro que foi
uma jogada populista, mas o fracasso financeiro se provaria inevitável, assim
como o ódio eterno da gravadora. Como seus executivos reagiram aos contos de
advertência de Jones e Strummer sobre guerra, racismo, manipulação da mídia,
negócios sujos, política suja, intervenção do governo americano e ditaduras
estrangeiras? Quem sabe – provavelmente eles nem os ouviram. Quanto aos
críticos e fãs, bem, eles estavam divididos: os detratores afirmavam que o
álbum teria sido um ótimo single, enquanto os defensores lhe concediam as
maiores honrarias (como a pesquisa anual "Pazz e Jop" do Village
Voice). Vinte e oito anos depois, as mensagens do Clash, vindas das linhas de
frente da desapropriação, soam de fato como uma profecia; musicalmente, são uma
mistura de reggae, dub, hip-hop, gospel, jazz, punk, rockabilly, R&B e
muito mais. A faixa "Mensforth Hill" pode ser modelo do mash-up do século
21.
Assim como Bob Marley documentou a relação entre dois
gêneros da música rebelde, em "Punky Reggae Party" (inspirada
no Clash), a banda fez algo semelhante em Sandinista!, ao acolher o rap na
festa da consciência. Foi apenas um momento, mas os sons de gueto do reggae, do
punk e do hip-hop foram, desta vez, interdependentes (um fato que tende a
permanecer bastante obscuro na história oficial do rock, embora seja um ponto
que o Clash se esforçou para demonstrar intensamente).
Entre os convidados que se juntaram à banda em seu acampamento
comunitário no estúdio, estavam o jamaicano Mikey Dread (RIP 2008) e a cantora
Ellen Foley ("Paradise by the Dashboard Light" e namorada de Jones). Phil Ochs e a Bíblia foram citados, Victor Jara foi lembrado, espanhol foi
falado e Mose Allison foi regravado. Bill Price, na produção laboratorial, contribuiu
para transformar uma baderna potencialmente descontrolada em uma obra-prima. Trinta e seis músicas no total, entre as mais memoráveis para mim estão o rap da vida real "Lightning Strikes (Not Once
But Twice)”; "Police on My Back", narrativa de Eddie Grant sobre brutalidade policial (anos antes das denúncias do N.W.A.); "Lose This Skin", a canção folk não convencional do
cantor/violinista convidado Tymon Dogg, e "Washington Bullets", a
música-título de fato, que permite ao ouvinte decidir qual incidente na
história da intervenção governamental produziu os piores resultados.
E, posso estar enganada, mas acho Topper Headon e
Paul Simonon uma das seções rítmicas mais grosseiramente subestimadas do
rock. A dupla sempre mostrou comprometimento com os homens da linha de frente,
Joe e Mick, que, com Paul, ficaram famosos por sapatearem em uníssono, em praticamente
todas as músicas que tocavam. A maneira como, em Sandinista!, o baterista e o
baixista oscilam da leveza do calipso ao peso do dub, e de volta ao ritmo 4/4
do rock, é, ao mesmo tempo, sutil e reveladora. (Como é possível vivermos em um
mundo onde esses dois não fazem mais música juntos?).
Entre as muitas coisas para se amar no Clash está o
fato de eles serem verdadeiramente rebeldes – com inúmeras causas – e, mais como
roqueiros do que como revolucionários, ainda assim, morreram lutando. Quando
lançaram a continuação de Sandinista!, o comercialmente bem sucedido Combat
Rock (de forma alguma um peso leve sonoro ou temático), eles experimentaram a
versão de uma banda às vésperas da destruição. Drogas e egos haviam se infiltrado
nas fileiras. O empresário deixando o grupo com os nervos à flor da pele. Muito
dinheiro estava em jogo. Ninguém nem menciona mais Cut the Crap, o álbum sem Jones
e Headon.
As transmissões de serviço público do Clash não
mudaram o mundo nem o Clash conseguiu resistir às mudanças do mundo ou da
banda, embora, por um breve período, parecesse que conseguiriam – numa época em
que rebeldes nicaraguenses de verdade derrubaram um governo, uma banda de punk
rock batizou seu disco com o nome deles, convenceu uma grande gravadora a lançá-lo
como um álbum triplo repleto de temas anti-imperialistas e a vendê-lo pela metade
do preço. Isso pode explicar em parte porque o culto em torno do álbum foi
ficando cada vez mais forte até dar origem a The Sandinista! Project, coletânea
de covers, lançada em 2007, com a participação de ativistas políticos musicais como
Camper Van Beethoven, e Jon Langford e Sally Timms, do Mekons. Mas é o próprio
Sandinista! que permanece como um tributo à carreira do Clash e o lembrete da
era em que uma banda podia ser realmente importante e, possivelmente, impactar
a ordem mundial. No mínimo, é o lembrete de uma época em que alguns de nós
achávamos que isso seria possível.
Alguns meses após os shows no Bond’s, foi ao ar a recém-chegada
MTV, que mudaria a música e a mídia para sempre. A imagem estudada do Clash se encaixou
com perfeição nela e, em um ano, Combat Rock explodiria, graças ao novo meio e
ao clipe esperto de "Rock the Casbah". A aliança
reggae-punk-hip-hop, como a que o Clash havia apresentado no Bond's e em
Sandinista!, caiu no esquecimento (até 1983, a MTV optou por não colocar um
rosto negro na programação). E embora a influência musical do Clash nem sempre
se estendesse à sua política da libertação (nem eles as praticassem
consistentemente), a paixão com que expressou suas ideias e executou sua música estabeleceu um padrão raramente alcançado por outras bandas desde
então. Sandinista! permanecerá para sempre um divisor de águas na história do
rock revolucionário; em uma palavra, ele é magnífico(3)!
(1) Referência a “Rebel Waltz”, música de Sandinista!.
(2) Tipo de sapato adotado pelos roqueiros britânicos
da década de 1950 como símbolo de rebeldia.
(3) Referência a “The Magnificent Seven”, música de
Sandinista!.
Denise Sullivan é jornalista.





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