sexta-feira, 5 de setembro de 2025

The Clash: Sandinista!


Um álbum triplo com temas anti-imperialistas lançado 
por uma grande gravadora e vendido pela metade do preço 


    por Denise Sullivan

    A história do inicialmente desprezado e finalmente apreciado quarto álbum do Clash já está bem documentada, mas isso não me impede de explicar o que ele significa para mim e por que acho que qualquer um que não tenha caído sob os seus encantos ainda pode colocar os cintos de balas, amarrar os coturnos e começar a dançar a valsa do rebelde(1), o mais rápido possível.

Uma das semanas mais incríveis da história do Clash ocorreu na primavera de 1981, após o lançamento de Sandinista! em dezembro de 1980. A banda fez sua triunfante/caótica sequência de shows no Bond's Casino, em Nova York, lotando todas as noites, com a quantidade de ingressos vendidos excedendo a capacidade de público permitida no local. Quando o chefe dos bombeiros barrou a entrada do excedente, a banda concordou em fazer apresentações extras às suas próprias custas, apenas para que toda a assistência ficasse satisfeita. Se alguém ainda tinha dúvidas se a banda era autêntica, se o punk ainda era punk, e se a banda ainda tinha competência para calçar seus brothel creepers(2), dois anos após o fim dos Sex Pistols, a banda provou que era, tinha e calçou – por 17 noites seguidas.


Fui a uma das apresentações no Bond's, e, para entrar, tive de usar a embromação da súplica adolescente – a gente veio até aqui da Califórrrrrrrrnia -, que acabou funcionando, e fez a noite ficar marcada na minha um tanto engrandecida história pessoal. O resto da noite foi apropriadamente histórico, embora eu o tenha reduzido aos destaques mais fervilhantes, a respeito deste enredo: primeiro, o Grandmaster Flash and the Furious Five foi bombardeado por restos de comida atirados por uma multidão mal-educada enquanto tentava cantar "The Message": "Don't push me 'cause I'm close to the edge" (“Não me empurre porque estou perto do precipício”). E, segundo, o som do Clash crescendo, a música de spaghetti western da abertura com suas silhuetas no palco, iluminadas por trás, criaram uma atmosfera de excitação em que tudo poderia acontecer. E então aconteceu: irritados com os fãs intolerantes, o Clash retaliou com seu mais recente single, um rap fulminante chamado "The Magnificent Seven", primeira música de Sandinista!.

Lançar o álbum triplo Sandinista! após o duplo London Calling foi um grande risco para a carreira da banda, além de desagradar a gravadora (que, primeiro, teve que descobrir como comercializar o punk – e agora o rap?). O Clash insistiu para que o álbum triplo fosse vendido abaixo do preço de um álbum duplo (o que significou abrir mão dos royalties). Claro que foi uma jogada populista, mas o fracasso financeiro se provaria inevitável, assim como o ódio eterno da gravadora. Como seus executivos reagiram aos contos de advertência de Jones e Strummer sobre guerra, racismo, manipulação da mídia, negócios sujos, política suja, intervenção do governo americano e ditaduras estrangeiras? Quem sabe – provavelmente eles nem os ouviram. Quanto aos críticos e fãs, bem, eles estavam divididos: os detratores afirmavam que o álbum teria sido um ótimo single, enquanto os defensores lhe concediam as maiores honrarias (como a pesquisa anual "Pazz e Jop" do Village Voice). Vinte e oito anos depois, as mensagens do Clash, vindas das linhas de frente da desapropriação, soam de fato como uma profecia; musicalmente, são uma mistura de reggae, dub, hip-hop, gospel, jazz, punk, rockabilly, R&B e muito mais. A faixa "Mensforth Hill" pode ser modelo do mash-up do século 21.


Assim como Bob Marley documentou a relação entre dois gêneros da música rebelde, em "Punky Reggae Party" (inspirada no Clash), a banda fez algo semelhante em Sandinista!, ao acolher o rap na festa da consciência. Foi apenas um momento, mas os sons de gueto do reggae, do punk e do hip-hop foram, desta vez, interdependentes (um fato que tende a permanecer bastante obscuro na história oficial do rock, embora seja um ponto que o Clash se esforçou para demonstrar intensamente).

Entre os convidados que se juntaram à banda em seu acampamento comunitário no estúdio, estavam o jamaicano Mikey Dread (RIP 2008) e a cantora Ellen Foley ("Paradise by the Dashboard Light" e namorada de Jones). Phil Ochs e a Bíblia foram citados, Victor Jara foi lembrado, espanhol foi falado e Mose Allison foi regravado. Bill Price, na produção laboratorial, contribuiu para transformar uma baderna potencialmente descontrolada em uma obra-prima. Trinta e seis músicas no total, entre as mais memoráveis ​​para mim estão o rap da vida real "Lightning Strikes (Not Once But Twice)”"Police on My Back"narrativa de Eddie Grant sobre brutalidade policial (anos antes das denúncias do N.W.A.); "Lose This Skin"a canção folk não convencional do cantor/violinista convidado Tymon Dogg, e "Washington Bullets"a música-título de fato, que permite ao ouvinte decidir qual incidente na história da intervenção governamental produziu os piores resultados.


E, posso estar enganada, mas acho Topper Headon e Paul Simonon uma das seções rítmicas mais grosseiramente subestimadas do rock. A dupla sempre mostrou comprometimento com os homens da linha de frente, Joe e Mick, que, com Paul, ficaram famosos por sapatearem em uníssono, em praticamente todas as músicas que tocavam. A maneira como, em Sandinista!, o baterista e o baixista oscilam da leveza do calipso ao peso do dub, e de volta ao ritmo 4/4 do rock, é, ao mesmo tempo, sutil e reveladora. (Como é possível vivermos em um mundo onde esses dois não fazem mais música juntos?).

Entre as muitas coisas para se amar no Clash está o fato de eles serem verdadeiramente rebeldes – com inúmeras causas – e, mais como roqueiros do que como revolucionários, ainda assim, morreram lutando. Quando lançaram a continuação de Sandinista!, o comercialmente bem sucedido Combat Rock (de forma alguma um peso leve sonoro ou temático), eles experimentaram a versão de uma banda às vésperas da destruição. Drogas e egos haviam se infiltrado nas fileiras. O empresário deixando o grupo com os nervos à flor da pele. Muito dinheiro estava em jogo. Ninguém nem menciona mais Cut the Crap, o álbum sem Jones e Headon.


As transmissões de serviço público do Clash não mudaram o mundo nem o Clash conseguiu resistir às mudanças do mundo ou da banda, embora, por um breve período, parecesse que conseguiriam – numa época em que rebeldes nicaraguenses de verdade derrubaram um governo, uma banda de punk rock batizou seu disco com o nome deles, convenceu uma grande gravadora a lançá-lo como um álbum triplo repleto de temas anti-imperialistas e a vendê-lo pela metade do preço. Isso pode explicar em parte porque o culto em torno do álbum foi ficando cada vez mais forte até dar origem a The Sandinista! Project, coletânea de covers, lançada em 2007, com a participação de ativistas políticos musicais como Camper Van Beethoven, e Jon Langford e Sally Timms, do Mekons. Mas é o próprio Sandinista! que permanece como um tributo à carreira do Clash e o lembrete da era em que uma banda podia ser realmente importante e, possivelmente, impactar a ordem mundial. No mínimo, é o lembrete de uma época em que alguns de nós achávamos que isso seria possível.

Alguns meses após os shows no Bond’s, foi ao ar a recém-chegada MTV, que mudaria a música e a mídia para sempre. A imagem estudada do Clash se encaixou com perfeição nela e, em um ano, Combat Rock explodiria, graças ao novo meio e ao clipe esperto de "Rock the Casbah". A aliança reggae-punk-hip-hop, como a que o Clash havia apresentado no Bond's e em Sandinista!, caiu no esquecimento (até 1983, a MTV optou por não colocar um rosto negro na programação). E embora a influência musical do Clash nem sempre se estendesse à sua política da libertação (nem eles as praticassem consistentemente), a paixão com que expressou suas ideias e executou sua música estabeleceu um padrão raramente alcançado por outras bandas desde então. Sandinista! permanecerá para sempre um divisor de águas na história do rock revolucionário; em uma palavra, ele é magnífico(3)!

(1) Referência a “Rebel Waltz”, música de Sandinista!.
(2) Tipo de sapato adotado pelos roqueiros britânicos da década de 1950 como símbolo de rebeldia.
(3) Referência a “The Magnificent Seven”, música de Sandinista!.

Denise Sullivan é jornalista.


 

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