segunda-feira, 15 de setembro de 2025

O homem que revolucionou as capas de livros


O vienense-carioca Eugenio Hirsch deixou um rastro 
de invenção e excentricidade que começou em 1959


    Ruy Castro      29/09/2001

    Um grande artista gráfico brasileiro morreu esta semana, aos 78 anos, no Rio: Eugenio Hirsch, o homem que, entre 1959 e 1965, revolucionou o conceito das capas de livros no Brasil. Antes deles, os livros brasileiros seguiam a tradição francesa das capas neutras, limitadas à letragem e com, no máximo, uma vinheta – ou extrapolavam para um desenho figurativo, nem sempre de bom gosto. Mesmo quando esses desenhos traziam assinaturas ilustres (Portinari, Djanira, Santa Rosa), não havia integração entre o conceito do livro, o desenho e a letragem. Quer dizer, não havia design. Foi aí que aconteceram Hirsch e Lolita.

Lolita, o romance de Vladimir Nabokov, causou furor ao ser publicado em 1955 pela Olympia Press, de Paris. Imagine então o que não provocou por aqui quando saiu, em 1959, pela Editora Civilização Brasileira. Embora devêssemos estar habituados a essas coisas (afinal, já tínhamos Nelson Rodrigues), muitos se revoltaram com a história do romântico pedófilo enredado pela ninfeta (palavra da qual Nabokov também foi o inventor). Mas edição brasileira do livro também foi importante por outro motivo: começava ali a modernização das capas de livros no Brasil. O autor da capa de Lolita era o vienense Eugenio Hirsch, que chegara ao Rio poucos anos antes e já se tornara uma lenda em Ipanema.


Hirsch entendia de lolitas: em jovem, fora expulso do colégio em Viena por passar as aulas imaginando suas colegas nuas e desenhando-as. Não por isso, é claro, mas por causa de Hitler, sua família fugiu da Europa em 1938 e foi para Buenos Aires. Monteiro Lobato descobriu-o lá em 1945 e quis trazê-lo para o Brasil, para desenhar as histórias de Emília e Narizinho. Mas Lobato morreu dois anos depois e Hirsch acabou vindo por conta própria, em 1955. Instalou-se no Rio, trabalhou em agências de propaganda e, em 1959, assumiu informalmente a editoria de arte da Civilização Brasileira, esta já sob o comando de Ênio Silveira. A Civilização era uma editora sisuda e conservadora, sem cara definida. Quando Ênio deu-lhe carta branca para trabalhar, Hirsch começou sua revolução – e ajudou a deslanchar aquela que se tornaria a mais importante editora brasileira dos anos 60.


Hirsch deu uma personalidade gráfica à Civilização, com suas capas modernas e abstracionistas, que deformavam ou apenas sugeriam as figuras. O desenho era forte e insolente e, nas cores, ele tinha uma insólita preferência pelo roxo – era o rei do roxo. Sua tipologia também era variadíssima e, pela primeira vez, a lombada dos livros passou a ser criativa. A capa de Lolita – toda branca com o título no alto e uma lolitinha seminua no lugar do i – era comportada ao que Hirsch faria depois (mas foi elogiada pelo próprio Nabokov). Outra capa clássica, do mesmo período, finzinho dos anos 50, foi a de O Amante de Lady Chatterly, de D.H. Lawrence (outro livro complicado lançado pela Civilização): uma mulher nua, com um senhor par de nádegas, no meio de uma floresta.


Nádegas eram uma fixação de Hirsch e, pelo menos uma vez, meteram-no numa encrenca. Foi quando ele desenhou uma mulher nua e de costas na capa de uma edição popular de O Ateneu, de Raul Pompéia, sempre para a Civilização. A história não falava de nádegas, mas, por se passar num colégio interno, Hirsch viu nisso uma justificativa para estampar um proeminente glúteo na capa. A congregação de catedráticos do Colégio Pedro II viu naquilo um ultraje a um clássico da literatura e foi estrilar com Ênio Silveira. Mas Ênio era o menos culpado: estava viajando quando a capa fora feita, outra pessoa a aprovara e ele só a vira depois de impressa. O pior é que não podia dizer a verdade: que seu capista era um gênio, mas se orgulhava de não ler os livros cujas capas desenhava.


Às vezes, Hirsch exagerava na criatividade, entortando o título, provocando torcicolos no leitor e estilhaçando o nome do autor. Ensaístas muito sérios, como Álvaro Lins e José Honório Rodrigues, ficavam loucos ao ver seus nomes transformados em sopas de letrinhas e iam se queixar a Ênio. Mas, àquela altura, Hirsch já abrira caminho para que outras editoras aceitassem o trabalho de artistas como Bea Feitler e Michel Burton, que também eram inovadores. Os grandes capistas de hoje, como Hélio de Almeida, Victor Burton, Moema Cavalcanti, Ettore Bottini, João Baptista de Aguiar e outros que lhe devem muito.


Hirsch dizia que capas deviam ser “feitas para agredir, não para agradar”. Àquela altura, muito mais carioca que vienense, sua criatividade refletia seu jeito de ser na vida. Não que, com seu sotaque espanhol e ar alucinado, ele fosse excêntrico pelos padrões normais. Hirsch era excêntrico até para os padrões do único bairro do Brasil em que nenhuma extravagância era criticada ou censurada: Ipanema (foi um de seus grandes personagens, embora nem sempre morasse ali). Em seu apartamento na Avenida Niemeyer, no começo dos anos 60, a cama era um tatame e as luzes já eram psicodélicas. Nada disso era comum na época. Quem o visitasse se deparava com seus hóspedes (fixos, rotativos e de vários sexos) usando roupas coloridas e dançando coreografias exóticas na sala. Durante anos, manteve na garagem um Cadillac amarelo, embora ele e sua mulher (uma das sete com quem se casou no Brasil) não soubessem dirigir e não tivessem motorista. Hirsch dizia que seu sonho era comprar uma fazenda para criar um hipopótamo.


Em 1964, Millôr Fernandes lançou sua revista Pif-Paf, com Hirsch como diretor de arte. Durou apenas oito números (o ano não era favorável a explosões de inteligência e humor), mas era um show gráfico: continha borrões, carimbos, colagens e inúmeros pequenos achados, muitos depois aproveitados pelo Pasquim. O gênio de Hirsch chegou aos olhos de Hugh Hefner, que, a partir daquele ano, passou a usá-lo como ilustrador na Playboy americana – até o dia em que, na própria Playboy Mansion, em Chicago, Hirsch não gostou de um palpite de Hefner sobre um desenho e mandou o patrão àquela parte. Foi demitido. Mas não se importou porque, de 1965 a 1969, estava morando em Madri, criando para a Editora Codex a grandiosa coleção El Mundo de los Museos, em 36 volumes. A coleção saiu também na França, Itália e Holanda, e Hirsch tinha uma carreira assegurada na Europa.


Só que não quis continuar por lá. Sentia saudades de Millôr, Yllen Kerr, Albino Pinheiro, Marina Colasanti, Tom Jobim, Ziraldo, Geraldo Casé, Haroldo Costa e muitos outros amigos do Rio e de Ipanema. Volto em 1970, fez capas para diversas editoras e produziu uma quantidade de livros sobre ecologia. Aposentou-se, mas nunca descansou. Foi três vezes jurado do desfile das escolas de samba e, em todas, deu notas baixas aos concorrentes para ajudar a Mangueira a vencer. E ficou mais excêntrico e extravagante do que nunca: usava suéter em pleno verão carioca, falava de suas intimidades com qualquer pessoa com a maior naturalidade e fazia absolutamente tudo o que lhe dava na telha. Certa vez, ao ver o comercial de um banco em que o telespectador era convidado a “entrar e sentir-se em casa”, Hirsch não teve dúvidas: entrou numa agência do tal banco, recostou-se de comprido num sofá, jogou longe os sapatos e abriu um jornal. Uma funcionária veio atende-lo e ele disse que não precisava de nada, nem sequer era cliente e estava apenas sentindo-se em casa.

Nos últimos anos, Hirsch vivia numa casinha de vila no bairro de Laranjeiras e morreu em decorrência de uma pneumonia. O melhor elogio que se lhe pode fazer é o de que suas capas, produzidas há 40 anos, passariam perfeitamente por atuais se saíssem hoje.


Matéria publicada no jornal O Estado de S. Paulo, em 29 de setembro de 2001.
Ruy Castro é jornalista, biógrafo e escritor.



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