O vienense-carioca Eugenio Hirsch deixou um rastro
de invenção e excentricidade que começou em 1959
Ruy Castro 29/09/2001
Um grande artista gráfico brasileiro morreu esta
semana, aos 78 anos, no Rio: Eugenio Hirsch, o homem que, entre 1959 e 1965,
revolucionou o conceito das capas de livros no Brasil. Antes deles, os livros
brasileiros seguiam a tradição francesa das capas neutras, limitadas à letragem
e com, no máximo, uma vinheta – ou extrapolavam para um desenho figurativo, nem
sempre de bom gosto. Mesmo quando esses desenhos traziam assinaturas ilustres
(Portinari, Djanira, Santa Rosa), não havia integração entre o conceito do
livro, o desenho e a letragem. Quer dizer, não havia design. Foi aí que
aconteceram Hirsch e Lolita.
Lolita, o romance de Vladimir Nabokov, causou furor ao
ser publicado em 1955 pela Olympia Press, de Paris. Imagine então o que não
provocou por aqui quando saiu, em 1959, pela Editora Civilização Brasileira.
Embora devêssemos estar habituados a essas coisas (afinal, já tínhamos Nelson
Rodrigues), muitos se revoltaram com a história do romântico pedófilo enredado
pela ninfeta (palavra da qual Nabokov também foi o inventor). Mas edição
brasileira do livro também foi importante por outro motivo: começava ali a
modernização das capas de livros no Brasil. O autor da capa de Lolita era o
vienense Eugenio Hirsch, que chegara ao Rio poucos anos antes e já se tornara
uma lenda em Ipanema.
Hirsch entendia de lolitas: em jovem, fora expulso do
colégio em Viena por passar as aulas imaginando suas colegas nuas e
desenhando-as. Não por isso, é claro, mas por causa de Hitler, sua família
fugiu da Europa em 1938 e foi para Buenos Aires. Monteiro Lobato descobriu-o lá
em 1945 e quis trazê-lo para o Brasil, para desenhar as histórias de Emília e
Narizinho. Mas Lobato morreu dois anos depois e Hirsch acabou vindo por conta
própria, em 1955. Instalou-se no Rio, trabalhou em agências de propaganda e, em
1959, assumiu informalmente a editoria de arte da Civilização Brasileira, esta
já sob o comando de Ênio Silveira. A Civilização era uma editora sisuda e
conservadora, sem cara definida. Quando Ênio deu-lhe carta branca para
trabalhar, Hirsch começou sua revolução – e ajudou a deslanchar aquela que se
tornaria a mais importante editora brasileira dos anos 60.
Hirsch deu uma personalidade gráfica à Civilização,
com suas capas modernas e abstracionistas, que deformavam ou apenas sugeriam as
figuras. O desenho era forte e insolente e, nas cores, ele tinha uma insólita
preferência pelo roxo – era o rei do roxo. Sua tipologia também era
variadíssima e, pela primeira vez, a lombada dos livros passou a ser criativa.
A capa de Lolita – toda branca com o título no alto e uma lolitinha seminua no
lugar do i – era comportada ao que Hirsch faria depois (mas foi elogiada pelo
próprio Nabokov). Outra capa clássica, do mesmo período, finzinho dos anos 50,
foi a de O Amante de Lady Chatterly, de D.H. Lawrence (outro livro complicado
lançado pela Civilização): uma mulher nua, com um senhor par de nádegas, no
meio de uma floresta.
Nádegas eram uma fixação de Hirsch e, pelo menos uma
vez, meteram-no numa encrenca. Foi quando ele desenhou uma mulher nua e de
costas na capa de uma edição popular de O Ateneu, de Raul Pompéia, sempre para
a Civilização. A história não falava de nádegas, mas, por se passar num colégio
interno, Hirsch viu nisso uma justificativa para estampar um proeminente glúteo
na capa. A congregação de catedráticos do Colégio Pedro II viu naquilo um
ultraje a um clássico da literatura e foi estrilar com Ênio Silveira. Mas Ênio
era o menos culpado: estava viajando quando a capa fora feita, outra pessoa a
aprovara e ele só a vira depois de impressa. O pior é que não podia dizer a
verdade: que seu capista era um gênio, mas se orgulhava de não ler os livros
cujas capas desenhava.
Às vezes, Hirsch exagerava na criatividade, entortando
o título, provocando torcicolos no leitor e estilhaçando o nome do autor.
Ensaístas muito sérios, como Álvaro Lins e José Honório Rodrigues, ficavam loucos
ao ver seus nomes transformados em sopas de letrinhas e iam se queixar a Ênio.
Mas, àquela altura, Hirsch já abrira caminho para que outras editoras
aceitassem o trabalho de artistas como Bea Feitler e Michel Burton, que também
eram inovadores. Os grandes capistas de hoje, como Hélio de Almeida, Victor
Burton, Moema Cavalcanti, Ettore Bottini, João Baptista de Aguiar e outros que
lhe devem muito.
Hirsch dizia que capas deviam ser “feitas para
agredir, não para agradar”. Àquela altura, muito mais carioca que vienense, sua
criatividade refletia seu jeito de ser na vida. Não que, com seu sotaque
espanhol e ar alucinado, ele fosse excêntrico pelos padrões normais. Hirsch era
excêntrico até para os padrões do único bairro do Brasil em que nenhuma
extravagância era criticada ou censurada: Ipanema (foi um de seus grandes
personagens, embora nem sempre morasse ali). Em seu apartamento na Avenida
Niemeyer, no começo dos anos 60, a cama era um tatame e as luzes já eram
psicodélicas. Nada disso era comum na época. Quem o visitasse se deparava com
seus hóspedes (fixos, rotativos e de vários sexos) usando roupas coloridas e
dançando coreografias exóticas na sala. Durante anos, manteve na garagem um
Cadillac amarelo, embora ele e sua mulher (uma das sete com quem se casou no
Brasil) não soubessem dirigir e não tivessem motorista. Hirsch dizia que seu
sonho era comprar uma fazenda para criar um hipopótamo.
Em 1964, Millôr Fernandes lançou sua revista Pif-Paf,
com Hirsch como diretor de arte. Durou apenas oito números (o ano não era
favorável a explosões de inteligência e humor), mas era um show gráfico:
continha borrões, carimbos, colagens e inúmeros pequenos achados, muitos depois
aproveitados pelo Pasquim. O gênio de Hirsch chegou aos olhos de Hugh Hefner,
que, a partir daquele ano, passou a usá-lo como ilustrador na Playboy americana
– até o dia em que, na própria Playboy Mansion, em Chicago, Hirsch não gostou
de um palpite de Hefner sobre um desenho e mandou o patrão àquela parte. Foi
demitido. Mas não se importou porque, de 1965 a 1969, estava morando em Madri,
criando para a Editora Codex a grandiosa coleção El Mundo de los Museos, em 36
volumes. A coleção saiu também na França, Itália e Holanda, e Hirsch tinha uma
carreira assegurada na Europa.
Só que não quis continuar por lá. Sentia saudades de
Millôr, Yllen Kerr, Albino Pinheiro, Marina Colasanti, Tom Jobim, Ziraldo,
Geraldo Casé, Haroldo Costa e muitos outros amigos do Rio e de Ipanema. Volto
em 1970, fez capas para diversas editoras e produziu uma quantidade de livros
sobre ecologia. Aposentou-se, mas nunca descansou. Foi três vezes jurado do
desfile das escolas de samba e, em todas, deu notas baixas aos concorrentes
para ajudar a Mangueira a vencer. E ficou mais excêntrico e extravagante do que
nunca: usava suéter em pleno verão carioca, falava de suas intimidades com qualquer
pessoa com a maior naturalidade e fazia absolutamente tudo o que lhe dava na
telha. Certa vez, ao ver o comercial de um banco em que o telespectador era
convidado a “entrar e sentir-se em casa”, Hirsch não teve dúvidas: entrou numa
agência do tal banco, recostou-se de comprido num sofá, jogou longe os sapatos
e abriu um jornal. Uma funcionária veio atende-lo e ele disse que não precisava
de nada, nem sequer era cliente e estava apenas sentindo-se em casa.
Nos últimos anos, Hirsch vivia numa casinha de vila no
bairro de Laranjeiras e morreu em decorrência de uma pneumonia. O melhor elogio
que se lhe pode fazer é o de que suas capas, produzidas há 40 anos, passariam
perfeitamente por atuais se saíssem hoje.
Matéria publicada no jornal O Estado de S. Paulo, em
29 de setembro de 2001.
Ruy Castro é jornalista, biógrafo e escritor.








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