Heaney: "Vivemos mergulhados profundamente numa terra de
opções de sentimentos, sob pesadas nuvens de resignação."
(Foto de Bobbie Hanvey)
Seamus Heaney
Prêmio Nobel de Literatura de 1995
“Por trabalhos de beleza lírica e profundeza ética,
que exaltam os milagres do dia-a-dia e o passado ainda vivo”, Seamus Heaney foi
o último irlandês a conquistar o Prêmio Nobel (um milhão de verdinhas, nobreza
intelectual vitalícia e consequente inveja dos queridos colegas). Robert Lowell
acha que é “o mais importante poeta irlandês depois de Yeats”. O advérbio
“depois” é bem colocado. Vai ser difícil alcançar Yeats. E para o Nobel eu, já
disse, preferia, do outro lado do mundo, o israelita – nascido na Alemanha –
Yehuda Amichai, morto recentemente.
De qualquer forma sempre foi um total mistério, pra
mim, como é que esse pessoal do Nobel compara poetas de várias línguas,
tendências e geografias, chegando à conclusão de que um é o maior! Mas prêmios
são prêmios e é por eles que os precários valores humanos se medem e se
orientam. Só 1 pessoa em 1 milhão tem opinião própria. No Brasil, portanto, 15.
Todos, naturalmente, meus leitores. Não é mesmo, rapazes?
Apesar de homem do mundo, professor de retórica em
Harvard desde 1982 e de poesia em Oxford desde 1989, Seamus, nascido numa
fazenda no interior de Belfast, é católico irlandês. Irlandês-irlandês e não
adianta; no passado ancestral há a memória inesquecível da fome de 1847-52, o
trágico acontecimento da história da Irlanda. “Num país de 8 milhões de pessoas
a FOME causou a morte de aproximadamente 1 milhão. Forçou outro milhão a
emigrar e reduziu a população a 1 milhão no início do século 20.
E há sempre a nostalgia de uma Irlanda que não existe
mais, além da glória e da responsabilidade de nascer num paisinho que nunca
mais ultrapassou os 3 milhões de habitantes, mas deu ao mundo uma espantosa
estirpe literária: Swift, Burke, O’Flaherty, Yeats, Dylan Thomas, Joyce,
Beckett, Sheridan, Wilde, O’Casey. Se não bastasse Shaw.
Seamus Heaney se preocupa ao mesmo tempo com a
violência e seus contrastes. Numa entrevista acentua sua reticência e reconhece
o risco disso para um escritor. “Vivemos mergulhados profundamente numa terra
de opções de sentimentos, sob pesadas nuvens de resignação”.
Entre alguns belos poemas, escolhi traduzir “Personal
Helicon” (Hélicon Pessoal). Hélicon é o monte grego onde se reuniam as musas. O
Hélicon de Heaney é mais as entranhas da terra. Optei por esse poema por
recordações de minha própria infância, no Meyer quase rural, mas também por
forte impressão literária. Em “O Jardim das Cerejeiras”, Tchecov escreve uma
cena melancólica, no campo, quando se ouve, no céu, o vibrar de uma corda, como
uma harpa, que se rompe. Ao traduzir a peça, descobri, por meio de uma
biografia do escritor, que esse som, na memória de Tchecov, vinha de uma
caçamba metálica caindo no fundo de uma mina de carvão, nas vastidões da estepe
de Donetz. Lugar absolutamente primitivo, onde Tchecov passava férias na
infância.
Hélicon Pessoal
Quando criança, não conseguiam me afastar de poços
E velhas bombas com baldes e cordames
Eu amava o abismo escuro, com o céu enclausurado, os
odores
De águas mortas, fungos úmidos.
Uma vez, numa olaria, do alto de uma tábua podre,
Saboreei o rico estrondo de um balde
Na ponta de uma corda, caindo direto
Tão fundo que não se via nenhum reflexo
Um raso seco num poço de pedra
Fecundava como qualquer aquário.
Quando eu arrancava raízes de vegetais em decomposição
Uma cara branca tremulava embaixo.
Outros poços tinham ecos, devolviam meu próprio
chamado,
Com música nova e clara. E um
Era assustador, pois lá, no meio de samambaias
E dedaleiras, um rato patinhava meu reflexo.
Hoje, espiar raízes, apalpar lama,
Olhar, com olhos de Narciso, alguma fonte
Está abaixo de toda dignidade adulta. Eu rimo
Para ver eu mesmo, e fazer ecoar a escuridão.
Publicado originalmente no caderno Mais!, da
Folha de S.Paulo, com o título Deus do
céu, Millôr, mais poetas?, em 19 de novembro de 2000.

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