The Doors, filme de Oliver Stone
O
protagonista
Jim Morrison, vocalista da banda The Doors, era um hedonista. Aproveitou
tudo do melhor e do pior que a geração Sexo, Drogas e Rock’n’Roll tinha
para oferecer. Admirado por garotas e garotos, principalmente pela sua beleza,
aos poucos, foi se revoltando contra este quesito. Não aceitava ser um símbolo
sexual, amado pelo rostinho bonito - queria ser levado a sério tão somente
pelos seus dotes artísticos e intelectuais. E transformou sua revolta em
autodestruição. Passou a beber até inchar, deixou de se barbear e passou a
ofender os fãs durante os shows.
Partiu para o autoexílio em Paris com a namorada, Pamela Courson, e bateu
as botas em 1971, aos 27 anos, supostamente mergulhado nas águas quentes de uma
banheira. As circunstâncias de sua morte e de seu funeral permanecem nebulosas.
A causa mortis, declarada oficialmente, foi parada cardíaca
(provável resultado de uma overdose de heroína). Pamela
morreria por overdose em 1974.
Como a morte de Elvis Presley, também no banheiro, a de Morrison, até
hoje, gera as mais criativas e bizarras teorias conspiratórias. Seu sonho de
estar entre os poetas de primeira grandeza foi realizado, e hoje ele descansa
ao lado de alguns deles no cemitério Pére Lachaise.
*
O filme
Jim Morrison, interpretado por Val Kilmer, é o personagem principal
de The Doors, filme superestimado de Oliver Stone que é, no
mínimo, correto, o que talvez seja o seu maior defeito ao mostrar a
passagem fugaz e conturbada de Morrison pelo planeta Terra. O didatismo do
roteiro, de autoria de Stone, tornou maçante a história de Morrison. É como se
estivéssemos assistindo a um moroso audiovisual recheado de papo-cabeça. Um
teste para a paciência, em que a bad trip do cantor se
transforma na bad trip do espectador.
O alarde que se fez sobre a perfeição com que Kilmer interpreta Morrison
foi tanto que chega a ser decepcionante constatar que tudo não passa de uma vulgar versão cover. Kilmer já havia encarnado o cantor
Nick Rivers, um roqueiro canastrão inspirado em Elvis Presley, em Top
Secret (1984), escrachada comédia do trio Zucker, Abrahams, Zucker. O
Morrison de Stone parece um Nick Rivers em fase psicodélica, enfrentando um pesado bode lisérgico. Já Meg Ryan (ou o roteiro) transformou Pamela, a namorada de Morrison,
numa hippie sonsa, que, entre uma trip e outra, compara os dotes poéticos de seu companheiro aos de William Blake. Ela é a
única a suportar o insuportável Morrison de Stone, que se baseou na
biografia No One Gets Out of Here Alive, de Jerry Hopkins e Danny
Suggerman. Seu Morrison é pedante, pretensioso e egoísta, um cara que não dava
a mínima para ninguém, inclusive os companheiros de banda. Se tem uma atuação
que merece destaque é a de Crispin Glover, que deu vida a um convincente Andy
Warhol no píncaro da afetação.
Stone poderia
ter escolhido um caminho mais criativo, como fez o britânico David Hayman, diretor
do recente - e excelente - Uma Sombra no Escuro (Silent Scream,
1990), cinebiografia de Larry Winters. Poeta como Morrison, Winters, num momento de descontrole, assassinou um barman,
foi enviado a uma prisão experimental terapêutica em Glasgow, onde, torturado, esquecido e abandonado, morreu por overdose em 1977. Utilizando um inteligente
roteiro não-linear, Hayman deitou e rolou, conduzindo a narrativa com agilidade
ao utilizar recursos de animação gráfica e flashbacks. Assim,
mostrou vários eventos da biografia do protagonista com um dinamismo que impedia o espectador de desgrudar os olhos da tela.
Dinamismo ausente em The Doors, que até tem alguns bons momentos: a abertura, ao som de Riders
on the Storm; o show que, em transe, Morrison transforma num ritual
xamânico; e a discussão entre o cantor e a namorada a respeito de um pato
assado, único vislumbre de bom humor num filme extremamente carrancudo - muito
pouco para 135 minutos de duração. Para os fãs da banda, no entanto, isso
pouco importa. The Doors tem tudo para
agradar, principalmente, aos fãs mais antigos que perderam seu ídolo de
maneira tão precoce, saudosistas que terão a oportunidade de se emocionar
diante da tela grande no escurinho do cinema. Conheço um que foi às lágrimas.
*
O
coadjuvante
Após assistir ao filme, o tecladista do Doors, Ray Manzarek, declarou ao
jornal Los Angeles Times que Oliver Stone “assassinou”
Morrison, transformou-o num personagem destrutivo, retratando-o como um bêbado
idiota e violento. “Jim não era isso. Saí do cinema pensando: ‘Nossa, quem era
aquele babaca?’. O filme parte de uma base filosófica equivocada. Nossa música
era sobre idealismo, liberdade e fraternidade. O filme não se baseia em amor.
Está baseado em loucura e caos.”
Para ele, Morrison era um cara inteligente e amoroso que foi consumido
pela fama, que acreditava na liberdade e questionava as autoridades. Além
disso, Manzarek disse que o roteiro inventou situações. Afirmou que Morrison
não provocou incêndios, não jogou uma aparelho de TV nele, não abandonou o
curso de cinema da Universidade da Califórnia e não incluiu imagens de O
Triunfo da Verdade no filme que rodou enquanto estudava lá. De
positivo, considerou a personificação de Morrison por Kilmer adequada, e que a
recriação das apresentações da banda, embora muito bem filmada, é exagerada e
sensacionalista.
Resenha
de 1991. Foi revista e ampliada.




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