sexta-feira, 8 de agosto de 2025

As portas da decepção


The Doors, filme de Oliver Stone



O protagonista


    Jim Morrison, vocalista da banda The Doors, era um hedonista. Aproveitou tudo do melhor e do pior que a geração Sexo, Drogas e Rock’n’Roll tinha para oferecer. Admirado por garotas e garotos, principalmente pela sua beleza, aos poucos, foi se revoltando contra este quesito. Não aceitava ser um símbolo sexual, amado pelo rostinho bonito - queria ser levado a sério tão somente pelos seus dotes artísticos e intelectuais. E transformou sua revolta em autodestruição. Passou a beber até inchar, deixou de se barbear e passou a ofender os fãs durante os shows.

Partiu para o autoexílio em Paris com a namorada, Pamela Courson, e bateu as botas em 1971, aos 27 anos, supostamente mergulhado nas águas quentes de uma banheira. As circunstâncias de sua morte e de seu funeral permanecem nebulosas. A causa mortis, declarada oficialmente, foi parada cardíaca (provável resultado de uma overdose de heroína). Pamela morreria por overdose em 1974.

Como a morte de Elvis Presley, também no banheiro, a de Morrison, até hoje, gera as mais criativas e bizarras teorias conspiratórias. Seu sonho de estar entre os poetas de primeira grandeza foi realizado, e hoje ele descansa ao lado de alguns deles no cemitério Pére Lachaise.

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O filme


    Jim Morrison, interpretado por Val Kilmer, é o personagem principal de The Doors, filme superestimado de Oliver Stone que é, no mínimo, correto, o que talvez seja o seu maior defeito ao mostrar a passagem fugaz e conturbada de Morrison pelo planeta Terra. O didatismo do roteiro, de autoria de Stone, tornou maçante a história de Morrison. É como se estivéssemos assistindo a um moroso audiovisual recheado de papo-cabeça. Um teste para a paciência, em que a bad trip do cantor se transforma na bad trip do espectador.

O alarde que se fez sobre a perfeição com que Kilmer interpreta Morrison foi tanto que chega a ser decepcionante constatar que tudo não passa de uma vulgar versão cover. Kilmer já havia encarnado o cantor Nick Rivers, um roqueiro canastrão inspirado em Elvis Presley, em Top Secret (1984), escrachada comédia do trio Zucker, Abrahams, Zucker. O Morrison de Stone parece um Nick Rivers em fase psicodélica, enfrentando um pesado bode lisérgico. Já Meg Ryan (ou o roteiro) transformou Pamela, a namorada de Morrison, numa hippie sonsa, que, entre uma trip e outra, compara os dotes poéticos de seu companheiro aos de William Blake. Ela é a única a suportar o insuportável Morrison de Stone, que se baseou na biografia No One Gets Out of Here Alive, de Jerry Hopkins e Danny Suggerman. Seu Morrison é pedante, pretensioso e egoísta, um cara que não dava a mínima para ninguém, inclusive os companheiros de banda. Se tem uma atuação que merece destaque é a de Crispin Glover, que deu vida a um convincente Andy Warhol no píncaro da afetação.

Stone poderia ter escolhido um caminho mais criativo, como fez o britânico David Hayman, diretor do recente - e excelente - Uma Sombra no Escuro (Silent Scream, 1990), cinebiografia de Larry Winters. Poeta como Morrison, Winters, num momento de descontrole, assassinou um barman, foi enviado a uma prisão experimental terapêutica em Glasgow, onde, torturado, esquecido e abandonado, morreu por overdose em 1977. Utilizando um inteligente roteiro não-linear, Hayman deitou e rolou, conduzindo a narrativa com agilidade ao utilizar recursos de animação gráfica e flashbacks. Assim, mostrou vários eventos da biografia do protagonista com um dinamismo que impedia o espectador de desgrudar os olhos da tela.

Dinamismo ausente em The Doors, que até tem alguns bons momentos: a abertura, ao som de Riders on the Storm; o show que, em transe, Morrison transforma num ritual xamânico; e a discussão entre o cantor e a namorada a respeito de um pato assado, único vislumbre de bom humor num filme extremamente carrancudo - muito pouco para 135 minutos de duração. Para os fãs da banda, no entanto, isso pouco importa. The Doors tem tudo para agradar, principalmente, aos fãs mais antigos que perderam seu ídolo de maneira tão precoce, saudosistas que terão a oportunidade de se emocionar diante da tela grande no escurinho do cinema. Conheço um que foi às lágrimas.

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O coadjuvante


    Após assistir ao filme, o tecladista do Doors, Ray Manzarek, declarou ao jornal Los Angeles Times que Oliver Stone “assassinou” Morrison, transformou-o num personagem destrutivo, retratando-o como um bêbado idiota e violento. “Jim não era isso. Saí do cinema pensando: ‘Nossa, quem era aquele babaca?’. O filme parte de uma base filosófica equivocada. Nossa música era sobre idealismo, liberdade e fraternidade. O filme não se baseia em amor. Está baseado em loucura e caos.”

Para ele, Morrison era um cara inteligente e amoroso que foi consumido pela fama, que acreditava na liberdade e questionava as autoridades. Além disso, Manzarek disse que o roteiro inventou situações. Afirmou que Morrison não provocou incêndios, não jogou uma aparelho de TV nele, não abandonou o curso de cinema da Universidade da Califórnia e não incluiu imagens de O Triunfo da Verdade no filme que rodou enquanto estudava lá. De positivo, considerou a personificação de Morrison por Kilmer adequada, e que a recriação das apresentações da banda, embora muito bem filmada, é exagerada e sensacionalista.


Resenha de 1991. Foi revista e ampliada.


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