segunda-feira, 28 de julho de 2025

Sobrevivendo em um mundo de merda


A dualidade do homem: o button da paz 
no colete e a inscrição "Born To Kill" no capacete



      Colin Oakley                                                      14 de junho de 2011
          
    Com treze longas-metragens em cinquenta anos de carreira, o cineasta Stanley Kubrick pode não ter uma extensa filmografia, mas sempre volto a assistir a alguns de seus filmes, enquanto outros, mal consigo assistir. Num rápido exame de seus títulos mais memoráveis e aclamados, assisti a A Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971) algumas vezes, quando, após a morte de Kubrick, chegou ao fim a proibição da exibição do filme imposta por ele(1); assisti a De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut, 1999) e 2001: Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odyssey, 1968) uma vez ou duas, cada um. No entanto, assisti inúmeras vezes a O Iluminado (The Shining, 1980) e Nascido para Matar (Full Metal Jacket, 1987). O Iluminado, devido à atuação de Jack Nicholson e ao uso criativo do cenário de confinamento, ingrediente necessário para um ótimo terror; Nascido para Matar, devido à visão totalmente implacável da vida de um soldado em tempos de guerra. Baseado no romance semiautobiográfico de Gustav Hasford, The Short-Timers (título que Kubrick odiava e mudou assim que encontrou uma alternativa melhor), o filme surgiu após dois filmes de grande repercussão sobre a Guerra do Vietnã, como Apocalypse Now (1979), de Francis Ford Coppola, e Platoon (1986), de Oliver Stone, e, embora diferentes em conteúdo e abordagem, todos transmitiam uma mensagem semelhante: a guerra é um inferno.


Acompanhando a jornada de um grupo de novos recrutas, do treinamento em Parris Island ao campo de batalha na Ofensiva do Tet, Nascido para Matar foi o penúltimo filme de Kubrick, o terceiro a lidar com o tema da guerra depois de Glória Feita de Sangue (Paths of Glory, 1957) e Dr. Fantástico (Dr. Strangelove, 1964). Nascido para Matar chegou às telas de cinema sete anos após o filme anterior, O Iluminado - o maior intervalo entre projetos de Kubrick até então, superado apenas pelo intervalo de doze anos entre Nascido para Matar e o derradeiro De Olhos Bem Fechados. O que pode ser interpretado como uma semiaposentadoria do diretor ou apenas sua natureza metódica de gradualmente assumir o controle - o mestre artesão que dedica mais tempo para refinar sua visão. Kubrick vinha trabalhando no projeto desde 1982, reservando a maior parte do período à pré-produção do roteiro com Michael Herr, corroteirista de Apocalypse Now cujo trabalho se notabilizou pela narração do personagem principal, habilidade que, em Nascido Para Matar, ele colocaria em prática na voz de Joker (Matthew Modine), único personagem com presença constante no filme.

Matthew Modine e Stanley Kubrick

Propositalmente, Kubrick decidiu flexibilizar o formato de Nascido para Matar, pegando a estrutura em três atos do romance original e dividindo-a em duas metades claramente definidas. Partindo do ritual de humilhação e da experiência desumanizadora da icônica sequência da barbearia (ao som da irônica Goodbye My Darling, Hello Vietnam), a primeira metade do filme mostra os novos recrutas sendo subjugados pelo sargento de artilharia Hartman (em atuação marcante do ex-sargento instrutor R. Lee Ermey), apenas para "renascerem mais fortes", preparados para suas missões. Hartman é rude e frequentemente cruel com seus recrutas, em um esforço para garantir que o maior número possível deles volte vivo para casa.

Os novos recrutas, Joker e Pyle

Uma coisa que não está imediatamente associada a um filme de guerra realista e duro como Nascido para Matar é o quão incrivelmente aforístico ele é. Na obra de Kubrick, temos "Here’s Johnny!" (“Johnny chegou!”), em O Iluminadoe “You can’t fight in here, this is the War Room!” ("Você não pode brigar aqui, esta é a Sala de Guerra!"), em Dr. Fantásticomas, culturalmente, o significado de ambas não se compara à força concentrada de "Sucky, sucky" (“Chupetinha, chupetinha”), "Me love you long time" (“Eu ama você bastante tempo”), e praticamente tudo o que Hartman diz em Parris Island. Para o espectador, é altamente divertido vê-lo proferir insultos bem orquestrados com tremendo entusiasmo, mas para o soldado que está enfrentando um ano de treinamento com este homem, deve ser aterrorizante. Para aqueles que dizem que, talvez com a exceção de Dr. FantásticoKubrick nunca tenha demonstrado muito senso de humor, provavelmente eles se esqueceram de versos devastadores como “It looks to me like the best part of you ran down the crack of your momma’s ass and ended up as a brown stain on the mattress” ("Parece que a sua melhor parte escorreu pelo rego da sua mãe e virou uma mancha marrom no colchão") e “I bet you’re the kind of guy that would fuck a person in the ass and not have the common courtesy to give him a reach-around” ("Aposto que você é o tipo de cara que não faria a cortesia de masturbar uma pessoa enquanto fode o rabo dela").

Joker e o sargento Hartman

O personagem que mais sofre com esse abuso é o desajeitado recruta interpretado por Vincent D’Onofrio, cruelmente apelidado de Gomer Pyle por Hartman, em seu primeiro dia na ilha, para descrever sua aparência física(2). Embora toda a história seja narrada por Joker, e, em grande parte do seu ponto de vista, a primeira metade do filme é a história de Pyle. Grande parte da ação na ilha gira em torno de sua inaptidão, que o faz passar por situações humilhantes e se converte em punição para o restante dos recrutas - em uma sequência, ele os acompanha, literalmente, com as calças arriadas, tropeçando e chupando o polegar. Uma coisa que Nascido para Matar mostra, que outros filmes sobre a Guerra do Vietnã não mostram, é que os horrores da guerra começam antes da partida para o campo de batalha(3). Pyle pode ser um soldado ruim, mas a surra que recebe de seus colegas recrutas, conhecida como "festa do cobertor", tarde da noite, é cruel e incomum. Não marca apenas o ponto de virada da condição mental de Pyle, mas também aponta para a jornada de Joker rumo à sua transformação em um homem de sangue frio e implacável. É seguro dizer que Hartman teve sucesso em seu trabalho de destruir Pyle e reconstruí-lo como um assassino, embora, talvez, não o tipo de assassino que esperava.

A inaptidão de Pyle transforma-o em vítima de crueldades

Kubrick não teve muitas imagens iconográficas contínuas ao longo de sua filmografia, mas uma que aparece ocasionalmente é carinhosamente conhecida como "Olhar Kubrick" (“Kubrick Stare”). Reconhecível pela forma como os personagens baixam a cabeça, voltando os olhos para a frente e para cima, quase tocando os lobos frontais, o olhar está presente em Alex, ao ser apresentado com seus Droogs, no Korova Milk Bar de A Laranja Mecânica, e em Jack, enlouquecido pelos moradores do Overlook Hotel, em O Iluminado. Em Nascido Para Matar, o olhar aparece quando o Pyle decide enfrentar Hartman. Levado à loucura pelo treinamento que recebeu dele, Pyle tem a única oportunidade de exercer algum controle sobre a própria vida, mesmo que, dessa maneira, coloque um fim nela. Na sequência que dá o nome Full Metal Jacket(4) ao filme, Pyle carrega seu rifle descrevendo os projéteis como se descrevesse a si mesmo. Um projétil revestido de metal que pode matar num único tiro.

Pyle e o "Olhar Kubrick"

Sem entrar em detalhes científicos, o lobo frontal é usado para fazer as escolhas entre o que é bom e o que é ruim, então é bastante apropriado que os personagens citados sejam responsáveis pelo “Olhar Kubrick”. Nada garante de que a cena tenha sido criada para expressar a jornada do personagem através de sua própria psique perturbada. É apenas uma cena atraente que pode ter leituras alternativas.

Joker e Cowboy, na segunda parte do filme

A segunda metade do filme também começa com uma música, desta vez These Boots Are Made For Walkin’, de Nancy Sinatra, e passa a acompanhar Joker, agora promovido a sargento, enquanto ele escreve artigos superficiais para a revista Stars and Stripes – uma introdução sutil à guerra, com Joker separado da ação e do horror real. Não fosse pela presença de Joker e Cowboy (Arliss Howard) em ambas as metades, elas poderiam ser consideradas dois filmes diferentes com estruturas distintas. Enquanto a primeira metade se desenvolve num ritmo bastante estruturado, com inúmeras sequências de montagem, o segundo capítulo da história é uma coleção de cenas que aparentemente não se relacionam e vagamente se conectam, antes do confronto climático com um atirador solitário. Cinematograficamente, se não também socialmente, o Vietnã sempre foi retratado como a guerra antiguerra, então talvez seja apropriado que, na segunda metade da história, Joker deixe de ser uma ferramenta da máquina de propaganda positiva (a revista Stars and Stripes) para mergulhar de cabeça na merda, com todos os horrores e as matanças que a acompanham.

Joker e o pelotão de Cowboy acertam programa com uma prostituta

A representação das atrocidades da guerra é atemporal. As armas podem ser mais avançadas, mas os soldados permanecem os mesmos. Em uma cena perturbadoramente premonitória, após o programa de Joker com Cowboy e seu pelotão com uma prostituta, um soldado sugere que eles tirem a foto dele com um amigo que está ao lado, numa espreguiçadeira - na realidade, o "amigo" é o cadáver de um inimigo, exibido como um troféu a ser humilhado. Kubrick não hesita em provocar a sensibilidade americana, mostrando soldados em helicópteros abatendo crianças vietnamitas, e Hartman, orgulhoso, ao dizer que Lee Harvey recebeu treinamento do Corpo de Fuzileiros Navais.

O cadáver do inimigo, troféu a ser exibido

Talvez o aspecto mais kubrickiano da produção tenha sido sua decisão de rodar o filme totalmente no East End de Londres. Isso reforça a reputação de Kubrick como megalomaníaco, usando o local como uma tela relativamente em branco, na qual poderia criar sua visão pessoal da guerra. Naturalmente, os prédios de fábricas abandonadas do East End não lembram de imediato o Vietnã, e muito trabalho foi necessário para garantir que o filme parecesse ter sido rodado lá na época da guerra. Palmeiras foram replantadas para criar a aparência de um ambiente tropical, e, para completar o efeito, placas de lojas vietnamitas foram instaladas. Kubrick repetiria este procedimento em De Olhos Bem Fechados, quando optou por permanecer na Inglaterra, seu lar adotivo, e não ir aos EUA para rodar o filme, e, assim como fez com as palmeiras, utilizou postes de luz que lembrassem as ruas de Nova York.

Kubrick recriou o Vietnã à sua maneira, no East End, em Londres

Nascido para Matar também dispensou qualquer resquício do poder estelar de protagonistas hollywoodianos com os quais trabalhou anteriormente, como Kirk Douglas, Ryan O'Neal e Jack Nicholson, optando por recrutar um bando de novatos: Matthew Modine, Arliss Howard e Vincent D'Onofrio; e, claro, o extraordinário R. Lee Ermey, cuja atuação como Hartman é tão memorável e avassaladora que seria possível usar duas mil palavras para falar apenas sobre ele, e o filme inteiro estaria comentado. Ermey já atuou antes, mas fica claro que sua carreira prosseguiu totalmente baseada em sua aparição aqui. Estereotipá-lo como modelo do militar rigoroso e do policial autoritário, papéis que viria a interpretar desde então, seria injusto.

Em meio a um elenco jovem e sem estrelas, R. Lee Ermey brilhou

Um filme que confronta diferentes atitudes em relação à morte em tempos de guerra, na única vez que Joker mata alguém, isso o afeta profundamente; um ato que ele não encara levianamente. No início, afirma que o motivo de se juntar ao exército era para se tornar um assassino, mas a experiência da guerra o transformou. Parris Island pode ter se esforçado para desumanizar seus homens e transformá-los em máquinas de matar implacáveis, mas Joker era esperto demais para deixar isso acontecer, ou burro demais para fazer o contrário, ou ainda, quando ao ser indagado por um oficial superior sobre o button com o símbolo da paz em seu colete e a inscrição "Nascido para Matar" em seu capacete, ele responde: "A dualidade do homem, a coisa junguiana, senhor".

De recruta a assassino, Joker foi bem 
sucedido em sua jornada rumo à masculinidade

Como representação da guerra, Nascido Para Matar é Kubrick em seu momento mais realista e brutal. Em Glória Feita de Sangue, mostrou Kirk Douglas liderando soldados em uma missão, e em Dr. Fantástico, mostrou os homens ridículos e arrogantes que comandam o mundo. Nascido Para Matar mostra homens no coração da Guerra do Vietnã; soldados violentos e cruéis que não sabem pelo que estão lutando, exceto por seu país – não que isso estivesse em jogo, de qualquer forma. Kubrick afirmou que decidiu adaptar o romance de Gustav Hasford por ele "não ser antiguerra nem pró-guerra", mas, com certeza, mostra algo que jamais gostaríamos de experimentar. Um filme sobre a jornada rumo à masculinidade (além das prostitutas, só há um papel feminino, que se revela determinante), no final da qual, Joker conclui sua passagem de recruta a assassino, tudo o que o núcleo do Corpo de Fuzileiros Navais exigia dele. Sua última fala resume perfeitamente a experiência pela qual passou e a transformação no homem em que se tornou: “Estou muito feliz por estar vivo, sem ferimentos e no fim da minha missão. Estou na merda, sim. Mas estou vivo e não tenho medo.”


Colin Oakley é editor do blog Slacker Cinema (WordPress)


(1) Kubrick decidiu retirar voluntariamente A Laranja Mecânica dos cinemas do Reino Unido, supostamente por sua família estar sofrendo ameaças. Até a morte do diretor, o filme ficou indisponível para exibição no Reino Unido por quase três décadas.

(2) O apelido “Gomer Pyle”, do personagem Leonard Lawrence (Vincent D'Onofrio), tem origem no programa de humor Gomer Pyle, U.S.M.C., veiculado na TV americana nos anos 1960. Gomer Pyle, o protagonista, é um frentista de posto de gasolina que se junta ao Corpo de Fuzileiros Navais e, devido à sua natureza ingênua e total inexperiência, deixa enfurecido seu instrutor, o sargento Carter. Em Nascido para Matar, Hartman, o instrutor de treinamento, usa o nome para expor e humilhar o recruta por sua obesidade e inépcia.

(3) Três anos antes de Nascido Para Matar, o diretor Robert Altman, no filme O Exército Inútil (Streamers, 1983), mostrou o desfecho violento do relacionamento tenso de quatro soldados no ambiente claustrofóbico de um  alojamento militar, antes da partida para o campo de batalha no Vietnã.

(4) Full Metal Jacket é o nome dado ao projétil com núcleo de chumbo, envolto em uma capa de metal mais dura, uma liga de cobre e zinco. No contexto do filme, é uma metáfora para o processo desumanizador do treinamento militar, que tem como objetivo “endurecer” os soldados, transformando-os em máquinas de matar.




Nenhum comentário:

Postar um comentário