(Ilustração de Negreiros)
O misto de
comunicólogo e educador Neil Postman, professor da New York University, não se
considera um neoludita, mas afirma ter muito em comum com o resto do grupo.
"Não
acho que destruir as máquinas vá adiantar muito. Os males da revolução
tecnológica são muito mais complexos e difíceis de combater", disse
Postman em entrevista à Folha.
Postman
afirmou também que os neoluditas são ingênuos na hora de resolver os problemas, mas suas críticas são pertinentes. Ao contrário do neoludita Kirpatrick Sale, que afirma ter
"adorado" a experiência de destruir um computador, Postman diz que o
ato nunca passou por sua cabeça.
"É
uma selvageria. Acho que vale como forma de extravasar uma angústia, mas o
resultado prático é simplesmente nenhum." Autor de
15 livros sobre educação, teoria da comunicação e linguística, Postman foi por
vários anos editor da revista de semiótica Etcetera. Vem daí sua preocupação com os efeitos
que a difusão das novas tecnologias tem causado na capacidade dos
norte-americanos em usar a língua inglesa.
Para
ele, o problema da tirania causada pelas novas tecnologias é que as pessoas não
têm a noção de que estão sendo dominadas.
Leia a
seguir os principais trechos da entrevista de Postman, na qual ele afirma que
poderia ser um discípulo de Aldous Huxley e elogia as críticas do autor feitas
ao livro "1984".
Folha de SP - O sr.
recusa o título de neoludita, mas é um dos maiores críticos da revolução tecnológica.
Neil Postman -Nem
todos os que fazem restrição à tecnologia têm de ser necessariamente
neoluditas. Não gosto de rótulos, mas se tiver de me chamar de alguma coisa,
prefiro que me chamem de Huxleyano (discípulo de Aldous Huxley, autor de
"Admirável Mundo Novo").
Folha - O sr.
afirmou recentemente que os norte-americanos estão embriagados pela tecnologia.
Por que usou esta palavra?
Postman - Porque
nós estamos num estado de torpor, não conseguimos colocar as coisas em
perspectiva. A sociedade norte-americana está cometendo um erro muito sério ao
assumir que os frutos da tecnologia são automaticamente positivos.
Folha - Em Amusing Ourselves to Death, o sr. cita
bastante Aldous Huxley. Qual a importância que ele teve em seu trabalho?
Postman - Ele
disse antes de mim coisas que eu gostaria de ter escrito. Como a crítica ao
livro "1984", de George Orwell. Como disse Huxley, não será preciso
banir os livros porque ninguém vai querer ler um. Esse é o resultado mais desastroso da revolução
tecnológica. É com isso que precisamos nos preocupar. É por isso que insisto
que quebrar computadores é perda de tempo e energia.
Folha - O sr.
disse que o principal problema da tirania causada pelas novas tecnologias é que
as pessoas não terão noção de que estão sendo dominadas.
Postman - Exatamente. Elas aceitarão sem rebeldia a opressão causada pela expansão sem
limites da tecnologia porque terão perdido a capacidade de pensar. Isso forma um círculo vicioso, a tecnologia faz com que as pessoas não raciocinem. Só que, ao pararem de pensar,
elas passam a aceitar que a tecnologia continue dominando suas vidas.
Publicado originalmente na Folha de
SP, em 12
de novembro de 1995, sob o título "Educador critica ataque a computador".

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