Apesar da facilidade e da maestria que demonstrava, jogar nunca
foi uma questão simples para Williams. Deixar as quadras também.
(Foto de Quinn Rooney/Getty)
Quando eu soube, em um ensaio para a Vogue, que Serena Williams anunciava sua iminente aposentadoria, esqueci, por um instante, a longa lista de suas
realizações. Não pensei em seus recordes, em sua incomparável aura vitoriosa,
em sua transformação de atleta numa força cultural — em alguém que exigia,
simplesmente por ser quem era, que as pessoas mudassem a maneira de falar sobre
mulheres atletas, em particular as mulheres atletas negras. Essas mudanças
repercutiram além dos esportes. Pensei em seu lançamento.
O que torna seu lançamento tão eficaz é sua precisão e consistência; o
que torna sua precisão e consistência possíveis é a facilidade. Há tensão no
momento — alguns de seus melhores saques acontecem sob pressão — mas nenhuma na
mão esquerda. Ela segura a bola delicadamente. Seu lançamento não se desvia sob
pressão nem baixa quando ela está firme. É preciso muito treinamento para
atingir esse tipo de consistência, não importa a situação, não importa a
escolha do saque. Envolve um domínio que não é apenas mecânico, mas
psicológico. Há histórias sobre Venus e Serena, quando crianças, jogando bolas
de futebol americano para desenvolver o movimento e a força rotacional dos ombros. Richard Williams entendia a importância do saque e como suas filhas poderiam
obter uma vantagem competitiva dominando-o perfeitamente, e desde cedo. Afinal,
é o único golpe que você pode controlar inteiramente, e a essência de Williams
sempre foi estabelecer o controle. O saque de Serena Williams recebe muita
atenção, compreensivelmente; não há nada como a visão de seu perfil em uma
postura precisa, braço totalmente estendido, quadris prontos para estalar,
pernas sustentadas por um poder violento. Então vem o contato e os efeitos
devastadores. Williams estabeleceu o recorde feminino de aces no Aberto dos Estados Unidos, quando conquistou seu primeiro
Grand Slam, em 1999; também detém o segundo recorde, estabelecido ao chegar
à final em 2018, e o terceiro, o quarto e o quinto recordes. Mas tenho pensado
em todos aqueles lançamentos que ela deve ter praticado quando criança, arremessando
a bola repetidamente para atingir a mesma marca. Como deve ter sido cansativo.
Não é segredo que o pai e a mãe de Williams, o pai em particular, tinham
uma visão de como moldar Venus e Serena. Mesmo os atletas mais talentosos
enfrentam grandes adversidades, mas as irmãs Williams também enfrentaram os terríveis
obstáculos do racismo, da misoginia e da pobreza, e, no paparicado mundo do
tênis, nada menos do que isso. O sucesso delas é um milagre, mas não um simples
milagre. O filme recente sobre seu pai, "King
Richard", do qual as irmãs Williams foram produtoras executivas,
ofereceu a versão hollywoodiana dos acontecimentos. Um dos aspectos marcantes
do ensaio de Williams sobre sua aposentadoria é que ela reconhece uma realidade
mais difícil e menos inspiradora. O tênis "sempre pareceu um sacrifício —
embora eu goste do que faço", escreve ela. "Meus pais exigiram muito
de mim. Hoje em dia, muitos pais dizem: 'Deixem seus filhos fazerem o que eles quiserem!'
Bem, não foi isso que me trouxe onde estou. Não fui uma criança rebelde. Eu me
esforcei muito e segui regras." Em seguida, referindo-se à filha, ela
acrescenta: “Eu quero estimular Olympia a fazer algo — não no tênis, mas em
qualquer coisa que desperte o interesse dela. Mas não quero forçar demais.
Ainda estou buscando esse equilíbrio.”
Essa é uma das questões fundamentais da paternidade/maternidade — não
apenas o quanto você deve tentar manter seus filhos sob controle, mas o quanto
você realmente poderá controlá-los. Williams disse que não planejava engravidar
pouco antes do Aberto da Austrália de 2017 — que venceu, com cerca de oito semanas
de gravidez, derrotando a irmã —, mas o nascimento da filha, mais tarde
naquele ano, foi considerado uma grande bênção. Ela agora diz que está deixando o tênis
para tentar ter outro bebê. Ela não está apenas esperançosa, mas assertiva
quanto à possibilidade de engravidar, aos 40 anos, mesmo após as graves complicações
que enfrentou durante o parto de Olympia; no ensaio, ela diz, referindo-se
a si mesma e ao marido, Alexis Ohanian: "Recentemente, recebemos algumas
informações do meu médico que me tranquilizaram e me fizeram sentir que, quando
estivermos prontos, poderemos aumentar nossa família."
A tensão entre acaso e aplicação, aceitação e controle, está entre os
grandes conflitos internos que sempre foram aparentes na complexa maneira de
Williams se apresentar. Não é a única coisa que Williams reconhece no ensaio.
"Houve tantas lutas que venci porque algo me deixou com raiva ou alguém me
subestimou", escreve ela. "Isso me impulsionou. Construí uma carreira
canalizando raiva e negatividade, transformando-as em algo bom. Minha irmã
Venus disse uma vez que, quando uma pessoa diz que você não pode fazer algo, é
porque essa pessoa não pode fazer. Mas eu fiz. E você também pode." Pode ser
difícil para os comentaristas abordarem o papel da raiva no jogo de Williams,
dada a existência de estereótipos desprezíveis sobre mulheres negras raivosas.
Mas a raiva de Williams, que pode parecer elementar, até mesmo mítica — a raiva
de um herói grego — sempre esteve lá. É uma raiva que ela transforma em alegria
quando consegue o break point com um ace, levanta o punho e ruge.
A única observação que soa falsa no trecho acima é o "você também
pode" no final. Parece estranho, e não apenas porque só Serena Williams
pode ser Serena Williams. Grande parte do ensaio é sobre a "evolução"
de Williams, como ela mesma diz, de tenista profissional a mãe dedicada e
também a capitalista de risco. Este ano, sua empresa de investimentos, a Serena
Ventures, levantou 111 milhões de dólares para um fundo inaugural, e grande parte
de seu portfólio consiste em empresas fundadas por mulheres ou pessoas não
brancas. Apesar de toda a liderança feminina, porém, o ensaio soa mais poderoso
como um reconhecimento das coisas que ela não pode fazer e da dor que isso traz
— assim como novas oportunidades também. “Acredite”, ela escreve, “eu nunca
quis ter que escolher entre tênis e família. Não acho justo. Se eu fosse homem,
não estaria escrevendo isto porque estaria na quadra jogando e vencendo,
enquanto minha esposa estaria fazendo um grande esforço para aumentar nossa
família. Talvez eu fosse mais como um Tom Brady, se tivesse essa oportunidade...
Mas estou fazendo 41 anos este mês, e terei de abrir mão de alguma coisa.”
Ela tem razão, e nem voleio ou capital de risco vai mudar isso. Ter uma
criança — gerar uma criança — exige tempo. Exige muito do corpo e da mente. Não
é justo, mas é a vida, e é uma escolha — ou deveria ser — para quem tem esse
desejo. Williams sempre pareceu saber o que
queria; este sempre foi o seu excepcional talento, talento que compartilhou
conosco, esforçou-se por isso sem se importar com mais nada. Agora, ela tem uma
filha, e quer outra criança, pronta para dar algo mais.
Louisa
Thomas é redatora da The New Yorker, responsável pela coluna semanal The
Sporting Scene.



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