quinta-feira, 24 de julho de 2025

A sinceridade de Serena Williams sobre o que significa se aposentar


Apesar da facilidade e da maestria que demonstrava, jogar nunca 
foi uma questão simples para Williams. Deixar as quadras também.
(Foto de Quinn Rooney/Getty)


      Por Louisa Thomas / The New Yorker                       10 de agosto de 2022

    
    Quando eu soube, em um ensaio para a Vogue, que Serena Williams anunciava sua iminente aposentadoria, esqueci, por um instante, a longa lista de suas realizações. Não pensei em seus recordes, em sua incomparável aura vitoriosa, em sua transformação de atleta numa força cultural — em alguém que exigia, simplesmente por ser quem era, que as pessoas mudassem a maneira de falar sobre mulheres atletas, em particular as mulheres atletas negras. Essas mudanças repercutiram além dos esportes. Pensei em seu lançamento.

O que torna seu lançamento tão eficaz é sua precisão e consistência; o que torna sua precisão e consistência possíveis é a facilidade. Há tensão no momento — alguns de seus melhores saques acontecem sob pressão — mas nenhuma na mão esquerda. Ela segura a bola delicadamente. Seu lançamento não se desvia sob pressão nem baixa quando ela está firme. É preciso muito treinamento para atingir esse tipo de consistência, não importa a situação, não importa a escolha do saque. Envolve um domínio que não é apenas mecânico, mas psicológico. Há histórias sobre Venus e Serena, quando crianças, jogando bolas de futebol americano para desenvolver o movimento e a força rotacional dos ombros. Richard Williams entendia a importância do saque e como suas filhas poderiam obter uma vantagem competitiva dominando-o perfeitamente, e desde cedo. Afinal, é o único golpe que você pode controlar inteiramente, e a essência de Williams sempre foi estabelecer o controle. O saque de Serena Williams recebe muita atenção, compreensivelmente; não há nada como a visão de seu perfil em uma postura precisa, braço totalmente estendido, quadris prontos para estalar, pernas sustentadas por um poder violento. Então vem o contato e os efeitos devastadores. Williams estabeleceu o recorde feminino de aces no Aberto dos Estados Unidos, quando conquistou seu primeiro Grand Slam, em 1999; também detém o segundo recorde, estabelecido ao chegar à final em 2018, e o terceiro, o quarto e o quinto recordesMas tenho pensado em todos aqueles lançamentos que ela deve ter praticado quando criança, arremessando a bola repetidamente para atingir a mesma marca. Como deve ter sido cansativo.

O saque: a delicadeza do lançamento 
converte-se em efeitos devastadores.
(Desenho de Robert Crumb)


Não é segredo que o pai e a mãe de Williams, o pai em particular, tinham uma visão de como moldar Venus e Serena. Mesmo os atletas mais talentosos enfrentam grandes adversidades, mas as irmãs Williams também enfrentaram os terríveis obstáculos do racismo, da misoginia e da pobreza, e, no paparicado mundo do tênis, nada menos do que isso. O sucesso delas é um milagre, mas não um simples milagre. O filme recente sobre seu pai, "King Richard", do qual as irmãs Williams foram produtoras executivas, ofereceu a versão hollywoodiana dos acontecimentos. Um dos aspectos marcantes do ensaio de Williams sobre sua aposentadoria é que ela reconhece uma realidade mais difícil e menos inspiradora. O tênis "sempre pareceu um sacrifício — embora eu goste do que faço", escreve ela. "Meus pais exigiram muito de mim. Hoje em dia, muitos pais dizem: 'Deixem seus filhos fazerem o que eles quiserem!' Bem, não foi isso que me trouxe onde estou. Não fui uma criança rebelde. Eu me esforcei muito e segui regras." Em seguida, referindo-se à filha, ela acrescenta: “Eu quero estimular Olympia a fazer algo — não no tênis, mas em qualquer coisa que desperte o interesse dela. Mas não quero forçar demais. Ainda estou buscando esse equilíbrio.”

Essa é uma das questões fundamentais da paternidade/maternidade — não apenas o quanto você deve tentar manter seus filhos sob controle, mas o quanto você realmente poderá controlá-los. Williams disse que não planejava engravidar pouco antes do Aberto da Austrália de 2017 — que venceu, com cerca de oito semanas de gravidez, derrotando a irmã —, mas o nascimento da filha, mais tarde naquele ano, foi considerado uma grande bênção. Ela agora diz que está deixando o tênis para tentar ter outro bebê. Ela não está apenas esperançosa, mas assertiva quanto à possibilidade de engravidar, aos 40 anos, mesmo após as graves complicações que enfrentou durante o parto de Olympia; no ensaio, ela diz, referindo-se a si mesma e ao marido, Alexis Ohanian: "Recentemente, recebemos algumas informações do meu médico que me tranquilizaram e me fizeram sentir que, quando estivermos prontos, poderemos aumentar nossa família."

A tensão entre acaso e aplicação, aceitação e controle, está entre os grandes conflitos internos que sempre foram aparentes na complexa maneira de Williams se apresentar. Não é a única coisa que Williams reconhece no ensaio. "Houve tantas lutas que venci porque algo me deixou com raiva ou alguém me subestimou", escreve ela. "Isso me impulsionou. Construí uma carreira canalizando raiva e negatividade, transformando-as em algo bom. Minha irmã Venus disse uma vez que, quando uma pessoa diz que você não pode fazer algo, é porque essa pessoa não pode fazer. Mas eu fiz. E você também pode." Pode ser difícil para os comentaristas abordarem o papel da raiva no jogo de Williams, dada a existência de estereótipos desprezíveis sobre mulheres negras raivosas. Mas a raiva de Williams, que pode parecer elementar, até mesmo mítica — a raiva de um herói grego — sempre esteve lá. É uma raiva que ela transforma em alegria quando consegue o break point com um ace, levanta o punho e ruge.

Serena com Olympia

A única observação que soa falsa no trecho acima é o "você também pode" no final. Parece estranho, e não apenas porque só Serena Williams pode ser Serena Williams. Grande parte do ensaio é sobre a "evolução" de Williams, como ela mesma diz, de tenista profissional a mãe dedicada e também a capitalista de risco. Este ano, sua empresa de investimentos, a Serena Ventures, levantou 111 milhões de dólares para um fundo inaugural, e grande parte de seu portfólio consiste em empresas fundadas por mulheres ou pessoas não brancas. Apesar de toda a liderança feminina, porém, o ensaio soa mais poderoso como um reconhecimento das coisas que ela não pode fazer e da dor que isso traz — assim como novas oportunidades também. “Acredite”, ela escreve, “eu nunca quis ter que escolher entre tênis e família. Não acho justo. Se eu fosse homem, não estaria escrevendo isto porque estaria na quadra jogando e vencendo, enquanto minha esposa estaria fazendo um grande esforço para aumentar nossa família. Talvez eu fosse mais como um Tom Brady, se tivesse essa oportunidade... Mas estou fazendo 41 anos este mês, e terei de abrir mão de alguma coisa.”

Ela tem razão, e nem voleio ou capital de risco vai mudar isso. Ter uma criança — gerar uma criança — exige tempo. Exige muito do corpo e da mente. Não é justo, mas é a vida, e é uma escolha — ou deveria ser — para quem tem esse desejo. Williams sempre pareceu saber o que queria; este sempre foi o seu excepcional talento, talento que compartilhou conosco, esforçou-se por isso sem se importar com mais nada. Agora, ela tem uma filha, e quer outra criança, pronta para dar algo mais.


Louisa Thomas é redatora da The New Yorker, responsável pela coluna semanal The Sporting Scene. 

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