sábado, 19 de abril de 2025

Vida & Existência: Só uma cena


Nighthawks, tela de Edward Hopper, 1942



    Millôr Fernandes

    Que sensação vocês têm diante da realidade do mundo, não dessa “simples”, em que as pessoas andam de lá pra cá, enquanto outras, neuróticas, claro!, andam de cá pra lá? Falo do mundo complexo, aquele de ideias, imagens, relações criadas por “artistas”, aprofundadas e reinventadas por “intelectuais”? Ou vocês são naturais existencialistas, isto é, existencialistas sem saber, portanto perfeitos, pedreiros modestos, eletricistas simples, balconistas aéreos, que gozam “apenas” o fato biológico de acordar e viver, inconscientemente felizes no ato de levantar, ir ao banheiro, tomar um café, uma cerveja estupidamente gelada, ir e vir (como os lá de cima), falar, discutir a deificação do Dida, o nascimento do Ronaldinho Gaúcho, usando, com naturalidade quase animal, os sentidos e o corpo? Só. Que bom! Que maravilha a simplicidade. Beato lei, como dizem os italianos.

    Mas, e o “outro lado”? E quando nos atinge o demônio da leitura? E a desgraça da pintura, não dessa bosta que agora nos instalam e nos impingem, mas os últimos Abencerrajes que reconhecemos; o Bacon e Lucien Freud, que nos dão outra dimensão do mundo do olhar? E a música, e o cinema, e o humor em sua forma mais intensa, mais sutil, mais verdadeira? (Puxando a brasa, hein, Millôr?)

    Só uma cena:

    Numa madrugada de Nova York (wee small hours of the morning, Paulo Francis), tomando umas e outras com meu amigo, o pintor Caulos. A janela do café dava pra rua, àquela hora quase vazia. De repente, Caulos me disse: “Olha o Hopper!” Hopper? Pensei que fosse vê-lo; Eduardo Hopper, o pintor da solidão americana, ainda vivo. Mas logo, no outro lado da rua, através da enorme vitrine do café em frente, não vi Hopper, vi um homem e uma mulher trepados naqueles banquinhos de papagaio, trocando palavras para sempre inaudíveis. Era um quadro, aliás famoso, de Hopper. É isso – artista (que nome mais vilipendiado!) é o que modifica a nossa visão do mundo para melhor ou para pior. Para a amplidão. Esses momentos, essas conquistas (magnificações) da sensibilidade, são gozo muito acima do simples prazer de gritar no meio da rua: “Meeeengo!”

    E olha que não é pouco. Eu sei; sou Fluminense.

Publicado no Caderno 2/Cultura, O Estado de S. Paulo, domingo, 18 de julho de 1999

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