No
60º aniversário da morte de Billie Holiday, o jornalista Martin Chilton reflete sobre seus
triunfos musicais e dramas pessoais
The Independent - Quarta-feira,
17 de julho de 2019
Em
1954, durante uma turnê pela Inglaterra, antes de seu show no Astoria Ballroom,
em Nottingham, Billie Holiday foi às compras na Marks & Spencer.
Acompanhada da amiga Betty, esposa do estimado escritor de jazz Max Jones, escolheu um pijama e se dirigiu ao balcão para
pagar. A recatada vendedora ficou chocada quando viu a mulher negra de 38 anos
levantar a saia e tirar um rolo de notas do alto da meia. "É mais seguro ali",
disse Holiday, rindo alto.
Holiday
era única: uma mulher indomável, franca e enérgica que também foi uma das maiores
cantoras que já existiu. Isso torna tudo ainda mais triste porque seus últimos
dias foram muito dolorosos e sua morte ocorreu em circunstâncias tão
degradantes, nas primeiras horas de 17 de julho de 1959, no Hospital
Metropolitano do Harlem. Durante cinco semanas, ela permaneceu sob custódia no
leito do hospital. Estava fraca, abaixo do peso, confinada à cama e lutando
contra problemas cardíacos e insuficiência hepática, quando a polícia encontrou
um pequeno envelope de papel-alumínio contendo heroína escondido no quarto. Era
amplamente suspeito que as drogas teriam sido plantadas. Ela foi interrogada pelos
detetives de narcóticos. Seus livros, flores, rádio e toca-discos foram confiscados.
Teve suas impressões digitais tiradas sem consentimento.
Ela
tinha apenas 44 anos quando seu coração parou. A cantora que havia gravado
clássicos como “God Bless the Child”
e “Strange Fruit”, o hino dos
direitos civis, tinha 70 centavos em sua conta bancária. No entanto, velhos
hábitos persistiam, e, mesmo no hospital, ela guardava algum dinheiro amarrado à
perna. Permaneceu autêntica até o fim, brincando com um músico, na véspera de
sua morte, sobre escrever uma nova música chamada “Bless Your Bones”. Repetia para amigos que estava pensando
seriamente em se mudar para a Inglaterra, comprando uma casa em Londres.
Antes
de ser internada, ela morava na 26 West 87th Street, em cuja campainha estava
escrito Eleanora Fagan, nome da criança que cresceu em Baltimore, numa casa
muito pequena. Quando nasceu na Filadélfia, em 7 de abril de 1915, seus pais,
Sadie Fagan e Clarence Holiday, eram adolescentes. Se separaram quando ela ainda
era uma garotinha.
Sua
infância foi muitas vezes brutal. Abusada sexualmente por um vizinho, teve
passagem difícil pelo reformatório católico de Baltimore (como penalidade por
mau comportamento, foi forçada a passar uma noite, trancada em um quarto, com o
cadáver de uma criança em um caixão) e passou a ganhar a vida em uma série de trabalhos
braçais. Ela também afirmou ter trabalhado como prostituta em um bordel em
Baltimore. "Eu fazia programas, até que decidi que não seria mais empregada
de ninguém", disse ela em Lady Sings
the Blues, seu livro de memórias não totalmente confiável.
Em
1929, Sadie e a filha se mudaram para Nova Iorque. Sadie trabalhava como
empregada doméstica e a filha adolescente ganhava a vida esfregando o chão.
Billie Holiday teve sua primeira oportunidade quando se candidatou a um emprego
de dançarina no Jerry Preston’s Log Cabin. Embora reprovada na audição, o
pianista, com pena, perguntou se ela sabia cantar. A garota, que cresceu
adorando a música de Bessie Smith e Louis Armstrong, apresentou uma bela versão
de “Body and Soul” e foi imediatamente
contratada, recebendo 2 dólares por noite.
Na
época, para evitar confusão com o pai, que, na época, tocava guitarra e banjo
na banda de Fletcher Henderson, ela adotou o nome Billie Halliday. Disse aos
músicos que era chamada de Billie porque o pai queria um menino, e costumava
chamá-la de Bill — Count Basie sempre se referia a ela como "William".
Aos jornalistas dizia que era nome de sua estrela de cinema favorita, Miss
Billie Dove. Aos 19 anos, quando frequentava o famoso Apollo Theatre, no Harlem,
apresentava-se como Billie Holiday.
A jovem
cantora era profana, promíscua, alcoólatra, imprevisível e destemida. Depois de
assinar com o empresário de Louis Armstrong, Joe Glaser, ela resistiu às
tentativas de suavizar seu estilo de cantar. "Olha, seu filho da
puta", ela disse a Glaser, "vou cantar do meu jeito". A
violência não era estranha para ela. Depois de ser contratada para uma
apresentação no Grand Terrace, em Chicago, em junho de 1936, por US$ 75 semanais,
o dono do clube, Ed Fox, disse que não gostava de seu estilo de cantar. Gritou
com ela depois de um show, "por
que diabos eu deveria pagar US$ 250 por semana para você estragar meu maldito
show? Todo mundo diz que você canta muito devagar. Saia!". Antes de sair,
ela arremessou os móveis do escritório nele.
Seu
estilo natural de cantar e o timbre de sua voz eram completamente particulares.
Oscar Peterson disse que ela tinha “uma voz de puro veludo”. Holiday tinha um
senso de ritmo incrível e um conhecimento intuitivo de harmonia que lhe
permitia frasear canções de uma forma única, fresca e expressiva. Muitos dos
melhores músicos de jazz a consideram
a maior cantora de tempo que já existiu. Holiday gostava de cantar uma fração
atrás da batida e, em uma sessão de gravação em 1937, os músicos ficaram
surpresos com sua naturalidade ao lidar com canções que eram completamente
novas para ela.
Holiday
sempre quis que sua voz soasse como um instrumento musical e ficou satisfeita
quando o trompetista Miles Davis elogiou seu estilo dizendo: "Billie
Holiday não precisa de instrumentos de sopro, ela soa como um". Algumas de
suas gravações com Teddy Wilson, na década de 1930 - incluindo "What a Little Moonlight Can Do" e
"Miss Brown to You" -
continuam sendo deliciosas obras-primas. "Billie Holiday é fora do comum,
exprime cada palavra que canta," disse Ronnie Scott, saxofonista e
proprietário de jazz club.
Ela é responsável por
algumas das melhores canções de jazz
já gravadas. Isso explica porque o brilhantismo de muitas delas divide os especialistas
sobre qual seria a melhor. Berry Gordy, lenda da Motown, acredita que é "God Bless the Child", uma gravação
que, segundo ele, "falou comigo e, de certa forma, mudou meu pensamento sobre
a vida". Para o poeta Philip Larkin, era a versão de "These Foolish Things".
Para
muitos, é "Strange Fruit",
música que retrata um linchamento e os horrores do racismo, e se tornou um hino
dos primórdios do movimento pelos direitos civis. A música começou como um
poema, escrito em 1937 por Abel Meeropol, um professor que escrevia sob o nome
de Lewis Allen. Meeropol abordou Barney Josephson, dono do Café Society, em
Manhattan, e disse que tinha uma música perfeita para a cantora. Ele explicou a
Holiday que a letra, angustiante ("Árvores do Sul dão frutos estranhos /
Sangue nas folhas e sangue na raiz"), seria muito poderosa em sua lânguida
interpretação. Holiday foi conquistada, dizendo a seus companheiros de banda,
"um cara me trouxe uma música tão foda que eu vou cantar".
Ela
começou a cantar “Strange Fruit” em
1939 – no encerramento de seus shows no Café Society, sem bis. Sua gravadora, a
Columbia Records, não estava disposta a lançar uma música sobre linchamento,
mas, felizmente, deu permissão para Holiday gravá-la para o amigo Milt Gabler, da
Commodore. A gravação, feita em abril de 1939, é considerada um marco da canção
de protesto. Na revista Down Beat, há uma foto do promissor cantor Frank
Sinatra, sentado, totalmente absorto, ouvindo Holiday cantá-la, no Off Beat
Room, em Chicago.
Embora nunca
tenha se manifestado politicamente em declarações públicas, ela sabia que “Strange Fruit” era controversa, uma
expressão visceral da situação dos negros americanos durante uma era de
segregação e injustiça. Holiday nunca ficaria fora das notícias na era moderna,
e essa cantora negra manteve-se firme de uma forma sem precedentes nos EUA de meados do século XX. Quando estava se apresentando no 55 West 52nd Street
Yacht Club, um oficial da Marinha a chamou de “nigger”. Depois que ela quebrou uma garrafa de cerveja no gargalo e
o ameaçou com ela, ele foi embora rapidamente. “Billie teve que lutar a vida
toda, e a maioria das pessoas odeia lutadores”, disse o cantor de blues Josh
White.
Um dos
maiores problemas para Holiday como cantora era a falta de confiança no próprio
talento. Meu pai, John Chilton, que, em 1975, escreveu a biografia Billie’s Blues, conversou com dezenas dos
amigos mais próximos a ela e tinha certeza de que ela sofreu de dúvidas
crônicas sobre si mesma durante a vida toda. Ela era sensível à rejeição ou à
indiferença — e geralmente reagia de maneira espinhosa.
A cantora negra manteve-se firme de uma forma
sem precedentes nos EUA de meados do século 20
(Foto de Herman Leonard)
Durante
um show no Café Society, sentindo o descaso desrespeitoso da plateia, Holiday,
de repente, explodiu. Como normalmente não usava calcinha ao se apresentar (uma
característica comum na época, devido ao calor excessivo das luzes do palco), deu
as costas para o público, inclinou-se, levantou o vestido e mostrou a bunda.
Isso fazia parte de seu caráter combativo. A cantora Hazel Scott lembrou que
Holiday a aconselhou: "Não importa o que os filhos da puta façam com você,
nunca deixe que eles a vejam chorar."
Embora
fosse idolatrada por músicos de jazz por
volta de 1939, Holiday era virtualmente ignorada pelo público em geral. O
clarinetista Artie Shaw acreditava que isso feria seu orgulho e que o fracasso
em obter uma grande audiência "era indiretamente parte do motivo pelo qual
ela, para aliviar a mágoa, consumia drogas".
As
drogas gradualmente se tornaram um fator dominante na vida da cantora. Ela
fumou maconha antes dos 15 anos e, na época de "Strange Fruit", a consumia em grandes quantidades, muitas
vezes indo ao Central Park nos intervalos de seus shows para fumar livremente.
"Esse bagulho é bom, vem de Dakar", disse ao saxofonista Kenneth
Hollon, antes de dar a ele um pouco da maconha senegalesa. Ele disse que era
tão forte que ficou chapado por cerca de cinco dias. Bebeu galões de água para
se recuperar.
O
verdadeiro problema veio quando Holiday, também uma grande consumidora de
uísque, namorou Joe Guy, um trompetista que usava ópio. Depois do ópio, que
afetava sua voz e a fazia vomitar, a heroína tornou-se o seu veneno favorito.
Um dos amigos do meu pai, o trompetista Buck Clayton, foi contratado pela
primeira vez para gravar com Holiday em 1937, e trabalhou com ela,
esporadicamente, nas duas décadas seguintes. Segundo ele, Holiday alegava que a
heroína não corrompia. "Vamos, Bucket", ela disse a ele. "Isso
vai fazer você se sentir como nunca se sentiu antes." Ele rejeitou,
dizendo: "Não, Lady, isso não é para mim".
Em
meados da década de 1940, com o fracasso do casamento com Jimmy Monroe, um
aproveitador, ela gastava US$ 500 por semana em drogas e estava desleixada. Sua
vida emocional era tensa. Seu pai tinha apenas 38 anos quando morreu de
pneumonia em 1937, embora ela nunca tenha sido particularmente próxima do
músico conhecido como Lib-Lab por ser mulherengo. O que realmente partiu seu
coração foi a morte da mãe, aos 49 anos, em 1945. Sem Sadie por perto, o consumo
de drogas de Holiday só piorou.
Em
1947, ela se internou em uma clínica para tentar largar o vício. Algumas
semanas depois, voltaria a usar. Dias depois de um show aclamado com Louis
Armstrong, foi presa pelo Esquadrão de Narcóticos do Departamento de Polícia de
Nova Iorque, no Hotel Grampion, quando encontraram 16 cápsulas de heroína em
sua meia.
Tentou parar com a heroína, mas passou
a beber conhaque, gin ou vodca todos os dias
(Foto de Charles Hewitt, 1947)
Sentenciada
a um ano e um dia no Reformatório Federal para Mulheres, em Alderson, West
Virginia, seus discos foram proibidos nas estações de rádio. A cura do vício na
prisão era, ela disse, "como passar pelo inferno". Ela trabalhava nas
cozinhas e cuidava dos porcos, cumprindo nove meses e meio antes de ser colocada
em liberdade condicional. Com a sentença, foi proibida de se apresentar em Nova
Iorque. Estava simplesmente sem autorização da polícia - obrigatória para
qualquer artista que quisesse se apresentar nas casas noturnas da cidade.
O
banimento de Nova Iorque foi um ponto sensível pelo resto de sua vida — e uma
das razões pelas quais ela pensava em se mudar para Londres. “Cantar é a única
coisa que sei fazer, e eles não me deixam fazer isso. O que eles esperam? Que
eu volte a esfregar degraus, do jeito que comecei?”, ela disse a Max Jones. Sua
reputação de chegar atrasada aos shows só aumentou. O trompetista Henry Red
Allen, que tocou em uma banda com seu pai e gravou com ela, estava entre os que
ficavam revoltados com a sua falta de pontualidade.
Depois
de sair da prisão, ela tentou parar com a heroína, mas a solução foi aumentar o
consumo de álcool. Logo ela estaria bebendo duas garrafas de conhaque, gim ou
vodca todos os dias. Começou a ter dificuldade em controlar o tom da voz. Seu
comportamento era errático. Oscar Peterson a conheceu quando ela deu uma festa
em seu apartamento em 1950. Na ocasião, ela estava atirando garrafas de
Coca-Cola em um homem caído ao pé da escada. "Oh, pode pisar no filho da
puta e subir, querido", ela disse ao assustado jovem pianista canadense,
antes de mudar de assunto e perguntar a ele sobre a cena musical em Montreal.
Holiday
nunca teve muita sorte com os homens, mas encarava a situação com serenidade.
Refletindo sobre seu primeiro casamento, observou que "Jimmy não foi a
causa das coisas que eu fazia mais do que foi a morte da minha mãe". Ela
foi para a cama com muitos músicos, muitos dos quais permaneceram seus amigos.
Roy Eldridge a conheceu quando ela tinha apenas 14 anos, numa visita a Sadie,
em Baltimore. Ele costumava sentar-se com ela, ainda em início de carreira, no
clube Hot-Cha, em Nova Iorque. Ao gravarem juntos, em 1937, tiveram um caso
que, segundo ele disse ao meu pai, terminou "quando Billie se apaixonou
por uma garota". Holiday nunca foi secreta sobre sua vida amorosa. Ela
falava sobre suas amantes durante o período na prisão e contava a Max Jones
sobre as relativas proezas sexuais de antigos parceiros musicais.
Foi, frequentemente,
vítima de uma violência atroz. Durante um caso tempestuoso com o saxofonista
Ben Webster, apanhou, ficou machucada e ganhou um olho roxo – fazendo Sadie,
nas palavras dele, “ficar realmente furiosa", e atacá-lo com um
guarda-chuva. Em 1949, seu empresário John Levy deixou-a com um olho roxo, além
de roubar seu casaco de vison azul-prateado de 18 mil dólares. Seu segundo
marido, Louis McKay, com quem se casou em 1951, também deu a ela um olho roxo escandaloso.
Larkin,
que amava a maneira como a voz dela expressava “todos os sentimentos humanos”, acreditava,
no entanto, que sua vida infeliz a levou a “se especializar num grau quase
masoquista em canções de rejeição e agonia”. Os músicos às vezes ficavam
chocados com seu gosto pela vitimização. Em seu apartamento, ocupava lugar de
destaque uma pintura macabra que mostrava a cabeça decepada de um soldado
chinês jogada em uma rua após uma batalha com soldados japoneses.
Para a escritora Zadie Smith, sua voz
transmitia uma tensão entre dor e prazer inigualável
(Foto de Don Hunstein, 1957)
A escritora
Zadie Smith, uma ex-cantora que costumava imitar Billie Holiday quando se
apresentava em casas de repouso para idosos e bares, disse à The New Yorker, em 2017, que amava a
música “Crazy He Calls Me”, porque “é
uma música tão linda e masoquista… você pode ouvir a manifestação do sofrimento
bem ao lado da declaração de amor. Você pode replicar a frase, mas não consegue
chegar nem perto daquela tensão entre prazer e dor que ela tinha.”
É
equivocado vê-la meramente como uma vítima. Os músicos amavam a mulher
efervescente e espirituosa, de personalidade ímpar, que trabalhava e viajava
com eles. Sua linguagem era vulgar – “caga ou sai da moita”, ela disse ao
trombonista Clyde Bernhardt quando ele foi evasivo sobre se juntar à banda – e
o pianista Jimmy Rowles lembrou de uma mulher que “xingava muito e amava piadas
sujas”.
Ela teve
grandes amizades platônicas com músicos, notavelmente com o mestre saxofonista
Lester Young. Eles trocavam piadas e histórias enquanto fumavam maconha juntos.
A gravação de “I Must Have That Man”,
de 1937, é uma das melhores performances
de Holiday. Foi Young quem a apelidou de “Lady Day”. Ela o chamava de “Presidente”,
ou “Pres”, como ele ficou conhecido.
Quando
excursionava com a banda liderada por Count Basie, ele recorda ter se divertido
muito com Holiday, e a considerava uma cozinheira de primeira classe. O
trombonista Benny Morton disse que Holiday jogava cartas e dados com os homens
no corredor do ônibus da turnê "e costumava ganhar todo o dinheiro".
Coleman Hawkins lembra-se de sua habilidade de contar piadas. Hawkins lembrou
que, em 1957, mesmo com a saúde debilitada, ela ainda era capaz de fazer os
músicos rirem nos bastidores das filmagens do especial de televisão The Sound of Jazz, da CBS. Todos eram
atraídos por seu magnetismo natural.
Holiday
adorava estar na frente das câmeras. Quando jovem, apareceu como figurante em
um filme de Paul Robeson — e ficou terrivelmente animada quando conheceu Orson
Welles na época em que ele estava se preparando para fazer Cidadão Kane. Welles, que deixava Holiday assistir aos ensaios das
cenas do filme, disse a ela que estava em negociações com Duke Ellington sobre
um filme de jazz chamado It's All True. Welles queria que Holiday
e Armstrong fossem parte fundamental de seu projeto, o que, infelizmente, nunca
aconteceu.
A oportunidade
de estar diante das câmeras em Hollywood apareceu em 1946, junto com Armstrong,
no filme New Orleans, rodado nos
estúdios Hal Roach e estrelado por Arturo de Cordova, Dorothy Patrick e Irene
Rich. Como era típico, dois dos maiores artistas negros do século XX receberam
papéis como criados. Holiday interpretou uma empregada e Armstrong, um mordomo.
Longe
dos palcos, Holiday amava os perfumes luxuosos da Coty, óleos de banho caros e
casacos de pele. Era uma consumidora impulsiva, tendo gasto certa vez uma
fortuna em sapatos que combinavam e uma bolsa de couro de crocodilo. Tinha
paixão por animais de estimação. Seus cães – um boxer chamado Mister, um
vira-lata chamado Rajah Ravoy e um chihuahua chamado Pepi – tornaram-se bem
conhecidos entre os músicos de jazz.
“Seus animais eram os únicos amigos nos quais ela realmente confiava”, comentou
a cantora Lena Horne. Holiday tornou-se amiga de Corky Hale na década de 1950,
e a pianista recorda Holiday colocando fraldas de boneca em Pepi, dizendo “meu
bebê parece doente”, enquanto o alimentava com uma mamadeirinha. “Sabe como é,
eu nunca tive filhos”, disse Holiday.
Holiday
sempre teve um grande afeto por seus fãs e músicos britânicos,
e respondeu às
cartas de seus admiradores do Reino Unido durante toda a sua vida, às vezes com
comentários notavelmente sinceros em cartas manuscritas. Em junho de 1939, escreveu
ao baixista inglês Jack Surridge sobre sua depressão, revelando os comentários
desagradáveis que às vezes ouvia. "Nada que alguém dissesse poderia me
fazer sentir pior do que eu já me sinto", ela admitiu.
Quando
fez a primeira turnê pela Inglaterra, em fevereiro de 1954, Holiday estava
animada e deleitou-se ao ser recebida por Max Jones no Aeroporto de Londres, principalmente
por ele trazer uma garrafa de uísque para ela. No entanto, por parte da
imprensa, a recepção foi hostil. No Piccadilly Hotel, um repórter iniciou a
primeira entrevista coletiva perguntando se ela ainda usava drogas, mas ela não
se abateu. Mais tarde, comentaria com Jones: "Eu não viajei três mil
milhas para falar sobre essa merda”.
Jones e
sua esposa Betty acompanharam todo o sucesso de sua curta turnê. Quando o
microfone falhou no Manchester Free Trade Hall, ela cantou "My Man" solo, na frente do palco,
sob aplausos frenéticos. Depois de Nottingham, retornou a Londres, aproveitou
os passeios turísticos em Bloomsbury, fez compras na Simpsons (um traje de
esqui e um gorro de tricô) e bebeu conhaques triplos com floats de Cointreau no Studio Club, na Swallow Street. Ela disse a
Jones que nunca ia à casa das pessoas para socializar porque "as bebidas demoram
a ser servidas, querido, e você não pode ir embora quando quer".
Fora dos palcos, gastava pequenas fortunas em perfumes,
casacos de pele, sapatos e bolsas de couro de crocodilo
(Foto de Jean-Pierre Leloir, Aeroporto de Orly, França)
Ao se
apresentar no Royal Albert Hall, no Dia dos Namorados de 1954, ela ficou
impressionada com o calor da recepção. Ela amava “a sensibilidade” do público
inglês e o apreço por sua música. “Quero morar na Grã-Bretanha porque amo as
pessoas. Elas me chamam de artista, não apenas de cantora”, disse ela.
As
coisas pioraram quando ela voltou para a América. Em fevereiro de 1956, na
Filadélfia, foi presa novamente por posse de drogas. Ela tinha se separado de Louis
McKay e ficava a maior parte do tempo sozinha em seu apartamento, bebendo,
fumando maconha e assistindo a desenhos animados. Certa vez se descreveu como
uma "garota gorda saudável ". Agora seu peso estava abaixo de 50
quilos. O Dr. Herbert Henderson, que a viu cantando no Black Hawk Club, em São
Francisco, em setembro de 1958, disse que ela tinha cirrose hepática.
Algumas
semanas depois, os fãs do The Monterey Jazz Festival ficaram chocados com sua magreza.
Ela tinha emagrecido até os ossos. Em uma última tentativa desesperada de
conseguir algum dinheiro, retornou à Europa. Em Milão, foi vaiada pela plateia.
Em seu último show, no Phoenix Theatre do Greenwich Village, no dia 25 de maio
de 1959, após duas músicas, precisou ser amparada para deixar o palco.
Dispensava trabalhos muito bem pagos para
participar de jam sessions com os músicos que admirava
(Foto de Jean-Pierre Leloir, 1954)
A vida
dela pode parecer deplorável – Oscar Peterson lamentava ver esse gênio “perdido
profundamente no estupor das drogas” e até escreveu um poema em homenagem a
Lady Day sobre como “sua tortura estava na vida” – mas ela sempre foi impassível
sobre seu próprio destino. Ela viveu de forma imprudente e aceitou as
consequências. Uma vez, por exemplo, depois de ganhar muita grana numa gravação
na Califórnia, ela e o trombonista Trummy Young gastaram todo o dinheiro
comemorando. Holiday teve que pedir para Sadie pagar a passagem de ônibus para
casa. “Já imaginou andar três mil milhas de ônibus?”, disse Young.
Para Holiday, a vida foi uma jornada longa e difícil. Mas Roy Eldridge também foi categórico
ao dizer que ela não era "nenhuma rainha da tragédia". Ela amava
cantar, muitas vezes recusava trabalhos lucrativos para participar de jam sessions com músicos como Lester
Young e Buck Clayton, que ela adorava. Em seu primeiro show após a prisão, no
retorno ao Carnegie Hall, ela cantou 21 músicas e deu seis bis. O pianista
Bobby Tucker descreveu tocar com ela naquela noite como "o maior prazer
musical da minha vida".
Ela
realmente merece os elogios que recebeu de outros cantores e músicos. “Billie
Holiday é minha maior influência musical. Lady Day é, sem dúvida, a mais
importante influência no cancioneiro popular americano dos últimos 20 anos”,
disse Sinatra, pouco antes de ela morrer.
Caminhando pela Broad Street após se apresentar
no Sugar Hill Nightclub, em Newark, New Jersey
(Foto de Jerry Dantzic, 1957)
Em
1933, quando começou a cantar profissionalmente, no Monette’s Supper Club, na
133rd Street, no Harlem, ela ia até as mesas e cantava para os clientes
individualmente, como faz o violinista em algum café de Budapeste. Que
experiência deve ter sido para os clientes escolhidos. Como disse a cantora
Carmen McRae: “A única vez que Billie está em paz consigo mesma é quando está cantando.”















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