'Pense por si mesmo. Questione a autoridade.'
(Capa da revista MAD nº 23, maio de 1955)
A revista ensinou o ceticismo saudável para seus leitores — uma lição que, atualmente, os consumidores de mídia
precisam aprender mais do que nunca
Michael
J. Socolow 11 de maio de 2018 / Atualizado
em 7 de julho de 2019
A
revista MAD respira por aparelhos. Anunciou um reinício e fez uma piada, chamando a edição de abril de
"primeira edição". Agora, decidiu que só irá republicar antigos
conteúdos, além de edições especiais de fim de ano.
Em termos de ressonância cultural e popularidade de massa, porém, perdeu grande parte de
sua influência. Em seu ápice, no início dos anos 1970, sua circulação ultrapassava 2 milhões. Em 2017, era
de 140 mil.
Por
mais estranho que pareça, acredito que o "habitual bando de idiotas"
(“usual gang of idiots”) que produzia
a MAD realizava um serviço de
utilidade pública vital, ensinando aos adolescentes americanos que eles não
deveriam acreditar em tudo o que liam em livros didáticos ou viam na TV.
MAD pregava a subversão e a transparência quando o chamado jornalismo objetivo permanecia complacente com as autoridades. Enquanto âncoras de telejornais regularmente papagueavam alegações questionáveis do governo, MAD chamava os políticos mentirosos quando eles mentiam. Muito antes dos órgãos responsáveis pela opinião pública, como o New York Times e o CBS Evening News, descobrirem, MAD contava aos seus leitores tudo sobre a falta de credibilidade. A abordagem cética da revista em relação a anunciantes e autoridades ajudou a criar, nas décadas de 1960 e 1970, uma geração menos crédula e mais crítica.
O
ambiente de mídia atual difere consideravelmente daquele no qual a MAD floresceu. Mas pode-se argumentar
que os consumidores estão lidando com muitos dos mesmos problemas, da publicidade
desonesta à propaganda mentirosa. Enquanto
o legado satírico da MAD perdura, não
está claro se o seu caráter educacional e seus esforços implícitos de
alfabetização midiática continuam sendo parte da cultura jovem.
Um
carrossel de pânicos midiáticos
Em
minha pesquisa sobre história da mídia, difusão de informação e publicidade,
notei a natureza cíclica dos pânicos midiáticos e dos movimentos de aprimoramento
da mídia ao longo da história norte-americana.
O
padrão é mais ou menos assim: um novo meio ganha popularidade. Políticos exasperados
e cidadãos indignados exigem novas restrições, alegando que os oportunistas são
capazes de muito facilmente explorar seu poder de persuasão e enganar os
consumidores, inutilizando seu senso crítico. Mas a indignação é exagerada.
Eventualmente, a audiência se torna mais experiente e educada, tornando tais
críticas pitorescas e anacrônicas.
Durante
a era dos tabloides, na década de 1830, os periódicos frequentemente fabricavam
histórias sensacionalistas como “A Grande Farsa da Lua" para vender mais
cópias. Por um tempo, funcionou, até que reportagens rigorosas se tornaram mais
valiosas para os leitores.
Quando
o rádio se tornou o meio predominante da década de 1930, Orson Welles perpetrou
uma farsa extraterrestre semelhante com o infame programa "A Guerra dos
Mundos". A transmissão não causou realmente, como alguns alegam, o medo
generalizado de uma invasão alienígena entre os ouvintes. Mas desencadeou um debate nacional sobre o poder do rádio e a credulidade do público.
Além
dos tabloides e do rádio, testemunhamos pânicos morais em relação a romances
baratos, revistas de jornalismo investigativo, telefones, histórias em
quadrinhos, televisão, videocassete e agora a internet. Assim como o Congresso
foi atrás de Orson Welles, vemos Mark Zuckerberg testemunhando sobre a
facilitação dos bots russos pelo
Facebook.
Refletindo
a nossa credulidade
Mas
há outro tema na história da mídia do país que é frequentemente negligenciado.
Em resposta ao poder persuasivo de cada novo meio, surge uma resposta popular saudável
ridicularizando as ingênuas vítimas da espetacularização.
Por
exemplo, em As Aventuras de Huckleberry
Finn, Mark Twain nos deu Rei e Duque, dois vigaristas que viajavam de
cidade em cidade, explorando a ignorância com espetáculos teatrais cômicos e histórias
fantásticas inventadas.
Eles
foram os ancestrais dos divulgadores de notícias falsas, as fake news, e Twain, com experiência em jornalismo, sabia
tudo sobre vender absurdos. Seu conto clássico "Journalism in Tennessee" é
uma crítica feroz aos editores desvairados e à ficção grotesca, publicada frequentemente
como fato em jornais norte-americanos.
Além
disso, há o grande P.T. Barnum, que enganava as pessoas de maneiras
maravilhosamente inventivas. "Siga em frente para o egresso", dizia uma série de placas de sinalização dentro de seu
famoso museu. Clientes ignorantes, orientados pelas placas, e presumindo que "egresso" seria algum tipo de
animal exótico, logo se viram passando pela porta de saída para o lado
de fora do museu.
Eles
podem ter se sentido enganados, mas, na verdade, Barnum lhes prestou um grande
– e proposital – serviço. Seu museu tornou os frequentadores mais cautelosos
com as hipérboles. Ele empregou humor e ironia para ensinar o ceticismo. Como
Twain, Barnum colocou um espelho de parque de diversões na frente da emergente
cultura de massa dos EUA, a fim de fazer as pessoas refletirem sobre os
excessos da comunicação comercial.
‘Pense
por si mesmo. Questione a autoridade’
MAD incorpora esse mesmo espírito. Criada
originalmente como uma revista em quadrinhos de horror, evoluiu para um canal de
humor satírico que criticava a publicidade norte-americana, os políticos
hipócritas e o consumo irracional.
Ensinando
a seus leitores adolescentes que os governos mentem, — e que apenas os otários se
apaixonam por vendedores ambulantes — MAD
subverteu implícita e explicitamente o otimismo ensolarado dos anos Eisenhower
e Kennedy. Seus escritores e artistas zombavam de tudo e de todos que
reivindicavam o monopólio da verdade e da virtude.
“A declaração da missão editorial sempre foi a
mesma: ‘Todo mundo está mentindo para você, inclusive as revistas. Pense por si
mesmo. Questione a autoridade’”, de acordo com o editor de longa data John
Ficarra.
Essa
foi uma mensagem subversiva, especialmente num período em que uma profusão de
publicidade e propaganda da Guerra Fria infectou toda a cultura norte-americana.
Numa época em que a televisão dos EUA transmitia apenas três redes de TV e
as leis limitavam as opções de mídia alternativa, a mensagem da MAD se destacou.
Assim
como os intelectuais Daniel Boorstin, Marshall McLuhan e Guy Debord, que começavam
a fazer críticas contra esse ambiente midiático, MAD fazia o mesmo – mas de uma forma amplamente acessível,
orgulhosamente idiota e surpreendentemente sofisticada.
Por
exemplo, o existencialismo implícito, escondido sob o caos de cada quadrinho
de Spy vs. Spy, falava diretamente da
insana política de temeridade da Guerra Fria. Concebido e desenhado pelo
exilado cubano Antonio Prohías, Spy vs. Spy apresentava dois espiões que, como os Estados Unidos e a União
Soviética, observavam a doutrina da Mutually Assured Destruction (Destruição Mutualmente Assegurada).
Cada
espião não estava comprometido com nenhuma ideologia, mas sim com um plano de completa eliminação
do outro – e, na corrida armamentista para lugar nenhum, cada plano saía pela culatra.
O
cartum apontava para a irracionalidade do ódio irrefletido e da violência sem
sentido. Em um ensaio sobre a situação do soldado na Guerra do Vietnã, o
crítico literário Paul Fussell escreveu uma vez que os soldados norte-americanos
foram "condenados à loucura sádica" pela monotonia de uma violência
sem fim. Assim como os personagens de Spy
vs. Spy.
À
medida que a falta de credibilidade aumentou das administrações Johnson para
Nixon, a lógica da crítica da MAD à
Guerra Fria se tornou mais relevante. A circulação disparou. O sociólogo Todd
Gitlin — que, na década de 1960, foi líder da organização ativista Estudantes por uma Sociedade Democrática —
creditou à MAD o desempenho de uma
importante função educacional para sua geração.
"No
ensino fundamental e médio," ele escreveu, "eu devorava a revista".
Um
passo atrás?
E ainda assim, esse ceticismo saudável parece ter evaporado nas décadas
seguintes. Tanto a preparação para a Guerra do Iraque quanto a carnavalização
da cobertura com a anuência do primeiro presidente astro de reality show parecem ser evidências de
uma falha generalizada de alfabetização midiática.
Ainda
estamos lutando para lidar com a internet e a maneira como ela facilita a
sobrecarga de informações, as bolhas de filtro, a propaganda e, sim, as fake news.
Mas
a história mostrou que, embora possamos ser estúpidos e crédulos, também
podemos aprender a identificar a ironia, reconhecer a hipocrisia e rir de nós
mesmos. E aprendemos muito mais sobre como empregar nossa capacidade crítica
quando somos desarmados pelo humor do que quando somos repreendidos por
pedantes. Uma linha direta que alfineta a credulidade dos consumidores de mídia
pode ser traçada de Barnum a Twain, MAD,
South Park e The Onion.
Embora
o legado da MAD continue vivo, o
ambiente midiático atual está mais polarizado e difuso. Também tende a ser
muito mais cínico e niilista. Com humor, a MAD
ensinou à garotada que os adultos escondiam verdades, não que, em um mundo de fake news, a própria noção de verdade
não tenha sentido. O paradoxo formou o caráter da MAD, que, em seus melhores momentos, podia ser mordaz e gentil, bem-humorada e trágica, implacável
e cativante - tudo ao mesmo tempo.
Essa
é a sensibilidade que perdemos. E é por isso que precisamos de um canal como a MAD mais do que nunca.
Michael J. Socolow é professor associado de
Comunicação e Jornalismo da Universidade do Maine. Artigo publicado
originalmente em The Conversation.













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