domingo, 30 de março de 2025

No seu auge, MAD foi muito mais do que um punhado de piadas estúpidas


'Pense por si mesmo. Questione a autoridade.'
(Capa da revista MAD nº 23, maio de 1955)



A revista ensinou o ceticismo saudável para seus leitores ​​ uma lição que, atualmente, os consumidores de mídia precisam aprender mais do que nunca

     Michael J. Socolow    11 de maio de 2018 / Atualizado em 7 de julho de 2019

    A revista MAD respira por aparelhos. Anunciou um reinício e fez uma piada, chamando a edição de abril de "primeira edição". Agora, decidiu que só irá republicar antigos conteúdos, além de edições especiais de fim de ano.

Em termos de ressonância cultural e popularidade de massa, porém, perdeu grande parte de sua influência. Em seu ápice, no início dos anos 1970, sua circulação ultrapassava 2 milhões. Em 2017, era de 140 mil.

Por mais estranho que pareça, acredito que o "habitual bando de idiotas" (“usual gang of idiots”) que produzia a MAD realizava um serviço de utilidade pública vital, ensinando aos adolescentes americanos que eles não deveriam acreditar em tudo o que liam em livros didáticos ou viam na TV.


MAD pregava a subversão e a transparência quando o chamado jornalismo objetivo permanecia complacente com as autoridades. Enquanto âncoras de telejornais regularmente papagueavam alegações questionáveis do governo, MAD chamava os políticos mentirosos quando eles mentiam. Muito antes dos órgãos responsáveis pela opinião pública, como o New York Times e o CBS Evening News, descobrirem, MAD contava aos seus leitores tudo sobre a falta de credibilidade. A abordagem cética da revista em relação a anunciantes e autoridades ajudou a criar, nas décadas de 1960 e 1970, uma geração menos crédula e mais crítica.

O ambiente de mídia atual difere consideravelmente daquele no qual a MAD floresceu. Mas pode-se argumentar que os consumidores estão lidando com muitos dos mesmos problemas, da publicidade desonesta à propaganda mentirosa. Enquanto o legado satírico da MAD perdura, não está claro se o seu caráter educacional e seus esforços implícitos de alfabetização midiática continuam sendo parte da cultura jovem.


Um carrossel de pânicos midiáticos

Em minha pesquisa sobre história da mídia, difusão de informação e publicidade, notei a natureza cíclica dos pânicos midiáticos e dos movimentos de aprimoramento da mídia ao longo da história norte-americana.

O padrão é mais ou menos assim: um novo meio ganha popularidade. Políticos exasperados e cidadãos indignados exigem novas restrições, alegando que os oportunistas são capazes de muito facilmente explorar seu poder de persuasão e enganar os consumidores, inutilizando seu senso crítico. Mas a indignação é exagerada. Eventualmente, a audiência se torna mais experiente e educada, tornando tais críticas pitorescas e anacrônicas.

Durante a era dos tabloides, na década de 1830, os periódicos frequentemente fabricavam histórias sensacionalistas como “A Grande Farsa da Lua" para vender mais cópias. Por um tempo, funcionou, até que reportagens rigorosas se tornaram mais valiosas para os leitores.

Orson Welles durante a transmissão de "A Guerra dos Mundos", 1938

Quando o rádio se tornou o meio predominante da década de 1930, Orson Welles perpetrou uma farsa extraterrestre semelhante com o infame programa "A Guerra dos Mundos". A transmissão não causou realmente, como alguns alegam, o medo generalizado de uma invasão alienígena entre os ouvintes. Mas desencadeou um debate nacional sobre o poder do rádio e a credulidade do público.

Além dos tabloides e do rádio, testemunhamos pânicos morais em relação a romances baratos, revistas de jornalismo investigativo, telefones, histórias em quadrinhos, televisão, videocassete e agora a internet. Assim como o Congresso foi atrás de Orson Welles, vemos Mark Zuckerberg testemunhando sobre a facilitação dos bots russos pelo Facebook.


Refletindo a nossa credulidade

Mas há outro tema na história da mídia do país que é frequentemente negligenciado. Em resposta ao poder persuasivo de cada novo meio, surge uma resposta popular saudável ridicularizando as ingênuas vítimas da espetacularização.

Mark Twain

Por exemplo, em As Aventuras de Huckleberry Finn, Mark Twain nos deu Rei e Duque, dois vigaristas que viajavam de cidade em cidade, explorando a ignorância com espetáculos teatrais cômicos e histórias fantásticas inventadas.

Eles foram os ancestrais dos divulgadores de notícias falsas, as fake news, e Twain, com experiência em jornalismo, sabia tudo sobre vender absurdos. Seu conto clássico "Journalism in Tennesseeé uma crítica feroz aos editores desvairados e à ficção grotesca, publicada frequentemente como fato em jornais norte-americanos.

P.T. Barnum

Além disso, há o grande P.T. Barnum, que enganava as pessoas de maneiras maravilhosamente inventivas. "Siga em frente para o egresso", dizia uma série de placas de sinalização dentro de seu famoso museu. Clientes ignorantes, orientados pelas placas, e presumindo que "egresso" seria algum tipo de animal exótico, logo se viram passando pela porta de saída para o lado de fora do museu.

Eles podem ter se sentido enganados, mas, na verdade, Barnum lhes prestou um grande – e proposital – serviço. Seu museu tornou os frequentadores mais cautelosos com as hipérboles. Ele empregou humor e ironia para ensinar o ceticismo. Como Twain, Barnum colocou um espelho de parque de diversões na frente da emergente cultura de massa dos EUA, a fim de fazer as pessoas refletirem sobre os excessos da comunicação comercial.


‘Pense por si mesmo. Questione a autoridade’


MAD incorpora esse mesmo espírito. Criada originalmente como uma revista em quadrinhos de horror, evoluiu para um canal de humor satírico que criticava a publicidade norte-americana, os políticos hipócritas e o consumo irracional.

Ensinando a seus leitores adolescentes que os governos mentem, — e que apenas os otários se apaixonam por vendedores ambulantes — MAD subverteu implícita e explicitamente o otimismo ensolarado dos anos Eisenhower e Kennedy. Seus escritores e artistas zombavam de tudo e de todos que reivindicavam o monopólio da verdade e da virtude.


“A declaração da missão editorial sempre foi a mesma: ‘Todo mundo está mentindo para você, inclusive as revistas. Pense por si mesmo. Questione a autoridade’”, de acordo com o editor de longa data John Ficarra.

Essa foi uma mensagem subversiva, especialmente num período em que uma profusão de publicidade e propaganda da Guerra Fria infectou toda a cultura norte-americana. Numa época em que a televisão dos EUA transmitia apenas três redes de TV e as leis limitavam as opções de mídia alternativa, a mensagem da MAD se destacou.


Assim como os intelectuais Daniel Boorstin, Marshall McLuhan e Guy Debord, que começavam a fazer críticas contra esse ambiente midiático, MAD fazia o mesmo – mas de uma forma amplamente acessível, orgulhosamente idiota e surpreendentemente sofisticada.

Por exemplo, o existencialismo implícito, escondido sob o caos de cada quadrinho de Spy vs. Spy, falava diretamente da insana política de temeridade da Guerra Fria. Concebido e desenhado pelo exilado cubano Antonio Prohías, Spy vs. Spy apresentava dois espiões que, como os Estados Unidos e a União Soviética, observavam a doutrina da Mutually Assured Destruction (Destruição Mutualmente Assegurada). 

Os espiões de Antonio Prohías

Cada espião não estava comprometido com nenhuma ideologia, mas sim com um plano de completa eliminação do outro – e, na corrida armamentista para lugar nenhum, cada plano saía pela culatra.

O cartum apontava para a irracionalidade do ódio irrefletido e da violência sem sentido. Em um ensaio sobre a situação do soldado na Guerra do Vietnã, o crítico literário Paul Fussell escreveu uma vez que os soldados norte-americanos foram "condenados à loucura sádica" pela monotonia de uma violência sem fim. Assim como os personagens de Spy vs. Spy.


À medida que a falta de credibilidade aumentou das administrações Johnson para Nixon, a lógica da crítica da MAD à Guerra Fria se tornou mais relevante. A circulação disparou. O sociólogo Todd Gitlin — que, na década de 1960, foi líder da organização ativista Estudantes por uma Sociedade Democrática — creditou à MAD o desempenho de uma importante função educacional para sua geração.

"No ensino fundamental e médio," ele escreveu, "eu devorava a revista".


Um passo atrás?

E ainda assim, esse ceticismo saudável parece ter evaporado nas décadas seguintes. Tanto a preparação para a Guerra do Iraque quanto a carnavalização da cobertura com a anuência do primeiro presidente astro de reality show parecem ser evidências de uma falha generalizada de alfabetização midiática.


Ainda estamos lutando para lidar com a internet e a maneira como ela facilita a sobrecarga de informações, as bolhas de filtro, a propaganda e, sim, as fake news.

Mas a história mostrou que, embora possamos ser estúpidos e crédulos, também podemos aprender a identificar a ironia, reconhecer a hipocrisia e rir de nós mesmos. E aprendemos muito mais sobre como empregar nossa capacidade crítica quando somos desarmados pelo humor do que quando somos repreendidos por pedantes. Uma linha direta que alfineta a credulidade dos consumidores de mídia pode ser traçada de Barnum a Twain, MAD, South Park e The Onion.


Embora o legado da MAD continue vivo, o ambiente midiático atual está mais polarizado e difuso. Também tende a ser muito mais cínico e niilista. Com humor, a MAD ensinou à garotada que os adultos escondiam verdades, não que, em um mundo de fake news, a própria noção de verdade não tenha sentido. O paradoxo formou o caráter da MAD, que, em seus melhores momentos, podia ser mordaz e gentil, bem-humorada e trágica, implacável e cativante - tudo ao mesmo tempo.

Essa é a sensibilidade que perdemos. E é por isso que precisamos de um canal como a MAD mais do que nunca.

Michael J. Socolow é professor associado de Comunicação e Jornalismo da Universidade do Maine. Artigo publicado originalmente em The Conversation.

 


Nenhum comentário:

Postar um comentário