Antes de South Park e American Dad,
Roger Ramjet foi o desenho animado mais louco e subversivo
Jim Knipfel / Den of Geek 30 de junho de 2017
Vi
Roger Ramjet pela primeira vez em uma
emissora de TV pública de Chicago, em 1983. Era parte de um programa matinal
aparentemente voltado para usuários de drogas insones. O programa começava às
cinco e também incluía episódios de Lancelot
Link: Secret Chimp (Lancelot Link: Agente Secreto), aquele
desenho animado horrível dos Beatles e um boletim meteorológico iluminado por
alguma música pop apropriada ("Here Comes the Sun" ou "Here Comes the Rain Again"). Geralmente,
por algum motivo que até Deus ignora, eu pulava da cama bem cedo e assistia a ele por causa de Lancelot Link. Sempre
amei Lancelot Link.
Mas
Roger Ramjet, digamos, foi uma
revelação. Roger Ramjet, "aquele bom moço tipicamente norte-americano e irresponsável
cabeça-dura voador" (como ele compulsivamente se apresentava), um
super-herói da era espacial dependente de drogas, aparvalhado, nem um pouco
brilhante, em batalha contínua contra as diversas forças do mal (ou, mais
especificamente, N.A.S.T.Y.) para preservar o American Way of Life. Tinha queixo quadrado, era moralista, austero
e honesto (a semelhança com Stan, de American
Dad, é notável), tão hiperpatriótico que, quase toda vez que seu nome era pronunciado
em voz alta, uma bandeira americana, uma águia de cabeça branca ou um círculo de
estrelas giratório aparecia na tela. Depois de assistir a um ou dois episódios,
esqueci completamente de Lancelot Link.
Roger Ramjet era tão hiperpatriótico que quando seu
nome era pronunciado uma águia de cabeça branca aparecia na tela
Não
era difícil o desenho passar despercebido, principalmente por estar espremido
entre os Beatles e uma banda psicodélica de chimpanzés espiões. Os episódios
tinham apenas cinco minutos de duração (talvez sete com a sarcástica música-tema
embalando os créditos de abertura e encerramento), e eram tão grosseiramente
desenhados e animados que poderiam, à primeira vista, parecer algo que dois
alunos do ensino fundamental fizeram juntos no porão, num fim de semana. Os desenhos
eram tão primários que mal se importavam com sutilezas como "planos de
fundo", contentando-se com rudimentares sugestões de cenário.
Mas
o texto era tão afiado e as vozes tão talentosas que ele realmente parecia (aos
mais antenados) uma paródia das séries de rádio dos anos 1940, como Sky King ou Gang Busters, acrescida do som de um órgão de novela e ilustrada
por um punhado de desenhos espasmódicos rabiscados pelo filho de alguém.
Pessoas que acham Bullwinkle (Alceu) e Dudley Do-Right (Polícia Desmontada), de Jay Ward, desenhos
toscos, quando comparados a produções
da Disney ou Warner Brothers, não têm ideia do que "tosco" significa.
Olhando
para ele hoje, o que mais me vem à mente são as animações de recortes de papel
dos primeiros episódios de South Park. Junto com o estilo de produção caseira, o humor era claramente direcionado a um
público adulto, fingindo ser o contrário. Em Roger Ramjet, você podia não encontrar piadas sobre abuso infantil
ou tiradas grosseiras sobre religião, mas, em 1965, o humor rápido como um raio
era bem descolado e sofisticado, com indisfarçáveis referências satíricas à Guerra Fria, à turbulência na América Central e à Guerra do Vietnã ("Ei, crianças, aqui é Roger Ramjet, ordenando
que vocês fiquem ligados nesta estação para ver minha próxima aventura", Roger anuncia em seu barítono de super-herói comandante. "Ou vou garantir
que todos vocês, seus pestinhas, sejam recrutados.").
Misturados
às piadas temáticas, também temos menções gradativas a nomes altamente
improváveis, de Noel Coward e Henry Cabot Lodge a James Joyce e Rusty Warren, a
despudorada humorista de stand-up,
bem como paródias cinematográficas e referências literárias como Catch 22 (Ardil 22) e The Catcher in
the Rye (O Apanhador no Campo de
Centeio). Pelos padrões modernos, também é um pouco menos do que se pode
chamar de racialmente sensível (considere The Enchilada Brothers, Beef and Chicken, o bando de revolucionários mexicanos ).
Embora muitas das piadas mais oportunas possam estar perdidas na névoa de quase
50 anos, quando o desenho foi ao ar pela primeira vez, há uma sequência estonteante
de absurdos que é atemporal, desde os cartões de título com erros ortográficos
pontuando a narração até aventuras conscientes da própria estimulante estupidez.
Bullwinkle foi ao ar de 1959 a 1964. Roger Ramjet chegou um ano depois, e a
influência de Jay Ward é inegável. A diferença é que Roger Ramjet abarrotava, na trama de episódios de cinco minutos, o mesmo número de piadas cretinas,
referências e reviravoltas de uma série típica de oito partes de Bullwinkle, ambos refletindo o diálogo ágil e maluco dos anos 1930 e a frenética comédia
de cortes rápidos que surgiria, um ou dois anos depois, em séries como The Monkees e Laugh-In.
Os
episódios eram produzidos rapidamente e essencialmente sem orçamento por uma
pequena equipe de escritores, dubladores e animadores com empregos sólidos em
emissoras de rádio e TV. Eram profissionais experientes, alguns da época do
rádio clássico, que trabalhavam no programa depois do expediente como uma forma
de espairecer um pouco e distribuir algumas pancadas culturais, cínicas e
subversivas, que seus empregos diários não permitiam.
O desenho
foi originalmente criado pelo animador Fred Crippen (que, mais tarde, faria coisas terrivelmente
ruins como Extreme Ghostbusters e episódios
de Teenage Mutant Ninja Turtles) com o
executivo de publicidade Ken Snyder, que passou a produzir desenhos animados.
Eles reuniram uma equipe notável de talentos vocais e escritores de comédia,
incluindo Gene Moss (a voz de Smokey the
Bear), Jim Thurmam (que fez muitos programas infantis, incluindo Vila
Sésamo), Dick Beals (a voz original de Gumby)
e o ótimo Gary Owens, um DJ do horário de pico do trânsito de Los Angeles, que
logo ganharia reconhecimento nacional como o apresentador de Laugh-In.
Embora
todos recebessem créditos específicos no encerramento dos episódios (Crippen
como diretor, Moss como escritor), tudo era resultado de um esforço
comunitário, no qual todos contribuíam com a redação, e até mesmo o produtor
executivo fazia algumas das vozes. Além da equipe habitual, ouvintes mais atentos
também podem notar algumas participações especiais, não creditadas, de gente
famosa (disseram que Sinatra e Dean Martin apareceram num episódio, mas ainda não
o encontrei).
No entanto, Owens era a
estrela, já que sua habilidade de ler as falas mais ridículas, em tom dramático
e impassível, fazia dele o perfeito Roger Ramjet. Juntos, em 1965, fizeram 156
episódios (cerca de 150 ainda existem), vendidos diretamente para emissoras como
programas de meia hora, cada um contendo três aventuras não sequenciais. Não
posso dizer com certeza quem eles pensavam ter como público-alvo naquela época, a
não ser eles próprios.
Assim
como William Conrad em Bullwinkle,
cada desenho começava com nosso narrador, Dave Ketchum, ex-aluno de Steve
Allen, descrevendo o astral e o cenário ("No episódio deprimente de
hoje", ele começava com entusiasmo dramático, ou talvez fosse um
"episódio existencialista", um "episódio pachorrento", um "episódio
medíocre", um "episódio cabeludo" ou um "episódio
étnico"). A partir daí, somos arrastados por um turbilhão alucinante, uma
enxurrada de piadas vindas de todas as direções. "Ramjet entrou em Boot
Hill", diziam, "uma cidade onde os homens eram homens e as mulheres também eram
homens, o que, depois de certo tempo, pode ficar bem entediante".
"Roger Ramjet entrou em Boot Hill, uma cidade
onde os homens eram homens e as mulheres também eram homens"
Embora os episódios não estevissem conectados entre si, há personagens e locais recorrentes que vale a pena
lembrar: Roger vem de Lompoc, uma cidade real da Califórnia ("onde nada
acontece, e raramente acontece") e recebe ordens do General G.I.
Brassbottom, um militar determinado que "não tinha uma ideia original
desde que era um civil". Ele é auxiliado por Yank, Doodle, Dan e Dee, as
crianças excepcionalmente gordinhas que compõem o esquadrão Águias Americanas.
Como Roger, todos os membros do esquadrão usam seus macacões brancos e
capacetes de voo o tempo todo (Roger veste o capacete até em encontros) e, no melhor
estilo dos ajudantes de super-herói, a principal tarefa é tirar Roger de apuros
e garantir que suas drogas estejam à mão. Esse é um pequeno detalhe que
incomodou alguns espectadores casuais.
Roger é um personagem bastante
inapto na maior parte do tempo, mas salva o mundo em várias ocasiões graças a uma
ajudinha de suas Pílulas Energéticas de Prótons (PEP), que levam cinco segundos
para fazer efeito, e lhe dão a força de 20 bombas atômicas por 20 segundos. Espectadores
de hoje parecem incomodados pela ideia de um super-herói que engole anfetaminas para agir, mas tudo o que posso dizer é que foi numa época diferente, e, veja bem,
funcionava para Roger e para Elvis.
As Pílulas Energéticas de
Prótons são úteis para enfrentar o arqui-inimigo Noodles Romanoff, o baixinho com
sobretudo e chapéu fedora, chefe da N.A.S.T.Y. (National Association of Spies,
Traitors and Yahoos). Romanoff podia não ter uma cortesã para acompanhá-lo, mas tinha uma gangue de
comparsas e bandidos que resmungam em uníssono (exceto um, que não
consegue pegar o ritmo).
Além de Romanoff e sua gangue,
Roger também tem que enfrentar robôs alienígenas desengonçados, os Solenoids
(dublados pelo produtor executivo Ken Snyder), e seus repetidos esforços para
invadir o planeta de várias maneiras ridículas (em um episódio, eles sequestram
as concorrentes do concurso Miss América, que "de repente, ficaram mais
raras de se encontrar do que universitárias de Dartmouth no fim de semana"*). Quando não estava salvando o mundo,
Roger estava competindo com o piloto de testes Lance Crossfire (que é muito parecido
com Burt Lancaster) pelo afeto de Lotta Love, a volúvel e bela sulista com pendor
pelas coisas boas da vida.
E então, temos as aventuras em
si. Algumas parecem estar no padrão contextual dos super-heróis, mas só até
certo ponto. A Terra é sitiada por ataques de discos voadores (até certo ponto).
A cidade natal de Roger é aterrorizada por um lobisomem (até certo ponto).
Roger joga tênis com um canguru, ou se torna o primeiro homem a surfar no
espaço, ou, em uma das minhas favoritas, tenta impedir que revistas de histórias
em quadrinhos piratas sejam despejadas nas farmácias dos Estados Unidos.
Na verdade, há um momento
interessante neste episódio que revelou o quão perspicaz você pode ser, mesmo numa
animação tão pouco sofisticada. Noodles Romanoff, veja bem, está
substituindo os quadrinhos verdadeiros, nas prateleiras das farmácias, por
edições piratas nas quais super-heróis populares são humilhados, tudo num
esforço para destruir o moral das crianças norte-americanas. Depois de mostrar a Roger alguns exemplares (que incluem títulos como
"Superman é espancado por uma galinha!" e "Ratman dá uma topada
no dedo do pé!"), Brassbottom explica que, se esse tipo de coisa continuar,
"as crianças americanas não terão ninguém para admirar, a não ser VOCÊ,
Ramjet". Então, por apenas um instante, maliciosa e impulsivamente,
Roger vira os olhos para a câmera, revelando, naquele momento, tudo o que
precisávamos saber, ou seja, que é o que ele sempre desejou. Trinta anos depois, isso ainda
mexe comigo.
No
final, porém, na melhor das hipóteses, os personagens e as histórias de Roger Ramjet são secundários. No fundo,
é uma questão de tentar acompanhar piadas e jogos de palavras rápidos como um
raio, reviravoltas absurdas e referências. No intervalo de cinco minutos de um
episódio de faroeste, contei menções a pelo menos sete filmes clássicos do
gênero, de High Noon (Matar ou Morrer) a She Wore a Yellow Ribbon (Legião
Invencível), e suspeito que perdi algumas. É realmente um borrão tão
estonteante de diálogos, trocadilhos toscos e referências culturais que, às
vezes, até mesmo referências a piadas antigas que assumem a forma dos
trocadilhos toscos (“Waiter, there’s a spy in my soup” / “Garçom, tem uma
araponga na minha sopa” ou “How many angels can swim in the head of a beer? /
“Quantos anjos podem nadar no colarinho da cerveja?”), por mais absurdo que pareça,
precisam ser vistas repetidas vezes para que tudo seja assimilado.
É
mais ou menos como ter o conteúdo completo de uma edição da revista MAD amontoado em uma única página.
Depois de um tempo, pode dar uma dor de cabeça, mas vale a pena. Se a densidade
e o ritmo tornam melhor ou pior a percepção para usuários de drogas é algo que,
penso eu, cada usuário terá que responder por si. No entanto, é bastante
estimulante.
Roger Ramjet foi revolucionário ao infiltrar humor
político, moderno e subversivo no formato de desenho infantil
Em
1965, não passava pela cabeça de alguém fazer desenhos animados voltados para a
sensibilidades de adultos. Betty Boop
e Pernalonga foram feitos como curtas-metragens
voltados para um público, em grande parte, adulto. Os desenhos animados de Jay
Ward, décadas depois, foram um tanto revolucionários ao infiltrar humor
político, moderno e subversivo no que estava consagrado como um formato exclusivamente voltado para o público infantil. O que tornou Roger Ramjet tão radical
foi sua mistura do estilo de rádio dos anos 1930 com o cinismo de meados dos
anos 1960, bem como prenunciar a capacidade de atenção cada vez menor das
audiências, uma pílula de prótons hipercondensada de comédia e comentários
críticos disfarçada de desenho de super-herói bobo de baixo orçamento.
Embora
seja pouco lembrado hoje em dia, sua influência ainda está evidente na maioria
dos desenhos subversivos, mesmo que as coisas tenham ficado um pouco mais reprimidas.
Jim Knipfel é um escritor e jornalista norte-americano.
*Referência
à Universidade de Dartmouth, em New Hampshire, instituição que,
tradicionalmente, só aceitava estudantes homens. Mulheres foram integradas ao
corpo discente a partir de 1972. Na época do desenho, a Universidade ainda não
permitia a matrícula de mulheres.












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