David Cronenberg reflete sobre as semelhanças e as diferenças
de sua vida e de seu filme A Mosca com A Metamorfose, obra de Franz Kafka
Por David Cronenberg, 17 de janeiro de 2014
Acordei pela manhã,
recentemente, e descobri que eu era um homem de setenta anos. Isso é diferente
do que acontece com Gregor Samsa em A Metamorfose? Ele acorda e descobre que se
tornou um besouro quase do tamanho de um humano (provavelmente da família dos
escaravelhos, se acreditarmos na faxineira de sua casa), e não um espécime
particularmente grande. Nossas reações, a minha e a de Gregor, são muito
semelhantes. Estamos confusos e perplexos, e achamos que é uma ilusão
momentânea que logo se dissipará, deixando nossas vidas continuarem como eram.
Qual poderia ser a fonte dessas transformações idênticas? Certamente, você pode
ver um aniversário chegando a muitos quilômetros de distância, e não deverá ser
um choque ou uma surpresa quando isso acontecer. E como qualquer amigo leal lhe
dirá, setenta é apenas um número. Que impacto esse número pode realmente ter em
uma vida humana real e única?
No caso de Gregor, um jovem
caixeiro-viajante que passa uma noite em casa, no apartamento de seus pais em
Praga, acordar para uma estranha existência híbrida de humano/inseto é, para
dizer o óbvio, uma surpresa que ele não viu se aproximar, e a reação de todos — mãe, pai, irmã, empregada, faxineira — é recuar em horror paralisante,
como seria de se esperar, e nenhum membro de sua família se sente compelido a
consolar a criatura, por exemplo, apontando que um besouro também é um ser
vivo, e, para um humano mediano vivendo uma vida monótona, se transformar em um pode ser uma experiência estimulante e edificante - e então, qual é o
problema? Esse suposto consolo não poderia, em nenhum caso, ocorrer dentro da
estrutura da história, porque Gregor pode entender a fala humana, mas não pode
ser compreendido quando tenta falar, e então sua família nunca pensa em
abordá-lo como uma criatura com inteligência humana. (Deve-se notar, porém, que,
em sua banalidade burguesa, eles, de alguma forma, aceitam que essa criatura,
de aspecto inominável, é seu Gregor. Nunca lhes ocorre que, por exemplo, um
besouro gigante devorou Gregor; eles não têm imaginação, e ele rapidamente se
torna pouco mais do que um problema de limpeza da casa). Sua transformação o aprisiona
dentro de si mesmo tão firmemente como se ele tivesse sofrido uma paralisia
total. Esses dois cenários, o meu e o de Gregor, parecem tão diferentes, que alguém
pode perguntar por que me dou ao trabalho de compará-los. A fonte das
transformações é a mesma, eu argumento: nós dois despertamos para uma
consciência forçada do que realmente somos, e essa consciência é profunda e
irreversível; em cada caso, a ilusão logo prova ser uma realidade nova e
obrigatória, e a vida não continua como antes.
A transformação de Gregor é
uma sentença de morte ou, de alguma forma, um diagnóstico fatal? Por que o
besouro Gregor não sobrevive? É seu cérebro humano, deprimido, triste e
melancólico, que trai a energia básica do inseto? É o cérebro que derrota o
desejo do inseto de sobreviver, até mesmo de comer? O que há de errado com esse
besouro? Besouros, a ordem de insetos chamada Coleoptera, que significa "asa
embainhada" (embora Gregor nunca pareça descobrir suas próprias asas, que
presumivelmente estão escondidas sob suas carapaças de asas), são notavelmente
resistentes e bem adaptados para a sobrevivência; há mais espécies de besouros
do que qualquer outra ordem na Terra. Bem, descobrimos que Gregor tem pulmões
ruins, eles não são "muito confiáveis" — e então o besouro Gregor
também tem pulmões ruins, ou pelo menos o equivalente inseto, e talvez esse
seja realmente seu diagnóstico fatal; ou talvez seja sua crescente incapacidade
de comer que o mata, como aconteceu com Kafka, que finalmente tossiu sangue e
morreu de fome devido a uma tuberculose laríngea aos quarenta anos. E eu? Meu
septuagésimo aniversário é uma sentença de morte? Claro que sim, e de certa
forma aprisionou-me dentro de mim mesmo tão seguramente como se eu tivesse
sofrido uma paralisia total. E essa revelação é a função da cama, e de sonhar
na cama, a argamassa na qual as minúcias da vida cotidiana são esmagadas,
moídas e misturadas com memória, desejo e pavor. Gregor acorda de sonhos intranquilos
que nunca são precisamente descritos por Kafka. Gregor sonhou que era um
inseto, então acordou e descobriu que era um? "'O que aconteceu comigo?' pensou."
"Não era um sonho", diz Kafka, referindo-se à nova forma física de
Gregor, mas não está claro se seus sonhos intranquilos eram sonhos premonitórios
de insetos. No filme que co-escrevi e dirigi, do conto de George Langelaan, A
Mosca, meu herói Seth Brundle, interpretado por Jeff Goldblum, diz, enquanto
está profundamente envolvido em sua transformação em um híbrido horrível de
mosca/humano: "Sou um inseto que sonhou que era um homem e amei isso. Mas
agora o sonho acabou, e o inseto acordou." Ele está avisando sua antiga
amante que agora ele é um perigo para ela, uma criatura sem compaixão e sem
empatia. Ele se livrou de sua humanidade como o exoesqueleto de uma ninfa de
cigarra, e o que emergiu não é mais humano. Ele também está sugerindo que ser
humano, autoconsciente, é um sonho que não pode durar, uma ilusão. Gregor
também tem dificuldade em se apegar ao que resta de sua humanidade, e quando
sua família começa a sentir que essa coisa no quarto de Gregor não é mais
Gregor, ele começa a se sentir da mesma forma. Mas, diferentemente da mosca de
Brundle, o besouro de Gregor não é uma ameaça para ninguém a não ser para ele
próprio, e morre de fome e desaparece como uma reflexão tardia enquanto sua
família se deleita com a liberdade do fardo vergonhoso e embaraçoso que ele se
tornou.
Quando A Mosca foi lançado em
1986, houve muita suposição de que a doença que Brundle havia causado a si
mesmo era uma metáfora para a AIDS. Certamente eu entendi isso — a AIDS estava
na mente de todos, pois o vasto escopo da doença estava sendo gradualmente
revelado. Mas para mim, a doença de Brundle era mais fundamental: de uma maneira
artificialmente acelerada, ele estava envelhecendo. Ele estava autoconsciente de
seu corpo mortal, e, com percepção aguda e humor, participou daquela
transformação inevitável que todos nós enfrentamos, se apenas vivermos o
suficiente. Ao contrário do passivo e prestativo, mas anônimo Gregor, Brundle
era uma estrela no firmamento da ciência, e foi um experimento ousado e
imprudente na transmissão de matéria através do espaço (seu DNA se mistura com
o de uma mosca errante) que causou sua situação.
A história de Langelaan,
publicada pela primeira vez na revista Playboy em 1957, se enquadra firmemente
no gênero da ficção científica, com toda a mecânica e o raciocínio de seu herói
cientista cuidadosamente, embora fantasiosamente, construídos (duas cabines
telefônicas usadas estão envolvidas). A história de Kafka, é claro, não é
ficção científica; ela não provoca discussão sobre tecnologia e a arrogância da
investigação científica, ou o uso da pesquisa científica para fins militares.
Sem de qualquer tipo de armadilhas de ficção científica, A Metamorfose nos
força a pensar em termos de analogia, de interpretação reflexiva, embora seja
revelador que nenhum dos personagens da história, incluindo Gregor, jamais
pense dessa forma. Não há reflexão sobre algum segredo de família ou pecado que
possa ter induzido uma represália tão monstruosa por parte de Deus ou das Parcas,
nenhuma busca por significado, mesmo no plano existencial mais básico. O evento
bizarro é tratado de forma superficial, mesquinha e materialista, e desperta a
mais estreita gama de respostas emocionais imagináveis, assumindo quase
imediatamente o tom de uma infeliz ocorrência familiar natural com a qual se
deve lidar relutantemente.
Histórias de transformações
mágicas sempre fizeram parte do cânone narrativo da humanidade. Elas articulam
aquele senso universal de empatia por todas as formas de vida que sentimos;
elas expressam aquele desejo de transcendência que toda religião também expressa;
elas nos levam a perguntar se a transformação em outra criatura viva seria uma
prova da possibilidade de reencarnação e algum tipo de vida após a morte e é,
portanto, por mais hedionda ou desastrosa que seja a narrativa, um conceito
religioso e esperançoso. Certamente meu Brundlemosca passa por momentos de
força e poder maníacos, convencido de que combinou os melhores componentes do
humano e do inseto para se tornar uma super criatura, recusando-se a ver sua
evolução pessoal como algo além de uma vitória, mesmo quando ele começa a se
livrar de partes do seu corpo humano, que ele cuidadosamente armazena em um
armário de remédios que chama de Museu Brundle de História Natural.
Não há nada disso em A
Metamorfose. O Samsabesouro mal tem consciência de que é um híbrido, embora tenha
pequenos prazeres híbridos quando pode encontrá-los, seja pendurando-se no teto
ou correndo pela bagunça e pela sujeira de seu quarto (prazer de besouro) ou
ouvindo a música que sua irmã toca em seu violino (prazer de humano). Mas a
família Samsa é o contexto do Samsabesouro e seu encarceramento, e sua subserviência
às necessidades de sua família, antes e depois de sua transformação, se
estende, em última análise, à sua percepção de que seria mais conveniente para
eles se ele simplesmente desaparecesse, seria uma expressão de seu amor por
eles, de fato, e então ele faz exatamente isso, morrendo silenciosamente. A
curta vida do Samsabesouro, por mais fantástica que seja, é encenada no nível
do resolutamente mundano e funcional, e não consegue provocar nos personagens
da história qualquer indício de filosofia, meditação ou reflexão profunda.
Em A Metamorfose, Kafka nos força a pensar
em termos de analogia, de interpretação reflexiva
(Desenho de Robert Crumb)
Quão semelhante seria, então, a
história se naquela manhã fatídica, a família Samsa encontrasse no quarto de
seu filho não o jovem e vibrante caixeiro-viajante que os sustenta com seu
trabalho altruísta e interminável, mas um homem de oitenta e nove anos, meio
cego, que arrasta os pés, mal conseguindo andar, caminhando com bengalas como
um bicho-pau, um homem que resmunga incoerentemente e suja suas calças e, das
sombras de sua demência, provoca raiva e inspira culpa? Se, quando Gregor Samsa,
certa manhã, despertado de sonhos intranquilos, se descobrisse transformado ali
mesmo, em sua cama, em um velho demente, deficiente e exigente? Sua família
ficaria horrorizada, mas de alguma forma o reconheceria como seu próprio
Gregor, embora transformado. Eventualmente, porém, como na variante do besouro
da história, ela concluiria que ele não era mais o seu Gregor, e que, para ele,
seria uma bênção desaparecer.
Quando eu saí em turnê para divulgar A Mosca,
muitas vezes me perguntavam que inseto eu gostaria de ser se passasse por uma
transformação entomológica. Minhas respostas variavam, dependendo do meu humor,
embora eu tivesse uma queda pela libélula, não apenas por seu voo espetacular,
mas também pela singularidade de seu feroz estágio de ninfa subaquática com sua
mandíbula mortal extensível e suspensa; eu também achava que acasalar no ar
poderia ser agradável. “Seria, então, essa a sua alma, essa libélula, voando
para o céu?”, veio uma réplica. “Não é realmente isso que você está procurando?”.
Não, não realmente, eu disse. Eu seria apenas uma simples libélula e, então, se
conseguisse evitar ser devorada por um pássaro ou um sapo, eu acasalaria e,
quando o verão acabasse, eu morreria.
O cineasta canadense David Cronenberg é também ator e escritor. O ensaio acima foi publicado como prefácio à tradução de A Metamorfose, por Susan Bernofsky.









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