quinta-feira, 6 de março de 2025

O Besouro e a Mosca


David Cronenberg reflete sobre as semelhanças e as diferenças 
de sua vida e de seu filme A Mosca com A Metamorfose, obra de Franz Kafka



     Por David Cronenberg, 17 de janeiro de 2014

    Acordei pela manhã, recentemente, e descobri que eu era um homem de setenta anos. Isso é diferente do que acontece com Gregor Samsa em A Metamorfose? Ele acorda e descobre que se tornou um besouro quase do tamanho de um humano (provavelmente da família dos escaravelhos, se acreditarmos na faxineira de sua casa), e não um espécime particularmente grande. Nossas reações, a minha e a de Gregor, são muito semelhantes. Estamos confusos e perplexos, e achamos que é uma ilusão momentânea que logo se dissipará, deixando nossas vidas continuarem como eram. Qual poderia ser a fonte dessas transformações idênticas? Certamente, você pode ver um aniversário chegando a muitos quilômetros de distância, e não deverá ser um choque ou uma surpresa quando isso acontecer. E como qualquer amigo leal lhe dirá, setenta é apenas um número. Que impacto esse número pode realmente ter em uma vida humana real e única?

Capa da primeira edição de A Metamorfose 

No caso de Gregor, um jovem caixeiro-viajante que passa uma noite em casa, no apartamento de seus pais em Praga, acordar para uma estranha existência híbrida de humano/inseto é, para dizer o óbvio, uma surpresa que ele não viu se aproximar, e a reação de todos — mãe, pai, irmã, empregada, faxineira — é recuar em horror paralisante, como seria de se esperar, e nenhum membro de sua família se sente compelido a consolar a criatura, por exemplo, apontando que um besouro também é um ser vivo, e, para um humano mediano vivendo uma vida monótona, se transformar em um pode ser uma experiência estimulante e edificante - e então, qual é o problema? Esse suposto consolo não poderia, em nenhum caso, ocorrer dentro da estrutura da história, porque Gregor pode entender a fala humana, mas não pode ser compreendido quando tenta falar, e então sua família nunca pensa em abordá-lo como uma criatura com inteligência humana. (Deve-se notar, porém, que, em sua banalidade burguesa, eles, de alguma forma, aceitam que essa criatura, de aspecto inominável, é seu Gregor. Nunca lhes ocorre que, por exemplo, um besouro gigante devorou Gregor; eles não têm imaginação, e ele rapidamente se torna pouco mais do que um problema de limpeza da casa). Sua transformação o aprisiona dentro de si mesmo tão firmemente como se ele tivesse sofrido uma paralisia total. Esses dois cenários, o meu e o de Gregor, parecem tão diferentes, que alguém pode perguntar por que me dou ao trabalho de compará-los. A fonte das transformações é a mesma, eu argumento: nós dois despertamos para uma consciência forçada do que realmente somos, e essa consciência é profunda e irreversível; em cada caso, a ilusão logo prova ser uma realidade nova e obrigatória, e a vida não continua como antes.

Franz Kafka morreu aos 40 anos devido a uma tuberculose laríngea
(Desenho de Robert Crumb)

A transformação de Gregor é uma sentença de morte ou, de alguma forma, um diagnóstico fatal? Por que o besouro Gregor não sobrevive? É seu cérebro humano, deprimido, triste e melancólico, que trai a energia básica do inseto? É o cérebro que derrota o desejo do inseto de sobreviver, até mesmo de comer? O que há de errado com esse besouro? Besouros, a ordem de insetos chamada Coleoptera, que significa "asa embainhada" (embora Gregor nunca pareça descobrir suas próprias asas, que presumivelmente estão escondidas sob suas carapaças de asas), são notavelmente resistentes e bem adaptados para a sobrevivência; há mais espécies de besouros do que qualquer outra ordem na Terra. Bem, descobrimos que Gregor tem pulmões ruins, eles não são "muito confiáveis" — e então o besouro Gregor também tem pulmões ruins, ou pelo menos o equivalente inseto, e talvez esse seja realmente seu diagnóstico fatal; ou talvez seja sua crescente incapacidade de comer que o mata, como aconteceu com Kafka, que finalmente tossiu sangue e morreu de fome devido a uma tuberculose laríngea aos quarenta anos. E eu? Meu septuagésimo aniversário é uma sentença de morte? Claro que sim, e de certa forma aprisionou-me dentro de mim mesmo tão seguramente como se eu tivesse sofrido uma paralisia total. E essa revelação é a função da cama, e de sonhar na cama, a argamassa na qual as minúcias da vida cotidiana são esmagadas, moídas e misturadas com memória, desejo e pavor. Gregor acorda de sonhos intranquilos que nunca são precisamente descritos por Kafka. Gregor sonhou que era um inseto, então acordou e descobriu que era um? "'O que aconteceu comigo?' pensou." "Não era um sonho", diz Kafka, referindo-se à nova forma física de Gregor, mas não está claro se seus sonhos intranquilos eram sonhos premonitórios de insetos. No filme que co-escrevi e dirigi, do conto de George Langelaan, A Mosca, meu herói Seth Brundle, interpretado por Jeff Goldblum, diz, enquanto está profundamente envolvido em sua transformação em um híbrido horrível de mosca/humano: "Sou um inseto que sonhou que era um homem e amei isso. Mas agora o sonho acabou, e o inseto acordou." Ele está avisando sua antiga amante que agora ele é um perigo para ela, uma criatura sem compaixão e sem empatia. Ele se livrou de sua humanidade como o exoesqueleto de uma ninfa de cigarra, e o que emergiu não é mais humano. Ele também está sugerindo que ser humano, autoconsciente, é um sonho que não pode durar, uma ilusão. Gregor também tem dificuldade em se apegar ao que resta de sua humanidade, e quando sua família começa a sentir que essa coisa no quarto de Gregor não é mais Gregor, ele começa a se sentir da mesma forma. Mas, diferentemente da mosca de Brundle, o besouro de Gregor não é uma ameaça para ninguém a não ser para ele próprio, e morre de fome e desaparece como uma reflexão tardia enquanto sua família se deleita com a liberdade do fardo vergonhoso e embaraçoso que ele se tornou.

Uma das fases da transformação do cientista 
no ser híbrido de humano e inseto, em A Mosca

Quando A Mosca foi lançado em 1986, houve muita suposição de que a doença que Brundle havia causado a si mesmo era uma metáfora para a AIDS. Certamente eu entendi isso — a AIDS estava na mente de todos, pois o vasto escopo da doença estava sendo gradualmente revelado. Mas para mim, a doença de Brundle era mais fundamental: de uma maneira artificialmente acelerada, ele estava envelhecendo. Ele estava autoconsciente de seu corpo mortal, e, com percepção aguda e humor, participou daquela transformação inevitável que todos nós enfrentamos, se apenas vivermos o suficiente. Ao contrário do passivo e prestativo, mas anônimo Gregor, Brundle era uma estrela no firmamento da ciência, e foi um experimento ousado e imprudente na transmissão de matéria através do espaço (seu DNA se mistura com o de uma mosca errante) que causou sua situação.

 A Mosca: metáfora para a AIDS ou processo de envelhecimento acelerado?

A história de Langelaan, publicada pela primeira vez na revista Playboy em 1957, se enquadra firmemente no gênero da ficção científica, com toda a mecânica e o raciocínio de seu herói cientista cuidadosamente, embora fantasiosamente, construídos (duas cabines telefônicas usadas estão envolvidas). A história de Kafka, é claro, não é ficção científica; ela não provoca discussão sobre tecnologia e a arrogância da investigação científica, ou o uso da pesquisa científica para fins militares. Sem de qualquer tipo de armadilhas de ficção científica, A Metamorfose nos força a pensar em termos de analogia, de interpretação reflexiva, embora seja revelador que nenhum dos personagens da história, incluindo Gregor, jamais pense dessa forma. Não há reflexão sobre algum segredo de família ou pecado que possa ter induzido uma represália tão monstruosa por parte de Deus ou das Parcas, nenhuma busca por significado, mesmo no plano existencial mais básico. O evento bizarro é tratado de forma superficial, mesquinha e materialista, e desperta a mais estreita gama de respostas emocionais imagináveis, assumindo quase imediatamente o tom de uma infeliz ocorrência familiar natural com a qual se deve lidar relutantemente.

David Cronenberg, no papel de ginecologista, em A Mosca

Histórias de transformações mágicas sempre fizeram parte do cânone narrativo da humanidade. Elas articulam aquele senso universal de empatia por todas as formas de vida que sentimos; elas expressam aquele desejo de transcendência que toda religião também expressa; elas nos levam a perguntar se a transformação em outra criatura viva seria uma prova da possibilidade de reencarnação e algum tipo de vida após a morte e é, portanto, por mais hedionda ou desastrosa que seja a narrativa, um conceito religioso e esperançoso. Certamente meu Brundlemosca passa por momentos de força e poder maníacos, convencido de que combinou os melhores componentes do humano e do inseto para se tornar uma super criatura, recusando-se a ver sua evolução pessoal como algo além de uma vitória, mesmo quando ele começa a se livrar de partes do seu corpo humano, que ele cuidadosamente armazena em um armário de remédios que chama de Museu Brundle de História Natural.

O cientista de A Mosca acreditava ser uma super criatura 
que combinou os melhores componentes do humano e do inseto 

Não há nada disso em A Metamorfose. O Samsabesouro mal tem consciência de que é um híbrido, embora tenha pequenos prazeres híbridos quando pode encontrá-los, seja pendurando-se no teto ou correndo pela bagunça e pela sujeira de seu quarto (prazer de besouro) ou ouvindo a música que sua irmã toca em seu violino (prazer de humano). Mas a família Samsa é o contexto do Samsabesouro e seu encarceramento, e sua subserviência às necessidades de sua família, antes e depois de sua transformação, se estende, em última análise, à sua percepção de que seria mais conveniente para eles se ele simplesmente desaparecesse, seria uma expressão de seu amor por eles, de fato, e então ele faz exatamente isso, morrendo silenciosamente. A curta vida do Samsabesouro, por mais fantástica que seja, é encenada no nível do resolutamente mundano e funcional, e não consegue provocar nos personagens da história qualquer indício de filosofia, meditação ou reflexão profunda.

Em A Metamorfose, Kafka nos força a pensar 
em termos de analogia, de interpretação reflexiva
(Desenho de Robert Crumb)

Quão semelhante seria, então, a história se naquela manhã fatídica, a família Samsa encontrasse no quarto de seu filho não o jovem e vibrante caixeiro-viajante que os sustenta com seu trabalho altruísta e interminável, mas um homem de oitenta e nove anos, meio cego, que arrasta os pés, mal conseguindo andar, caminhando com bengalas como um bicho-pau, um homem que resmunga incoerentemente e suja suas calças e, das sombras de sua demência, provoca raiva e inspira culpa? Se, quando Gregor Samsa, certa manhã, despertado de sonhos intranquilos, se descobrisse transformado ali mesmo, em sua cama, em um velho demente, deficiente e exigente? Sua família ficaria horrorizada, mas de alguma forma o reconheceria como seu próprio Gregor, embora transformado. Eventualmente, porém, como na variante do besouro da história, ela concluiria que ele não era mais o seu Gregor, e que, para ele, seria uma bênção desaparecer.

Poster de divulgação do filme A Mosca 

Quando eu saí em turnê para divulgar A Mosca, muitas vezes me perguntavam que inseto eu gostaria de ser se passasse por uma transformação entomológica. Minhas respostas variavam, dependendo do meu humor, embora eu tivesse uma queda pela libélula, não apenas por seu voo espetacular, mas também pela singularidade de seu feroz estágio de ninfa subaquática com sua mandíbula mortal extensível e suspensa; eu também achava que acasalar no ar poderia ser agradável. “Seria, então, essa a sua alma, essa libélula, voando para o céu?”, veio uma réplica. “Não é realmente isso que você está procurando?”. Não, não realmente, eu disse. Eu seria apenas uma simples libélula e, então, se conseguisse evitar ser devorada por um pássaro ou um sapo, eu acasalaria e, quando o verão acabasse, eu morreria.

O cineasta canadense David Cronenberg é também ator e escritor. O ensaio acima foi publicado como prefácio à tradução de A Metamorfose, por Susan Bernofsky.

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