Jean-Michel Basquiat: um talento menor
superestimado por galeristas, colecionadores e críticos
A triste história do sucesso
de um artista.
Por Robert Hughes - The New
Republic, 21 de novembro de 1988
Há alguns anos, um professor
de arte da Cooper Union, em Nova Iorque, mostrou-me os resultados de uma
pesquisa para estabelecer de quais artistas a nova turma de calouros tinha
ouvido falar. Eles não precisavam descrever uma obra, muito menos discuti-la;
apenas citar nomes. Picasso, como era de se esperar, liderou a lista com 61
menções. Logo abaixo dele, estavam Michelangelo e van Gogh, com 54; Rembrandt,
com 53; e Monet, com 50. As curiosidades começaram mais abaixo. Andy Warhol
pontuou 33, Watteau 1. E Jean-Michel Basquiat, não muito mais velho que os
próprios calouros, foi reconhecido por tantos deles quanto Tintoretto e
Giacometti; e cinco vezes mais do que Nicholas Poussin ou William Blake.
Se tem algum artista que parodiou, e não apenas ilustrou, o boom
da arte contemporânea dos anos 1980, ele foi Jean-Michel Basquiat, que, em
agosto passado, morreu por overdose
de heroína, aos 27 anos, em Nova Iorque. Basquiat foi a prova viva, e não
apenas para os calouros da Cooper Union, de que era possível alguém acontecer prematuramente
— sem mais demora. Alguém deslumbrado com tanta inocência. Pois a verdade sobre
esse prodígio era bem menos edificante. Era a história de um talento menor e
sem aptidões pego pela serra circular da promoção no mundo da arte,
absurdamente superestimado por galeristas, colecionadores e, sem dúvida, para
futuro constrangimento, pelos críticos.
Isso se deu em parte porque
Basquiat era negro. Por outro lado, a monocromática Indústria Extemporânea de Arte
Americana sentia a necessidade de se revigorar com um toque de
"primitivo". Havia artistas infinitamente melhores que Basquiat, que
por acaso eram negros, como o escultor Martin Puryear, mas eles não tiveram que
lidar com esse tipo de sucesso de alta-e-baixa do mercado. Não chamaria isso de sorte;
pelo menos não a sorte que um talento salutar invejaria. Pois a própria
natureza do sucesso de Basquiat o forçou a se repetir sem chance de se desenvolver.
Basquiat, Greenwich Village, 1983
(Fotos de Andy Warhol)
Jean-Michel Basquiat apareceu
por volta de 1980, como metade de uma dupla de artistas de rua, deixando
grafites aforísticos em letras maiúsculas chamativas ao redor da parte baixa de
Nova Iorque com a assinatura SAMO, um acrônimo para "Same Old Shit"
(a "obra" no prédio em que moro, na Prince Street, dizia "SAMO
como um antídoto para as asneiras do nouveau-wavo".
Era uma afirmação não sem suas retrospectivas ironias). Você poderia considerar
SAMO um mestre do aforismo, mas suas coisas soavam um pouco mais atraentes do
que a maioria das pichações e marcas de urina nas paredes do centro da cidade:
provocativas, mal-humoradas, desajustadas.
Da mesma forma, em 1981,
quando as pinturas de Basquiat apareceram no Centro de Arte Contemporânea P.S.1,
em uma extensa pesquisa chamada “New York/New Wave”, elas eram claramente
melhores do que a banal arte do grafite. Embora tivesse abandonado o ensino
médio, e dificilmente pisado em uma escola de arte, Basquiat possuía um
instinto para distribuir coisas — palavras, máscaras, marcas, frases desconexas
— na tela, com espaço entre elas (em vez de apenas rabiscar e preencher espaços
vazios, de ponta a ponta, como a maioria de seus colegas de rua). Isso,
juntamente com suas linhas grossas, mas vívidas, sugeria a semente de um talento
precoce. Seu uso da cor era rudimentar e esquemático. No entanto, displicentemente,
Basquiat olhou para algumas artes de museu — principalmente Dubuffets e
Picassos, dos quais sua técnica “primitiva” foi absorvida.
Em uma cultura mais sadia do que
essa, Basquiat, aos 20 anos, poderia ter passado quatro anos no campo de
treinamento da escola de arte, aprendido algumas reais habilidades de desenho
(diferentemente da notação pseudoconvulsiva que era sua marca registrada) e, em
geral, apreendido algumas disciplinas e aptidões sem as quais uma boa arte não
pode ser feita. Mas isso foi nos anos 1980. E então ele se tornou uma estrela.
O grafite estava na moda no
início dos anos 80, e os colecionadores estavam prontos para uma criança rebelde,
uma curiosidade, um bom selvagem urbano — a resposta da arte, talvez, ao Menino
Lobo de Aveyron. Basquiat representou o papel ao máximo. Por um tempo, ele manteve
distanciamento suficiente para atuar de forma convincente: longe de ser um
garoto de rua, ele era na verdade um garoto de classe média alta, de escola
particular, de ascendência haitiana, cujo pai era dono de uma brownstone de quatro andares no Brooklyn
e dirigia uma Mercedes. Em 1985, no auge de sua carreira, quando ele foi capa
da New York Times Magazine, suas
pinturas maiores estavam sendo vendidas por 25 mil dólares nas galerias e, às
vezes, por um preço maior, em leilões.
Profundamente magoado por uma briga
com o pai, Basquiat passou a apresentar uma obsessão por celebridade como substituto da estima parental. Nos últimos anos de sua vida, seu mentor foi Andy Warhol. Ele fez pinturas "colaborativas" sem valor com
Warhol, viveu no estúdio de Warhol na Great Jones Street, centro de Manhattan,
e parece ter reconhecido em Warhol um pai adotivo — junto com os próprios
valores do pálido cavaleiro sobre arte, dinheiro e fama. Não era a melhor das incubadoras
para um artista recém-nascido; mas a amizade de Warhol certamente sustentou
Basquiat por um tempo. O que acabou com ele, depois que Warhol morreu, foram as
drogas.
Como a maioria dos usuários de
drogas, Basquiat achava que era invulnerável. Para alimentar o vício, tinha de
produzir pinturas às centenas. Drogado, perdia qualquer capacidade de reflexão
estética que pudesse ter. O resultado foi uma série de fórmulas pictóricas
desleixadas, cuja muito discutida "espontaneidade" e
"energia" eram em sua maioria artificiais. Longe de ser o Charlie
Parker do SoHo (que era o que seus promotores alegavam), ele se tornou sua
Jessica Savitch*.
Basquiat não teve muita sorte na escolha de seus representantes. Seu mestre de etiqueta foi Henry
“Freebie” Geldzahler, um escritor, curador e historiador fracassado, mas que ainda
tinha prestígio como especulador, pelo menos entre novos colecionadores. Sua
primeira galerista, Annina Nosei, mantinha-o no porão de sua galeria produzindo telas (agora estimadas como
“Basquiats iniciais”, para distingui-las dos menos procurados “Basquiats tardios”
de três anos depois), que ela vendia antes de secarem e, às vezes, antes de
serem finalizadas. Seu sucessor, por um tempo, foi um iraniano desprezível e
desequilibrado chamado Tony Shafrazi, que, nos anos 70, vandalizou Guernica, de Picasso, no Museu de Arte
Moderna, pichando as palavras “KILL LIES ALL” em vermelho. (Por algum motivo,
os curadores do MOMA escolheram não processar Shafrazi; e ele logo ressurgiu
como um próspero galerista da arte do
grafite, um extravagante ato de petulância.) Mas a falta de credibilidade de
Basquiat, e sua necessidade de dinheiro para as drogas, o impediam de se
relacionar com alguém por muito tempo — certamente não o suficiente para armar
uma rede de segurança. Quando ele morreu, cerca de 35 marchands amealhavam uma porcentagem de seu espólio.
A carreira de Basquiat apelou
para um conjunto de vulgaridades tóxicas. Primeiro, para a ideia racista do
negro ingênuo ou inocente rítmico, e para a ideia do artista negro como
"instintivo", fora da cultura "mainstream" e que, portanto, não deve ser julgado por ela: um
animal de estimação selvagem para o branco recém-civilizado. Segundo, para o
fetiche do eterno frescor da juventude, florescendo em meio às discotecas da Downtown Scene. Terceiro, para uma
obsessão pela novidade — a casca do que costumava ser chamado de vanguarda,
agora servindo apenas à necessidade de novos modelos efêmeros, a cada ano, para
atiçar o mercado. Quarto, para a deterioração da crítica de arte em promoção e
da arte em moda. Quinto, para a mania do investimento JRT, que aboliu o tempo de
reflexão sobre os méritos reais de um artista "quente"; nunca os
críticos e colecionadores tiveram tanto medo de perder o ônibus do que no
início dos anos 80. E sexto, para o notório apetite do público por talentos
autodestrutivos (Pollock, Hendrix, Montgomery Clift). Toda essa gosma se
transformou em uma bola pegajosa ao redor do pequeno talento de Basquiat e
produziu uma reputação.
A REPUTAÇÃO pode sobreviver,
ou não. Se sobreviver, só vai continuar a enfraquecer, como se fosse necessária
mais uma prova de que um lugar no panteão dos anos 80 não depende
necessariamente de mérito. O estrelato de Basquiat estava severamente
enfraquecido quando ele morreu, porque a moda que o havia criado já estava
cansada dele. O movimento do grafite urbano que Basquiat usou como um canal em
1981-83, cinco anos depois, não tinha mais fãs entre os colecionadores. Além
disso, os "ousados" colecionadores que haviam comprado seu trabalho
no início estavam agora no Neo-geo; o jovem artista atraente com dreadlocks tinha sido abandonado pelos descolados
que carregam a edição de bolso de Baudrillard.
Mas agora temos uma onda de alarde
do póstumo Basquiat — um codicilo, por assim dizer, para a atenção excessiva que
a mídia deu ao leilão de cadeiras e potes de biscoitos de seu mentor Warhol, na
primavera passada. Há tantos Basquiats flutuando por aí que a única estratégia
possível para manter seu valor é romantizar seu autor, reivindicando-o em voz
alta como um artista potencialmente "importante", um gênio cortado no
início de seu florescimento.
O New York Times, como era de se esperar, enfeitou seu esquife com
polegadas de coluna. "Mártir sem causa", publicou a linha de Peter
Schjeldahl em 7 Days, tratando
Basquiat como um verdadeiro São Sebastião, coberto de seringas atiradas
cruelmente pelo Zeitgeist. Comparando-o a "um gracioso jovem príncipe
africano, altivo e melancólico", Schjeldahl invocou Cy Twombly e Franz
Kline, clamou que Basquiat, como eles, "parecia incapaz de mover sua mão
de uma forma que fosse desinteressante". Schjeldahl pediu "uma
retrospectiva adequada para seu trabalho". Sem dúvida, ele terá o seu
desejo realizado, devido ao compromisso impotente do Museu Whitney com o que está
na moda e ao número de financiadores que ficaram com Basquiats cujos valores
precisam ser mantidos em alta por essa "retrospectiva adequada".
Então o Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles também poderia fazer isso,
porque seus curadores também possuem muitos Basquiats. Isso é conhecido como
Ética do Museu Pós-modernista. É assim que a história da arte é feita, camarada.
Então, na Vanity Fair, Anthony Haden-Guest se empolgou com "a vida
brilhante e intensa de um artista extraordinário — o primeiro pintor negro
verdadeiramente importante da América", como se Jacob Lawrence e outros,
cujos pincéis Basquiat mal teria qualificação para limpar, nunca tivessem
existido. E na revista New York,
Phoebe Hoban opinou com um artigo que rivalizava com o tratamento dado por
Julie Baumgold à falaz Arianna Stassinopoulos Huffington, três meses antes; nove
páginas repletas de grandiloquências sobre Basquiat. Estava recheado de exéquias,
principalmente de galeristas, embora suavizado
por lampejos de comédia como a aparição especial de René Ricard, da Artforum. "Ricard está histérico...
Ele diz que a garrafa de champanhe que ele planejava derramar no túmulo de
Basquiat estourou." "Jean-Michel foi tocado por Deus", Ricard
delira. "Ele era um santo negro. Havia Martin Luther King, Hagar, Muhammad
Ali e Jean-Michel." Falou a voz do distanciamento crítico, ao estilo dos
anos 80.
CONFRONTADO COM tamanha
bajulação, o cínico pode concluir que, se existe algo que o système de la mode gosta mais do que um
novo artista jovem e badalado, é de um novo artista jovem e badalado morto.
A única coisa que trouxe
Basquiat de volta aos holofotes foi a sua morte. Schjeldahl ficou indignado com o
desdém de um anônimo que perguntou: "O que mais ele poderia ter
feito?" A observação foi uma apropriação da famosa frase sobre a morte de
Elvis Presley ter sido uma esperta jogada profissional. A diferença é que,
enquanto o rock 'n' roll seria
imensuravelmente mais pobre sem Elvis, Basquiat nunca deu a impressão estar em
vias de se tornar um pintor de real valor. Sua "importância" foi
apenas a de um sintoma; significa pouco mais do que a histeria da reputação
instantânea que ainda aflige tão grotescamente o critério americano. Seus
admiradores são como um bando de defensores do direito à vida, adorando o feto
de um talento e exultando sobre o grande homem que ele poderia vir a ser, se tivesse vivido. Aparentemente, o Neo-Expressionismo finalmente encontrou seu
Thomas Chatterton — o "menino maravilhoso" de Wordsworth, o célebre imberbe
poetastro cujo nome, graças ao seu suicídio aos 18 anos, continua vivo,
enquanto sua obra permanece totalmente ignorada.
Robert Hughes foi um crítico de arte, escritor e produtor de documentários para TV. Australiano, residia em Nova Iorque desde 1970. Faleceu em 6 de agosto de 2012, aos 74 anos.
* Link para artigo da Marie Claire sobre Jessica Savitch, citada por Hughes:
https://www.marieclaire.com/celebrity/what-happened-to-jessica-savitch/













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