sábado, 15 de março de 2025

Gahan Wilson e a Comédia do Bizarro


Autorretrato de Gahan Wilson com seus monstros



     Richard Gehr / The Comics Journal - 27 de abril de 2011 

    A entrada do modesto chalé de Gahan Wilson e da escritora Nancy Winters, com cerca de estacas brancas, em Sag Harbor, Long Island, é cheia de antigos teatros de brinquedo, réplicas de papelão de peças populares dos séculos XVIII e XIX. O que parece adequado, uma vez que Wilson é um miniaturista milagroso, que usa cartuns como seu palco. Por quase sessenta anos, Wilson tem apontado com precisão sua arma de raio de encolhimento de filme B para monstros, alienígenas e humanos malignos de todos os tipos, e destilado suas qualidades mais aterrorizantes em cartuns lindamente elaborados que, magicamente, nos perturbam e nos confortam ao mesmo tempo. Lá fora, existe um mundo aterrorizante, ele parece dizer por meio de sua arte, e assim foi como eu aprendi a me relacionar com ela.

Gahan Wilson
(Foto de Will Ragozzino)

Alguns dos trabalhos mais importantes de Wilson se tornaram (ou estão prestes a se tornar) disponíveis. No ano passado, a Fantagraphics publicou uma bela caixa de três volumes contendo todos os seus desenhos para a Playboy, revista na qual ele marca presença, mensalmente, desde 1957. E em agosto, a Fantagraphics publicará Nuts, a série completa da soberba tira em quadrinhos semiautobiográfica que ele desenhou para a National Lampoon no início dos anos setenta.

Wilson, é claro, ainda desenha regularmente para a New Yorker, um relacionamento relativamente novo que começou em 1980. Em um cartum recente para a revista, durante um jantar, um cachorro grande, com suas garras na toalha da mesa, arreganha os dentes e olha ameaçadoramente para um convidado. "Na verdade, ele não está pedindo comida", o anfitrião previne seu visivelmente consternado convidado. As pessoas de Wilson são volumosas e disformes sob suas roupas formais folgadas. O clima é moderadamente sinistro. É como o segundo ato de uma peça, cujo resto você terá que imaginar por si mesmo. A única coisa em que você pode confiar é que o jantar continuará. 


RICHARD GEHR:O que provocou seu interesse por cartuns?

GAHAN WILSON: Quando eu tinha oito ou nove anos, estava explorando a seção de livros de uma loja de artigos usados ​​e vi um conjunto de volumes encadernados da Punch. Comprei um dos volumes por quinze centavos e levei para casa. Depois de implorar ao meu pai, ele carinhosamente me levou de volta ao local e comprou todos os volumes, abençoado seja o seu coração. Não sei dizer o quanto isso foi importante.

GEHR: Como assim?

WILSON: Havia pessoas fantásticas naquela época. Tinha Honoré Daumier, George Cruikshank e todo tipo de pintores incríveis, que também faziam cartuns. Alguns deles eram maravilhosamente políticos. Eles faziam o desenho com uma legenda embaixo, que não era necessariamente uma piada. Eventualmente tiveram a ideia da frase de efeito e virou mais do que uma ilustração. A forma estava estabelecida e podia funcionar com ou sem legenda, dependendo do tipo de piada que você estava criando. Mais tarde, percebi que esses foram os artistas que me ensinaram a hachurar. Comecei a pensar: "Que diabos, já que é para fazer um desenho, vamos fazer algo realmente interessante."

Punch Magazine

GEHR: Foram os primeiros cartuns que você se lembra de ter visto?

WILSON: Eu também gostava de outras coisas. Gostava da New Yorker, e os jornais tinham cartuns.

GEHR: Onde você nasceu?

WILSON: Eu nasci em Evanston, Illinois, em 18 de outubro de 1930. Charles Jaffe fez um filme legal sobre mim chamado Born Dead, Still Weird, e eu realmente nasci morto, o que é uma história bem extraordinária. Eu nasci azul e sem respirar, então eles me colocaram na pia. Felizmente para mim, o médico da família estava no local. Ele estava olhando a sala de cirurgia por uma janelinha, entrou rapidamente e me agarrou. Usou água quente e fria e tapa, tapa, tapa. Me fez tossir e vomitar e respirar e pronto: eu estava vivo. Não sei se alguém no hospital já se desculpou por isso. "Oh, caramba, perdão..." A mesma coisa aconteceu com John Steinbeck. Eu poderia ter passado um tempo na vida após a morte antes de nascer.

For Laughing Out Loud, 1963

GEHR: Fale sobre sua família.

WILSON: O nome do meu pai era Allen Barnum Wilson. Tenho muito orgulho de P. T. Barnum ser meu tio-avô, embora ele já tivesse morrido há muito tempo quando eu nasci. É um personagem sensacional. Quanto mais leio sobre ele, mais admirado fico. Ele era um showman brilhante, ainda maior do que sua lenda, e muito à frente de seu tempo. Ele criou a publicidade moderna e mudou o mundo do show business com muita habilidade. Hugh Hefner fez a mesma coisa. Batalhou, movimentando-se discreta e espertamente com os clubes Playboy, que eram um território de fantasia seguro. Você poderia ir lá e nada acontecer, mas teria uma espécie de romance com garotas bonitas. Este é um país fora do comum por causa dos dois.

GEHR: Onde seu pai trabalhava?

WILSON: Ele era um personagem interessante. Trabalhava para a Acme Steel Company. Antes disso, trabalhou em uma loja de departamentos, a Carson Pirie Scott, que era a outra grande loja de departamentos de Chicago, além da Marshall Field's. Ele e minha mãe trabalharam lá. Minha mãe estava muito à frente de seu tempo.


GEHR: Como era ela?

WILSON: Seu nome era Marion Gahan. Meu nome original é Allen Gahan Wilson. Ela queria ser artista e foi para o Instituto de Arte de Chicago. Foi criada em Elgin, Illinois. A família Gahan era toda irlandesa. Elgin era uma cidade muito irlandesa e o pai dela — meu avô, Frank Gahan, que, lamento, morreu antes de eu chegar, porque eu adoraria tê-lo conhecido — era o chefe de polícia de Elgin. Ele era extraordinariamente corajoso e eficaz em suas operações. Durante esse período, os gângsteres de Chicago se espalhavam e tomavam conta dessas pequenas cidades. Se os tipos Capone tivessem problemas, eles sempre podiam se refugiar nelas, onde basicamente comandavam o lugar. Eles tentaram em Elgin, mas não contavam com Frank "The Tiger" Gahan. Ele sabia exatamente o que estava acontecendo quando os gângsteres chegaram, e começou uma campanha muito eficiente contra eles. Eles chegaram em números maiores do que o normal e começaram a planejar o que fazer com Elgin. Até informantes revelarem a Frank que os gângsteres estavam se reunindo em um prédio de apartamentos. Frank e seus homens cruzaram um beco e invadiram a reunião. Foi o fim da tentativa de, como eles diziam, "foder com Elgin". Ele simplesmente os pegou de surpresa.

GEHR: Você descreveu sua infância como "turbulenta".

WILSON: Foi um pouco difícil. Meu pai era, indiscutivelmente, um alcoólatra, e eu sou um alcoólatra em recuperação.  Mas, voltando para minha mãe e meu pai trabalhando na Carson Pirie Scott, a coisa da arte não deu certo para ela. Ela estava muito determinada e concentrada em ser uma artista, mas teve um tipo de colapso nervoso devastador. Não sei o que foi, mas estragou tudo. Era um assunto sempre muito secreto, misterioso, e não comentado. Mas o que ela fez foi bastante heroico. Ela era uma dessas mulheres que estavam muito à frente de seus pares. Então conseguiu um emprego no departamento de publicidade da loja, foi subindo na carreira e se tornou uma figura muito importante lá. Meu pai era supervisor, uma dessas pessoas que não existem mais em lojas de departamento. Ele andava e dizia: "Posso ajudar, madame?"  Estavam sempre bem-vestidos, e ele era alto e tinha presença. Também tinha um ótimo olho para arte, e, naquela época, as lojas de departamento vendiam pinturas emolduradas em uma espécie de galeria de arte. Meu pai achava as coisas da Carson Pirie Scott um lixo." Mas ele conhecia alguns artistas de verdade, como Winslow Homer, então assumiu a galeria como uma coisa paralela, trouxe alguns caras respeitados e a transformou em uma galeria importante. Foi um grande negócio. Ralph Norton, dono da Acme Steel, era um colecionador de arte, e, um dia, passou por lá, e ficou muito impressionado com o que viu. Ficou bastante impressionado com meu pai e se tornaram amigos. Norton viu que meu pai era um cara inteligente e o colocou no departamento de desenvolvimento da Acme Steel. E minha mãe e meu pai se casaram.


GEHR: O que seu pai fazia na Acme Steel?

WILSON: Ele era responsável pelo desenvolvimento de novos produtos. Um dos principais produtos deles eram as tiras de aço. Lembro-me dele nos levando à fábrica, nos arredores de Chicago. Eles transformavam barras de aço em algo incandescente que saía como grandes placas. Então, as cortavam em placas menores que acabavam em tiras de aço, usadas para amarrar pacotes e todo tipo de coisa. Meu pai desenvolveu máquinas que podiam fazer essas coisas. Lembro-me de ficar absolutamente chocado com as condições de trabalho na fábrica. Era horrível. Grandes placas de aço eram arremessadas em esteiras rolantes até pararem de repente com um barulho muito alto. Então os caras levantavam as placas e as içavam para um vagão. O que acontecia era que eles ficavam surdos, todos eles. Eu não conseguia acreditar. E os caras caíam em poços de aço borbulhante e desapareciam completamente.

Provavelmente a coisa mais brilhante que meu pai desenvolveu foram as persianas de aço. Não havia uma casa no subúrbio ou uma suíte executiva que não tivesse persianas de aço. Ele descobriu uma maneira muito simples de manter a integridade das tiras de aço, para que você pudesse dobrá-las e elas voltassem ao formato original. Ele fez um monte de outras coisas também. Ele era simplesmente extraordinário.

GEHR: E, ainda assim, as bebedeiras dele tornavam as coisas mais feias para você e sua mãe.

WILSON: Sim, havia coisas deprimentes acontecendo. Quando eu estava no ensino médio, tínhamos um apartamento muito bom no lado norte de Chicago. Uma vez, no meio da noite, houve uma confusão no corredor, e lá estava meu pai, bêbado. Ele tinha ido ao iate clube. Tinha um barco e amava velejar, mas também havia muita bebida e muitas outras coisas. Naquela noite, ele bateu em um táxi no caminho para casa, e um desses policiais de Chicago o rebocou. Meu pai me disse para ligar para um advogado na empresa siderúrgica. Então eu liguei, descrevi a situação, e ele chegou em meia hora. Enquanto esperávamos pelo advogado, um policial me perguntou: "Seu pai é um cara importante?" E eu disse: "Sim, ele é um cara importante." E lá fomos nós para a delegacia, onde vi o taxista. Ele estava bem, e parecia bem arrogante quando viu o bêbado entrar. E ficou ainda mais feliz ao ver o cara preso. Mas, então, tudo mudou para ele, e foi uma coisa muito deprimente de se ver. O taxista pensou que tudo estava indo a favor dele, mas de repente percebeu que estava fodido. Foi nojento. Fiquei horrorizado, foi simplesmente horrível. E Chicago ainda é assim.


GEHR: Quando você percebeu que precisava parar de beber?

WILSON: Por um tempo, foi administrável, mas começou a escorregar para além do administrável, e a coisa toda se tornou realmente medonha. Isso foi décadas atrás. Eu estava mais ou menos controlando. Só que estava fazendo exatamente o que meu pai fazia, que era ficar bêbado toda maldita noite, praticamente.

GEHR: Você tinha trinta e poucos anos?

WILSON: Sim, por aí. Não me lembro da época exata. Não consigo descrever como foi deprimente. Graças a Deus, nunca me envolvi com drogas. Eu tinha experimentado um pouco de cocaína e não gostei. Fumei maconha, da qual não gostei nem um pouco, exceto por uma vez. Nunca tomei LSD e coisas do tipo. Como nas peças de O'Neill, você entra nessa coisa em que a angústia insuportável é total, e é simplesmente medonho. Não consigo descrever. Tudo é desesperador, nada bom, um abismo sombrio.

O jovem Ganhan Wilson

GEHR: Mas você continuou produtivo.

WILSON: Sim, eu estava produzindo. É o que acontece nas histórias de artistas clássicos. A arte é algo tão poderoso que chega a ser assustador.

GEHR: Como o alcoolismo afetou seu trabalho, e o que você fez a respeito?

WILSON: Começou a estragar tudo. Eu estava em apuros terríveis, em total desespero. Então Nancy, abençoada seja, fez uma pesquisa. Ela é uma pessoa muito perspicaz e inteligente, e fez um bom trabalho verificando clínicas de desintoxicação. Fizemos uma pequena lista e um pequeno passeio por elas. Acabamos em um lugar chamado Silver Hills. Foi uma experiência muito tocante, de verdade. Você sabe o que essas outras pessoas estão passando e elas sabem o que você está passando. Mais ninguém sabe; não tem como saber. É como um bando de pessoas em um bote salva-vidas ou qualquer clichê que você queira usar. Eu amo essas pessoas. Mantive contato com muitas delas. Funcionou para algumas, para outras, não. O lance intensivo dos Alcoólicos Anônimos é exatamente a mesma coisa: você tem pessoas que já passaram pela mesma situação que você. É assim que se ajudam. É muito difícil, mas funcionou para mim, bendito seja. Nunca mais fiquei, nem um pouco, tentado a beber, embora sinta falta do prazeroso sabor do vinho. Era delicioso.


GEHR: Você mencionou uma epifania com maconha.

WILSON: Foi absolutamente fascinante. Eu tinha fumado maconha, mas não gostei nem um pouco do efeito. Particularmente, não gostei da coisa em que o tempo desacelera e se arrasta incrivelmente. Você estaria nessa festa em câmera lenta e perceberia, oh, preciso ir ao banheiro. E, duas horas mais tarde, você está no banheiro. Você fica ali urinando por meia hora, e então volta. E Deus sabe lá quanto tempo isso levou. Mas uma vez, estávamos no jantar de um artista muito rico. Um pequeno grupo de pessoas estava em uma mesa maravilhosa. Depois do nosso requintado jantar, os criados apareceram com bandejas contendo cigarrinhos. Eu não sei o que havia naquelas malditas coisas, mas, a princípio, supostamente era maconha.

GEHR: Você desconfia que havia alguma outra coisa no baseado.

WILSON: Suspeito que sim. Sempre gostei muito de Paul Cézanne, e ainda gosto muito. Lembro-me de olhar para suas pinturas enquanto estava no Instituto de Arte de Chicago, esboçando sem parar e tentando entender como ele magicamente transformava três dimensões em superfícies planas. Fiz pequenos progressos aqui e ali, mas nunca cheguei onde queria. Mas depois de fumar, olhei para esta mesa magnífica cheia de cristais, porcelanas adoráveis,  garrafas e tudo mais, e de repente entendi. E ainda entendo. Estou fazendo isso agora. Posso olhar para objetos, e enxergá-los e desenhá-los como Cézanne fazia. É um milagre que ficou comigo em sua plenitude. Muitas vezes, você pode ver toques de Cézanne em meus cartuns, objetos tridimensionais e planos. Isso me foi proporcionado por seja o que for que eu tenha fumado, e por isso sou muito grato.


GEHR: Qual foi sua experiência no Instituto de Arte?

WILSON: Foi bastante marcante naquele momento porque os professores eram artistas famosos que você normalmente não tem como professores. Eram pintores, desenhistas e escultores incrivelmente bons. Alguns deles fugiram de Hitler. Ainda é uma escola excelente, e eu voltei lá algumas vezes para um bate-papo. Hoje a escola fica em um prédio atrás do Museu do Instituto de Arte de Chicago. Mas quando eu fui lá, a escola ficava escondida dentro do mesmo prédio do museu. Então, enquanto você caminhava da sua aula de gravura para a sua aula de modelo vivo, passava por galerias contendo El Greco, Cézanne, Picasso e tudo mais. Isso realmente me transformou e me inspirou.

GEHR: Você começou a trabalhar para a Playboy em 1957. O que passou pela sua cabeça enquanto você folheava a caixa de três volumes da Fantagraphics com todos os seus desenhos para a revista durante meio século?

WILSON: O que realmente me surpreendeu foram as cores. Hefner é um editor brilhante e muito exigente, então sei que ele reproduziu essas coisas da melhor maneira possível. Na revista, elas estavam em papel translúcido. Mas, no papel fosco dos livros, as cores parecem gritantemente brilhantes, então fiquei em êxtase.


GEHR: O que influenciou seu senso cromático?

WILSON: Goya é uma influência óbvia. Mas o que realmente me ajudou foram aqueles adoráveis ​​filmes de terror da HammerEles abriram meus olhos no que diz respeito à atmosfera, brilhante e assustadora. Mas é principalmente por causa de todas as grandes pinturas que vi no Instituto de Arte.

GEHR: A New Yorker tem pedido para você fazer desenhos coloridos 

WILSON: Sim, mas você nunca sabe com antecedência. Eles compram, e pedem para você fazer em cores. E não pagam a mais por isso, o que me deixa um pouco irritado. 

The New Yorker, 2009

GEHR: Quando você vendeu seu primeiro cartum para a New Yorker, em 1980, Lee Lorenz pediu algo substancialmente diferente do que você fazia na Playboy?

WILSON: Não. Se você aparecesse com algo que os provocasse, eles aceitariam. Se você não fizesse isso, eles não aceitariam.

GEHR: Você já pensou em usar piadas de outras pessoas?

WILSON: Não. Eu decidi muito cedo, antes mesmo de começar a vender, que não faria isso. Fiquei arrasado quando descobri que Addams, Arnold Roth e todos esses caras usavam ideias de outras pessoas. Fiquei arrasado. Rapaz, foi um choque.


GEHR: A revista MAD começou na mesma época que sua carreira de cartunista. Qual era sua opinião sobre ela quando foi lançada em 1952?

WILSON: Eu e Harvey Kurtzman ficamos bons amigos mais tarde, mas havia uma presunção nela que não me agradava. O humor não era ousado o suficiente para mim. Tinha algumas coisinhas boas de pastelão. A revista com a qual me identifiquei imediatamente foi a National Lampoon. Era uma notável reunião de filhos da puta brilhantes. Seu espírito era insidioso. Era como fazer parte de uma tripulação de piratas. Uma espécie de seita religiosa. Estávamos lá para provar aos filhos da mãe que nós podíamos e, por Deus, provamos, muito efetivamente. Eu só queria que algo assim acontecesse novamente. Mas não há nenhum sinal disso, embora as coisas estejam muito piores agora.

GEHR: Como você acabou desenhando Nuts para a Lampoon?

WILSON: Eles me disseram que colocariam uma história em quadrinhos no final da revista e queriam que eu a fizesse no formato de tira. "Faça o mais horrível que puder", eles disseram. "Pode apostar!" Então eu brinquei com monstros, o que era interessante, mas não me atiçava. Talvez, se eu persistisse, inventaria algo, mas eu já fazia sucesso com quadrinhos de monstros. O que é realmente horrível?, eu me perguntava. O que é realmente assustador? Oh, merda! Uma criança é assustadora! E naquele instante eu soube que faria uma tira realista sobre o que os pequenos filhos da mãe passam. Foi assim.


GEHR: Você intitulou sua tira da National Lampoon de Nuts em resposta a Peanuts, certo?

WILSON: Sim. Eu sempre respeitei o que Charles Schulz fazia, que era ensino religioso. Suas tiras eram pequenas fábulas morais. É encantador e estiloso, mas não tem nada a ver com crianças, só isso. Mas ele fazia exatamente o que se propôs a fazer, e é algo extraordinário. O que me irritava é que ele fingia que era sobre crianças, e não era.

GEHR: Como sua visão da infância difere da de Schultz?

WILSON: A infância é um mundo aterrorizante. As pequenas criaturas são cheias de vida e muito sensíveis. Estão morrendo de medo, mas também ficam maravilhadas quando algo dá certo. As crianças são intensamente vivas e complicadas. O que me deixou bravo com Schulz é que ele sentimentalizava a ideia de infância, o que realmente é muito prejudicial.


GEHR: Como você criou o visual claustrofóbico para Nuts?

WILSON: Tudo é desenhado propositalmente em escala. É como se a criança estivesse sendo esmagada e confinada numa caixa. A moldura é do tamanho da criança, e você só vê partes de gente grande e do mundo que a cerca. Porque é tudo o que uma criança apreende: projeções gigantes de sua vizinhança próxima e tudo o mais distante. As portas são grandes e difíceis de abrir, e assim por diante. Mas elas lutam para passar; são incríveis. Às vezes, você vê um garoto atravessando uma rua movimentada e pensa: "Muito bom, garoto!"

GEHR: Falando em ensino religioso, você foi criado em um lar religioso?

WILSON: Fui criado ateu, porque minha mãe se rebelou contra os grupos de católicos irlandeses. E a família do meu pai era muito grande dentro do movimento da Lei Seca. William Jennings Bryan era outro parente. Aparecia em casa, no café da manhã, e falava sobre a Lei Seca, enquanto comia tudo o que havia pra comer. Meu pai caiu fora de tudo isso e entrou no lance dos Loucos Anos Trinta. Acho que foi isso que o fez começar a beber. Sou muito grato por ter sido criado dessa forma. Fui poupado de muita preocupação que envolve ser religioso quando criança. Deve ser muito, muito difícil.



GEHR: Seu primeiro cartum para a New Yorker retrata um velho monge budista dizendo a um jovem adepto: "Nada acontece depois. É isso." Você tem algum interesse particular no budismo?

WILSON: Sim, me envolvi com o budismo quando os primeiros livros de D. T. Suzuki foram lançados, então eu estava bem à frente dos outros. Eu fazia meditação, em que você se senta e faz toda aquela coisa. Sou um budista meia-boca. A reencarnação me parece absolutamente ridícula. Supostamente, faz você respeitar mais os animais por serem alguém. O que é realmente maravilhoso sobre esquilos é que um esquilo é um esquilo. Então, isso meio que me torna um mau budista. Mas eu amo a introspecção. O pessoal Zen é aquele do qual eu mais me aproximo. E isso inspira uma arte linda. É humano. Um pescador parece um pescador e os peixes parecem peixes e a água parece água. É a mensagem sobre estar vivo e faz você pensar: "Graças a Deus, que golpe de sorte". Apenas seja, entende?

Gehr: Quais são as ferramentas do seu ofício?

WILSON: Eu uso canetas Croquil. Gosto da linha fina. Para as cores, brinco com todos os tipos de recurso. Às vezes, começo com aquarela e depois borrifo um fixador. Então posso fazer uma lavagem ou esfregar o celuloide, ou o que for, para enriquecer a profundidade das cores. A iluminação depende da cena. É como um filme. Você desenha a coisa básica e então faz a iluminação para ter certeza de que ela realça o que se imaginou. E se você usar o spray fixador, pode limpá-lo e começar de novo sem ter que começar do zero. Em poucas palavras, é basicamente isso.


GEHR: Que tipo de papel você gosta?

WILSON: Apenas um bom papel. Começo com o ledger bond, um papel legal que absorve bem a tinta. Mas experimento diferentes tipos. Uso um papel aquarela para acabamentos, especialmente para as coisas da Playboy.

GEHR: Qual é sua programação semanal?

WILSON: Basicamente, depende de quanto dinheiro eu preciso. Eu faço uma pequena pausa de vez em quando, apenas ando por aí. Tenho uma vaga ideia de quem está procurando material, e o que eu fiz para eles recentemente. Mas não há uma programação fixa. Eu sento para trabalhar e, quando paro, percebo que todo esse tempo passou. Você está obviamente lidando com algum tipo de estado místico. Não sei o que é, mas, se você vê um bom artista trabalhando, você o vê cair nele.


GEHR: Você cai nesse estado facilmente?

WILSON: Às vezes, você cai, e às vezes, não. Às vezes, simplesmente não dá o clique naquele dia. Não acontece com muita frequência, mas pode acontecer. Mas geralmente começa com: "Para quem devo fazer material agora?"

GEHR: Com que frequência você envia trabalhos para a New Yorker?

WILSON: Procuro entregar toda semana. Envio de dez a uma dúzia, às vezes mais. E entrego, todo mês, uma quantidade significativa de trabalhos para a Playboy. Mas essa quantidade pode variar.


GEHR: A Playboy garante uma página a cada mês?

WILSON: Tenho uma página inteira em cada edição, abençoado seja o coração de Hefner. Mas, que eu saiba, não há contrato algum que o obrigue a aceitar. Às vezes, faço uma página dupla, mas tenho feito com menos frequência.

GEHR: Acho que a maioria das pessoas não percebe que Hugh Hefner ainda é o editor de quadrinhos da Playboy.

WILSON: Ele está lá. O que ele faz é escrever, com lápis vermelho, na parte inferior, "página inteira em cores". E, às vezes, coloca algum pequeno comentário, mas quase nunca. Mas, ah não, ele é assim.

Esboço de cartum com comentário de Hugh Hefner

GEHR: Você já imaginou que Hefner, na velhice, se transformaria em algo como um cartum de Gahan Wilson?

WILSON: O que você quer dizer?

GEHR: Ele se tornou, quase completamente, uma outra forma de vida, se é que você me entende.

WILSON: Você quer dizer como o que ele está fazendo agora, se casando com essa garota? E todos dizendo, "Ho-ho, que velho sujo." Mas, graças à ciência, ele ainda pode ter relações sexuais com a garota, e ele é corajoso o suficiente para fazer isso. Ele está provando que você não apenas pode se divertir em uma fase normal da vida humana como também pode expandi-la. Imaginei que, se chegasse aos meus sessenta anos, estaria indo muito bem, especialmente durante meus anos de alcoolismo. E me lembrei dos velhos que conheci quando era criança. Há um ponto em que você simplesmente se torna inviável, uma coisa frágil que usa roupas grossas e desconfortáveis. Você se senta e anda como um velho a partir dos cinquenta anos. Agora você vê esses velhos filhos da mãe andando por aí de bermuda e chapéu de caçador africano - e eu os amo por isso. Deus os abençoe! Então é tudo diferente, e Hefner está nessa. Assim como ele foi bem-sucedido em mudar a maneira como pensávamos a liberdade sexual, ele agora está demonstrando que ser velho não é mais o que costumava ser. Ele está dizendo "Olha, o que há de errado em ser velho e se casar com essa garota?"


GEHR: Como você acha que os cartuns da New Yorker mudaram ao longo das décadas?

WILSON: Eles ficaram um pouco conservadores, pois costumavam reservar páginas inteiras e ser mais exigentes no que diz respeito ao talento, tanto em termos de humor quanto de arte. No entanto, foram bastante gentis na era de ouro. Mas a coisa da arte meio que desapareceu.

GEHR: Felizmente, você marcou uma boa e duradoura presença naquelas que são, provavelmente, duas das publicações mais longevas.

WILSON: The New Yorker e Playboy. São as únicas que sobraram.


GEHR: A Playboy, infelizmente, não é nem de longe tão relevante para os fãs de cartuns como costumava ser.

WILSON: Mas ainda tem cartuns. Na verdade, eu me dou bem com coisas muito mais ridículas e grotescas na Playboy do que em qualquer outro lugar. Mas esses são os últimos bastiões do caráter divertido de revista.

GEHR: Você experimentou a ascensão e a queda do formato.

WILSON: Obviamente, as coisas estão mudando, e estou aberto a qualquer coisa eletrônica ou o que quer que seja. Vamos ver o que virá por aí. Revistas como Look e Collier's não existem mais. Costumava haver um monte de publicações menores e desconhecidas, como as pulp magazines, onde um cartunista conseguia sobreviver, mas era um modo de vida muito "marginal". Você ganhava muito pouco. Isso estava disponível quando comecei, mas não sei como um cartunista começaria hoje em dia porque esse tipo de coisa não está mais disponível.

Capa do álbum Monster, de Herbie Hancock

GEHR: Por que você acha que essa forma de arte está desaparecendo? Ainda existem muitas revistas por aí. E o cartum é uma maneira elegante, inteligente e rápida de transmitir uma ideia. As revistas também se consagraram como uma porta de entrada para crianças.

WILSON: É uma coisa adorável. Ilumina o lugar, e eu realmente não sei por que isso aconteceu. Na verdade, junto com os cartuns, não há mais mercado para contos, romances seriados e poesia. Tudo isso acabou. Hoje em dia, as revistas apenas se dedicam a um determinado tema, seja notícia, moda ou o que for. É tudo reportagem.

GEHR: O que acontecerá com as pessoas criativas e um pouco malucas que vivem do cartum?

WILSON: Quando criança, eu sempre desenhava, desenhava, desenhava. E todo mundo que conheço, em qualquer tipo de arte visual, é desenhista. Fui presidente do Cartoonists Guild, que já não existe há muito tempo, mas era muito influente na época. Conseguimos implantar algumas melhorias interessantes no que diz respeito às condições de trabalho dos cartunistas. Então, lá estava eu ​​negociando com as pessoas que administram essas revistas, e era tudo muito racional, sensato. Na metade da nossa reunião, olhei em volta e percebi que todos estavam rabiscando. É o que eles fazem. É uma coisa compulsiva, e eu estava fascinado. As revistas costumavam estar por toda parte, e havia muitos e muitos tipos diferentes de cartuns. Você tinha mais opções em relação aos tipos de cartuns que eram feitos.

Cartum de Charles Addams

GEHR: De que maneira cartunistas como Peter Arno, Charles Addams e James Thurber influenciaram você?

WILSON: Não tanto em termos de estilo, mas em sua individualidade. Eles são únicos, e é isso que os torna interessantes. Eles fazem você pensar: "Meu Deus, eu não percebi isso". E não há ninguém como eles. Quer dizer, Picasso não seria Picasso sem Cézanne, mas Picasso era Picasso. É algo muito mágico.

GEHR: O que mais o impressionou em Addams, a quem você às vezes é comparado?

WILSON: Gosto do respeito dele pela atmosfera, e como ele preparava seu cenário e criava um mundo inteiro. 


GEHR: Você tem parcerias com dezenas de escritores, incluindo Russell Baker(The Upside-Down Man) e Quentin Crisp  (Chog: A Gothic Fable). E então Buddy Hackett com The Truth About Golf and Other Lies.

WILSON: O livro de Hackett foi um show. Eu ilustrei as piadas, só isso. A coisa mais difícil que fiz até agora foi um curta de animação chamado Gahan Wilson's Diner, lançado em 1992, com Buffy the Vampire Slayer. Era de muito mau gosto, mas muito bom. Eles me deixaram fazer a coisa toda. Eles pegaram o meu storyboard e o seguiram meticulosamente. Fui assistir em um cinema enorme, e, no final do curta, o cinema inteiro explodiu em aplausos. Pensei: "Puta merda!" O genial Steven Spielberg disse que era o melhor curta de animação que ele já tinha visto. Também me envolvi em coisas com produtores que as "melhoraram". Eles as estragaram, todas elas. Mas ainda estou no jogo. Estou pronto e disposto a trabalhar com qualquer produtor que me deixar fazer isso.

GEHR: Muitos dos seus cartuns zombam da loucura dos políticos. Como você sobreviveu aos anos Bush?

WILSON: Ainda estou surpreso com os políticos, surpreso com a total e completa incompetência. De certa forma, Bush é patético porque ele está fora da realidade. É tão estúpido. A situação atual também é inacreditavelmente grotesca. Não estou muito otimista. Espero que tudo dê certo, mas Deus...


GEHR: Você já foi politicamente ativo?

WILSON: Fiz coisas boas quando era presidente do Cartoonists Guild. Havia algumas cagadas acontecendo às escondidas, eu fui atrás e as limpei.

GEHR: Seus cartuns geralmente envolvem ciência, de uma forma que antecipou Gary Larson.

WILSON: As fotos do Telescópio Hubble são algumas das coisas mais lindas que já vi na minha vida. Elas expandiram tanto a maravilha do universo. Nossa ideia sobre isso era tão limitada, tão confinada, mas esses vislumbres são impressionantes.


GEHR: Há muitos alienígenas em seu trabalho.

WILSON: Acho que Stephen Hawking está certo. "Não seja precipitado ao anunciar que povoamos este planeta", ele diz. "Lembre-se dos nativos." Podemos estar sendo cuidadosamente observados, mesmo enquanto conversamos. E Deus sabe em que estamos nos transformando, mas é óbvio que vamos nos transformar em algo espetacular. Mas aquelas fotos do Hubble mudaram tudo para mim.

Nota do autor: Agradecimentos a Hans Anderson, Oren Ashkenazi, Ian Burns e Kara Krewer pela assistência na transcrição.

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