Autorretrato de Gahan Wilson com seus monstros
Richard Gehr / The Comics Journal - 27 de abril de 2011
A entrada do modesto chalé de Gahan Wilson e da escritora Nancy Winters,
com cerca de estacas brancas, em Sag Harbor, Long Island, é cheia de antigos teatros
de brinquedo, réplicas de papelão de peças populares dos séculos XVIII e XIX. O
que parece adequado, uma vez que Wilson é um miniaturista milagroso, que usa cartuns
como seu palco. Por quase sessenta anos, Wilson tem apontado com precisão sua
arma de raio de encolhimento de filme B para monstros, alienígenas e humanos
malignos de todos os tipos, e destilado suas qualidades mais aterrorizantes em cartuns
lindamente elaborados que, magicamente, nos perturbam e nos confortam ao mesmo
tempo. Lá fora, existe um mundo aterrorizante, ele parece dizer por meio de sua
arte, e assim foi como eu aprendi a me relacionar com ela.
Alguns dos trabalhos mais importantes de Wilson se tornaram (ou estão
prestes a se tornar) disponíveis. No ano passado, a Fantagraphics publicou uma bela caixa de três volumes contendo
todos os seus desenhos para a Playboy,
revista na qual ele marca presença, mensalmente, desde 1957. E em agosto, a Fantagraphics publicará Nuts, a série completa da soberba tira
em quadrinhos semiautobiográfica que ele desenhou para a National Lampoon no início dos anos setenta.
Wilson, é claro, ainda desenha regularmente para a New Yorker, um relacionamento relativamente novo que começou em
1980. Em um cartum recente para a revista, durante um jantar, um cachorro
grande, com suas garras na toalha da mesa, arreganha os dentes e olha
ameaçadoramente para um convidado. "Na verdade, ele não está pedindo
comida", o anfitrião previne seu visivelmente consternado convidado. As pessoas
de Wilson são volumosas e disformes sob suas roupas formais folgadas. O clima é
moderadamente sinistro. É como o segundo ato de uma peça, cujo resto você terá
que imaginar por si mesmo. A única coisa em que você pode confiar é que o jantar
continuará.
RICHARD GEHR:O que provocou seu interesse por cartuns?
GAHAN WILSON: Quando eu tinha oito ou nove anos, estava explorando a
seção de livros de uma loja de artigos usados e vi um conjunto de volumes encadernados da Punch. Comprei um dos volumes por quinze centavos e levei para
casa. Depois de implorar ao meu pai, ele carinhosamente me levou de volta ao
local e comprou todos os volumes, abençoado seja o seu coração. Não sei dizer o
quanto isso foi importante.
GEHR: Como assim?
WILSON: Havia pessoas fantásticas naquela época. Tinha Honoré Daumier,
George Cruikshank e todo tipo de pintores incríveis, que também faziam cartuns.
Alguns deles eram maravilhosamente políticos. Eles faziam o desenho com uma
legenda embaixo, que não era necessariamente uma piada. Eventualmente tiveram a
ideia da frase de efeito e virou mais do que uma ilustração. A forma estava
estabelecida e podia funcionar com ou sem legenda, dependendo do tipo de piada
que você estava criando. Mais tarde, percebi que esses foram os artistas que me
ensinaram a hachurar. Comecei a pensar: "Que diabos, já que é para fazer
um desenho, vamos fazer algo realmente interessante."
GEHR: Foram os primeiros cartuns que você se lembra de ter visto?
WILSON: Eu também gostava de outras coisas. Gostava da New Yorker, e os jornais tinham cartuns.
GEHR: Onde você nasceu?
WILSON: Eu nasci em Evanston, Illinois, em 18 de outubro de 1930.
Charles Jaffe fez um filme legal sobre mim chamado Born Dead, Still Weird, e eu realmente nasci morto, o que é uma
história bem extraordinária. Eu nasci azul e sem respirar, então eles me
colocaram na pia. Felizmente para mim, o médico da família estava no local. Ele
estava olhando a sala de cirurgia por uma janelinha, entrou rapidamente e me
agarrou. Usou água quente e fria e tapa, tapa, tapa. Me fez tossir e vomitar e
respirar e pronto: eu estava vivo. Não sei se alguém no hospital já se
desculpou por isso. "Oh, caramba, perdão..." A mesma coisa aconteceu
com John Steinbeck. Eu poderia ter passado um tempo na vida após a morte antes
de nascer.
GEHR: Fale sobre sua família.
WILSON: O nome do meu pai era Allen Barnum Wilson. Tenho muito orgulho
de P. T. Barnum ser meu tio-avô, embora ele já tivesse morrido há muito tempo
quando eu nasci. É um personagem sensacional. Quanto mais leio sobre ele, mais
admirado fico. Ele era um showman
brilhante, ainda maior do que sua lenda, e muito à frente de seu tempo. Ele criou
a publicidade moderna e mudou o mundo do show
business com muita habilidade. Hugh Hefner fez a mesma coisa. Batalhou, movimentando-se
discreta e espertamente com os clubes Playboy,
que eram um território de fantasia seguro. Você poderia ir lá e nada acontecer,
mas teria uma espécie de romance com garotas bonitas. Este é um país fora do
comum por causa dos dois.
GEHR: Onde seu pai trabalhava?
WILSON: Ele era um personagem interessante. Trabalhava para a Acme Steel Company. Antes disso,
trabalhou em uma loja de departamentos, a Carson
Pirie Scott, que era a outra grande loja de departamentos de Chicago, além
da Marshall Field's. Ele e minha mãe
trabalharam lá. Minha mãe estava muito à frente de seu tempo.
GEHR: Como era ela?
WILSON: Seu nome era Marion Gahan. Meu nome original é Allen Gahan Wilson.
Ela queria ser artista e foi para o Instituto de Arte de Chicago. Foi criada em
Elgin, Illinois. A família Gahan era toda irlandesa. Elgin era uma cidade muito
irlandesa e o pai dela — meu avô, Frank Gahan, que, lamento, morreu antes de eu
chegar, porque eu adoraria tê-lo conhecido — era o chefe de polícia de Elgin.
Ele era extraordinariamente corajoso e eficaz em suas operações. Durante esse
período, os gângsteres de Chicago se espalhavam e tomavam conta dessas pequenas
cidades. Se os tipos Capone tivessem problemas, eles sempre podiam se refugiar nelas,
onde basicamente comandavam o lugar. Eles tentaram em Elgin, mas não contavam
com Frank "The Tiger"
Gahan. Ele sabia exatamente o que estava acontecendo quando os gângsteres
chegaram, e começou uma campanha muito eficiente contra eles. Eles chegaram em
números maiores do que o normal e começaram a planejar o que fazer com Elgin. Até
informantes revelarem a Frank que os gângsteres estavam se reunindo em um
prédio de apartamentos. Frank e seus homens cruzaram um beco e invadiram a
reunião. Foi o fim da tentativa de, como eles diziam, "foder com Elgin".
Ele simplesmente os pegou de surpresa.
GEHR: Você descreveu sua infância como "turbulenta".
WILSON: Foi um pouco difícil. Meu pai era, indiscutivelmente, um
alcoólatra, e eu sou um alcoólatra em recuperação. Mas, voltando para minha mãe
e meu pai trabalhando na Carson Pirie
Scott, a coisa da arte não deu certo para ela. Ela estava muito determinada
e concentrada em ser uma artista, mas teve um tipo de colapso nervoso
devastador. Não sei o que foi, mas estragou tudo. Era um assunto sempre muito
secreto, misterioso, e não comentado. Mas o que ela fez foi bastante heroico. Ela era uma dessas mulheres que estavam muito à frente de seus pares. Então
conseguiu um emprego no departamento de publicidade da loja, foi subindo na
carreira e se tornou uma figura muito importante lá. Meu pai
era supervisor, uma dessas pessoas que não existem mais em lojas de
departamento. Ele andava e dizia: "Posso ajudar, madame?" Estavam sempre
bem-vestidos, e ele era alto e tinha presença. Também tinha um ótimo olho para
arte, e, naquela época, as lojas de departamento vendiam pinturas emolduradas
em uma espécie de galeria de arte. Meu pai achava as coisas da Carson Pirie Scott um lixo." Mas
ele conhecia alguns artistas de verdade, como Winslow Homer, então assumiu a
galeria como uma coisa paralela, trouxe alguns caras respeitados e a
transformou em uma galeria importante. Foi um grande negócio. Ralph Norton,
dono da Acme Steel, era um
colecionador de arte, e, um dia, passou por lá, e ficou muito impressionado com
o que viu. Ficou bastante impressionado com meu pai e se tornaram amigos.
Norton viu que meu pai era um cara inteligente e o colocou no departamento de
desenvolvimento da Acme Steel. E
minha mãe e meu pai se casaram.
GEHR: O que seu pai fazia na Acme
Steel?
WILSON: Ele era responsável pelo desenvolvimento de novos produtos. Um
dos principais produtos deles eram as tiras de aço. Lembro-me dele nos levando à
fábrica, nos arredores de Chicago. Eles transformavam barras de aço em algo
incandescente que saía como grandes placas. Então, as cortavam em placas
menores que acabavam em tiras de aço, usadas para amarrar pacotes e todo tipo
de coisa. Meu pai desenvolveu máquinas que podiam fazer essas coisas. Lembro-me
de ficar absolutamente chocado com as condições de trabalho na fábrica. Era
horrível. Grandes placas de aço eram arremessadas em esteiras rolantes até pararem
de repente com um barulho muito alto. Então os caras levantavam as placas e as
içavam para um vagão. O que acontecia era que eles ficavam surdos, todos eles.
Eu não conseguia acreditar. E os caras caíam em poços de aço borbulhante e
desapareciam completamente.
Provavelmente a coisa mais brilhante que meu pai desenvolveu foram as persianas
de aço. Não havia uma casa no subúrbio ou uma suíte executiva que não tivesse
persianas de aço. Ele descobriu uma maneira muito simples de manter a
integridade das tiras de aço, para que você pudesse dobrá-las e elas voltassem
ao formato original. Ele fez um monte de outras coisas também. Ele era
simplesmente extraordinário.
GEHR: E, ainda assim, as bebedeiras dele tornavam as coisas mais feias
para você e sua mãe.
WILSON: Sim, havia coisas deprimentes acontecendo. Quando eu estava no
ensino médio, tínhamos um apartamento muito bom no lado norte de Chicago. Uma
vez, no meio da noite, houve uma confusão no corredor, e lá estava meu pai, bêbado.
Ele tinha ido ao iate clube. Tinha um barco e amava velejar, mas também havia
muita bebida e muitas outras coisas. Naquela noite, ele bateu em um táxi no
caminho para casa, e um desses policiais de Chicago o rebocou. Meu pai me disse
para ligar para um advogado na empresa siderúrgica. Então eu liguei, descrevi a
situação, e ele chegou em meia hora. Enquanto esperávamos pelo advogado, um
policial me perguntou: "Seu pai é um cara importante?" E eu disse:
"Sim, ele é um cara importante." E lá fomos nós para a delegacia,
onde vi o taxista. Ele estava bem, e parecia bem arrogante quando viu o bêbado
entrar. E ficou ainda mais feliz ao ver o cara preso. Mas, então, tudo mudou
para ele, e foi uma coisa muito deprimente de se ver. O taxista pensou que tudo
estava indo a favor dele, mas de repente percebeu que estava fodido. Foi
nojento. Fiquei horrorizado, foi simplesmente horrível. E Chicago ainda é
assim.
GEHR: Quando você percebeu que precisava parar de beber?
WILSON: Por um tempo, foi administrável, mas começou a escorregar para além
do administrável, e a coisa toda se tornou realmente medonha. Isso foi décadas
atrás. Eu estava mais ou menos controlando. Só que estava fazendo exatamente o
que meu pai fazia, que era ficar bêbado toda maldita noite, praticamente.
GEHR: Você tinha trinta e poucos anos?
WILSON: Sim, por aí. Não me lembro da época exata. Não consigo descrever
como foi deprimente. Graças a Deus, nunca me envolvi com drogas. Eu tinha experimentado
um pouco de cocaína e não gostei. Fumei maconha, da qual não gostei nem um
pouco, exceto por uma vez. Nunca tomei LSD e coisas do tipo. Como nas peças de
O'Neill, você entra nessa coisa em que a angústia insuportável é total, e é
simplesmente medonho. Não consigo descrever. Tudo é desesperador, nada bom, um abismo
sombrio.
GEHR: Mas você continuou produtivo.
WILSON: Sim, eu estava produzindo. É o que acontece nas histórias de
artistas clássicos. A arte é algo tão poderoso que chega a ser assustador.
GEHR: Como o alcoolismo afetou seu trabalho, e o que você fez a
respeito?
WILSON: Começou a estragar tudo. Eu estava em apuros terríveis, em total
desespero. Então Nancy, abençoada seja, fez uma pesquisa. Ela é uma pessoa
muito perspicaz e inteligente, e fez um bom trabalho verificando clínicas de
desintoxicação. Fizemos uma pequena lista e um pequeno passeio por elas.
Acabamos em um lugar chamado Silver Hills. Foi uma experiência muito tocante, de
verdade. Você sabe o que essas outras pessoas estão passando e elas sabem o que
você está passando. Mais ninguém sabe; não tem como saber. É como um bando de
pessoas em um bote salva-vidas ou qualquer clichê que você queira usar. Eu amo
essas pessoas. Mantive contato com muitas delas. Funcionou para algumas, para
outras, não. O lance intensivo dos Alcoólicos Anônimos é exatamente a mesma coisa:
você tem pessoas que já passaram pela mesma situação que você. É assim que se
ajudam. É muito difícil, mas funcionou para mim, bendito seja. Nunca mais
fiquei, nem um pouco, tentado a beber, embora sinta falta do prazeroso sabor do
vinho. Era delicioso.
GEHR: Você mencionou uma epifania com maconha.
WILSON: Foi absolutamente fascinante. Eu tinha fumado maconha, mas
não gostei nem um pouco do efeito. Particularmente, não gostei da coisa em que
o tempo desacelera e se arrasta incrivelmente. Você estaria nessa festa em
câmera lenta e perceberia, oh, preciso ir ao banheiro. E, duas horas mais
tarde, você está no banheiro. Você fica ali urinando por meia hora, e então
volta. E Deus sabe lá quanto tempo isso levou. Mas uma vez, estávamos no jantar
de um artista muito rico. Um pequeno grupo de pessoas estava em uma mesa maravilhosa.
Depois do nosso requintado jantar, os criados apareceram com bandejas contendo
cigarrinhos. Eu não sei o que havia naquelas malditas coisas, mas, a princípio,
supostamente era maconha.
GEHR: Você desconfia que havia alguma outra coisa no baseado.
WILSON: Suspeito que sim. Sempre gostei muito de Paul Cézanne, e ainda
gosto muito. Lembro-me de olhar para suas pinturas enquanto estava no Instituto
de Arte de Chicago, esboçando sem parar e tentando entender como ele
magicamente transformava três dimensões em superfícies planas. Fiz pequenos
progressos aqui e ali, mas nunca cheguei onde queria. Mas depois de fumar, olhei para esta mesa magnífica cheia de cristais, porcelanas adoráveis, garrafas e tudo mais, e de repente entendi. E
ainda entendo. Estou fazendo isso agora. Posso olhar para objetos, e enxergá-los
e desenhá-los
como Cézanne fazia. É um
milagre que ficou comigo em sua plenitude. Muitas vezes, você pode ver toques
de Cézanne em meus cartuns, objetos tridimensionais e planos. Isso me foi proporcionado
por seja o que for que eu tenha fumado, e por isso sou muito grato.
GEHR: Qual foi sua experiência no Instituto de Arte?
WILSON: Foi bastante marcante naquele momento porque os professores eram
artistas famosos que você normalmente não tem como professores. Eram pintores,
desenhistas e escultores incrivelmente bons. Alguns deles fugiram de Hitler.
Ainda é uma escola excelente, e eu voltei lá algumas vezes para um bate-papo.
Hoje a escola fica em um prédio atrás do Museu do Instituto de Arte de Chicago.
Mas quando eu fui lá, a escola ficava escondida dentro do mesmo prédio do
museu. Então, enquanto você caminhava da sua aula de gravura para a sua aula de
modelo vivo, passava por galerias contendo El Greco, Cézanne, Picasso e tudo mais.
Isso realmente me transformou e me inspirou.
GEHR: Você começou a trabalhar para a Playboy em 1957. O que passou pela sua cabeça enquanto você
folheava a caixa de três volumes da Fantagraphics
com todos os seus desenhos para a revista durante meio século?
WILSON: O que realmente me surpreendeu foram as cores. Hefner é um
editor brilhante e muito exigente, então sei que ele reproduziu essas coisas da
melhor maneira possível. Na revista, elas estavam em papel translúcido. Mas, no
papel fosco dos livros, as cores parecem gritantemente brilhantes, então fiquei
em êxtase.
GEHR: O que influenciou seu senso cromático?
WILSON: Goya é uma influência óbvia. Mas o que realmente me ajudou foram
aqueles adoráveis filmes
de terror da Hammer. Eles abriram
meus olhos no que diz respeito à atmosfera, brilhante e assustadora. Mas é
principalmente por causa de todas as grandes pinturas que vi no Instituto de
Arte.
GEHR: A New Yorker tem pedido
para você fazer desenhos coloridos
WILSON: Sim, mas você nunca sabe com antecedência. Eles compram, e pedem
para você fazer em cores. E não pagam a mais por isso, o que me deixa um pouco
irritado.
GEHR: Quando você vendeu seu primeiro cartum
para a New Yorker, em 1980, Lee
Lorenz pediu algo substancialmente diferente do que você fazia na Playboy?
WILSON: Não. Se você aparecesse com algo que
os provocasse, eles aceitariam. Se você não fizesse isso, eles não aceitariam.
GEHR: Você já pensou em usar piadas de outras
pessoas?
WILSON: Não. Eu decidi muito cedo, antes
mesmo de começar a vender, que não faria isso. Fiquei arrasado quando descobri
que Addams, Arnold Roth e todos esses caras usavam ideias de outras pessoas. Fiquei
arrasado. Rapaz, foi um choque.

GEHR: A revista MAD começou na mesma época que sua carreira de cartunista. Qual era
sua opinião sobre ela quando foi lançada em 1952?
WILSON: Eu e Harvey Kurtzman ficamos bons
amigos mais tarde, mas havia uma presunção nela que não me agradava. O humor
não era ousado o suficiente para mim. Tinha algumas coisinhas boas de pastelão.
A revista com a qual me identifiquei imediatamente foi a National Lampoon. Era uma notável reunião de filhos da puta
brilhantes. Seu espírito era insidioso. Era como fazer parte de uma tripulação de
piratas. Uma espécie de seita religiosa. Estávamos lá para provar aos filhos da mãe que nós podíamos e,
por Deus, provamos, muito efetivamente. Eu só queria que algo assim
acontecesse novamente. Mas não há nenhum sinal disso, embora as coisas estejam
muito piores agora.
GEHR: Como você acabou desenhando Nuts para a Lampoon?
WILSON: Eles me disseram que colocariam uma
história em quadrinhos no final da revista e queriam que eu a fizesse no
formato de tira. "Faça o mais horrível que puder", eles disseram.
"Pode apostar!" Então eu brinquei com monstros, o que era
interessante, mas não me atiçava. Talvez, se eu persistisse, inventaria algo,
mas eu já fazia sucesso com quadrinhos de monstros. O que é realmente horrível?,
eu me perguntava. O que é realmente assustador? Oh, merda! Uma criança é
assustadora! E naquele instante eu soube que faria uma tira realista sobre o
que os pequenos filhos da mãe passam. Foi assim.
GEHR: Você intitulou sua tira da National Lampoon de Nuts em resposta a Peanuts,
certo?
WILSON: Sim. Eu sempre respeitei o que
Charles Schulz fazia, que era ensino religioso. Suas tiras eram pequenas
fábulas morais. É encantador e estiloso, mas não tem nada a ver com crianças, só
isso. Mas ele fazia exatamente o que se propôs a fazer, e é algo
extraordinário. O que me irritava é que ele fingia que era sobre crianças, e
não era.
GEHR: Como sua visão da infância difere da de
Schultz?
WILSON: A infância é um mundo aterrorizante.
As pequenas criaturas são cheias de vida e muito sensíveis. Estão morrendo de
medo, mas também ficam maravilhadas quando algo dá certo. As crianças são
intensamente vivas e complicadas. O que me deixou bravo com Schulz é que ele
sentimentalizava a ideia de infância, o que realmente é muito prejudicial.
GEHR: Como você criou o visual claustrofóbico
para Nuts?
WILSON: Tudo é desenhado propositalmente em
escala. É como se a criança estivesse sendo esmagada e confinada numa caixa. A
moldura é do tamanho da criança, e você só vê partes de gente grande e do mundo
que a cerca. Porque é tudo o que uma criança apreende: projeções gigantes de
sua vizinhança próxima e tudo o mais distante. As portas são grandes e difíceis
de abrir, e assim por diante. Mas elas lutam para passar; são incríveis. Às
vezes, você vê um garoto atravessando uma rua movimentada e pensa: "Muito
bom, garoto!"
GEHR: Falando em ensino religioso, você foi
criado em um lar religioso?
WILSON: Fui criado ateu, porque minha mãe se
rebelou contra os grupos de católicos irlandeses. E a família do meu pai era
muito grande dentro do movimento da Lei Seca. William Jennings Bryan era outro
parente. Aparecia em casa, no café da manhã, e falava sobre a Lei Seca,
enquanto comia tudo o que havia pra comer. Meu pai caiu fora de tudo isso e entrou
no lance dos Loucos Anos Trinta. Acho que foi isso que o fez começar a beber.
Sou muito grato por ter sido criado dessa forma. Fui poupado de muita
preocupação que envolve ser religioso quando criança. Deve ser muito, muito
difícil.
GEHR: Seu primeiro cartum para a New Yorker retrata um velho monge
budista dizendo a um jovem adepto: "Nada acontece depois. É isso."
Você tem algum interesse particular no budismo?
WILSON: Sim, me envolvi com o budismo quando os
primeiros livros de D. T. Suzuki foram lançados, então eu estava bem à frente
dos outros. Eu fazia meditação, em que você se senta e faz toda aquela coisa. Sou
um budista meia-boca. A reencarnação me parece absolutamente ridícula. Supostamente,
faz você respeitar mais os animais por serem alguém. O que é realmente
maravilhoso sobre esquilos é que um esquilo é um esquilo. Então, isso meio que
me torna um mau budista. Mas eu amo a introspecção. O pessoal Zen é aquele do
qual eu mais me aproximo. E isso inspira uma arte linda. É humano. Um pescador
parece um pescador e os peixes parecem peixes e a água parece água. É a
mensagem sobre estar vivo e faz você pensar: "Graças a Deus, que golpe de
sorte". Apenas seja, entende?
Gehr: Quais são as ferramentas do seu ofício?
WILSON: Eu uso canetas Croquil. Gosto da linha fina. Para as cores, brinco com todos os
tipos de recurso. Às vezes, começo com aquarela e depois borrifo um fixador.
Então posso fazer uma lavagem ou esfregar o celuloide, ou o que for, para
enriquecer a profundidade das cores. A iluminação depende da cena. É como um
filme. Você desenha a coisa básica e então faz a iluminação para ter certeza de
que ela realça o que se imaginou. E se você usar o spray fixador, pode limpá-lo e começar de novo sem ter que começar
do zero. Em poucas palavras, é basicamente isso.
GEHR: Que tipo de papel você gosta?
WILSON: Apenas um bom papel. Começo com o ledger bond, um papel legal que absorve
bem a tinta. Mas experimento diferentes tipos. Uso um papel aquarela para
acabamentos, especialmente para as coisas da Playboy.
GEHR: Qual é sua programação semanal?
WILSON: Basicamente, depende de quanto
dinheiro eu preciso. Eu faço uma pequena pausa de vez em quando, apenas ando
por aí. Tenho uma vaga ideia de quem está procurando material, e o que eu fiz
para eles recentemente. Mas não há uma programação fixa. Eu sento para
trabalhar e, quando paro, percebo que todo esse tempo passou. Você está
obviamente lidando com algum tipo de estado místico. Não sei o que é, mas, se
você vê um bom artista trabalhando, você o vê cair nele.
GEHR: Você cai nesse estado facilmente?
WILSON: Às vezes, você cai, e às vezes, não.
Às vezes, simplesmente não dá o clique naquele dia. Não acontece com muita
frequência, mas pode acontecer. Mas geralmente começa com: "Para quem devo
fazer material agora?"
GEHR: Com que frequência você envia trabalhos
para a New Yorker?
WILSON: Procuro entregar toda semana. Envio
de dez a uma dúzia, às vezes mais. E entrego, todo mês, uma quantidade
significativa de trabalhos para a Playboy.
Mas essa quantidade pode variar.
GEHR: A Playboy
garante uma página a cada mês?
WILSON: Tenho uma página inteira em cada
edição, abençoado seja o coração de Hefner. Mas, que eu saiba, não há contrato
algum que o obrigue a aceitar. Às vezes, faço uma página dupla, mas tenho feito
com menos frequência.
GEHR: Acho que a maioria das pessoas não
percebe que Hugh Hefner ainda é o editor de quadrinhos da Playboy.
WILSON: Ele está lá. O que ele faz é escrever,
com lápis vermelho, na parte inferior, "página inteira em cores". E, às
vezes, coloca algum pequeno comentário, mas quase nunca. Mas, ah não, ele é assim.
GEHR: Você já imaginou que Hefner, na velhice,
se transformaria em algo como um cartum de Gahan Wilson?
WILSON: O que você quer dizer?
GEHR: Ele se tornou, quase completamente, uma
outra forma de vida, se é que você me entende.
WILSON: Você quer dizer como o que ele está
fazendo agora, se casando com essa garota? E todos dizendo, "Ho-ho, que
velho sujo." Mas, graças à ciência, ele ainda pode ter relações sexuais
com a garota, e ele é corajoso o suficiente para fazer isso. Ele está provando
que você não apenas pode se divertir em uma fase normal da vida humana como
também pode expandi-la. Imaginei que, se chegasse aos meus sessenta anos,
estaria indo muito bem, especialmente durante meus anos de alcoolismo. E me
lembrei dos velhos que conheci quando era criança. Há um ponto em que você
simplesmente se torna inviável, uma coisa frágil que usa roupas grossas e
desconfortáveis. Você se senta e anda como um velho a partir dos cinquenta
anos. Agora você vê esses velhos filhos da mãe andando por aí de bermuda e
chapéu de caçador africano - e eu os amo por isso. Deus os abençoe! Então é
tudo diferente, e Hefner está nessa. Assim como ele foi bem-sucedido em mudar a
maneira como pensávamos a liberdade sexual, ele agora está demonstrando que ser
velho não é mais o que costumava ser. Ele está dizendo "Olha, o que há de
errado em ser velho e se casar com essa garota?"
GEHR: Como você acha que os cartuns da New Yorker mudaram ao longo das décadas?
WILSON: Eles ficaram um pouco conservadores,
pois costumavam reservar páginas inteiras e ser mais exigentes no que diz
respeito ao talento, tanto em termos de humor quanto de arte. No entanto, foram
bastante gentis na era de ouro. Mas a coisa da arte meio que desapareceu.
GEHR: Felizmente, você marcou uma boa e duradoura
presença naquelas que são, provavelmente, duas das publicações mais longevas.
WILSON: The New Yorker e Playboy. São as únicas que sobraram.
GEHR: A Playboy,
infelizmente, não é nem de longe tão relevante para os fãs de cartuns como
costumava ser.
WILSON: Mas ainda tem cartuns. Na verdade, eu
me dou bem com coisas muito mais ridículas e grotescas na Playboy do que em qualquer outro lugar. Mas esses são os últimos
bastiões do caráter divertido de revista.
GEHR: Você experimentou a ascensão e a queda
do formato.
WILSON: Obviamente, as coisas estão mudando, e
estou aberto a qualquer coisa eletrônica ou o que quer que seja. Vamos ver o
que virá por aí. Revistas como Look e
Collier's não existem mais. Costumava
haver um monte de publicações menores e desconhecidas, como as pulp magazines, onde um cartunista conseguia
sobreviver, mas era um modo de vida muito "marginal". Você ganhava
muito pouco. Isso estava disponível quando comecei, mas não sei como um
cartunista começaria hoje em dia porque esse tipo de coisa não está mais disponível.
GEHR: Por que você acha que essa forma de
arte está desaparecendo? Ainda existem muitas revistas por aí. E o cartum é uma
maneira elegante, inteligente e rápida de transmitir uma ideia. As revistas também
se consagraram como uma porta de entrada para crianças.
WILSON: É uma coisa adorável. Ilumina o
lugar, e eu realmente não sei por que isso aconteceu. Na verdade, junto com os cartuns,
não há mais mercado para contos, romances seriados e poesia. Tudo isso acabou.
Hoje em dia, as revistas apenas se dedicam a um determinado tema, seja notícia,
moda ou o que for. É tudo reportagem.
GEHR: O que acontecerá com as pessoas
criativas e um pouco malucas que vivem do cartum?
WILSON: Quando criança, eu sempre desenhava,
desenhava, desenhava. E todo mundo que conheço, em qualquer tipo de arte visual,
é desenhista. Fui presidente do Cartoonists
Guild, que já não existe há muito tempo, mas era muito influente na época. Conseguimos
implantar algumas melhorias interessantes no que diz respeito às condições de
trabalho dos cartunistas. Então, lá estava eu negociando com as pessoas que administram essas revistas, e era tudo
muito racional, sensato. Na metade da nossa reunião, olhei em volta e percebi que todos estavam
rabiscando. É o que eles fazem. É uma coisa compulsiva, e eu estava fascinado. As revistas costumavam estar por toda parte, e havia muitos e muitos tipos
diferentes de cartuns. Você tinha mais opções em relação aos tipos de cartuns
que eram feitos.
GEHR: De que maneira cartunistas como Peter
Arno, Charles Addams e James Thurber influenciaram você?
WILSON: Não tanto em termos de estilo, mas em
sua individualidade. Eles são únicos, e é isso que os torna interessantes. Eles
fazem você pensar: "Meu Deus, eu não percebi isso". E não há ninguém
como eles. Quer dizer, Picasso não seria Picasso sem Cézanne, mas Picasso era
Picasso. É algo muito mágico.
GEHR: O que mais o impressionou em Addams, a
quem você às vezes é comparado?
WILSON: Gosto do respeito dele pela
atmosfera, e como ele preparava seu cenário e criava um mundo inteiro.
GEHR: Você tem parcerias com dezenas de
escritores, incluindo Russell Baker(The
Upside-Down Man) e Quentin Crisp (Chog:
A Gothic Fable). E então Buddy Hackett com The
Truth About Golf and Other Lies.
WILSON: O livro de Hackett foi um show. Eu
ilustrei as piadas, só isso. A coisa mais difícil que fiz até agora foi um
curta de animação chamado Gahan Wilson's
Diner, lançado em 1992, com Buffy the
Vampire Slayer. Era de muito mau gosto, mas muito bom. Eles me deixaram
fazer a coisa toda. Eles pegaram o meu storyboard
e o seguiram meticulosamente. Fui assistir em um cinema enorme, e, no final do
curta, o cinema inteiro explodiu em aplausos. Pensei: "Puta merda!" O
genial Steven Spielberg disse que era o melhor curta de animação que ele já
tinha visto. Também me envolvi em coisas com produtores que as
"melhoraram". Eles as estragaram, todas elas. Mas ainda estou no
jogo. Estou pronto e disposto a trabalhar com qualquer produtor que me deixar
fazer isso.
GEHR: Muitos dos seus cartuns zombam da
loucura dos políticos. Como você sobreviveu aos anos Bush?
WILSON: Ainda estou surpreso com os
políticos, surpreso com a total e completa incompetência. De certa forma, Bush
é patético porque ele está fora da realidade. É tão estúpido. A situação atual
também é inacreditavelmente grotesca. Não estou muito otimista. Espero que tudo
dê certo, mas Deus...
GEHR: Você já foi politicamente ativo?
WILSON: Fiz coisas boas quando era presidente
do Cartoonists Guild. Havia algumas cagadas
acontecendo às escondidas, eu fui atrás e as limpei.
GEHR: Seus cartuns geralmente envolvem
ciência, de uma forma que antecipou Gary Larson.
GEHR: Há muitos alienígenas em seu trabalho.
WILSON: Acho que Stephen Hawking está certo.
"Não seja precipitado ao anunciar que povoamos este planeta", ele
diz. "Lembre-se dos nativos." Podemos estar sendo cuidadosamente observados,
mesmo enquanto conversamos. E Deus sabe em que estamos nos transformando, mas é
óbvio que vamos nos transformar em algo espetacular. Mas aquelas fotos do Hubble
mudaram tudo para mim.
Nota do autor: Agradecimentos a Hans Anderson, Oren
Ashkenazi, Ian Burns e Kara Krewer pela assistência na transcrição.






















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