sábado, 22 de fevereiro de 2025

O Santo Negro e a Senhora Cantora


Joni Mitchell e Charles Mingus
(Foto de Sue Mingus, 1978)



Um trecho de "Reckless Daughter: A Portrait of Joni Mitchell", livro de David Yaffe publicado em 17 de outubro de 2017

    No derradeiro e terrível ano de 1978, a vida de Charles Mingus esvaía-se a cada dia, e ele precisava de algo para se manifestar — talvez encontrar um novo público para seus discos. Droga, tinha 55 anos e não estava pronto para desistir. O palco do concerto estava aberto para ele! Ele estava apenas se preparando para renascer. Sue Graham Mingus, sua incansável esposa — que editou a descolada revista Changes e sabia uma coisa ou duas sobre trabalhar com a imprensa — estava procurando freneticamente por um projeto final. Ela escreveu algumas letras para as músicas dele, mas não eram boas o suficiente. A Filarmônica estava agendada. Ela precisava de algo grande imediatamente. O produtor Daniele Senatore mostrou a Sue e Charles a capa do álbum Don Juan’s Reckless Daughter e tocou sua música para eles. Em relação ao jazz, Joni Mitchell, claramente, era mais do que uma curiosa, e até usava a capa de seu disco para explorar seu homem negro interior (e exterior). Poderia ser ela a mulher que daria a Charles um funeral à altura? Poderia ser uma maneira de Joni obter alguma educação musical de um verdadeiro mestre? Enviaram sinais de fumaça na direção de Joni, queriam dar a impressão de que Mingus, que, na verdade, não conhecia seu trabalho, era fã de "Paprika Plains", e admirava a duradoura parceria dela com o baixista Jaco Pastorius e outros músicos que não estavam exatamente em seu radar. Isso dificilmente importava. Joni não foi apenas convocada, ela foi importunada, porém, pelo grande homem em pessoa, uma tática esperta da parte de Sue.

Sue e Charles Mingus

Pouco depois de descobrir que estava morrendo de ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica), Mingus chamou Senatore. "Quero falar com você sobre Deus", ele disse. Daniele disse: "Você pegou o cara errado", e sugeriu a ele a leitura de Four Quartets, de T. S. Eliot, uma maneira sublime e refinada de falar sobre Deus. É um poema devocional, mas também apocalíptico, publicado em 1943, dois anos antes do fim da Segunda Guerra Mundial. Embora Eliot tenha vivido até 1965, Four Quartets teria sido sua última grande obra poética. Mingus, cuja inspiração estava desaparecendo rapidamente, poderia assimilar seu misto de pastoral, louvor e ritual. Ele sentiu que poderia musicá-lo como uma grande despedida, o epitáfio que ele batalhou para escrever por décadas. Mas tinha de ser rápido e ganhar um pouco de dinheiro enquanto estivesse envolvido nisso.

Joni Mitchell
(Foto de Norman Seeff, 1979)

Joni não se sentiu nem um pouco inspirada ao ler Four Quartets. “Certamente não era a literatura apropriada para um homem que acabava de descobrir que ia morrer”, Joni me disse, embora parecesse muito apropriado. “Mingus não conseguiu tirar nada de revigorante do poema. Muita coisa ele não entendia. Havia excesso de pseudoprofundidade, de jogos de palavras complicados, mas não tinha substância. Sempre achei que poesia é como triturar girassóis com as unhas para extrair o óleo. Na maioria dos casos, é muito trabalho para pouca recompensa. Mesmo entre as obras mais reverenciadas. Não vi que tivesse qualquer tipo de grande pertinência com a situação de Charles. Mas, ainda assim, o primeiro projeto que ele me ofereceu foi que contrataria um inglês com sotaque de Oxford ou Eton, um sotaque da classe alta, para ler as passagens de Four Quartets. Então eu o traduziria para o que ele chamava de "vernáculo", para dar um sentido, se houvesse algum para se extrair daquilo. Para que você pudesse tirar algo; para que você não tivesse que quebrar essa pepita com suas unhas, certo? Ele comparou isso às duplas de pregadores. Aparentemente, em algumas igrejas, você tem um cara lendo o texto "thee, thou", e outro colocando-o na linguagem de rua ou bebop. E ele queria que eu tocasse violão. Ele era um homem acústico. Era um folkie no jazz. Detestava o jazz elétrico."

Charles Mingus era um homem acústico, detestava o jazz elétrico

Joni não sabia quase nada sobre Mingus — incluindo a capacidade de ele compreender T. S. Eliot. Na verdade, diferentemente de Joni, Mingus amava poesia. Sua segunda esposa, Celia Zaentz, lembrava-se dele cortejando-a com seus próprios poemas. Ele gravou parte de um álbum com Langston Hughes e recrutou Allen Ginsberg para conduzir a improvisada cerimônia de seu casamento com Sue Graham. Apresentou-se com o poeta proto-Beat Kenneth Patchen e, em 1972, escreveu um quarteto de cordas não convencional (duas violas e dois violoncelos) para acompanhar "The Clown", de Frank O'Hara, o grande poeta da New York School. Um manuscrito da Charles Mingus Collection, na Biblioteca do Congresso, revela a música inspirada por "A Sane Revolution", poema de D. H. Lawrence. E assim por diante.

O baterista John Guerin, antigo namorado de Joni, disse que ela seria louca se não aproveitasse essa oportunidade. O que mais o irritava é o fato de isso ter caído no colo de alguém que sabia tão pouco sobre Mingus. Ela absolutamente tinha que fazer, ele dizia. A maioria dos músicos que ele conhecia mataria para ter uma oportunidade como essa. Era melhor ela compreender o quanto antes.

Elliot Roberts e David Geffen, que guiaram a carreira dela com tanta liberdade e tanto cuidado, pensaram que finalmente era hora de intervir. Eles imploraram para que ela não assumisse essa parceria. Joni, você vai perder sua audiência! Joni, você será banida das rádios! E nunca vai se recuperar!

O Encontro dos Espíritos

Charles chamava Joni de "aquela cantora folk de bunda magra"
(Foto de Sue Mingus, 1978)
 
Quando Joni se encontrou com Mingus pela primeira vez, ele estava em uma cadeira de rodas, de frente para o Rio Hudson. E ainda não havia perdido sua capacidade de provocar. "Naquela música, 'Paprika Plains'", ele disse a ela, "as cordas estão desafinadas." Mingus estava testando Joni, mas ela o adorou imediatamente e, claro, concordou com ele sobre as cordas em "Paprika Plains". Ela desejava que outra pessoa tivesse notado. A doença havia deixado Mingus vulnerável. Ele era doce, mas ela também viu o diabo nele. Joni se orgulha de seu detector de conversa fiada, e sabia que estava diante da coisa real.

Quando Joni leu Four Quartets, ela disse que preferia musicar a Bíblia. O poema não era tão formidável — ela achava que ele não tinha substância suficiente. E lembrou-se de uma citação de Nietzsche que gostava de repetir: "Poetas turvam a água para fazê-la parecer profunda." De qualquer forma, ela não estava lá para compor as letras das músicas?

Foi melhor Joni não apreciar Eliot; seria ela, não Eliot, que iria interpretar Mingus. Ele percebeu isso rapidamente. Não demorou muito para que revelasse a ela que havia escrito sete peças, intituladas "Joni I", "Joni II", até "Joni VII". Mingus compôs as melodias cantando debilmente em um gravador; elas foram então transcritas em acordes pelo arranjador Sy Johnson. As melodias soam tão desarticuladas que o fato de Joni ter conseguido encontrar palavras para três delas é um testemunho de seu talento. Afinal, não é como se ela tivesse experiência em fazer coisas do tipo. Nas notas do encarte do álbum, ela comparou a um mergulho em águas profundas a transformação dessas melodias em músicas com letras, e não foi um exagero. Ser acompanhada pelos riffs de Jaco e do saxofonista Wayne Shorter exigiu esforço; esse projeto foi o maior desafio musical que ela já enfrentou, ainda maior que "Paprika Plains". Ela foi encarregada de pegar as melodias finais de Mingus — com acordes muito mais estranhos e obscuros do que qualquer coisa que Joni fora acusada de tocar — e não apenas encontrar letras para elas, mas palavras que expressassem os últimos desejos desse gênio maior que a vida.

“Sobre o que é a primeira melodia?” Joni perguntou sobre “Joni I.” Ela não sabia ler música, então estava procurando por um tema antes de ter a chance de ouvi-la.

“Algumas coisas que vou perder”, ele disse.


Joni viu Mingus diante do Rio Hudson — olhando ao norte, para a imensidão das Palisades de New Jersey, e, à frente, para os arranha-céus em construção que ele sabia que nunca veria concluídos — pensando em todos os estilos de música que não exploraria, em todos os músicos que não contrataria e demitiria, em todos os amigos dos quais sentiria falta e, claro, todas as belas amantes que nunca teria a chance de beijar. Mingus estava entrando em um espaço liminar entre a vida e a morte. A doença faria Mingus chorar por si enquanto assistia aos outros chorarem por ele.

O apartamento no 44º andar do Manhattan Plaza tinha uma vista espetacular, mas ele se sentia como um refém. A aventura estava chegando ao fim. Joni assumiu sua voz, sua raiva contra o apagar das luzes. Ele sabia que a voz dela estaria narrando sua música, sua vida. A Loira Sabichona de alguma forma se tornaria o espírito de Mingus e levaria suas últimas melodias para o mundo. Ele a chamava de "caipira" e "aquela cantora folk de bunda magra". Ela o adorava. Ele confiava nela. Depois que escreveu algumas letras, ela ligou para ele e perguntou: "Como vai você?"

"Oh, estou morrendo", ele disse.


Joni nunca tinha colocado voz ou letras na música de outra pessoa antes, mas essa era uma personagem extraordinária em uma circunstância terrível. A ideia da perda era o suficiente para preencher uma música. Sonny Rollins estava fazendo visitas frequentes, assim como outros músicos que moravam no mesmo prédio, como Dexter Gordon e Jack Walrath, que tocou trompete em alguns das últimas bandas de Mingus. Ornette Coleman passou por lá, apesar do elogio sarcástico de que ele estava "tocando errado direito” em 1959. Em abril de 1978, até Jimmy Knepper, que levou um soco e ficou gravemente ferido no palco por "fingir sua emoção", ligou para Mingus em seu último aniversário. Rivalidades e alianças estavam todas se fundindo nessa turnê de despedida.

A Música Diz a Ela

Joni vagou por Manhattan em busca de inspiração. No Harlem, recebeu um sinal

Além das sete melodias, Mingus instruiu que Joni escrevesse letras para duas melodias de Mingus Ah Um, seu álbum clássico de 1959. Uma delas, a balada "Goodbye Pork Pie Hat", talvez a composição que ele mais amava, era um réquiem para Lester Young, o grande saxofonista tenor, cujo estilo cool seria, para desgosto de Mingus, imitado por uma escola inteira conhecida como "Cool Jazz". Embora Rahsaan Roland Kirk já tivesse escrito letras para a música (em The Return of the 5000 Lb. Man, seu álbum de 1976), Mingus acreditava que Joni poderia escrever melhor. Ele também disse a ela para pegar o clássico solo de sax de John Handy e compor um vocalise a partir dele. Joni inicialmente hesitou.

"Por que você não chama Jon Hendricks?", ela perguntou. "Ele é o melhor letrista de bebop."

"Chamei.", disse Mingus. “Quer ouvir?"

Mingus tocou para Joni. “O que você acha?”, ele perguntou.

“Oh, meu Deus, é piegas”, disse Joni.

“Não é? O pobre negro isso, o pobre negro aquilo.”


Agora Joni tinha que superar um de seus poucos heróis adolescentes. E então vagou por Manhattan cantando o solo de Handy para si mesma, procurando inspiração em todos os lugares. Andando pelo Harlem, parece que havia recebido um sinal. A música agora tinha uma estrutura. Ela só precisava saber o que fazer com ela. Mingus conversou com Joni sobre Lester Young, que inspirou a música. "Esse cara era o cara mais doce", ele disse. Mingus estava lamentando um grande que se foi, enquanto ele próprio era um grande que estava prestes a ir também. Joni queria que a letra contivesse os dois. O primeiro verso foi fácil, mas o resto ainda era um mistério. "DEPRESSA, POR FAVOR, ESTÁ NA HORA", escreveu T. S. Eliot em "The Waste Land". Joni estava namorando o percussionista Don Alias, e eles decidiram descer do metrô uma parada antes. Saímos perto de um bueiro com vapor subindo ao nosso redor, e cerca de dois quarteirões à nossa frente havia um grupo de caras negros — cafetões, pela aparência de seus chapéus – circulava por ali, meio que inclinados numa roda”, Joni lembra. “Havia um barzinho com uma cobertura que ia até o meio-fio. No centro da roda, dois meninos, de 9 anos ou menos, faziam uma dança de movimentos robotizados, uma dança moderna, e um cara, na roda, dá um tapa nos joelhos e diz: 'Arrá! Parece que o sapateado encontrou o seu fim, com certeza!' Então olhamos para a frente, e, no próximo bar, em brilhantes letras vermelhas de neon, está escrito Charlie'sDe repente, tenho essa visão. Olho para aquelas letras vermelhas, olho para esses dois garotos e penso: 'As gerações...' Aqui estão duas crianças crescendo nas ruas — talentosas, provavelmente atraindo uma de suas primeiras plateias, para mim, são como Charlie e Lester. Isso já é mágico o suficiente para mim, mas o mais surpreendente foi quando olhamos para o letreiro acima de tudo o que estava acontecendo. Em grandes letras maiúsculas, estava escrito PORK PIE HAT BAR. Tudo o que eu tinha que fazer era encontrar uma rima, e teria o último verso.”

Ela seguiu as pistas da letra: um bar chamado Charlie's e um clube noturno chamado Pork Pie Hat Bar. Era simplesmente perfeito demais. Como Mingus poderia estar sofrendo um destino tão cruel e Joni encontrar a inspiração tão disponível daquele jeito? Mais tarde, Joni teria seus momentos de luta contra fatalidades, embora nenhuma tão brutal quanto a que Mingus estava suportando. Havia a história de Joni e Mingus, e então havia a história de Mingus e Lester, que inicia a música e, de certa forma, fecha o círculo também.

Capa de Mingus, o álbum

Finalmente, o disco que levaria o nome de Mingus seria um disco de Joni Mitchell. Ela o conheceria, o estudaria, sua personalidade, suas memórias, sua tristeza. Mas, no final, ele seria apenas um de seus temas. E mesmo que ela quisesse que os ouvintes imaginassem Mingus cantando, ela só se sentiria segura com seus próprios músicos tocando os instrumentos elétricos que Mingus abominava. Ele teria apreciado um solo de piano de, digamos, Don Pullen — seu pianista favorito no momento, um mestre da dissonância percussiva e do swing. Por outro lado, não importava quão eloquente fosse Herbie Hancock em um Fender Rhodes, ele não seria um som que o agradasse. Mas qualquer pessoa familiarizada com Joni sabia que ela, de qualquer maneira, não se submeteria às predileções de Mingus. O Fender Rhodes e o baixo fretless teriam que estar lá. E três membros do Weather Report — junto com o líder do Headhunters — seriam sua banda. Não era a música que Mingus aprovasse, mas ele não estaria por perto para reclamar. Então ela foi aos estúdios da A&M, em Los Angeles, e gravou com Hancock, Shorter, Pastorius e o baterista Peter Erskine. Afinal de contas, Mingus havia contratado Joni para escrever seu epitáfio.

O engenheiro de som Henry Lewy, Joni Mitchell,
Jaco PastoriusPeter Erskine Herbie Hancock nos estúdios da A&M

As pessoas se perguntam por que o andamento em Mingus é tão lento. Em parte, por causa da natureza elegíaca do material. Isso certamente não era consistente com a música de Mingus nem tinha a variedade rítmica de Don Juan’s Reckless Daughter. Os andamentos do Weather Report corriam a velocidades alucinantes. Mas o foco, em Mingus, seria a voz, as letras e a melodia. Qualquer coisa muito embalada em improvisações como uma sessão de Mingus poderia tirar o foco das palavras — ou o espaço que Joni exigia para a ousadia de Pastorius e o minimalismo de todos os outros.

Wayne Shorter e Joni Mitchell

Da mesma forma, muitas pessoas no mundo do jazz se perguntavam por que um álbum dedicado (principalmente) à música de Charles Mingus, com a participação de alguns dos maiores astros do improviso jazzístico (mesmo que não fossem do círculo íntimo de Mingus), tinha Herbie Hancock e Wayne Shorter acompanhando Joni com riffs discretos, sem um autêntico solo. O álbum tinha menos de 40 minutos e certamente teria espaço. Mas Erskine explicou que manter os tempos era um desafio, e esticar as músicas simplesmente não seria o ideal. Solos de Herbie, Wayne e Jaco podiam ser ouvidos em muitos discos. Este disco era orientado por uma voz.


Conforme a saúde de Mingus se deteriorava, Joni sabia que ele não viveria para ouvir o álbum finalizado, mas outros ouviriam. Os últimos meses de Mingus foram desperdiçados em uma busca inútil. O saxofonista Gerry Mulligan recomendou que Mingus fosse ao México se tratar com uma curandeira chamada Pachita, e Mingus estava tão desesperado que seguiu a dica. Joni foi junto, numa viagem de 10 dias. Pachita conduziu um ritual que pretendia usar o sangue de Mingus, o que na verdade não aconteceu. Mingus e Joni se entreolharam ao perceberem que ela era uma impostora. Ambos tinham seus detectores de conversa fiada, mesmo com o fusível dele prestes a se queimar para sempre. Eles conseguiam se comunicar, mesmo quando Mingus não falava.

Não estrague minhas músicas, ele pode estar pensando.

"É meu solo enquanto você se vai", ela cantou.

Mingus morreu em 5 de janeiro de 1979 (coincidentemente no mesmo dia em que 56 baleias morreram encalhadas numa praia, de acordo com as notas do encarte do álbum*). O álbum foi lançado em junho.

* "Charles Mingus, um místico musical, morreu no México, em 5 de janeiro de 1979, aos 56 anos. Foi cremado no dia seguinte. No mesmo dia, 56 cachalotes encalharam na costa mexicana e foram incineradas. Essas são as coincidências que excitam a minha imaginação.” - Joni Mitchell (trecho das notas do encarte do álbum Mingus). 

As pinturas de Joni Mitchell que ilustram o post foram inspiradas pelas músicas do álbum, e estão na capa e no encarte.

Nenhum comentário:

Postar um comentário