Robert Fripp e Debbie Harry no
palco do CBGB, Nova Iorque, 1978
(Foto de Bobby Grossman)
"When things get so big, I don't trust them at all
You want some control - you've got to keep it small"
(D.I.Y., Peter Gabriel)
“O mundo de hoje está
prestes a acabar, presenciando o nascimento de uma nova era. O King Crimson faz
música para o futuro porque é uma música dinâmica e inteligente que existe a
partir dos músicos. Já o Emerson, Lake & Palmer faz música para o passado
porque depende exclusivamente de uma tecnologia sofisticada que está prestes a
se extinguir”. As palavras de Robert
Fripp, guitarrista da banda inglesa King Crimson, estão num texto da jornalista
Ana Maria Bahiana na revista Rock, a História e a Glória, de 1976.
Segundo Bahiana, o comentário de Fripp era "um ataque rancoroso ao Emerson, Lake & Palmer”, banda que, em 1970, sob o comando do tecladista Keith Emerson, surrupiou o cantor,
baixista e guitarrista Greg Lake do Crimson.
Para quem acompanhou a
trajetória do rock progressivo, as palavras de Fripp
chegam a ser proféticas. Com a chegada da garotada do punk, o progressivo,
que já dava sinais de desgaste, foi para o brejo do mercado fonográfico. Fripp foi uma exceção, chamando para si a responsabilidade de manter
o gênero respirando. Saía de cena quando bem entendia e voltava da mesma
maneira, sem ficar preso às exigências das gravadoras, como entregar um
disco por ano e encarar a estrada, em uma extenuante turnê para promovê-lo. Em
janeiro de 1981, na revista Musician,
declarou que “o desgaste físico, mental e emocional do músico durante as turnês
é o principal fator do controle da indústria sobre os artistas e da
distorção psicológica em muitos deles: o rock
and roll mantém você jovem e mata você cedo”.
Em 1974, pós desativar o Crimson, Fripp pôs em prática toda sua versatilidade e passou a tocar com a
nata, desde os seus contemporâneos até a moçada que acabava de chegar. Foi
uma época em que aprendeu e ensinou - e assim rejuvenesceu. Fundou The League of Gentlemen, uma
banda new wave minimalista. Produziu
álbuns de Peter Gabriel, Daryll Hall e The Roches. Realizou trabalhos em
parceria com Brian Eno e Andy Summers. Tocou em álbuns do Blondie e do Talking
Heads. Participou de “Heroes” e Scary Monsters (and Super
Creeps), peças fundamentais da discografia de David Bowie. Em entrevista com Joe Strummer, frontman do Clash, na edição de junho de
1981 da revista Musician, mostrou o quanto estava antenado com a
nova geração.
Em outubro do mesmo ano, sem alarde, o
King Crimson voltava às lojas com Discipline. Fripp estava acompanhado de músicos com currículos
invejáveis: o vocalista e guitarrista Adrian Belew (Frank Zappa, David Bowie,
Talking Heads), o requisitado baixista e stick player Tony
Levin (Peter Gabriel, Alice Cooper, Paul Simon, Buddy
Rich, John Lennon, Carly Simon, entre tantos outros nomes) e o baterista Bill Bruford (Yes, Genesis, Bruford, UK), remanescente da
formação do período 1973/74.
Discipline é um daqueles discos perfeitos.
Não havia (e, até hoje, não há) nada parecido. O som da banda dava novo fôlego
ao gênero progressivo. O resultado é de cair o queixo. Uma mistura de peso,
sutileza, caos e calmaria, tudo muito bem equilibrado, sem ego trips,
excessos e estrelismos.
O segundo álbum da nova formação, Beat,
de 1982, é uma homenagem à beat generation. A faixa de
abertura, Neal and Jack and Me, faz menção a On the
Road e a outros livros de Jack Kerouac, do ponto de vista do
Studebaker que conduziu os personagens Sal Paradise (Kerouac) e Dean Moriarty
(Neal Cassady) numa jornada de liberdade que mudaria os rumos da literatura
norte-americana. A partir daí, seguem referências a outros representantes do
movimento beat, como Allen Ginsberg e William Burroughs.
Three of a Perfect Pair, a
terceira e última peça do quebra-cabeça, de 1984, é a mais "experimental" - o que não chega
a ser novidade em se tratando de uma banda sob o comando de Fripp. Com exceção
da faixa Sleepless, dificilmente outra faixa frequentaria a programação de alguma rádio, embora o baterista Bill Bruford já
tivesse declarado modestamente que “o King Crimson é apenas uma banda pop com
boas ideias”. E boas ideias nunca faltaram na música que Fripp criou a partir
do fim da década de 1960.
A trilogia Discipline/Beat/Three of a Perfect Pair mostra o quarteto usando e
abusando da mais avançada tecnologia a serviço da música - sem precisar da
flauta de bambu. Após a turnê de 1984, Fripp, mais uma vez, dá uma pausa na banda,
que voltaria dez anos depois, adicionando dois músicos à formação dos anos 80 – um double trio que se desmembrava em múltiplas
formações. Após nova pausa, em 1997, o Crimson voltaria como quarteto em 2000, sem Levin e Bruford. Entre idas e vindas, Fripp, sobrevivente solitário do gênero progressivo que tinha como lema “repetir para renovar”, chegou ao século 21 com uma música que nunca foi menos do
que surpreendente e provocadora.
Se, na mitologia do rock progressivo, o King Crimson renasce como fênix,
o trio inglês Emerson, Lake & Palmer, como Ícaro, voou alto. E despencou. De
1970 a 1973, o sucesso, a fama e a glória acompanharam o ELP, que lançou cinco álbuns - que estão entre os melhores do gênero - num ritmo
estonteante. Em 1974, o sexto álbum (triplo), gravado ao vivo, registra a turnê de Brain Salad Surgery, álbum do ano anterior, em que os shows eram quase diários e chegavam a ter três horas de duração.
Extenuado, o ELP deu uma pausa dos palcos,
se trancou em estúdios da Suiça e da França e deu início de um projeto
milionário, elaborado e ambicioso, guardado a sete chaves. O resultado apareceria
em 1977, no formato de um álbum-duplo que levava o pomposo título de Works
Volume 1 e causava tremendo
estardalhaço no mundo da música pop. Em Works, o trio tentava dar novo fôlego ao
gênero progressivo. O fôlego durou pouco, e o trio foi sufocado pela própria
megalomania.
Em três lados dos dois LPs, o trio ofereceu
amostras do talento individual de seus integrantes – naquele momento da década
de 1970, integrantes de várias bandas lançaram trabalhos solos. O lado 1, de Keith
Emerson, apresentava um solene concerto para piano em três movimentos, acompanhado da
London Philharmonic Orchestra. No lado 2, com a participação de uma orquestra e
a colaboração do letrista Pete Sinfield, parceiro dos tempos do King Crimson, Greg
Lake soltou seu vozeirão em seis baladas. Carl Palmer aproveitou o lado 3 para
mostrar toda a destreza que fez dele um dos mais completos músicos do rock
- vai do jazz rock ao clássico, em releituras de Prokofiev e Bach, com admirável desenvoltura. O
trio se reúne no lado 4 para executar Fanfare for the Common Man,
potente versão da obra do compositor norte-americano Aaron Copland, e Pirates, que, em 13 minutos épicos, fecha o álbum como uma das
mais bem-sucedidas parcerias entre uma banda de rock e uma
orquestra (no caso, a Orchestra de L'Ópera de Paris), um desejo de Emerson
desde os anos 1960, quando era integrante do Nice. A música fala de corsários que se aventuram pelos mares à caça de tesouros, sonhando com o Eldorado. Segundo Sinfield, autor da letra, é "a alegoria de uma banda de rock em turnê". A referência ao ELP é óbvia. Em três anos, o trio ficou milionário e colecionou discos de ouro e platina. O material promocional da turnê norte-americana colocava o logotipo do trio entre duas espadas, numa alusão à tradicional bandeira de navio de pirata. Works Volume 1 foi o último grande álbum do ELP.
No entanto, os prejuízos acumulados durante a faraônica turnê de Works, em que o trio compartilhava o palco com uma orquestra de setenta músicos, incrementou
tensões existentes entre Emerson e Lake. Para cair na estrada com
aproximadamente 140 pessoas, entre músicos, técnicos e roadies, o trio teve de tirar do próprio bolso 3 milhões de dólares.
Em
uma entrevista, Lake declarou: “Reservávamos hotéis inteiros. Certo dia, fui
procurar o gerente da turnê, e, subindo andar por andar, fui dando uma olhada nos
corredores - todas aquelas bandejas de serviço de quarto com baldes de garrafas
de vinho - e percebi que eu estava
pagando por tudo aquilo”.
No meio da turnê, para cortar despesas, a
orquestra teve de ser dispensada, e a agenda de shows seguiu apenas com o trio
no palco. A orquestra até se ofereceu para continuar na turnê por um
salário simbólico, mas, para não ter problemas com o sindicato dos músicos, o
trio recusou. Posteriormente, devido a compromissos de agenda, a orquestra
voltaria a se juntar ao ELP em apresentações no Olympic Stadium, em
Montreal, e no Madison
Square Garden, em Nova Iorque.
Além de todos os problemas on the road, o álbum não foi o sucesso de
vendas como a gravadora esperava – corria no sentido contrário de um mercado dominado
pelo punk. Ainda em 1977, na tentativa de minimizar os prejuízos, Works Volume 2 foi
colocado às pressas nas prateleiras das lojas - uma colcha de
retalhos irregular, costurada com singles, sobras de estúdio e
trabalhos solos. Não existiria Works Volume 3.
Mas existiu Love Beach, o
álbum de 1978 que enterrou o trio. O desastre já estava anunciado no título e na foto da capa, em que os três músicos posavam de latin
lovers numa praia caribenha. Constrangimento até para os fãs mais
ardorosos, Love Beach
mostrava que o trio estava rachado: o álbum se dividia entre baladas curtas de Lake
e uma longa suíte de Emerson. Só não foi o fim porque, para cumprir contrato com a gravadora, o trio chegaria às lojas, em 1979, com uma melancólica despedida, o álbum In
Concert, anêmico registro das apresentações de Works com a orquestra. O ELP voltaria a se reunir nos anos 1990, gravando álbuns com material inédito e saindo em turnês mundiais. Mas os tempos eram outros. E o tempo, para o ELP, foi
implacável.
Keith Emerson suicidou-se em 2016. Greg Lake morreu no mesmo ano, após lutar contra o câncer. Carl Palmer continua em forma e na ativa, apresentando versões instrumentais da obra do ELP em turnês mundiais com um guitarrista e um baixista, sem o brilho e o talento dos antigos companheiros.
***
Asia - Asia, 1982
Há cinco anos, o vocalista/baixista John Wetton (ex-Family, ex-Roxy
Music, ex-King Crimson, ex-Uriah Heep) e o baterista Bill Bruford (ex-Yes,
ex-King Crimson, ex-Genesis) fundaram o U.K., grupo que, além deles, reuniu
outros nomes de grosso calibre, o guitarrista Allan Holdsworth, o tecladista
Eddie Jobson e o baterista Terry Bozio - Bruford saiu após o primeiro
álbum. Com exceção de Bruford, que liderou uma banda que levava seu
sobrenome, o U.K. não passava de um grupo de coadjuvantes, cujo som
era um pastiche de clichês do rock progressivo e do fusion, com
um pé no pop. A banda durou dois anos, período em que gravou
três álbuns.
Em 1979, o baterista Carl Palmer, que, durante oito anos, foi
uma das letras do ELP (Emerson, Lake & Palmer), fez algo
parecido. Tirando dinheiro do próprio bolso, ouviu, selecionou e
contratou quatro músicos profissionais norte-americanos, com os
quais criou a banda PM (apenas duas iniciais, como o U.K.)
e lançou 1:PM, o álbum de estreia. Seu objetivo era ver o
retorno de seu investimento, assim que a música da banda alcançasse os
primeiros postos das paradas de sucesso. O resultado foi constrangedor: o
álbum, muito ruim, foi ignorado, e a banda não durou um ano.
Eis que, em 1981, o "destino" uniu a fome de Wetton e a
vontade de comer de Palmer. A dupla, com o guitarrista Steve Howe e o
tecladista Geoff Downes, ex-integrantes do Yes, formou a banda Asia. Nem o
desenhista Roger Dean, responsável pelo visual do Yes nos anos 1970, escapou - é dele a capa do álbum que acaba de chegar às lojas.
E a história se repete. O Asia é o meio termo entre o U.K. e o PM:
é uma versão piorada do U.K. e melhorada do PM. O mais triste é ver o
talento de dois virtuoses, Howe e Palmer, ser desperdiçado
numa música sem originalidade, feita para tocar nas FMs, na MTV e em comercial de cigarro. Wetton e Palmer, finalmente,
alcançaram seus objetivos: Heat of the Moment e Only
Time Will Tell, duas faixas do álbum que leva o nome da banda, estão
estourando nas paradas de sucesso. O Asia não é um supergrupo de músicos,
como diz o press release da gravadora. O Asia é uma esperta
reunião de homens de negócios enriquecendo com uma música paupérrima.
***
Emerson, Lake & Powell - Emerson, Lake & Powell, 1986
Após o fim do Emerson, Lake & Palmer, no fim da
década passada, seus integrantes tiveram carreiras pouco brilhantes nos anos
que se seguiram. O tecladista Keith Emerson lançou um álbum por um selo obscuro
e compôs trilhas sonoras para o cinema. O vocalista, baixista e guitarrista
Greg Lake, com a colaboração do guitarrista Gary Moore, lançou dois
álbuns que misturavam baladas e hard rock. O baterista e
percussionista Carl Palmer investiu dinheiro numa banda pré-fabricada chamada
PM, com o objetivo de conquistar as paradas nas rádios FM. Foi um fracasso
retumbante. Conseguiu realizar seu intento no infame "supergrupo"
Asia.
Descontentes com o insucesso de suas carreiras
pós-ELP, e impossibilitados de contar com Palmer, que continua enchendo a burra
no Asia, Emerson e Lake passaram a listar bateristas. O primeiro foi Simon
Philips. Não deu certo. Realizaram algumas sessões em estúdio com Bill Bruford.
Não rolou. Deu certo com o experiente Cozy Powell, conhecido por seu trabalho
no Jeff Beck Group, no Rainbow e no Whitesnake, banda com a qual se apresentou
no Rock in Rio.
Emerson, Lake & Powell, primeira
obra do trio, parece um disco do Emerson, Lake & Palmer em
rotação lenta. Powell é um baterista de rock pesado, gênero no qual é um dos nomes mais respeitados - não possui a agilidade e
as sutilezas que Carl Palmer
exibia com extrema maestria.
Além disso, Emerson, Lake & Powell,
o álbum, carece do frescor de novas ideias - está muito longe de reviver os
bons tempos do ELP de Palmer. Dessa época, só restou o potente vocal de Greg
Lake, insuficiente para salvar o álbum de um tédio retumbante. Faltou
originalidade até na tentativa de recriar uma peça clássica, especialidade de
Emerson nas décadas de 1960 e 1970. Em Emerson, Lake & Powell,
a versão "progressiva" de Mars, the Bringer of War, da suíte The Planets,
de Gustav Holst, não chega a ser novidade. Outro grupo inglês, o King Crimson, já havia
feito o mesmo em 1969 - ironicamente, com Greg Lake entre os seus
integrantes.
Se tem alguém que merece elogios é Debra
Bishop, autora do design da capa do álbum, pela perfeição
com que representou graficamente o trio: três
rostos estilizados e perfilados que lembram os moais da Ilha da Páscoa.
Monumentos imponentes, grandiosos e impassíveis que estão no mesmo
lugar há séculos, parados no tempo.
Os fãs mais radicais do Yes que torceram o nariz
para os últimos trabalhos da banda, cujo som estava mais para a new
wave do que para o rock progressivo, já podem
respirar aliviados. Acaba de sair do forno o álbum do quarteto Anderson,
Bruford, Wakeman & Howe, formado por antigos integrantes da banda inglesa. O baixista Chris Squire, cofundador do Yes na década de 1960, não está
na empreitada. Ganhou na justiça os direitos de uso do nome Yes, o que fez com
que Jon Anderson (vocal), Bill Bruford (bateria), Rick Wakeman
(teclados) e Steve Howe (guitarra) batizassem a “nova banda"
com seus famosos sobrenomes.
O álbum de estreia, que leva o nome do
quarteto, não decepciona, e proporciona ao ouvinte a sensação de uma viagem ao
passado, aos áureos tempos do rock progressivo. Até o
ilustrador Roger Dean, responsável pela concepção visual das capas dos álbuns e
da cenografia de palco do Yes, foi recrutado. No Brasil dos anos
1970, em bares universitários e repúblicas estudantis, posters de
suas paisagens fantásticas fizeram a cabeça de muito bicho-grilo. Para o
ABWH, Dean ainda dirigiu o clipe de Brother of Mine, música
escolhida para promover o álbum.
Quase nada mudou no som que estes senhores
fazem com talento, experiência e competência. Anderson ainda conserva a voz que
é marca registrada do Yes. Bruford, que, em 1972, deixou a banda no auge da
fama para integrar o King Crimson, é um dos bateristas mais criativos em
atividade. Wakeman continua pilotando sua vasta coleção de teclados, num duelo
constante com Howe, o virtuose da guitarra. O quarteto ainda
conta com apoio de três músicos adicionais: o guitarrista Milton McDonald,
o tecladista Matt Clifford e o baixista Tony
Levin, que veio ocupar a vaga deixada por Squire, a convite
de Bruford. Nome bastante conhecido e respeitado, Levin, além de
requisitado session man, fez parte da última formação do King
Crimson (com Bruford), é integrante habitual da banda que acompanha Peter
Gabriel e vinha dando uma canja no Pink Floyd.
Nenhum yesmaníaco terá motivo para se desapontar
com as nove faixas que somam 60 minutos de duração. Nem tudo se cria
e muita coisa se recicla - um detalhe menor para os fãs que queriam isso mesmo:
mais uma dose do bom e velho Yes.
Colagem atualizada, revista
e ampliada de resenhas escritas entre 1982 e 1989.
















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