David Drew Zingg
Com um novo dicionário (presente do Dia dos
Namorados), Tio Dave explora as origens de "outras palavras”
David Drew Zingg em Sampa
O inglês,
para mim, é uma língua fascinante - provavelmente porque a conheço tão
intimamente. O que quero dizer é que conheço sua roupa íntima: a gíria.
Na semana
passada, assisti ao lançamento de uma nova expressão de gíria inglesa na CNN.
Na semana passada, na Bósnia, o capitão Scott O'Grady, da Força Aérea da
Gringolândia, foi derrubado. Um míssil atingiu seu avião, uma ocorrência
bastante incômoda. O Capitão O'Grady estava afivelado a um pedaço do que havia
sido seu caça-bombardeiro. Ele se viu prestes a ser impelido em alta velocidade
em direção a um final infeliz.
Nesse
momento o Capitão O'Grady fez uma coisa que o poupou de transformar-se em
cozido da Força Aérea. Ele salvou sua própria vida e lançou um novo termo de
gíria.
O Capião O'Grady "punched out".
Ou seja,
ele acionou a alavanca dourada situada ao lado de seu assento de piloto. A
alavanca, por sua vez, acionou um foguete que literalmente fez o capitão, seu
capacete, seu assento e seu para-quédas explodirem através do teto em plexiglas
de sua cabine de piloto.
"I punched
out", disse o capitão mais tarde, em uma entrevista.
O Capitão
O'Grady chegou no momento exato para os EUA e o presidente Bill Clinton. O
pessoal lá do norte estava muito necessitado de um herói. O'Grady é um Forrest
Gump da vida real. Primeiro teve seu avião derrubado. Depois sobreviveu atrás
das linhas bósnias por quase uma semana à base de formigas e capim, e a seguir
foi resgatado na melhor tradição hollywoodiana, por um grupo de "marines"
norte-americanos muito machos.
As
lágrimas afloraram a seus olhos quando ele narrou sua fuga milagrosa.
"I punched
out", ele contou ao mundo na CNN.
"É um
garoto e tanto", comentou o presidente Clinton, e convidou o capitão à
Casa Branca para "schmooz" na televisão. (Esta é a semana da gíria de tio
Dave, Joãozinho. "Schmooz": bater um longo papo bem gostoso e à vontade.
Deriva da palavra iídiche "schmous", que significa "coisas ouvidas").
Algo me
diz que ainda vamos ouvir a metáfora do "punching out" outras vezes.
A palavra certa
Na
segunda-feira passada, Dia dos Namorados, eu me comprei um presente. Refleti
bastante e concluí que não há ninguém de quem eu goste tanto quanto eu mesmo,
de modo que me presenteei com R$ 77 de gíria, adquiridos na Livraria Cultura,
aqui em Sampa.
O presente
que me ofereci veio sob a forma do Random House Historical Dictionary of
American Slang, ou Dicionário Histórico Random House de Gíria
Norte-Americana (ao qual vou me referir daqui em diante como RHHDAS). São 1.006
páginas do que S.I. Hayakawa descreveu como "a poesia da vida cotidiana".
"Parece
que é preciso ser rico para ser letrado", disse outro dia o perito em
língua norte-americana William Safire. Ele não deixa de ter certa razão. Gastar
R$ 77 em um livro sobre um monte de expressões de rua realmente parece ser um
pouco impensadamente inútil. Mas eu o fiz com alguns outros propósitos em
mente.
Em
primeiro lugar, esta coluna é escrita em inglês, e depois brilhantemente
(acredito) vertida ao português pela srta. Clara Allain, uma agradável jovem
que possui exatamente 1,037% mais energia intelectual do que vosso
correspondente.
Já untei a
mão da srta. Allain com um dicionário de gíria da Gringolândia, mas eu queria
este dicionário para mim, para alguma emergência.
O livro de
gíria que comprei cobre apenas as letras de A a G. O segundo volume será
lançado em 1996. O volume final, que terminará em minha letra favorita, sairá
em 1997. Trata-se de uma realização verdadeiramente "awesome"
(excepcionalmente boa) do editor, um certo J.E. Lighter.
Segundo o
sr. Lighter, a gíria do jazz se espalhou com a grande migração para o norte de
afro-americanos negros durante os anos 30, atingidos pela Grande Depressão. A
palavra inglesa "groovy" significava literalmente "no 'groove' (sulco)
de um disco de 78 RPM". Na gíria, significava "esplêndido, deliciosamente
excitante".
Quanto aos
militares, basta ver o exemplo acima descrito de nosso piloto herói em estilo
Gump.
A palavra
que ocupa o maior espaço no volume A-G de meu novo dicionário de gíria é uma
que todos nós conhecemos muito bem. Poucos de nós a usamos em nossas conversas
do dia-a-dia, embora muitos possamos pensar nela com grande frequência.
Ela possui
uma certa vulgaridade que a torna impossível de imprimir nesta coluna e é
conhecida aqui como a "Palavra-F". Nas 12 páginas que ocupa no livro, é
usada numa infinidade de maneiras. Ela aparece sob formas tão interessantes! A "Palavra-F" nos chega como substantivo, verbo, adjetivo, advérbio, interjeição e
indicativo de intensificação.
A forma
inglesa da palavra possivelmente remonte ao ano 1450. Seria interessante saber
quando a versão portuguesa começou a ser usada. A primeira menção registrada da
versão anglo-saxônica dela que temos está no Oxford English Dictionary
Supplement (Suplemento do Dicionário Oxford da Língua Inglesa), que a
data de 1680: "E assim fui fraudado de Doze substanciais F...s".
A "Palavra-F" se presta a usos gloriosos e tolos. Para mandar uma pessoa sair daqui
rapidamente, você pode fazer como Henry Miller fez em 1933, em "Letters to Emil"
(Cartas a Emil) e dizer: "Tell her to go f... a duck!" (Diga a ela que vá se
f....!).
O RHHDAS
prossegue, oferecendo sucessivos prazeres para nosso deleite. Alguém sabia que "Easy
Rider" surgiu muito tempo antes de existirem Harley-Davidsons e Dennis
Hopper? Em 1914 o termo já significava "homem sustentado por uma mulher,
especialmente por prostituta".
O termo "drugstore
cowboy" data de 1923, quando era usado para descrever "um rapaz ocioso que
passa seu tempo ao lado do balcão de refrigerantes de uma 'drugstore',
especialmente para ficar na companhia de moças".
A gíria
tem o hábito de inverter os valores para surtir maior efeito. Hoje, "cool"
é ótimo; algumas décadas atrás, teria sido "hot". Se você estiver
estudando inglês para seu próprio prazer, não deixe de dar uma "gander"
(olhadela) neste livro. É "groovy". É "real bad" (muito legal).
David Drew Zingg, fotógrafo e jornalista
norte-americano radicado no Brasil, faleceu em 28 de julho de 2000, aos 76
anos.
Texto publicado na Folha de São Paulo, 15 de junho
de 1995. Tradução de Clara Allain.


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