Julie Christie e Warren Beatty em McCabe & Mrs. Miller
Tim Grierson / Rolling Stone 14 de novembro de 2016
No início de 1971, Leonard Cohen ainda era um cantor
e compositor relativamente desconhecido. Apesar de ter lançado dois discos
aclamados pela crítica - Songs of Leonard
Cohen, em 1967, e Songs From a Room,
em 1969 - o canadense, originalmente romancista e poeta, ainda não havia feito
turnês pelos EUA. Vivia numa fazenda na cidadezinha de Big East Fork,
Tennessee, e preparava, para março, o lançamento de Songs of Love and Hate. “Eu tinha uma casa, um jipe, uma espingarda,
um par de botas de cowboy, uma
namorada… uma máquina de escrever, um violão”, lembrou certa vez. “Tudo o que
eu precisava.”
Certo dia, foi à cidade para ver um filme. Decidiu
assistir a Brewster McCloud, uma
comédia bizarra sobre um garoto de Houston (interpretado por Bud Cort) que quer
voar. O filme foi fracasso de crítica e público; naquele dia, Cohen assistiu a
ele duas vezes. “É um filme muito, muito bonito, eu diria brilhante”, disse à
revista Crawdaddy!, em 1975. “Talvez por
eu não assistir a um filme há muito tempo, mas foi muito bom.”
À noite, o cantor-compositor viajou a Nashville para
uma gravação. Enquanto estava por lá, recebeu um telefonema: “Aqui é Bob
Altman”, disse a voz do outro lado da linha. “Gostaria de usar suas músicas em
um filme que estou fazendo.” Cohen ficou lisonjeado, mas não tinha ideia de
quem era esse cara: “Há algum filme que você fez que talvez eu tenha visto?”
Altman mencionou M*A*S*H,
seu maior sucesso, que Cohen não conhecia. Então o cineasta disse: “Também fiz
um pequeno filme que ninguém viu – Brewster
McCloud”. Como Cohen mais tarde lembrou ao biógrafo de Altman, Mitchell
Zuckoff: “Eu disse a ele: ‘Eu o vi hoje à tarde – adorei. Você pode usar o que
quiser.'”
Assim começou uma das grandes parcerias entre filme
e trilha sonora da era moderna. O filme que Altman estava fazendo era McCabe & Mrs. Miller*, aclamado pelo lendário diretor John Huston como o maior faroeste já
feito. É, certamente, um dos mais visionários, com Altman transformando o romance
de Edmund Naughton em uma triste e bela história do sonho americano que se
desenrolava no estado de Washington, na virada do século. Um infeliz especulador
chamado John McCabe (Warren Beatty) encontra a enigmática cafetina Constance
Miller (Julie Christie) na florescente e rústica cidade de Presbyterian Church,
e os destinos destes dois empreendedores logo estarão conectados.
Da mesma forma, os legados de Altman e Cohen
ficariam unidos para sempre por McCabe
& Mrs. Miller. O filme está inextricavelmente ligado às canções de
Cohen. É impossível imaginar a obra-prima de Altman sem elas.
O poeta-músico poderia não estar familiarizado com o
trabalho de Altman, que morreu em 2006, mas o diretor iconoclasta certamente conhecia o
compositor - adorou Songs
of Leonard Cohen na época em que foi lançado. “Ouvíamos esse disco tantas
vezes que gastamos duas cópias!” ele confessou ao estudioso de cinema David
Thompson. “Ficávamos chapados e tocávamos esse disco. E então me esqueci disso tudo.”
Quando Altman começou a sonhar em filmar McCabe,
ele estava inspirado pela música de Cohen – sem perceber. Depois das filmagens,
na fase de edição, ele voltou a ouvir Cohen, pela primeira vez, depois de algum
tempo e teve uma revelação: “'Porra, esse é o meu filme!' Voltamos à sala de
edição, colocamos as músicas no filme e elas serviram como uma luva. Acho que a
razão pela qual funcionaram foi porque essas letras estavam gravadas no meu
subconsciente, então, quando filmei as cenas, adaptei-as às músicas, como se
tivessem sido escritas para elas.”
Inicialmente, Altman inseriu cerca de 10 canções de
Cohen no filme, optando eventualmente por três delas: “The Stranger Song”, “Sisters
of Mercy” e “Winter Lady”. Mas,
como a musicóloga Gayle Sherwood Magee sugere, em seu livro Robert Altman's Soundtracks, as letras
de outras canções de Cohen certamente parecem pressagiar pontos da trama de McCabe - especificamente, “Suzanne” (que descreve uma mulher em
detalhes que estão reproduzidos em Mrs. Miller) e “One of Us Cannot Be Wrong” (referência a uma “nevasca” que lembra a
morte de McCabe sob a neve, depois que ele entra em conflito com os propietários de
uma mineradora). Mesmo quando você não ouve a música de Cohen enfeitando as
cenas, o espírito do compositor permeia o filme.
Este indelével trio de canções, todas do primeiro
lado do LP Songs of Leonard Cohen,
serviu como tema musical de McCabe. “The Stranger Song” aparece durante os
créditos de abertura do filme, enquanto McCabe chega cavalgando à Presbyterian
Church. Antes mesmo de sermos formalmente apresentados ao nosso anti-herói,
Cohen pinta um retrato desse triste homem como um trapaceiro (“É verdade que
todos os homens que você conheceu eram jogadores”) que tem um passado
misterioso (“Disse a você quando cheguei que eu era um forasteiro”) e está
buscando refúgio (“Ele era apenas um José procurando uma manjedoura”).
A segunda, “Sisters
of Mercy”, entra em cena quando somos apresentados às prostitutas de Mrs.
Miller, a suave canção de Cohen ecoando o calor e a generosidade das
personagens: “Elas esperavam por mim quando pensei que simplesmente não poderia
continuar... você não vai me deixar com ciúme se eu souber que elas adoçaram a
sua noite.”
A faixa final, “Winter
Lady”, é o tema da Sra. Miller, expressando a devoção de McCabe por esta
mulher que conquistou seu coração, mesmo sabendo que qualquer tipo de
relacionamento significativo seria impossível. “Senhora viajante, fique um
pouco mais até que a noite acabe”, canta Cohen, involuntariamente
proporcionando um monólogo interior. “Sou apenas uma estação no seu caminho,
sei que não sou seu amante.” Se “The
Stranger Song” nos leva a McCabe, então “Winter Lady” - que ouvimos nos créditos finais - é o nosso adeus ao
filme e ao homem, que acaba morto sob a neve e nunca mais verá sua
cara-metade.
Mas não foram apenas as alusões líricas que tornaram
a música de Cohen tão perfeita para McCabe.
Assim como Altman viveu para subverter clichês de gênero e incorporar técnicas
de filmagens não convencionais - como o uso inspirado de diálogos sobrepostos e
às vezes abafados, que conferiam às suas cenas uma textura sofisticada e
realista - Cohen tinha sua marca de dissidente, criando um som único usando
cordas de náilon em seu violão que o distinguiam de outros cantores folk da época. “É essencialmente um
estilo espanhol”, revelou o arranjador musical de Cohen, Javier Mas, no livro
de Anthony Reynolds, Leonard Cohen: A
Remarkable Life, acrescentando mais tarde: “Ele tem aquele tremolo agradável que faz o som incrível
de suas músicas”.
O desejo de Cohen de trilhar um caminho particular também
o levou a recrutar a banda de cordas Kaleidoscope, que misturava folk, bluegrass e sons do Oriente Médio, para fornecer o acompanhamento
musical distintamente exótico para Songs
of Leonard Cohen. A instrumentação profunda e impressionante deu às suas canções
um poder indescritível e melancólico - embora, como apontado pelo crítico
musical Robert Christgau, a versão cinematográfica de “The Stranger Song” seja diferente da versão despojada do álbum,
enfatizando os floreios musicais da banda como Cohen pretendia, antes de seu
produtor ter rejeitado a ideia.
Em McCabe,
a paisagem sonora de Cohen é um complemento ideal à cinematografia de Vilmos
Zsigmond, brilhantemente onírica. Ele lembrou, em Robert Altman: The Oral Biography, que, quando discutiram pela
primeira vez a estratégia visual do filme, Altman “a descreveu em imagens muito
antigas, como velhas fotografias e imagens desbotadas, sem muita cor”. Usando
isso como guia, o cinegrafista, vencedor do Oscar, desenvolveu uma técnica,
agora conhecida como flashing, que dá
ao filme uma qualidade granulada e subexposta, semelhante a fotos antigas. As
imagens desgastadas de Zsigmond espelhavam inconscientemente as melodias evocativas
de Cohen - pareciam atemporais, mas também peculiares e vanguardistas. Nenhum
faroeste jamais se pareceu ou soou desta maneira.
Altman disse que, com este melancólico faroeste, tentou
“ilustrar uma balada heróica. Sim, os eventos aconteceram, mas não da maneira como
foram contados. Pode-se dizer que eu queria olhar através de uma perspectiva
diferente, mas preservar a poesia da balada.” É uma reminiscência do que John
McCabe murmura para si mesmo enquanto pensa em sua amada: “Eu tenho poesia em
mim”, ele enfatiza para ela, mesmo que ela não esteja lá para ouvir. “Sim,
tenho poesia em mim. Não vou colocá-la no papel. Não sou um homem instruído.
Tive bom senso suficiente para não tentar fazer isso.”
A beleza e a pungência de McCabe and Mrs.Miller vêm da tentativa de colocar essa poesia na
tela em visuais maravilhosamente enevoados e baladas profundamente tristes que
transportam o espectador para um mundo que se foi - a fronteira de uma América antiquada
e violenta logo apagada e civilizada em nome do Destino Manifesto. Essa beleza
e pungência estão ainda mais vivas, agora que os dois principais progenitores
de suas músicas e imagens não estão mais entre nós.
*No Brasil, McCabe & Mrs. Miller recebeu dois títulos em português: "Onde os Homens são Homens" e "Jogos e Trapaças: Quando os Homens são Homens".





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