A tentação de representar o Mal como
exterior a nós nunca foi inteiramente exorcizada
Peter Stanford / The Guardian
O Demônio é a única personagem principal, no drama da
Cristandade, que não tem uma data comemorativa no calendário da Igreja. Embora
o homem medieval muitas vezes o visse maior que o próprio Deus, hoje as
principais igrejas o relegam ao limbo, qual desacreditada relíquia de um
passado supersticioso.
O Louis Cyphre de Robert De Niro, em Coração Satânico
– cujo nome soa como o de Lúcifer -, com aquela sua barbicha pontuda, era
cômico quando mastigava ovos cozidos: mas era o inspirador de uma série
assassinatos rituais. Jack Nicholson, em Bruxas de Eastwick, interpretou uma
versão atualizada do velho Diabo medieval, com os olhos rolando nas órbitas e
sempre pronto a baixar as calças para suas conquistas. Comparecia também a
sugestão de uma “outra vida” que dava calafrios.
Satã vem desfrutando de um
prestígio temporão como ícone cultural free-lancer
(El aquelarre, Francisco de Goya, 1797/98)
Foi Charles Baudelaire quem sintetizou a eterna
atração que temos por esse lado sombrio de Satã: “O maior desejo do Diabo é o
de nos convencer que não existe”. A ciência, a razão, a lógica negam a
existência de um diabinho preto com chifre e rabo, que cheira a enxofre, tem a
pele coberta de escamas e dedica-se a perpretar todo tipo de maldade possível.
Mas seu poder coletivo não consegue prová-lo: sempre fica um desagradável ponto
de interrogação.
É sempre mais fácil, afinal de contas, atribuir a algo
fora de nós tudo o que está errado nesse mundo e, depois, erguer os braços numa
atitude de horror impotente. Padres, bispos e o papa tentam neutralizar a
figura do Diabo. Mas os desastres naturais, a violência provocada pelo homem e
o sofrimento humano sempre nos fazem pensar na causa do Mal.
No passado, a própria Igreja falava do Diabo e exibia
imagens do inferno como uma forma de intimidar os fiéis e forçá-los a cumprir
seus deveres. Ao perceberem que o amor de um Deus compassivo era insuficiente
como a cenoura que se balança diante do focinho de um cavalo, os padres não
hesitaram em usar o Diabo como o porrete que forçava a congregação a seguir
pela estrada do Bem. A amostra de DNA do Tinhoso carrega traços de praticamente
todos os credos religiosos que já existiram, desde a aurora dos tempos, pois
foi sempre necessário recorrer ao Espírito do Mal para explicar o que era
inexplicavelmente malvado.
Apesar do desenvolvimento que, em tempos recentes,
tiveram a psiquiatria e a compreensão da condição humana, a tentação de
representar o Mal como algo exterior a nós nunca foi inteiramente exorcizada.
Mas foi a própria Cristandade que virou as costas àquilo que, em tempos, fora
um dos instrumentos mais eficazes para difundir sua mensagem.
Não que o Diabo tenha sido inteiramente alijado do
credo. Lá está ele, ainda, espreitando, do fundo do cenário. Se você descarta o
Diabo como a cara que tem a intangibilidade do Mal, por que se preocupar com
Deus quando se trata de falar do bem? O último papa que se deu ao trabalho de
falar do Diabo foi Paulo VI, que disse dele: “É um ser espiritual vivo,
perverso e perversor”. Uma área na qual o Demônio ainda é digno de crédito é a
antiga prática do exorcismo. Todo pai que deseje batizar seu filho tem de
renunciar publicamente a Satã e às suas obras – uma forma tão tênue de
exorcismo que a maioria das pessoas nem o percebe.
Para adultos que acreditam estar possuídos, tanto o
Catolicismo quanto a Igreja Anglicana oferecem exorcistas oficialmente
autorizados. Dizem que, em 27 de março de 1982, o próprio João Paulo II
exorcizou uma moça. O Vaticano se recusa a comentar essa informação, divulgada
por um ex-prefeito da Santa Sé. Esse manto de segredo é típico da forma como o
exorcismo é tratado. Nomes e endereços dos exorcistas diocesanos são mantidos
em segredo: nem mesmo seus colegas de paróquia os conhecem. Se você consegue,
finalmente, atravessar os níveis da burocracia eclesiástica necessários para
obter uma entrevista a esse respeito, o mais provável é que eles lhe mandem falar
com um psiquiatra.
Segundo o pastor Billy Graham, "Satã é um
espírito poderoso, inteligente e cheio de recursos".
(Desenho de Coop)
Os que estão convencidos de que os teatrais métodos
tradicionais de enfrentar o Diabo são os únicos que conseguirão salvá-los de
suas garras deveriam procurar ajuda nas beiradas evangélicas da Cristandade. Os
seguidores do reverendo Moon, por exemplo, têm toda uma teologia muito
desenvolvida, em que Satã aparece formando uma “falsa trindade” com Adão e Eva.
O pastor Billy Graham nunca se cansa de falar de Satã nem de sua influência
corruptora sobre o mundo: “Algumas pessoas consideram o Diabo como uma piada,
mas, na realidade, Satã é um espírito poderoso, inteligente e cheio de
recursos”.
Essa era a linha que, antigamente, a Cristandade
seguia. Ao abandoná-la, deixou o campo aberto para oportunistas como Graham. O
número de seus seguidores sugere que ele deve sintonizar mais com os
sentimentos populares do que os padres que encorajam o desenvolvimento de um
senso pessoal de pecado. O evangelho de Graham encontrou uma audiência atenta
numa América socialmente perturbada e cada vez mais isolacionista, em que o
lobby conservador dos fundamentalistas cristãos não teme falar do Diabo ao
mesmo tempo que discute os mais sérios problemas locais e internacionais.
O governo do americano Tennessee, por exemplo,
pressionado pelos evangélicos, está considerando a possibilidade de introduzir
uma lei que obrigue as escolas a ensinarem a visão que a Bíblia tem do mundo
como um fato consumado – e isso inclui a ideia de que o Diabo é a fonte de todo
o Mal. Mas não são só os fundamentalistas cristãos, preocupados com o estado em
que estão as coisas entre nós, que fazem o Diabo ter uma nova fase de boa
fortuna. Apoiado pelo establishment religioso não-convencional, Satã vem
desfrutando de um prestígio temporão como ícone cultural free-lancer. Sempre
aparece nos comerciais de televisão, com suas características habituais, mas
desprovido de conotações religiosas, como um símbolo facilmente identificável
de maldade e ameaça.
Não tem diminuído o interesse que romancistas,
roteiristas de cinema ou diretores de teatro demonstram por ele. Segundo a
escritora inglesa Alice Thomas Ellis, “a escalada do relativismo moral
dificultou muito o trabalho do romancista. A negação da existência do Diabo
implica a não-existência dos anjos... do próprio Deus! Esse ponto de vista faz
com que a ficção e, de resto, todas as outras coisas, tornem-se sem sentido. A
cinzenta admissão de que ‘nós todos somos culpados e isso não é grande coisa’
não tem um rendimento literário muito bom”.
Sempre foi necessário recorrer ao Espírito do Mal
para explicar o que era inexplicavelmente malvado
(Desenho de Markus Mayer)
Se os publicitários e os romancistas tornaram-se seus
defensores por absurdo, o Diabo não deixa de ter um grupo que o apoia de forma
mais consciente: os satanistas confessos. Historicamente, a Igreja sempre
tentou provar que esse grupo é uma legião, embora a experiência demonstre que
os satanistas são um grupelho de gente doentia, marginalizada e profundamente
infeliz, que se atira nos braços do primeiro rebelde que lhes passa pela
frente, como uma forma de expressar sua raiva.
A frequência com que, na década de 1980, houve, nos
EUA e na Grã-Bretanha, denúncias de práticas de rituais satânicos demonstra o
quanto a nossa sociedade ainda quer acreditar que o vizinho da porta ao lado
pode estar levando uma sinistra vida dupla, que subverte todas as regras
vigentes em nosso mundo. O sinistro frêmito que a mera menção do nome Diabo
desperta nas pessoas é a prova de que ainda é cedo demais para escrevermos o
seu obituário. O Demônio está longe de ter morrido e de estar enterrado.
O escritor e jornalista inglês Peter Stanford é autor do livro "The Devil: A Biography".
Texto publicado no Caderno de Sábado, Jornal da Tarde/O Estado de S.Paulo, em 22 de junho de 1996. Tradução de Lauro Machado Coelho.






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