quinta-feira, 26 de setembro de 2024

O Satã de chifres, à espreita dos incrédulos


A tentação de representar o Mal como 
exterior a nós nunca foi inteiramente exorcizada
(Desenho de Negreiros)



     Peter Stanford / The Guardian

    O Demônio é a única personagem principal, no drama da Cristandade, que não tem uma data comemorativa no calendário da Igreja. Embora o homem medieval muitas vezes o visse maior que o próprio Deus, hoje as principais igrejas o relegam ao limbo, qual desacreditada relíquia de um passado supersticioso.

O Louis Cyphre de Robert De Niro, em Coração Satânico – cujo nome soa como o de Lúcifer -, com aquela sua barbicha pontuda, era cômico quando mastigava ovos cozidos: mas era o inspirador de uma série assassinatos rituais. Jack Nicholson, em Bruxas de Eastwick, interpretou uma versão atualizada do velho Diabo medieval, com os olhos rolando nas órbitas e sempre pronto a baixar as calças para suas conquistas. Comparecia também a sugestão de uma “outra vida” que dava calafrios.

Satã vem desfrutando de um 
prestígio temporão como ícone cultural free-lancer
(El aquelarre, Francisco de Goya, 1797/98)

Foi Charles Baudelaire quem sintetizou a eterna atração que temos por esse lado sombrio de Satã: “O maior desejo do Diabo é o de nos convencer que não existe”. A ciência, a razão, a lógica negam a existência de um diabinho preto com chifre e rabo, que cheira a enxofre, tem a pele coberta de escamas e dedica-se a perpretar todo tipo de maldade possível. Mas seu poder coletivo não consegue prová-lo: sempre fica um desagradável ponto de interrogação.

É sempre mais fácil, afinal de contas, atribuir a algo fora de nós tudo o que está errado nesse mundo e, depois, erguer os braços numa atitude de horror impotente. Padres, bispos e o papa tentam neutralizar a figura do Diabo. Mas os desastres naturais, a violência provocada pelo homem e o sofrimento humano sempre nos fazem pensar na causa do Mal.

No passado, a própria Igreja falava do Diabo e exibia imagens do inferno como uma forma de intimidar os fiéis e forçá-los a cumprir seus deveres. Ao perceberem que o amor de um Deus compassivo era insuficiente como a cenoura que se balança diante do focinho de um cavalo, os padres não hesitaram em usar o Diabo como o porrete que forçava a congregação a seguir pela estrada do Bem. A amostra de DNA do Tinhoso carrega traços de praticamente todos os credos religiosos que já existiram, desde a aurora dos tempos, pois foi sempre necessário recorrer ao Espírito do Mal para explicar o que era inexplicavelmente malvado.

Para Paulo VI, "o diabo é 
um ser espiritual vivo, perverso e perversor"
(The Great Red Dragon and the Woman Clothed in the Sun, William Blake, 1803/05)

Apesar do desenvolvimento que, em tempos recentes, tiveram a psiquiatria e a compreensão da condição humana, a tentação de representar o Mal como algo exterior a nós nunca foi inteiramente exorcizada. Mas foi a própria Cristandade que virou as costas àquilo que, em tempos, fora um dos instrumentos mais eficazes para difundir sua mensagem.

Não que o Diabo tenha sido inteiramente alijado do credo. Lá está ele, ainda, espreitando, do fundo do cenário. Se você descarta o Diabo como a cara que tem a intangibilidade do Mal, por que se preocupar com Deus quando se trata de falar do bem? O último papa que se deu ao trabalho de falar do Diabo foi Paulo VI, que disse dele: “É um ser espiritual vivo, perverso e perversor”. Uma área na qual o Demônio ainda é digno de crédito é a antiga prática do exorcismo. Todo pai que deseje batizar seu filho tem de renunciar publicamente a Satã e às suas obras – uma forma tão tênue de exorcismo que a maioria das pessoas nem o percebe.

Para adultos que acreditam estar possuídos, tanto o Catolicismo quanto a Igreja Anglicana oferecem exorcistas oficialmente autorizados. Dizem que, em 27 de março de 1982, o próprio João Paulo II exorcizou uma moça. O Vaticano se recusa a comentar essa informação, divulgada por um ex-prefeito da Santa Sé. Esse manto de segredo é típico da forma como o exorcismo é tratado. Nomes e endereços dos exorcistas diocesanos são mantidos em segredo: nem mesmo seus colegas de paróquia os conhecem. Se você consegue, finalmente, atravessar os níveis da burocracia eclesiástica necessários para obter uma entrevista a esse respeito, o mais provável é que eles lhe mandem falar com um psiquiatra.

Segundo o pastor Billy Graham, "Satã é um 
espírito poderoso, inteligente e cheio de recursos".
(Desenho de Coop)

Os que estão convencidos de que os teatrais métodos tradicionais de enfrentar o Diabo são os únicos que conseguirão salvá-los de suas garras deveriam procurar ajuda nas beiradas evangélicas da Cristandade. Os seguidores do reverendo Moon, por exemplo, têm toda uma teologia muito desenvolvida, em que Satã aparece formando uma “falsa trindade” com Adão e Eva. O pastor Billy Graham nunca se cansa de falar de Satã nem de sua influência corruptora sobre o mundo: “Algumas pessoas consideram o Diabo como uma piada, mas, na realidade, Satã é um espírito poderoso, inteligente e cheio de recursos”.

Essa era a linha que, antigamente, a Cristandade seguia. Ao abandoná-la, deixou o campo aberto para oportunistas como Graham. O número de seus seguidores sugere que ele deve sintonizar mais com os sentimentos populares do que os padres que encorajam o desenvolvimento de um senso pessoal de pecado. O evangelho de Graham encontrou uma audiência atenta numa América socialmente perturbada e cada vez mais isolacionista, em que o lobby conservador dos fundamentalistas cristãos não teme falar do Diabo ao mesmo tempo que discute os mais sérios problemas locais e internacionais.

Charles Baudelaire: "O maior desejo 
do Diabo é o de nos convencer de que não existe."
(Desenho de Charles Burns)

O governo do americano Tennessee, por exemplo, pressionado pelos evangélicos, está considerando a possibilidade de introduzir uma lei que obrigue as escolas a ensinarem a visão que a Bíblia tem do mundo como um fato consumado – e isso inclui a ideia de que o Diabo é a fonte de todo o Mal. Mas não são só os fundamentalistas cristãos, preocupados com o estado em que estão as coisas entre nós, que fazem o Diabo ter uma nova fase de boa fortuna. Apoiado pelo establishment religioso não-convencional, Satã vem desfrutando de um prestígio temporão como ícone cultural free-lancer. Sempre aparece nos comerciais de televisão, com suas características habituais, mas desprovido de conotações religiosas, como um símbolo facilmente identificável de maldade e ameaça.

Não tem diminuído o interesse que romancistas, roteiristas de cinema ou diretores de teatro demonstram por ele. Segundo a escritora inglesa Alice Thomas Ellis, “a escalada do relativismo moral dificultou muito o trabalho do romancista. A negação da existência do Diabo implica a não-existência dos anjos... do próprio Deus! Esse ponto de vista faz com que a ficção e, de resto, todas as outras coisas, tornem-se sem sentido. A cinzenta admissão de que ‘nós todos somos culpados e isso não é grande coisa’ não tem um rendimento literário muito bom”.

Sempre foi necessário recorrer ao Espírito do Mal 
para explicar o que era inexplicavelmente malvado
(Desenho de Markus Mayer)

Se os publicitários e os romancistas tornaram-se seus defensores por absurdo, o Diabo não deixa de ter um grupo que o apoia de forma mais consciente: os satanistas confessos. Historicamente, a Igreja sempre tentou provar que esse grupo é uma legião, embora a experiência demonstre que os satanistas são um grupelho de gente doentia, marginalizada e profundamente infeliz, que se atira nos braços do primeiro rebelde que lhes passa pela frente, como uma forma de expressar sua raiva.

A frequência com que, na década de 1980, houve, nos EUA e na Grã-Bretanha, denúncias de práticas de rituais satânicos demonstra o quanto a nossa sociedade ainda quer acreditar que o vizinho da porta ao lado pode estar levando uma sinistra vida dupla, que subverte todas as regras vigentes em nosso mundo. O sinistro frêmito que a mera menção do nome Diabo desperta nas pessoas é a prova de que ainda é cedo demais para escrevermos o seu obituário. O Demônio está longe de ter morrido e de estar enterrado.

O escritor e jornalista inglês Peter Stanford é autor do livro "The Devil: A Biography".

Texto publicado no Caderno de Sábado, Jornal da Tarde/O Estado de S.Paulo, em 22 de junho de 1996. Tradução de Lauro Machado Coelho.

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