Numa democradura, manifestações podem ter as consequências de uma delação
(Desenho de Mariza Dias Costa)
Dia desses, um professor universitário amigo meu ficou abismado ao constatar que a maioria esmagadora de seus alunos tinha apenas uma vaga ideia do que significava a expressão “patrulha ideológica”. De sua origem, só dois alunos se recordavam, mas um deles não sabia dizer quem a iniciara e o outro a atribuiu ao polemista errado. Caetano Veloso bem que ajudou a esquentar a controvérsia, mas foi Cacá Diegues quem lhe acendeu o pavio, conforme, aliás, andou sendo lembrado na semana passada nas várias e merecidas reportagens sobre os 60 anos do cineasta. Mas só lembrar o nome do santo sem contar como se deu o milagre é muito pouco, quase nada, tendo em vista a ignorância (ou a amnésia) geral e o clima em que estamos vivendo. Com a volta de tantas coisas, por que não haveriam de voltar as patrulhas ideológicas?
A questão é um bocado complicada. A imprensa da época simplificou-a em demasia, reduzindo a expressão a um slogan e aplicando-a de forma maniqueísta, sempre contra as esquerdas. Quem ousasse criticar alguém ou a posição de alguém diante de determinado fato ou situação era logo apontado como patrulheiro; ou seja, como um censor disfarçado. Mas o verdadeiro censor não seria justamente aquele que inibira o outro de criticá-lo?
A questão é um bocado complicada. A imprensa da época simplificou-a em demasia, reduzindo a expressão a um slogan e aplicando-a de forma maniqueísta, sempre contra as esquerdas. Quem ousasse criticar alguém ou a posição de alguém diante de determinado fato ou situação era logo apontado como patrulheiro; ou seja, como um censor disfarçado. Mas o verdadeiro censor não seria justamente aquele que inibira o outro de criticá-lo?
Flashback:
Em 1978, a ditadura militar contemplava o seu próprio crepúsculo. Já em curso a lenta e gradual abertura comandada pelo general Geisel. A censura aos jornais fora suspensa, filmes antes proibidos por razões morais e políticas começavam a ser exibidos, trincheiras culturais extintas pelo autoritarismo na década anterior, como a Revista Civilização Brasileira, voltavam a circular com outro nome: Encontros com a Civilização Brasileira. Mas a guerra continuava. Não mais aquela de dez anos antes, unindo democratas de vários matizes contra o Leviatã fardado. A guerra agora era intestina, fratricida, autofágica. Em 1978, as alianças de conveniência pareciam ter perdido o sentido e os inimigos do regime brigavam entre si, reavivando antigas diferenças e remoendo velhos ressentimentos – nos partidos, nas universidades e na imprensa. Estruturalistas e marxistas ainda se refaziam de confrontos recentes quando Cacá Diegues acendeu o rastilho de uma nova polêmica. Nova, e pelo visto, recalcitrante.
Tudo surgiu de um casual desabafo do cineasta, no meio de uma entrevista a O Estado de S. Paulo, no último dia de agosto. Em pauta, o vazio cultural a que nem o abrandamento do regime conseguira pôr fim. “A censura é terrível, mas eu não usei nem vou usar a censura como pretexto para uma falta de obra, para uma falta de trabalho”, disparou Cacá, parafraseando uma bela tirada de Graciliano Ramos em Memórias do Cárcere, a propósito da censura no Estado Novo. A observação do cineasta era irreprochável e não teria deixado sequelas se ele tivesse guardado para outra oportunidade a questão das patrulhas ideológicas. Mas ele ainda estava, com razão, mordido com o tom arrogante das críticas de dois ou três antropólogos e sociólogos a seu filme Xica da Silva, publicadas no semanário Opinião – uma das quais torcia para que ele fosse impedido de fazer mais filmes – e riscou o fósforo.
A expressão patrulha ideológica é uma variação de thought police (polícia do pensamento), cunhada por George Orwell, a propósito do controle das ideias nas ditaduras comunistas. Filosoficamente, são almas gêmeas. Policiais mentais e patrulheiros ideológicos policiam e patrulham pensamentos, ideias, atitudes e criações artísticas, “tentando limitar ou dirigir para essa ou aquela tendência, quando a grande riqueza do cinema brasileiro, a grande qualidade básica que deveria ser alimentada, é exatamente a sua pluralidade, a sua multiplicidade, a sua multifaciedade”, arrematou Cacá.
A repercussão foi imediata. Até parecia que todos só estavam esperando o primeiro tiro para botar os tanques na rua. Enquanto a imprensa conservadora, salivando de prazer, se aproveitava do mote lançado pelo cineasta para fustigar as esquerdas, artistas e intelectuais, em transe autofágico, passaram a trocar insultos e acusações, sem se darem conta de que o país ainda não vivia uma democracia plena – sob a qual tudo pode ser dito e ninguém precisa de máscaras -, mas ainda, infelizmente, uma democradura, sob a qual certas manifestações de franqueza podem ter as mesmas conseqüências de uma delação.
Do mesmo modo que a Revolução Francesa não pretendia popularizar a guilhotina, o conceito de patrulhas ideológicas não foi jogado na praça com o objetivo de realimentar as prédicas macarthistas a que nossos jornais conservadores volta e meia se entregavam. Ciente desse perigo, Cacá cuidou de esclarecer a lisura de suas intenções e deixar claro que o seu desapreço por muitos daqueles que haviam se apropriado de sua metafórica locução. Num artigo para a Veja (16.5.1979), temperou sua diatribe contra as patrulhas com uma profissão de fé na “grande utopia da sociedade sem classes” (leia-se, socialismo), pela qual estaria sempre disposto a lutar. Mas àquela altura a metáfora já caíra na vida e não parecia disposta a se regenerar.
No meio da tormenta, perguntei a mim mesmo se não estávamos diante de uma discussão um tanto ou quanto paroquial e bizantina se comparada a outras, envolvendo os patrulheiros da sociedade civil. O essencial na capciosa polêmica das patrulhas, ponderei na época, não era bom saber quem era o quê, mas de que lado estavam as forças dominantes, se dos patrulheiros ou dos patrulhados. Pois são elas, em suma, que decidem a questão.
Pior do que as patrulhagens de que tantos se confessavam vítimas – a rigor, meros conflitos de opiniões – era a situação em que ainda se encontravam, em 1978, inúmeros profissionais impedidos de ingressar em instituições oficiais, ou de lá permanecer por razões políticas. Quem articulara os expurgos nas universidades, nos centros de pesquisa, nas repartições públicas e nas casernas fora a patrulha ideológica que realmente tinha poder de fogo para destruir: os aparelhos de repressão do Estado, os reitores, os chefes de departamento e os milicos. Sem contar os chefes de redação que podiam demitir, deixar de admitir ou simplesmente calar aqueles de cuja opinião discordassem.
Há dois anos, quando ruminei todas essas coisas na revista República, a polêmica das patrulhas só não parecia algo tão remoto e irrelevante quanto às discussões em torno da falha do Barbosa no gol de Gighia e da pureza da Bossa Nova por causa do surgimento de um novo avatar na arena das ideias: o politicamente correto. Àquela altura, o politicamente correto me parecia a versão pós-moderna do fundamentalismo ideológico, o novo gás paralisante dos xiitas do espírito, a censura bem-pensante – que daqui a vinte anos, conjecturei, deverá nos parecer tão remoto e irrelevante quanto as discussões em torno do marketing da Sasha e do umidificador de charutos de Monica Lewinsky. Hoje já não tenho certeza disso. Só tenho certeza de uma coisa: de que sou patrulheiro. Como você. E como o Presidente. O chato é que ele tem o poder, e nós não.
Texto do jornalista Sérgio Augusto para a revista Bundas, maio de 2000.

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