Por meio de suas raízes, as árvores definem estratégias
de sobrevivência e criam redes de defesa diante das ameaças externas
Leonardo Fróes
O que enxergamos de uma árvore adulta, a parte acima do solo, com frequência é igual à parte que cresce para dentro da terra, podendo até ser menor.Quanto mais
velha for a árvore — muitas, aos cem anos, ainda estão na flor da idade —,
maiores serão as extensões da raiz, que é o órgão mais essencial de seu corpo,
caracterizado por existir em dois mundos. Mesmo cortado rente ao chão, o toco
que sobrar de uma árvore voltará a brotar e a formar nova copa, desde que a
raiz tenha ficado ilesa para seguir manifestando seus impulsos vitais.
“O
essencial é invisível para os olhos”, como a raposa ensinou ao pequeno
príncipe. E as principais revelações de Peter Wohlleben em A vida
secreta das árvores dizem respeito à intimidade da raiz que não vemos
e “onde possivelmente”, diz ele, “se situa algo como o cérebro” dos vegetais. O que enxergamos de uma árvore adulta, a parte acima do solo, com frequência é igual à parte que cresce para dentro da terra, podendo até ser menor.
Sendo
uma árvore capaz de aprender e de armazenar informações úteis para se manter
com saúde, o autor admite que essas funções se concentram na raiz, lembrando
circunstâncias simples para ilustrar a tese: se ela encontrar substâncias
tóxicas, rochas impenetráveis ou terra úmida demais, a raiz logo impõe uma
mudança de rumo a seu crescimento, desviando-o das áreas que não lhe são
favoráveis para avançar em novas direções.
As
pontas das raízes são rematadas por um tecido esponjoso que as torna eficientes
para a absorção de nutrientes e água. Retomando pesquisas anteriores, Wohlleben
explica como determinados fungos subterrâneos, que se alojam junto a raiz e a
ela se associam em simbiose, contribuem para aumentar sua área de absorção da
umidade, pois têm textura esponjosa.
Os
fungos benéficos velozmente se expandem pelo subsolo. Ao crescerem na direção
de outras árvores, conectam-se a fungos parceiros e às raízes às quais eles
estão ligados, criando assim uma rede para a troca de nutrientes e até de
informações sobre eventuais ataques de insetos. A essa rede de comunicação
vegetal, que funciona para o autor como “a internet da floresta”, tem sido
frequentemente aplicada a designação em inglês de wood wide web.
Outros
estudos sobre o que ocorre nas entranhas da terra indicam que árvores da mesma
espécie, vegetando em conjuntos densos, podem se unir pelas suas raízes para
formar um amplo sistema emaranhado capaz de atuar em benefício de todas.
Árvores-mães, por essa tática, repassariam nutrientes às mudas nascidas nas
proximidades, amamentando-as com zelo paciente nos primeiros tempos de vida.
Tal sistema também permitiria que árvores enfraquecidas por pragas ou por
condições adversas recebessem das que estão com saúde um suplemento alimentar
de emergência.
Todas
essas atividades demonstram que nas matas primárias, e em especial nos
aglomerados constituídos por mudas de uma única espécie, a existência
individual conta menos que a formação de um superorganismo composto por partes
bem integradas. Além de acentuar a primazia de certo instinto social nas
florestas, Wohlleben recorre muitas vezes a comparações entre os reinos vegetal
e animal, aparentemente levado pelo desejo de enfatizar que as árvores não são
autômatos: elas têm volição bem definida, sabem como proceder para sair de
enrascadas e disparam mecanismos de defesa ante ameaças vindas de fora. Mas
então as árvores pensam?
A
fim de superar o enigma, a palavra senciência pode ser posta em lugar de
consciência para falar dos processos que os vegetais utilizam ao raciocinar
sensorialmente. Apesar de não constar dos dicionários, essa palavra circula
desde a década de 1970, quando foi divulgada por um livro que fez enorme
sucesso e tem um título semelhante ao do que agora nos chega da Alemanha
— A vida secreta das plantas, de Peter Tompkins e Christopher Bird,
traduzido por mim.
Tanto
no livro mais antigo, onde há pontos discutíveis pelos apelos exóticos, quanto
no recém-lançado, bem convincente pela sobriedade do engenheiro florestal que o
assina, são numerosos os casos pitorescos de árvores taludas e até plantas de
pequeno porte que resolvem problemas de sobrevivência pela aplicação prática e
metódica de seu raciocínio sensorial.
Mas
as observações incluídas nesses dois livros se referem quase sempre a espécies
do hemisfério Norte. A rigor o de Wohlleben se limita às árvores mais
frequentes na Europa Central, como faia, bétula, carvalho, salgueiro. Parece-me
assim oportuno mencionar um dos exemplos de inteligência vegetal em ação que eu
mesmo já pude comprovar aqui nos trópicos.
Em
meu sítio na serra fluminense, que na verdade é uma nesga de mata onde há mais
de quarenta anos observo os prodígios realizados por animais e plantas, uma
árvore nasceu na beira do rio. O barranco é abrupto e pouco sólido, no ponto em
que ela se fixou, e por isso as enchentes do verão poderiam facilmente
arrancá-la e arrastar rio abaixo. Prevenida, a árvore enfrentou a
dificuldade.
Ao
atingir cerca de dois metros, modificou toda a estrutura de seu caule
retilíneo, curvando-o como se fosse de borracha em várias contorções que
empregou, ao longo de muitos anos, para se agarrar e amarrar em outra, já bem
maior e firmemente instalada num ponto seco da margem. Feita a soldagem, por
uma trama que mais parece escultura, a árvore antes em perigo voltou a crescer
em linha reta. Hoje as duas se abraçam, ambas fortes e frondosas, numa prova
irrefutável de que os vegetais têm cabeça.
Um
lembrete: o sugestivo sobrenome de Wohlleben, autor que trabalha na conservação
de florestas e pede a todos para estar em harmonia com as árvores, pode ser
traduzido por “boa vida” ou por “viver bem”…
Leonardo Fróes é crítico
literário, jornalista, poeta e tradutor. A resenha do livro A vida secreta
das árvores, de Peter Wohlleben, foi publicada na revista Quatro Cinco Um, em
maio de 2017. Fotos de Diego Meleiro Novaretti.

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