Durante entrevista ao programa Roda Viva, em março
deste ano, o cientista brasileiro Marcelo Gleiser falou da necessidade de preservar o planeta adotando novas maneiras de nos relacionarmos com ele. Uma dessas
maneiras seria termos mais contato com a natureza:
“A gente se isola nessas cidades cheias de linhas
retas e círculos perfeitos que não têm nada a ver com o mundo natural. E a
gente se isola tão bem que se esquece que existe aquela floresta que
tá meio longe, às vezes. Mas sempre tem um parque. E se você olhar com um olhar
correto, neste parque você vai encontrar um monte de coisas vivas, uma relação
incrível, mesmo meio capenga, meio estrangulada ali pelo concreto, uma relação
entre sistemas vivos diferentes. Então, é uma questão de querer olhar pra essas
coisas. Pra mim, uma pracinha é um grande laboratório planetário. Você encontra
vários pedaços do planeta nessa pracinha.”
André Benjamin no filme High Life, de Claire Denis, 2018
No isolamento da pandemia de COVID-19, muitas pessoas
se dedicaram à prática da jardinagem, descobrindo os “vários pedaços do
planeta” que podem ser encontrados num espaço mínimo de terra com plantas, seja
um jardim, um canteiro ou uma floreira.
***
Touch
grass(1): O
despertar político
de um jardineiro na era da pandemia
(Foto de Diego Meleiro Novaretti)
Notei um tufo de grama brotando ao lado da garagem.
Meu primeiro instinto foi cortá-lo com o aparador de ervas daninhas como sempre
faço. Mas, por algum motivo, dessa vez, não consegui. Este pequeno tufo tentava
arduamente abrir caminho para fora da terra pedregosa, um espírito agreste
querendo seu momento ao sol. Vi também insetos e besouros correndo ao redor, um
pequeno ecossistema. Me dá uma boa vibração toda vez que passo por lá.
Trevor Clarke - Adbusters 164 10 de janeiro de 2023
Nos últimos dois anos, desenvolvi um dos meus
hábitos mais politicamente iluminador.
Tornei-me jardineiro; não estive só. A disseminação global do green thumb(2), que acompanhou estreitamente a contagem de
infecções por Covid, à medida que aumentavam, diminuíam e aumentavam novamente,
está bem documentada. Desde o início pouco promissor da nova década, as pessoas e seus vizinhos intrometidos parecem ter segurado uma pá ou uma
espátula e afundado os dedos num pedaço de terra, mesmo que apenas na
profundidade da floreira de uma janela. Eu estava lá ao lado delas, forjando —
como talvez alguns dos meus colegas horticultores faziam conscientemente — um novo relacionamento tanto com
meus compromissos políticos quanto com a terra. Tudo o que precisei foi um
punhado de sementes e disposição para me sujar.
Penso que fenômeno do jardineiro nascido na
pandemia faz muito sentido. Estou longe de ser o único a saber, por experiência
pessoal, como dias, semanas e meses de confinamento em casa podem empurrar uma
pessoa para o ar livre, para o solo. Não foi apenas um desejo de estar ao ar
livre que fez isso por mim, mas uma necessidade de afirmar uma realidade
sujeita a mudanças físicas e ritmos terrestres. A sensação de monotonia sem
fim, mediada pelas telas, o amanhecer de cada novo dia prenunciando mais um dia
igual a outro, me fez desejar marcar a passagem do tempo de uma forma que
parecesse significativa em vez de sombria, arbitrária, sem objetivo. Parecia
natural ter encontrado uma espécie de calendário de valores no aumento e recuo
das estações. Em uma palavra, ao retornar ao solo, essa criatura moderna se
tornou pagã.
Mas isso foi apenas a semente, por assim dizer, de meu
recém-descoberto ideal. Ao fazer um balanço do ciclo natural de florescimento e
apodrecimento com mais atenção, aprendi a notar a beleza não apenas no
espetáculo das flores e no canto dos pássaros, mas na sucção inebriante dos
mosquitos, nas mudas que se alimentam da luz da manhã, no odor intenso das
folhas podres, no poder das raízes salientes rompendo o pavimento, na ternura
das abelhas escavadoras, na tenacidade das ervas daninhas. Cuidar das plantas é
se importar com a vespa que come a lesma, com o verme que revira o solo, com o
esquilo que planta a noz, com o beija-flor que poliniza a flor. É apostar nas
forças da vida — não apenas a vida humana, mas a vida na escala de espécies,
comunidades, ecossistemas, do próprio planeta.
É também tomar o partido do futuro. Se o solo
estiver desgastado, nada pode crescer; se nada pode crescer, ninguém pode
comer. Se ninguém pode comer, então a persistência de nossa espécie - para não
falar de outras – é um assunto para discussão. Investir na vida das plantas e
nas condições que permitem que elas prosperem é, portanto, contemplar uma
escala de tempo que vai além do imediato, até mesmo além da vida humana. Pode
significar cuidar de uma muda que amadurecerá para dar sombra não apenas à sua,
mas a outras gerações. Pode implicar, a manutenção de um ambiente favorável ao
cultivo por anos e décadas, em vez de esgotar impensadamente os recursos
limitados disponíveis num excesso de produtividade. Além disso, pode exigir o
reconhecimento dos meios de cuidar das plantas como algo inerentemente
comunitário, e sua longevidade como dependente intimamente da cooperação de
multidões — animais e vegetais, humanos e não humanos. Nada, afinal, pode
florescer isoladamente; no jardim, a ajuda mútua é um primeiro princípio.
Agora, considere não apenas o tipo produtivo de
jardinagem, mas o tipo explicitamente improdutivo. Estou falando sobre o
cultivo de árvores floridas, gramíneas altas, trepadeiras drapeadas, samambaias vistosas, folhagens multicoloridas, ervas perfumadas — plantas com um
propósito puramente decorativo ou sensual. Em contraste com o tipo que produz
grandes quantidades de matéria comestível, seria fácil descartar esse tipo de
plantio como frívolo. Afinal, mesmo um gramado da frente totalmente
transformado em uma horta não pode, em todos os casos, exceto os mais
excepcionais, sustentar um jardineiro amador sem suplementos. Mas esse tipo de
atividade está longe de ser infrutífera: você a faz, claro, porque lhe dá
prazer. Deleitar-se com o que não tem preço, o não comercializável, o não
mercantilizado, o economicamente sem sentido ou "sem valor" é muito mais radical do que pode parecer.
Em um mundo que exige que tudo tenha seu preço, em uma cultura que considera o
consumo o árbitro final do valor, é um ato de subversão, até mesmo de
resistência, gastar seu tempo e seus esforços no jardim, gastando pouco ou
nenhum dinheiro, e não produzindo nada de valor para ninguém além de você
mesmo. Defender esse tipo de prazer é defender a própria vida contra as forças
do capitalismo desenfreado — isto é, contra o que vem gradualmente sufocando a
própria possibilidade da vida desde o início de sua fase industrial movida a
combustíveis fósseis no século XIX.
(Foto de Diego Meleiro Novaretti)
Muito do que digo está bem resumido no ensaio “Some Thoughts on the Common Toad” (Algumas
Reflexões Sobre Um Sapo), que George Orwell escreveu para o Tribune em 1946. Orwell era apaixonado por
jardins, assim como pela natureza em geral. No ensaio, ele celebra a desova dos
sapos na primavera — para ele, um assunto negligenciado pela apreciação
estética. Alguns anos antes de ser escrito, Londres havia sido bombardeada até
virar escombros; mas, mesmo nas ruínas da cidade, como Orwell descreve, a vida
encontrou um caminho. “De repente, no final de março, o milagre acontece e a
região degradada em que vivo é
transfigurada”, ele escreve:
Na
praça, os alfeneiros fuliginosos ganharam um verde radiante, os castanheiros estão carregados de folhas, os narcisos estão florescendo, os goivos estão brotando... e
até os pardais estão com uma cor bem diferente, tendo sentido o ar revigorante
e criado coragem para tomar um banho, o primeiro desde setembro passado.
(Foto de Diego Meleiro Novaretti)
Não é mero sentimentalismo que leva Orwell a
saborear essa paisagem. Afinal, ele
pergunta, "se matarmos todo o prazer no processo real da vida, que tipo de
futuro estamos preparando para nós mesmos?". Para Orwell, admirar a beleza
das coisas naturais, mesmo que seja um sapo qualquer, é o primeiro passo
necessário para garantir que o planeta seja um lugar onde possamos ter uma
chance de conquistar uma existência "decente", para usar uma de suas palavras
preferidas. É uma visão do futuro caracterizada não por princípios
excessivamente elevados, mas pela velha compaixão. É, portanto, um ideal menos
perigoso do que sucumbir às retóricas comprometedoras de campanhas, slogans, ideologias, panelinhas, dogmas,
dogmáticos, ditadores, máquinas da morte. Tudo isso ainda está
conosco: como ervas daninhas, precisam ser erradicadas.
Parece-me que a jardinagem, de certa forma, é o
oposto da extração. É geração em vez de destruição, respeito em vez de desdém,
preservação em vez de espoliação, restauração em vez de corte, cura em vez de
mutilação. É harmonia em vez de guerra — "espadas transformadas em
arados" e tudo mais. Implica um olhar atencioso e humano, afirmativo da
vida e que busca prazer, carinhoso e até amoroso. A jardinagem sozinha não pode
resolver todos os nossos problemas; pode não nos salvar dos riscos que
colocamos sobre nós mesmos. Mas pode nos ensinar a valorizar os seres vivos que
nos dão vida assim que tornarmos a vida possível para eles.
Os jardins também são lugares para recuperar a
calma, se não a esperança, perdida em uma era de mercantilização total e constante
vigilância, quando enfrentamos a nossa ruína. São lugares fora do algoritmo e distantes
do excesso de informação. E podem ser os únicos espaços que nos permitem
descobrir uma maneira diferente de vivermos juntos, no pequeno planeta que
compartilhamos. Se tudo isso não está no cerne de um despertar político, não
sei o que estaria. Mas o que posso dizer? Só quero ver o mundo florescer.
(1) Touch grass significa passar mais tempo ao ar livre, desconectar-se
do mundo virtual, das atividades on-line, e “tocar a grama”, mexer na terra. O
contato com a natureza proporciona uma vida mais saudável.
(2) Green thumb, “dedo verde”, significa ter habilidade para a prática da
jardinagem.
Adbusters é um coletivo global de
escritores, artistas, designers, músicos, poetas, filósofos e punks.
*
O boom da jardinagem na pandemia
mostra
como os jardins podem cultivar a saúde pública
The Conversation 21 de abril de 2022
Alessandro Ossola - Professor Assistente da
Universidade da Califórnia, Davis
À
medida que os confinamentos entraram em vigor na primavera de 2020, para
desacelerar a disseminação do coronavírus, surgiram relatos de um boom global
de jardinagem, com plantas, flores, vegetais e ervas brotando em quintais e
varandas ao redor do mundo.
Os
dados reforçam a narrativa: uma análise do Google
Trends e das estatísticas de infecção descobriu que, durante os primeiros
meses da pandemia da COVID-19, o interesse em jardinagem país a país, da Itália
à Índia, chegou ao auge no mesmo ritmo das infecções.
Por
que tantas pessoas foram atraídas para a terra em um momento de crise? E que
tipo de efeito a jardinagem teve sobre elas?
Em
um novo estudo conduzido por uma equipe de acadêmicos ambientais e de saúde
pública, destacamos até que ponto a jardinagem se tornou um mecanismo de
enfrentamento durante os primeiros dias da pandemia.
Mesmo
com o abrandamento das restrições relacionadas à COVID-19, vemos algumas lições
reais sobre como a jardinagem pode continuar a desempenhar um papel na vida das
pessoas.
Lama, suor, tranquilidade
Para
conduzir nosso estudo, usamos um questionário on-line para pesquisar mais de
3.700 entrevistados que viviam principalmente nos EUA, Alemanha e Austrália. O
grupo incluía jardineiros experientes e novatos.
Mais
da metade dos entrevistados disseram que se sentiram isolados, ansiosos e
deprimidos durante os primeiros dias da pandemia. No entanto, mais de 75%
também encontraram imenso valor na jardinagem durante o mesmo período. Seja nas
cidades ou no campo, a jardinagem foi quase universalmente descrita como uma
forma de relaxar, socializar, conectar-se com a natureza ou permanecer ativo. Relataram um aumento de tempo significativo dedicado
à jardinagem. Outros entrevistados encontraram algum valor em cultivar sua
própria comida, mas poucos tiveram condições financeiras para fazer o mesmo.
Em
vez disso, a maioria dos entrevistados via a jardinagem como uma forma de se
conectar com sua comunidade e se exercitar.
Pessoas
com mais dificuldades pessoais devido à COVID-19, como a impossibilidade de
trabalhar ou cuidar dos filhos, estavam mais propensas a passar mais tempo na
jardinagem em seu tempo livre do que no passado.
O jardim como refúgio
Em
nossa análise das respostas à pesquisa, a maioria dos jardineiros pareceu
experimentar uma maior sensação de alegria e segurança ou se sentir mais
sintonizado com a natureza. Isso pareceu ter benefícios terapêuticos e
psicológicos positivos, independente de idade ou localização.
Para
muitas pessoas, a jardinagem se tornou uma espécie de espaço seguro – um
refúgio das preocupações diárias. Um jardineiro alemão começou a ver seu jardim
como um santuário onde até mesmo “os pássaros pareciam mais barulhentos”.
“A
jardinagem tem sido minha salvação”, observou um entrevistado dos EUA. “Sou
muito grato por poder me cercar de beleza para abrandar as notícias deprimentes
que a COVID traz a cada dia.”
Outro
jardineiro alemão escreveu que o jardim se tornou seu “pequeno universo seguro
em um momento muito incerto e um tanto perigoso. Aprendemos a valorizar ainda
mais ‘nossa terra, nosso refúgio’.”
Uma receita verde
(Foto de Diego Meleiro Novaretti)
À
medida que a vida volta ao normal, o trabalho e as obrigações aumentam, eu me
pergunto quantos jardins pandêmicos já estão sendo negligenciados.
Um
hobby nascido de circunstâncias
únicas vai recuar para o segundo plano?
Espero
que não. A jardinagem não deve ser algo que é feito apenas em tempos de crise.
No mínimo, a pandemia mostrou como os jardins atendem a uma necessidade de
saúde pública – que eles não são apenas lugares de beleza ou fontes de
alimento, mas também canais para a cura.
Na
verdade, vários países como Nova Zelândia, Canadá e alguns na Europa agora
permitem que “receitas verdes” sejam emitidas como alternativas à medicação. Passar
uma certa quantidade de tempo ao ar livre, a cada dia ou mês, são diretrizes médicas
– um reconhecimento de que se aventurar na natureza pode oferecer dos
benefícios reais para a saúde, desde redução do estresse até melhorias do sono
e da memória.
(Foto de Diego Meleiro Novaretti)
Também
penso nas pessoas impossibilitadas de fazer jardinagem durante a pandemia. Nem
todo mundo tem um quintal ou pode pagar por ferramentas de jardinagem. Melhorar
o acesso a jardins domésticos, espaços verdes urbanos e jardins comunitários
pode ser uma maneira importante de aumentar o bem-estar e a saúde.
Tornar
a semeadura, o plantio, a poda e a colheita parte da rotina diária parece oferecer
mais oportunidades também.
“Eu
nunca tive tempo para me comprometer com um jardim”, um jardineiro iniciante
nos disse, “mas encontrei tanta satisfação e felicidade em ver as coisas brotarem.
Isso tem sido um catalisador de mudanças positivas na minha vida.”
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