sábado, 17 de agosto de 2024

Querida América: Cartas do Vietnã


'Cansaço e desespero de um jovem soldado que, depois de ler uma carta,
certamente está se perguntando o que diabos está fazendo tão longe de casa.'
(Foto e depoimento de David Burnett, 1971) 
 


    A única coisa positiva da Guerra do Vietnã foram os filmes que ela rendeu nas mãos talentosas de diretores como Francis Ford Coppola, Stanley Kubrick, Brian De Palma e Robert Altman, que mostraram desde a tensão da partida dos jovens soldados para o campo de batalha até o horror das atrocidades cometidas em nome da pátria, da democracia e da liberdade. Porém, foi Bill Couturie o autor da obra mais impactante, Querida América: Cartas do Vietnã (Dear America: Letters Home from Vietnam, 1987), documentário sobre a incursão da maior potência bélica do planeta no Sudeste Asiático, um esmagador fracasso que até hoje permanece entalado na goela dos norte-americanos.

Baseado em livro homônimo, editado por Bernard Edelman, Querida América é uma colagem de imagens de diversas fontes com relatos enviados em cartas de soldados e voluntáriosAs cartas são lidas por Tom Berenger, Ellen Burstyn, Sean Penn, Martin Sheen, Robin Williams, Willem Dafoe, Robert Downey Jr., Robert De Niro, Harvey Keitel, Michael J. Fox, Kathleen Turner, Elizabeth McGovern e Brian Dennehy. A trilha sonora inclui Alice Cooper, The Band, Bob Dylan, Sam Cooke, Sly and the Family Stone, Marvin Gaye, The Doors, Rolling Stones, Jimi Hendrix e Bruce Springsteen. Querida América venceu o prêmio especial do júri do Festival de Sundance, em 1988.

Richard Coggins, recruta de 17 anos, 1965


Em agosto de 1964, em meio à Guerra Fria, um destróier norte-americano atacado na costa do Vietnã foi o pretexto para que o presidente Lyndon Johnson autorizasse o bombardeio imediato do território vietnamita e, sete meses depois, o envio das primeiras tropas que se aliaram ao Vietnã do Sul contra o Vietnã do Norte, apoiado pela China e pela União Soviética. No início, os jovens soldados se mostravam entusiasmados, acreditando que iriam lutar por um mundo livre da opressão comunista, e que, em breve, estariam de volta como heróis para suas famílias e namoradas. Afinal, a missão parecia fácil: encontrar e matar vietcongues.

Os jovens soldados acreditavam que iriam lutar por um mundo
livre da opressão comunista e voltariam como heróis ao seu país
(Foto de Paul Schutzer, 1965) 

As primeiras cenas de Querida América mostram soldados se bronzeando, nadando e surfando numa praia ensolarada, de areia bem branquinha, ao som de Under the Boardwalk, do Drifters. A sequência não chega a durar dois minutos, e o que se vê, nos próximos oitenta minutos, é o holocausto de parte da juventude norte-americana e o genocídio de vietnamitas inocentes.

Mulheres e crianças procuram se proteger de
um bombardeio em Bao Trai, a oeste de Saigon
(Foto de Horst Faas, 1966) 

Os soldados percebem que estão num lugar desconhecido, enfrentando um inimigo invisível que conhece muito bem o território e está à espreita, esperando o momento ideal para atacar. Segundo palavras dos próprios soldados, todos estão aterrorizados diante da expectativa do ataque, e muitos começam a envelhecer precocemente.

Soldados norte-americanos mutilados na Guerra do Vietnã
(Foto de Bill Ray, 1967)

E a matança tem início. Muitos soldados já perderam a esperança de voltar para casa com vida. Percebem que não estavam lutando por um mundo livre, mas enfrentando um povo indignado e enfurecido com a invasão e a destruição de seu país.

Jeffrey Miller, estudante morto por policiais durante protesto
contra a intervenção militar dos EUA no Vietnã, na Kent State University 
(Foto de John Paul Filo, 1972) 

Em 1969, com Nixon na presidência e as crescentes manifestações pelo fim do conflito, os EUA começam a bater em retirada. A alegria dos que retornavam com vida contrastava agonia dos que permaneciam nos campos de batalha. Os combates terminariam oficialmente em janeiro de 1973 e, no mês seguinte, os últimos soldados e voluntários desembarcavam na terra do Tio Sam.

A incursão da maior potência bélica no Sudeste Asiático tornou-se
um esmagador fracasso que permanece entalado na goela dos EUA
(Foto de Larry Burrows, 1966) 

Autêntico e revoltante, o documentário retrata morte e miséria, deixando claro que aquela guerra, além de produzir 58 mil cadáveres de norte-americanos, e fazer sofrer aqueles que os amavam, também violentou, mutilou e assassinou 2 milhões de civis vietnamitas - crianças, mulheres, idosos e trabalhadores. A guerra mostrada em Querida América é, como todas as guerras, inútil e não deixa vencedores. Quem sobreviveu ao terror foi condecorado com danos físicos e mentais para o resto da vida.

Resenha de 1998. Foi revista. 

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