Aconteceu na tarde de um sábado de 1974. Nas casas da classe média do milagre brasileiro, na intimidade de seus dormitórios, garotas liam alguma fotonovela com final feliz e suspiravam ao som de alguma música dos irmãos Karen e Richard Carpenter. Na sala de estar, garotos, sentados em frente ao aparelho de TV, olhos grudados na telinha, esperavam ansiosamente pela estreia do programa Sábado Som, apresentado por Nelson Motta e transmitido pela TV Globo.
A atração do dia era uma apresentação do grupo inglês Pink Floyd, filmada três anos antes, no centro de um anfiteatro em ruínas da cidade romana de Pompeia, arrasada, em 79 d.C., pela fúria vulcânica do Vesúvio. A cena em que a silhueta do baixista Roger Waters castiga um gongo ao pôr do sol tornou-se emblemática e permaneceria na memória de adolescentes que, hoje, são respeitáveis quarentões.
A Globo, espertamente, não perdia a oportunidade de fisgar a audiência de jovens fascinados pelo álbum Dark Side of the Moon. Lançado um ano antes, o oitavo álbum do Pink Floyd foi um dos maiores sucessos comerciais da indústria fonográfica – sucesso que dura até os dias de hoje. Vinte e três anos depois, Pink Floyd - Live at Pompeii será exibido no Multishow.
Nascido na cena underground londrina
dos anos 1960, época de agitação e experimentalismos, o Pink Floyd foi um dos
pioneiros na utilização da parafernália eletrônica colocada a serviço do rock,
e ocupa lugar de destaque na discussão sobre música e tecnologia.
Os músicos entravam num estúdio como cientistas entrando num laboratório. O
guitarrista David Gilmour esclarece que “talvez nossa música não existisse sem
essa tecnologia, mas o equipamento não pensa sobre o que fazer, ele não toca
sozinho”.
Apenas músicos e técnicos participaram das gravações na ensolarada necrópole. Gilmour, Waters, o tecladista Rick Wright e o baterista Nick Mason presenteiam o espectador com Echoes, Careful with that Axe Eugene, A Saucerful of Secrets, One of these Days I’m Going to Cut You Into Little Pieces, Set the Controls for the Heart of the Sun e Mademoiselle Nobs. O especial do Multishow traz um bônus: os bastidores da gravação de Dark Side of the Moon.
Dizem as más línguas que a música do Pink Floyd é enfadonha porque demora pra começar e, depois que começa, demora pra acabar. Para alguns, isso até pode ser verdade, mas não apaga o fato de que, há três décadas, o Floyd é uma das bandas mais cultuadas da música pop.
Live at Pompeii é um programa que vai além de um passatempo nostálgico. Merece ser visto também pelas gerações recentes, que poderão conferir o início de uma década em que os músicos tinham à disposição inéditos e avançados recursos de produção e gravação. Desbravadores de territórios inexplorados, ousaram enveredar por trilhas desconhecidas que os levassem a expandir os limites da criatividade, como meninos curiosos se divertindo com seus novos brinquedinhos.



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