Há 37 anos, John Lydon e Mick Jones, pioneiros
do punk inglês, desfilaram suas novas bandas em São Paulo
Agosto de 1987 foi um mês de felicidade para os órfãos do Sex Pistols e do Clash. Numa mesma semana, que poderia ser chamada de Punk Fashion Week, John Lydon e Mick
Jones se apresentaram em São Paulo com as bandas Public Image
Ltd. (PIL) e Big Audio Dynamite (BAD). Dez anos antes, Lydon, vulgo Johnny Rotten, e
Jones surgiam para o mundo com dois álbuns fundamentais do punk inglês: Never
Mind the Bollocks, do Sex Pistols, e The Clash, do Clash.
(Foto de Adrian Boot)
Punks de todos os matizes compareceram, principalmente, ao show do PIL. Marcaram território na fila do gargarejo, mais interessados em xingar e cuspir em Lydon do que para saudá-lo. Quatro anos depois, quando o PIL voltou a se apresentar em São Paulo, o fanfarrão Lydon não perdeu a oportunidade de devolver a provocação: a banda abriu o show com uma versão instrumental de Kashmir, do Led Zeppelin, uma das bandas que os punks adoram odiar.
Mais diplomático, Mick Jones esclareceu: “O BAD é uma mistura de músicos e não músicos – e isso é punk
rock”. Ele se referia ao fato de o BAD ter, entre os integrantes, o
cineasta Don Letts e o fotógrafo Dan Donovan.
Segundo Letts, responsável pelos backing vocals, samples e
vídeos exibidos durante as apresentações, sua função era semelhante à que Brian
Eno tinha no Roxy Music. Circularam
comentários de que Joe Strummer - parceiro de Jones no Clash e coprodutor de Nº 10, Upping St., segundo álbum do BAD - estaria nos bastidores e subiria ao palco para reviver a
antiga parceria. Revival que, infelizmente, não aconteceu.
Dez anos depois das apresentações do PIL e do BAD, o Cherry Bomb, trio de garotos formados na escola do punk rock, colocava em ebulição a sala de um teatro no centro de Londrina, no norte do Paraná.
***
Public
Image Ltd.
Palácio
das Convenções do Anhembi, São Paulo - 18 de agosto de 1987
Antes de a banda subir ao palco, o som que preenchia ambiente foi uma agradável surpresa: músicas do álbum Tutu, de Miles Davis. A banda entrou e atacou o hit "Rise". Com um penteado no formato de uma anêmona vermelha, John Lydon invadiu o
palco trajando um terno roubado do guarda-roupa de David Byrne.
Cusparadas e latas de cerveja voam em direção ao palco, lançadas, ao que tudo indica, por punks que consideram Lydon um "traidor da causa". Lydon abandonou o palco e ameaçou não continuar o show – logo ele, que, na época dos Sex Pistols, adorava cuspir na plateia. Não cumpriu a ameaça e voltou.
O choque sonoro das guitarras de Lu Edmonds e John McGeoch era ensurdecedor. Enquanto o baixista Allan Dias dançava sem parar, Bruce Smith
transformou sua bateria num rolo compressor que passava por cima de tudo, sem
piedade. Todo esse peso soterrou, por diversas vezes, a voz escrachada de Lydon.
Um show pesado,
hipnótico e dançante. A apatia do público que
permanecia com o traseiro colado à poltrona, nos setores 2 e 3 do Palácio das
Convenções do Anhembi, era inexplicável. Ao final, sarcástico e benevolente, Lydon dedicou aos punks dois números do Sex Pistols.
*
Big
Audio Dynamite
Palácio
das Convenções do Anhembi, São Paulo, SP - 22 de agosto de 1987
A promessa de uma “super fiesta” feita pelos
integrantes do Big Audio Dynamite, em entrevista a um programa de rádio, foi
cumprida ao pé da letra. Logo na primeira noite da banda no Brasil, um lance inusitado: o
radialista e locutor esportivo Osmar Santos compartilhou o palco com os músicos e
deu uma canja durante a execução de "Sambadrome", faixa de Nº 10, Upping St., o mais recente álbum da banda. Na gravação original, Osmar teve sampleada sua narração de um gol da seleção
brasileira. Convidado de honra, o locutor inflamou os torcedores de Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo, times semifinalistas do campeonato paulista de futebol. As vozes do jornalista global Eliakim Araújo e do deputado estadual paulistano Afanásio Jazadji, além de um trecho de áudio do filme Pixote, de Hector Babenco, também aparecem na colagem sonora. O vocalista/guitarrista Mick Jones dedicou a música ao traficante Escadinha, que, na letra, aparece como virtual candidato a presidente da república.
Na noite seguinte, a plateia ferveu. Enquanto a banda passava de uma música para a outra, sem pausas, um telão, instalado ao fundo do palco, exibia uma salada de sequências
cinematográficas: de filmes B de terror e ficção-científica a cenas de Taxi
Driver, de Martin Scorsese, The Thing, de John Carpenter,
e Scarface, de Brian De Palma. Reeditada pelo videomaker Don
Letts, uma sequência de Scarface mostra o traficante Tony
Montana (Al Pacino) sendo fuzilado pelos integrantes da banda. Após aproximadamente duas horas, a "super fiesta" não poderia terminar de forma mais adequada, com a banda colocando todo mundo pra pular e dançar ao som de "1999", de Prince.
*
Dezembro de 1997. Mês das comemorações do aniversário de Londrina.
Grupos musicais e teatrais da cidade se apresentam no Teatro Zaqueu de
Mello. Sexta-feira de muito calor. O trio Cherry Bomb - Humberto
(guitarra, vocal), Rodrigo (vocal, baixo) e Lucas (bateria, vocal) - se prepara
para subir ao palco e lançar Bombs to You..., seu primeiro
álbum. Pra esquentar ainda mais o ambiente, o show tem início com a
gravação do discurso de um pastor evangélico mandando o rock’n’roll para
os quintos dos infernos.
As luzes se apagam. Começa a apresentação do Cherry Bomb. Energia pura. Os garotos mostram tudo o que aprenderam com Who, Stooges, New York Dolls, Ramones, Sex Pistols, Jam e Clash. Um show em alta velocidade que não permite
poltronas, embora elas estejam ali - acessórios obsoletos para o momento, ficariam melhor
sob o traseiro de quem preferiu ficar em casa, na frente da TV. A plateia do
Cherry Bomb as ignora, não são obstáculo para conter a concentração explosiva
de adrenalina. Fim do show. Luzes acesas, poltronas semidestruídas indicam que
um tornado de pequenas proporções, mas destruidor, passou pelo Zaqueu de
Mello. No lugar da voz do pastor, Lou Reed declama Street Hassle, numa noite quente, muito quente. Real good times should be forever.
Resenhas dos shows do PIL e do BAD, 1987. A resenha do show do Cherry Bomb, 1998. Foram revistas.





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