quinta-feira, 29 de agosto de 2024

lamentações da rua ubaldino


Placa da rua onde morou o escritor Dalton Trevisan, em Curitiba



Dalton Trevisan

No princípio era o silêncio na rua Ubaldino
eis que o número 480 da Igreja Central Irmãos Menonitas
ergueu cartazes anunciando sinais e prodígios
não a flauta doce e harpa eólia para louvar o Senhor
mas a caixa de ressonância da buzina do Juízo Final
e o amplificador dos agudos desafinados de Gog e Magog
além da mão esquerda não saber o que faz a direita
as duas juntas rompem no batoque iconoclasta do bombo
nunca tal se viu na rua Ubaldino de hospital escola gente calada
irmão menonita ó irmão menonita
que torturas o sossego e flagelas os que são teus vizinhos
cego e surdo à perturbação do descanso público
por tuas guitarras e baterias de mil decibéis serás condenado
bandinha maldita nunca mais nasça ruído de ti
lançada no fogo eterno com gritos e ranger de dentes
ai de ti que furtas ao próximo o bem da quietude
uma grande heresia se levantou entre nós
pedes no prato a cabeça esfolada viva do silêncio
ó araponga fanha da torre menonita de Babel
sobre teus moucos pastores caia o sangue do sossego profanado
trazes o alto-falante onde cantavam o sabiá a corruíra o bem-te-vi
os testemunhos são conformes é um protesto só
tu adorador da estridência alarido cacofonia
ocupado em afligir os que estão em calma
desarmonia o teu nome porque ninho de muitos demônios
comilões da paz e beberrões do vinho da poluição sonora
quando entrarão na vara de porcos e no lago se afogarão?
perversa é essa igreja e mais barulhenta que todas
ai de ti irmão ai de ti menonita
importuno e molesto angustias a alma da rua inteira
não te assentarás na cinza nem te arrependerás do teu sacrilégio
sepulcro aberto empestam os ares as tuas blasfêmias
tua sentença é a execração pública tu mesmo a pronunciaste
em vez do culto em surdina propagas o escândalo sobre os telhados
sons malignos que não se podem aturar de altíssimos que são
o Senhor dos Exércitos enviará maldição aos predadores do sossego
és tu atormentador do teu vizinho?
essa igreja central é um estrondo deixou passar o tempo assinalado
morada de dragões matracas e baitacas
onde o fiscal? onde a lei do silêncio? onde o que conta os decibéis?
o inimigo da rua Ubaldino nesse mesmo número 480
uiva baterista clama guitarrista rebolai-vos no pó da danação
à tua porta já batem as duas ursas chamadas por Elias
cala-te aquieta-te irmão menonita
afasta de nós esse cálice da balbúrdia e da aflição de espírito
casa da oração convertida em covil de salteadores da paz
não o pão mas a pedra dodecafônica
não o peixe mas a serpente da caixa de ressonância
não o ovo mas o escorpião do amplificador
amigo a que vieste?
mais fácil passar o camelo pelo fundo de uma agulha
do que entrar um baterista ou guitarrista menonita no reino de Deus
dura é essa barulheira quem a pode suportar?
filhos da rua Ubaldino chorai sobre o fim da paz e do sossego
ah! espada do Senhor até quando descansarás na tua bainha?

Dalton Trevisan é escritor curitibano. Texto publicado no periódico literário Nicolau, que teve 60 edições, de 1987 a 1998. 

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