sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Inclementes e incorrigíveis


Monty Python, Kids in the Hall e Inspetor Fowley


    Em 1975, o grupo Monty Python invadiu as telas de cinema com Monty Python and the Holy Grail (no Brasil, Monty Python em Busca do Cálice Sagrado), uma obra-prima que destruía toda aquela coisa pomposa de heroísmo medieval. Em 1981, com uma mãozinha de John Cleese, integrante do Python, Rowan Atkinson deu o ar da graça no esquete Beekeeping, bem antes de fazer sucesso na pele de Mister Bean - segundo Cleese, é um dos melhores esquetes que já escreveu. Na década de 1990, o grupo canadense The Kids in the Hall apareceu como herdeiro do humor corrosivo e nonsense do Python - e não decepcionou. 

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Humor explosivo

    Atenção! O Multishow vai levar ao ar, durante a madrugada, duas maratonas de esquetes das trupes de comediantes Monty Python e The Kids in the Hall.

O sexteto Monty Python, formado por quatro ingleses (John Cleese, Graham Chapman, Eric Idle, Michael Palin), um galês (Terry Jones) e um norte-americano (Terry Gilliam), apresentou 
o programa de esquetes Monty Python’s Flying Circus, na BBC, de 1969 até 1974. Após a separação, cada um de seus integrantes passou a desenvolver trabalhos próprios. O grupo voltaria a se reunir para levar três filmes aos cinemas: Em Busca do Cálice Sagrado (Monty Python and the Holy Grail, 1975), A Vida de Brian (Life of Brian, 1979) e O Sentido da Vida (The Meaning of Life, 1983). 

O quinteto canadense The Kids in the Hall, formado por Dave Foley, Kevin McDonald, Scott Thompson, Bruce McCulloch e Mark McKinney, teve seus esquetes exibidos nas emissoras CBC (Canadá), HBO, CBS e Comedy Central, de 1989 a 1995, período que se estabeleceu como o mais autêntico herdeiro do humor pythonesco. E não decepcionou, mantendo viva a chama da incorreção política.

Inteligentes e iconoclastas, os dois grupos têm em comum esquetes recheados de sarcasmo, anarquia e nonsense, em que personagens enfrentam situações totalmente inusitadas. É um humor sem rodeios ou sutilezas - nada merece clemência. Religião, política, filosofia e família são açoitadas com intensidade e virulência. O Monty Python e o Kids in the Hall mostram um mundo que é palco de acontecimentos absurdos, habitado por seres que apenas aparentam normalidade. Programa imperdível.

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A polícia inglesa, entre o caos e a ordem

    Os fãs de Rowan Atkinson serão presenteados pelo Multishow com episódios inéditos de Inspetor Fowler (The Thin Blue Line), série inglesa criada por Ben Elton. No papel do inspetor Raymond Fowler, Atkinson aproveita para despejar todo tipo de comentários ácidos sobre os mais diferentes assuntos, nunca perdendo – como bom inglês – a oportunidade de dar alfinetadas em alemães, franceses e italianos. Fowler é responsável pelo comando de uma das duas equipes de policiais que atuam no distrito de Gasworth. A outra equipe é liderada pelo inspetor linha-dura Grim, prova viva da reencarnação de Stálin, segundo Fowler.

Grim é o oposto de Fowler, cujo apego a formalidades chega a irritar. Conservador, adepto do escotismo e tiete da Família Real Britânica, Fowler passa o tempo todo implicando com o uso de gíria no local de trabalho, e invoca a toda poderosa gramática para corrigir seus subordinados. Tem como ídolo o detetive Sherlock Holmes, e fica enfurecido quando a oficial Habib diz que o famoso personagem de Sir Arthur Conan Doyle foi, na verdade, amante de Watson, seu assistente. Além de Habib, o time de Fowler conta com a sargento Dawkins, sua segunda esposa, o chocólatra Goody e o sempre ponderado Gladstone.

Sem enfrentar crimes barra-pesada, os policiais de Gasworth, que sonham com um emprego na Scotland Yard, têm de se contentar com a detenção de drogados pés de chinelo, assaltantes trapalhões, ninfomaníacas escandalosas, ravers entupidos de ecstasy, mauricinhos prepotentes, estudantes rebeldes e uma grande variedade de delinqüentes juvenis. Nos novos episódios, entre outras coisas, Fowler e equipe enfrentam traficantes de LSD e o assédio de uma imprensa interessada em cobrir o dia a dia da polícia.

Inspetor Fowler é uma cáustica sátira àquele papo-furado dos teóricos do comportamento humano que observam o mundo através das imaculadas janelas de suas bibliotecas, tentando explicar as origens da criminalidade e encontrar uma solução para a problemática da violência urbana. Para a polícia de Gasworth, 
a teoria, na prática, é outra.


Resenhas de 1997 e 1998. Foram revistas.

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