quinta-feira, 4 de julho de 2024

Um encontro com Robert Altman


"Tudo aquilo que fiz no cinema, eu fiz olhando,
ouvindo os atores. Devo tudo a eles."



    Walter Salles

    David Lynch foi o grande injustiçado da noite dos Globos de Ouro. Ao mesmo tempo luminoso e crepuscular, o seu "Mullholland Drive" implode a narrativa cinematográfica tradicional e abre as portas para um admirável mundo novo, feito de desejo à flor da pele e de áreas obscuras onde raramente temos a coragem de nos aventurar. É difícil entender como um filme tão generoso, que amplia de tal forma as possibilidades de linguagem, não tenha sido reconhecido.

Uma premiação, no entanto, fez esquecer por alguns momentos o fato de que Lynch não foi lembrado: a escolha de Robert Altman para melhor diretor do ano. Ácido, corrosivo, Altman talvez tenha o olhar mais lúcido do cinema independente americano.

“Nashville”, “M.A.S.H.”, “O Jogador”, “Short Cuts – Cenas da Vida”: Altman especializou-se em desmascarar o sonho americano, em colocá-lo a nu. Conseguiu realizar esse ato de desconstrução até em filmes de gênero, como no noir “O Perigoso Adeus”, seu mergulho no mundo do policial, com um Elliot Gould em estado de graça.

Elliott Gould em O Perigoso Adeus

Depois de algumas obras menores, Altman volta agora em plena forma, aos 74 anos, com “Assassinato em Gosford Park”. O filme estreia no Brasil no início de março. À primeira vista, a trama parece inspirada numa bobagem de Agatha Christie: um crime acontece quando um bando de aristocratas se reúne para um fim de semana dedicado à caça aos faisões no interior da Inglaterra.

Logo percebemos que a trama policial é o que menos importa ao diretor. O que interessa mesmo a Altman é a relação de classe entre empregados e patrões no início dos anos 30, num império em decadência.

É o “Casa-Grande e Senzala” de Altman, mas também uma das mais divertidas e bem dirigidas sátiras sociais dos últimos tempos. Acima de tudo, “Assassinato em Gosford Park” é uma obra vigorosa e sinfônica, com dezenas de atores ingleses nos presenteando com atuações extraordinárias. É gente do calibre de Emily Watson, Helen Mirren, Alan Bates e Maggie Smith, melhores do que nunca.

Assassinato em Gosford ParkAltman com Emily Watson e Alan Bates

Tive o privilégio de conhecer Altman em um jantar que se seguiu à premiação dos Globos de Ouro. Ele olhava para aquele mundo de aparências e frivolidades à sua volta como quem se aventura numa terra que não é a sua – e ria com isso. Falei de uma amiga em comum, Joan Tewkesbury, roteirista de “Nashville”, que foi consultora de roteiro de “Central do Brasil” no Instituto Sundance. Altman logo perguntou sobre a atriz extraordinária que é Fernanda Montenegro. E, graças a Fernanda, enveredou numa discussão fascinante sobre o papel do ator no cinema.

“A luz, a câmera, a direção de arte, tudo isso é importante. Mas o que confere uma real tridimensionalidade a um filme é o ator, e só o ator”, me diz ele. “Às vezes mais do que isso até. Tudo aquilo que fiz no cinema, eu fiz olhando, ouvindo os atores. Devo tudo a eles.”

Pergunto sobre a técnica utilizada para preparar os atores de “Gosford Park”. A atuação é tão fluida, os movimentos constantes dentro do quadro tão naturais, que temos a impressão de que o diretor teve direito ao um longo período de ensaio.

Assassinato em Gosford Park: Altman e Ryan Phillippe

“Não. Os atores foram chegando, vindos de outras obrigações e outros trabalhos, e os ensaios das cenas ocorreram praticamente nos dias de filmagem”, responde Altman. O contrário, por exemplo, dos meses de ensaios que sempre foram necessários a outro extraordinário diretor de atores, John Cassavetes. Ou mesmo dos dez ou 12 meses de ensaios que diretores que trabalham com não atores, como Abbas Kiarostami, requerem para preparar as pessoas que escolhem.

Outra lição: para não perder o frescor da atuação e não limitar a ação dos atores dentro do quadro, Altman obriga o diretor de fotografia a iluminar todo o cenário de uma vez só e não faz reajustes de um plano para outro. Trabalha com duas câmeras ao mesmo tempo, para não perder os gestos ou as falas que possam surgir espontaneamente. É o que diretores mais jovens, como Steven Soderbergh, vêm fazendo nos últimos filmes.

Short Cuts - Cenas da Vida: Altman com Annie Ross

São opções que conferem uma liberdade incomum às filmagens. E que permitem captar aquilo que transcende o texto, o roteiro. O inesperado. Como dizia Gilles Deleuze: “Às vezes, o mais interessante na vida das pessoas são as ausências, os tempos mortos. Às vezes, são os momentos dramáticos, mas muitas vezes, não. Como instantes de catalepsia. Talvez seja nesses buracos de tempo que o movimento aconteça”.

Um olhar, um beijo roubado, um instante de silêncio, uma xícara que se esfacela, uma roupa que a servente é obrigada a passar na madrugada. Pequenos momentos que compõem a joia que é o último filme de Altman. Imperdível.

Texto publicado no caderno Ilustrada, Folha de São Paulo, 2 de fevereiro de 2002.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário