Gerald Thomas
O poderoso advogado Robert Shapiro, famoso internacionalmente por ter defendido O.J.Simpson e outras estrelas, foi objetivo e direto ao telefone: “fale sobre o que quiser, mas não pergunte nada sobre drogas”. “Mas, Sr. Shapiro”, eu reagi um pouco indignado, “por que eu haveria de entrevistar Robert Downey Jr. justamente nesse momento da vida dele, se não fosse para perguntar sobre a pena que cumpre e, consequentemente, sobre seu envolvimento com heroína?”
“É simples”, concluiu Shapiro, “Porque o juiz proibiu!”
Não faz o menor sentido. O próprio Robert Downey se confessou viciado, tendo sido iniciado pelo próprio pai, aos 12 anos de idade. E, se está cumprindo pena por causa disso, o mínimo que se espera de uma figura pública é que se pronuncie sobre seus frequentes problemas por causa do vício.
Hoje não é mais a droga que faz a manchete, e sim a vontade de tantos em querer se livrar dela. A novidade é a busca da cura.
Não há mais o menor segredo sobre o fato de que a droga rola solta em todas as facções da sociedade, longe de ser uma tradição restrita aos círculos hollywoodianos ou ao mundo pop. Mas a sociedade é hipócrita e não assume seus costumes sombrios e adora eleger e crucificar uma celebridade qualquer.
E a dependência assumida por um candidato a Oscar é prato cheio para o fetiche da ralé.
Aliás, condenar alguém por consumir drogas é – na terminologia dantesca – “relegá-lo ao suplício de ver a eterna repetição de seu ego em frangalhos”. Qual setor da sociedade lucra com o encarceramento de um ator talentoso, produtivo e engajado, como Downey Jr?
A covardia da classe é assustadora. Ninguém se manifestou. Vivemos a era macarthista da droga e nela, Downey Jr. está fazendo o papel de bode expiatório, ou de vítima de um sinistro falso moralismo, um vírus que permanece firme e forte nessa sociedade americana, depois de meio século de verdadeiras convulsões comportamentais que viraram do avesso as normas e quase destruíram os tabus.
O falso moralismo penaliza um para fazer vista grossa para centenas de outros. Robert Downey Jr se encontra no labirinto da hipocrisia americana. Assim como ele, Christian Slater e Juliette Lewis já tiveram sua overdose de hipocrisia.
Stanley Kubrick, um dos raros que se pronunciaram contra essa sociedade utopicamente e falsamente puritana, esculhambou com a política antidrogas e a (injusta) sentença contra Downey.
Em uma de suas raríssimas entrevistas à ITN inglesa, antes de morrer, Kubrick disse que “o sistema não sabe lidar com as sublegendas e as sutilezas do comportamento humano. As drogas, o sexo e o dinheiro ameaçam esse falso puritanismo. O álcool causa muito mais danos e dependências e está liberado para quem quiser. Vivemos numa sociedade de lobbies nojentos”.
Depois de mais de duas décadas de guerras contra as drogas, engajando desde políticos e policiais a verdadeiros destacamentos do exército norte-americano, a estratégia é um fracasso.
Se forem prender todos aqueles que consomem drogas, teriam que prender os próprios autores dessas estratégias e as cidades do tamanho de Los Angeles teriam que virar prisão.
Anteontem, alguém entrou numa igreja no Texas e matou não sei quantos. Não estava drogado.
Os meninos de Columbine, que entraram em sua escola e mataram 21 não estavam drogados. Não consta que o FBI estava sob o efeito de drogas ao atacar, queimar a casa e matar quase todos os membros do culto de David Koresh, há três anos, no Texas. Como se vê, os assassinatos considerados “loucos” e inexplicáveis, sociologicamente, nada têm a ver com as drogas.
No entanto, 45 mil pessoas morreram em acidentes de automóveis nas estradas americanas. Trinta por cento dos motoristas que causaram essas mortes estavam alcoolizados. Mas o álcool, ironicamente, é legal. Se Robert Downey Jr tivesse sido pego completamente embriagado, teria levado um tapinha nas costas dos policiais e descolado uma carona pra casa.
Assim como foi com a Lei Seca, a droga pode deixar de ser uma coisa ilegal, de um momento para o outro. A maconha acaba de ser liberada para casos médicos. Cassinos são proibidos aí e legalizados aqui. Qual consenso rege esse moralismo? Como é que a história justifica punições arbitrárias e falsamente exemplares como a de Downey Jr.?
Robert Shapiro, o advogado, é quem deve estar mais abestalhado com as armadilhas dessa peça farsesca: seu cliente Robert Downey Jr. cumpre um ano de prisão por porte de drogas enquanto seu outro cliente, O.J.Simpson, desfruta da mais tranquila liberdade nos campos de golfe, depois de ter assassinado, brutalmente, sua mulher, Nicole Simpson, e o ator Ron Goldman.
Texto publicado na Folha de São Paulo, 1999.
Correção: Thomas diz que o ataque do FBI ao culto de David Koresh aconteceu três anos antes de seu artigo ser escrito - na verdade, aconteceu seis anos antes.

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