Cíntia Bertolino
Em uma tarde preguiçosa perdida nos anos 90, o interfone do apartamento na Via Pozzo Strada, em Torino, soou estridente. O inglês John Irving atendeu com o costumeiro "pronto" e esperou. Do outro lado da linha veio um inconfundível sotaque ianque.
"Ciao, moro no fim da rua. Vi seu nome na lista telefônica e não acreditei. Você é mesmo John Irving?"
"Sim, sou eu."
"Não pode ser", murmurou o estranho, como se, de fato, não acreditasse em seus ouvidos.
"É mesmo o escritor que tanto amo e admiro?"
A despeito da sólida carreira jornalística e traduções importantes, John Irving sabia que aquele rapapé não lhe pertencia. "A César o que é de César", pensou. Contendo um suspiro fastidioso, reafirmou ser ele mesmo, respondeu negativamente a última pergunta, trocou os cumprimentos costumeiros e desligou o interfone. Aquela não era a primeira vez que estranhos lhe dirigiam sorrisos excitados ou se aproximavam - uns seguros, outros de modo tímido - mal descobriram seu nome de batismo.
O caso ganhava maiores proporções sempre que John Irving, seu homônimo americano lançava um livro. Sendo Irving americano, um autor popular, era só esperar pelas groupies literatas, com um livro debaixo do braço, atrás de um autógrafo, sempre que alguém pronunciava um pouco mais alto seu nome. Quando o livro era adaptado para o cinema, como As Regras da Casa de Sidra, aí, era batata. As confusões de identidade cresciam exponencialmente.
John Irving lembra-se perfeitamente da primeira vez em que se deparou com seu próprio nome nas páginas de um matutino: era dezembro, às vésperas do Natal. Tinha viajado de Torino, onde morava, para passar o feriado com a família. No fim dos anos 70, efemérides não eram especialmente empolgantes na britânica Carlisle, um antigo posto romano às bordas da Escócia.
Aos domingos, a salvo do marasmo citadino e das decorações natalinas, não havia lá muito a fazer além de comer e esmerar-se na leitura do Sunday Times. Pois foi na página de cultura que ele leu uma resenha escrita por Anthony Burgess a propósito do lançamento de O Mundo Segundo Garp. Leu com interesse a crítica dedicada a seu quase-irmão do outro lado do Atlântico. Foi uma apresentação sem maiores sobressaltos.
Curiosamente, desde o sucesso do americano, o inglês só consegue gozar do doce anonimato a que tem direito quando volta para a terra natal. "Na Itália, John Irving tem muitos leitores, mas não na Grã-Bretanha. Sou o único inglês que conheço que já leu seus livros".
A popularidade do Irving americano na Itália não rendeu ao outro Irving apenas telefonemas e olhares desapontados. Também amealhou um aluno de inglês. Na primeira aula, o rapaz, ele próprio um aspirante a escritor, admitiu loucas fantasias linguísticas, inspirado pelo nome do professor. Sonhava em transformar as enfadonhas conversações centradas na pronúncia e concordância verbal em intermináveis discussões literárias permeadas por elipses, figuras de linguagem e solilóquios. Para a sorte do jovem futuro escritor, o professor sempre fora um leitor contumaz - em sua extensa biblioteca, com tomos em inglês e italiano, é possível, inclusive, encontrar quase todos os Johns Irvings.
Mas John Irving não é um escritor que o outro Irving goste de discutir. Literariamente falando, Philip Roth, Julian Barnes, Kingsley Amis e Matthew Fort são seu cup of tea. No final das contas, as aulas, com e sem elipses, foram o suficiente para o aluno dedicar um capítulo ao professor em seu livro de estreia.
Quando foi contratado pela Slow Food Editore para editar guias e cuidar das versões em língua inglesa, o fato foi comemorado pela imprensa italiana. Em duas das resenhas da edição de 2008, de restaurantes Osterie D'Italia, o crítico destaca entre os colaboradores um nome de exceção, o do grande escritor John Irving. Em seu trabalho, escrevendo e editando livros para a Slow Food, John Irving se tornou grande amigo de Michael Jackson. Não o cantor de Thriller, mas o respeitado crítico britânico de cerveja e uísque. "Já imaginou a balbúrdia se fãs enlouquecidos do outro Irving e do outro Jackson nos descobrissem almoçando, incógnitos, em uma cidadezinha no norte da Itália?", inquiriu divertido. "Lamentavelmente, dada à semelhança entre os dois Michaels, ninguém nunca pediu para meu amigo dançar moonwalk", comentou, visivelmente decepcionado.
Agora, desapontamento mesmo sentiu ao descobrir que seu homônimo famoso não passava de um pseudônimo. Pudera, ao verificar o insosso John Wallace Blunt, Jr. na certidão de nascimento, o escritor deve ter atinado para o fato de que pouquíssimas pessoas se disporiam a comprar um opúsculo sequer de alguém com um nome tão, tão comum. "É, foi decepcionante descobrir que não dividimos o mesmo sobrenome. Por ser tão comum à região de onde venho, gostava de pensar que, de uma forma indiretamente remota, compartilhávamos minúsculos traços do mesmo DNA. E que, talvez, tivesse uma fração de sua habilidade literária correndo em minhas veias. Infelizmente, não é o caso", disse.
A descoberta, no entanto, não o tornou insensível aos louros e às vicissitudes do escritor americano, a ponto de rememorar uma chapuletada e tanto, desferida pelo conterrâneo Anthony Burgess, no recém-lançado As Regras da Casa de Sidra. Seria preciso um bocado de nonchalance da parte do Irving americano para não se abater com o 'romace de obstetras', desprovido de argúcia, ironia e humor, tascado por Burgess. Sem nenhum crítico ferino por perto, John gostou do último livro do americano, Last Night in Twisted River, lançado em 2009. "Não é mal e fala bastante sobre comida".
Atraída pelo propalado assassinato com frigideira de ferro, uma amiga lhe pediu emprestado o catatau. Em tom de blague, exigiu um autógrafo. Sem temer um processo por falsidade ideológica, o não autor escreveu em convincentes garatujas: "Para fulana, obrigado por existir. Amor, John Irving".
Texto gentilmente cedido pela autora, com exclusividade, para Ilha Maurício.

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